A Berkshire Hathaway ampliou em 83% sua participação na Alphabet, controladora do Google e do YouTube, durante o segundo trimestre de 2026 e encerrou junho com quase 106 milhões de ações avaliadas em US$ 37,8 bilhões. O movimento transformou a companhia de tecnologia na terceira maior posição da carteira de ações do conglomerado, atrás apenas de Apple e American Express.
A mudança é uma das mais relevantes na carteira da Berkshire nos últimos anos. Ao fim de março, o grupo possuía aproximadamente 57,8 milhões de ações da Alphabet. Isso significa que foram adicionados cerca de 48 milhões de papéis durante o trimestre, combinando uma operação privada de US$ 10 bilhões diretamente com a Alphabet e compras adicionais no mercado.
A Berkshire, construída ao longo de seis décadas sob a liderança de Warren Buffett e atualmente comandada pelo CEO Greg Abel, também mudou de postura em relação à alocação de seu caixa. Entre abril e junho, comprou US$ 23,5 bilhões em ações e vendeu US$ 3,7 bilhões, encerrando uma sequência de 14 trimestres consecutivos como vendedora líquida de papéis.
O movimento não se restringiu à Alphabet. A companhia aumentou posições na Delta Air Lines, Macy’s e Lennar, abriu uma pequena participação na construtora D.R. Horton e, ao mesmo tempo, reduziu investimentos em empresas como Bank of America, Capital One, Ally Financial, Kroger, DaVita e Nucor. A Berkshire também zerou sua participação na fabricante de bebidas Constellation Brands.
Alphabet passa a representar quase 12% da carteira de ações
O valor de US$ 37,8 bilhões atribuído à participação na Alphabet em 30 de junho representa aproximadamente 11,7% da carteira acionária de US$ 323,8 bilhões reportada pela Berkshire para o período.
A participação colocou a empresa imediatamente atrás da Apple, cuja posição valia US$ 66 bilhões ao fim de junho, e da American Express, avaliada em US$ 51,3 bilhões. A Coca-Cola passou a ocupar a quarta posição entre os maiores investimentos em ações do conglomerado, seguida pelo Bank of America.
A escalada é particularmente relevante porque a Berkshire começou a construir sua posição na Alphabet apenas no terceiro trimestre de 2025. Em menos de um ano, o investimento deixou de ser uma participação relativamente pequena para assumir lugar entre os ativos mais importantes do portfólio.
A aproximação também representa uma mudança em relação à imagem historicamente associada à Berkshire de cautela diante de grandes empresas de tecnologia. Buffett reconheceu durante anos ter demorado a compreender alguns modelos de negócios tecnológicos, embora a Apple tenha posteriormente se transformado no maior investimento acionário do conglomerado.
Berkshire investiu US$ 10 bilhões diretamente na Alphabet
Uma parcela relevante da expansão ocorreu fora do mercado aberto.
Em 1º de junho, a Alphabet firmou um contrato para vender US$ 10 bilhões em ações diretamente a uma afiliada da Berkshire Hathaway. A operação incluiu 14.212.035 ações Classe A por aproximadamente US$ 351,81 cada e 14.359.656 ações Classe C por cerca de US$ 348,20.
Foram, portanto, aproximadamente 28,57 milhões de ações adquiridas na colocação privada. Como a participação total da Berkshire aumentou em cerca de 48 milhões de ações entre março e junho, os números indicam que aproximadamente 19 milhões de papéis adicionais foram incorporados por outras operações durante o trimestre.
A colocação privada sozinha respondeu por aproximadamente 59% do aumento estimado no número de ações da Alphabet mantidas pela Berkshire no período.
A Alphabet informou que a captação estava vinculada a um programa muito maior de obtenção de capital destinado, entre outras finalidades, à expansão de sua infraestrutura computacional e de inteligência artificial. O pacote anunciado inicialmente previa US$ 80 bilhões e posteriormente foi ampliado para até US$ 84,75 bilhões, considerando diferentes ofertas e programas de emissão.
Inteligência artificial está por trás da necessidade de capital da Alphabet
A operação ocorre em um momento de investimentos excepcionalmente elevados pelas grandes empresas de tecnologia.
Segundo a própria Alphabet, a demanda empresarial e de consumidores por seus produtos relacionados à inteligência artificial está crescendo acima da capacidade disponível em determinadas áreas. O objetivo da captação é ampliar infraestrutura física, capacidade computacional e recursos necessários para sustentar essa expansão.
Para a Berkshire, a compra adiciona exposição direta a uma das maiores plataformas digitais do mundo e a negócios que incluem publicidade, buscas, YouTube, computação em nuvem e inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, trata-se de uma posição que já adquiriu peso suficiente para influenciar significativamente as oscilações trimestrais do valor da carteira.
