A busca por fontes de energia capazes de sustentar a expansão da inteligência artificial levou o Google a participar de uma nova rodada de financiamento de € 411 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões) na startup alemã Proxima Fusion. O investimento, anunciado nesta terça-feira (7), reforça a estratégia das grandes empresas de tecnologia de antecipar o acesso a soluções energéticas que poderão abastecer a próxima geração de data centers.
A captação atribuiu à empresa uma avaliação de € 2,4 bilhões apenas três anos após sua fundação e coloca a Proxima Fusion entre as startups de energia mais valiosas da Europa. Além do Google, participaram da operação a companhia alemã RWE, a XTX Ventures, a East X Ventures, além de investidores públicos europeus.
Embora a fusão nuclear ainda esteja em fase experimental, o avanço dos investimentos demonstra que o setor passou a ser visto como uma infraestrutura estratégica para o crescimento da economia digital, especialmente diante da explosão da demanda por inteligência artificial generativa.
Energia tornou-se o principal gargalo da inteligência artificial
A expansão da IA transformou a eletricidade em um dos ativos mais disputados pela indústria de tecnologia.
Modelos avançados de inteligência artificial exigem enormes volumes de processamento, aumentando rapidamente o consumo energético dos data centers operados por empresas como Google, Microsoft, Amazon, Meta e OpenAI.
Esse crescimento levou as gigantes digitais a buscar contratos de longo prazo com usinas nucleares, parques solares, projetos eólicos e, mais recentemente, startups dedicadas à fusão nuclear.
O investimento na Proxima Fusion se insere exatamente nesse contexto.
Embora a empresa ainda não possua uma usina comercial em operação, sua proposta é desenvolver uma planta baseada na tecnologia stellarator, considerada por parte da comunidade científica uma alternativa potencialmente mais estável para manter o plasma necessário às reações de fusão.
A expectativa da companhia é colocar sua primeira instalação em funcionamento durante a década de 2030.
Europa tenta recuperar espaço na disputa tecnológica
O aporte também possui forte dimensão estratégica para a política industrial europeia.
Nos últimos anos, Estados Unidos e China passaram a concentrar a maior parte dos investimentos privados em tecnologias energéticas de alto risco. A rodada da Proxima Fusion representa uma tentativa da Europa de construir um ecossistema próprio de inovação em um segmento considerado crítico para a competitividade futura.
A startup pretende instalar sua planta demonstrativa em um antigo complexo nuclear da RWE, na Baviera. O projeto, denominado Alpha, possui orçamento estimado em € 2 bilhões, com financiamento compartilhado entre investidores privados, governo estadual da Baviera e, futuramente, recursos do governo federal alemão e da União Europeia.
Segundo o CEO Francesco Sciortino, a empresa espera que parte relevante dos recursos restantes venha de programas públicos voltados ao desenvolvimento tecnológico e à transição energética.
Big Tech amplia investimentos em energia
O movimento do Google não é isolado.
Nos últimos dois anos, as maiores empresas de tecnologia intensificaram investimentos em geração elétrica diante da expectativa de que o consumo dos data centers continue crescendo em ritmo acelerado.
Em 2025, o próprio Google firmou contrato para adquirir 200 megawatts de energia da norte-americana Commonwealth Fusion Systems, uma das principais desenvolvedoras de fusão nuclear do mundo.
Amazon, Microsoft e Meta também ampliaram acordos de fornecimento de energia nuclear, renovável e de longo prazo para reduzir riscos relacionados ao abastecimento elétrico de suas operações.
Esse cenário transformou startups de energia em ativos estratégicos para investidores institucionais e empresas de tecnologia.
Tecnologia ainda enfrenta desafios para chegar ao mercado
Apesar do interesse crescente dos investidores, a fusão nuclear permanece como uma das tecnologias mais complexas da indústria de energia. Diferentemente da fissão — utilizada nas usinas nucleares convencionais —, a fusão busca reproduzir o mesmo processo que ocorre no interior do Sol, unindo núcleos atômicos para gerar enormes quantidades de energia sem emissões diretas de carbono e com um volume significativamente menor de resíduos radioativos.
O desafio é manter o plasma em temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius de forma estável e economicamente viável. É justamente nesse ponto que a Proxima Fusion aposta em um diferencial tecnológico.
A startup desenvolve um stellarator, equipamento que utiliza campos magnéticos extremamente complexos para confinar o plasma em uma câmara de formato toroidal. Segundo a empresa, essa arquitetura oferece maior estabilidade operacional do que os tradicionais tokamaks, atualmente predominantes em projetos de fusão ao redor do mundo.
Embora a tecnologia ainda precise superar importantes barreiras científicas e industriais antes de alcançar escala comercial, investidores consideram que os primeiros grupos capazes de viabilizar uma usina operacional poderão liderar um mercado estimado em centenas de bilhões de dólares nas próximas décadas.
Captação reforça liderança europeia no setor
Com a nova rodada, a Proxima Fusion informa ter captado mais de € 650 milhões desde sua fundação, incluindo aproximadamente € 95 milhões em subsídios públicos.
Além do Google, participaram do financiamento investidores institucionais europeus como KfW Capital, braço de investimentos do banco estatal alemão, e o EIC Fund, ligado à União Europeia. Segundo a companhia, mais de 90% de sua base de investidores está localizada na Europa, refletindo o esforço do bloco para reduzir a dependência tecnológica em setores considerados estratégicos.
O aporte também consolida a Proxima Fusion como a startup de fusão nuclear mais capitalizada da Europa. Ainda assim, a empresa permanece atrás de concorrentes norte-americanas em volume de recursos.
A Commonwealth Fusion Systems já levantou aproximadamente US$ 3 bilhões, enquanto a Helion Energy, apoiada pelo empresário Sam Altman, também figura entre as líderes globais na corrida pela comercialização da fusão nuclear.
Para o CEO Francesco Sciortino, entretanto, a diferença de financiamento é compensada pelo ritmo de desenvolvimento da empresa. Segundo o executivo, a Proxima nasceu anos depois das concorrentes, mas conseguiu acelerar o desenvolvimento tecnológico e atrair investidores estratégicos em um intervalo menor.
O que o investimento representa para o mercado
A entrada do Google na rodada da Proxima Fusion vai além de um aporte em uma startup de energia. Ela sinaliza uma mudança estrutural na forma como grandes empresas de tecnologia estão planejando sua infraestrutura para a próxima década.
Até poucos anos atrás, a preocupação das Big Techs estava concentrada em ampliar capacidade computacional. Agora, a disponibilidade de energia tornou-se um dos principais fatores para sustentar o avanço da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais de alta intensidade.
Esse movimento tende a impulsionar investimentos em diferentes tecnologias energéticas, incluindo pequenas usinas nucleares modulares (SMRs), reatores convencionais de nova geração, parques renováveis e projetos de fusão nuclear.
Para investidores, o setor passa a combinar características típicas do mercado de venture capital com temas estruturais ligados à segurança energética, transição climática e soberania tecnológica.
Próximos passos
O próximo objetivo da Proxima Fusion será concluir o desenvolvimento do projeto Alpha e iniciar a construção de sua planta demonstrativa na Baviera. O cronograma prevê que a instalação funcione como etapa intermediária antes da implantação de uma usina comercial ao longo da década de 2030.
Embora ainda não exista garantia de sucesso tecnológico, a velocidade com que empresas de inteligência artificial ampliam sua demanda por eletricidade faz da fusão nuclear um dos segmentos mais observados por investidores globais.
A nova rodada de financiamento indica que o mercado passou a enxergar a tecnologia não apenas como uma promessa científica de longo prazo, mas como uma possível peça-chave da infraestrutura energética que sustentará a economia digital nas próximas décadas.