Esse aspecto é importante porque a própria Berkshire recomenda cautela ao interpretar seu lucro líquido. As normas contábeis americanas obrigam a companhia a reconhecer variações não realizadas no valor de seus investimentos em ações, mesmo quando esses papéis não foram vendidos.
Lucro líquido da Berkshire mais que dobra no 2T26
A ampliação da participação na Alphabet foi revelada poucos dias depois da divulgação do balanço da própria Berkshire.
O conglomerado registrou lucro operacional de US$ 12,98 bilhões no segundo trimestre, crescimento de 16% diante dos US$ 11,16 bilhões registrados um ano antes. A receita avançou aproximadamente 10%, alcançando US$ 101,81 bilhões.
Já o lucro líquido atingiu US$ 25,67 bilhões, mais que o dobro dos US$ 12,37 bilhões apurados no mesmo período de 2025. O indicador incorpora variações no valor de mercado dos investimentos mantidos pela companhia e, por essa razão, pode oscilar significativamente de um trimestre para outro.
O desempenho operacional foi beneficiado por avanços na ferrovia BNSF e em empresas de serviços, enquanto a seguradora Geico apresentou deterioração. O lucro de subscrição antes de impostos da Geico caiu 45%, pressionado por maior frequência de sinistros e aumento das despesas com publicidade.
A combinação entre resultados mais fortes e retomada dos investimentos reforça a mudança que começa a aparecer na política de capital da Berkshire sob Greg Abel.
Caixa cai para US$ 364,7 bilhões
A Berkshire encerrou junho com US$ 364,7 bilhões em caixa e instrumentos de alta liquidez, contra o recorde de US$ 380,2 bilhões registrado em março.
A redução reflete não apenas as compras líquidas de ações, mas também a retomada das recompras de papéis da própria Berkshire. A companhia desembolsou US$ 4,5 bilhões em recompras no segundo trimestre e mais de US$ 3 bilhões em julho.
Durante os últimos anos da gestão de Buffett como CEO, o aumento contínuo da reserva de caixa havia se tornado uma das principais discussões entre investidores. A Berkshire encontrava dificuldade para localizar empresas ou ativos suficientemente grandes que combinassem preço, qualidade e potencial de retorno dentro de seus critérios de investimento.
A mudança no segundo trimestre é significativa justamente por interromper esse padrão. A companhia foi compradora líquida de quase US$ 20 bilhões em ações, elevou significativamente um investimento estratégico e voltou a recomprar suas próprias ações em grande escala.
Isso não significa, entretanto, que a Berkshire tenha abandonado sua disciplina financeira. Mesmo depois das operações, os US$ 364,7 bilhões mantidos em liquidez continuam oferecendo capacidade excepcional para novas aquisições, investimentos e proteção diante de períodos de estresse nos mercados.
Delta Air Lines também ganha espaço na carteira
A Alphabet não foi a única empresa a receber recursos adicionais.
A Berkshire elevou em aproximadamente 44% sua posição na Delta Air Lines, encerrando junho com 57,3 milhões de ações da companhia aérea, avaliadas em quase US$ 5,4 bilhões. No primeiro trimestre, a participação era de aproximadamente 39,8 milhões de ações.
O aumento é relevante também pela relação histórica entre Buffett e o setor aéreo. Durante a pandemia de 2020, a Berkshire vendeu todas as suas participações nas quatro grandes companhias aéreas americanas diante do colapso da demanda provocado pelas restrições de mobilidade.
A volta à Delta, iniciada no primeiro trimestre de 2026 e ampliada apenas três meses depois, mostra que a Berkshire voltou a considerar o setor dentro de seu universo de investimentos.
A participação na Macy’s, por sua vez, mais que dobrou, chegando a aproximadamente 7,3 milhões de ações, avaliadas em US$ 173 milhões. A Berkshire também ampliou a posição na construtora Lennar e revelou um investimento inicial pequeno na D.R. Horton.
Berkshire abandona Constellation Brands
Na direção oposta, a Berkshire eliminou completamente sua participação na Constellation Brands, dona de marcas de bebidas como Corona e Modelo nos Estados Unidos.
O investimento havia permanecido na carteira por aproximadamente um ano e meio. A saída ocorre em um contexto mais complexo para algumas categorias de bebidas alcoólicas, marcado por mudanças nos hábitos de consumo e pressão econômica em mercados maduros.
A Organização Internacional da Vinha e do Vinho informou em maio que o consumo mundial de vinho continuou recuando em 2025, pressionado por fatores econômicos e por mudanças estruturais no comportamento dos consumidores.
A Berkshire também reduziu posições no Bank of America, Ally Financial, Capital One, Kroger, DaVita e Nucor. O formulário regulatório não identifica qual executivo tomou cada decisão individual de compra ou venda.
Greg Abel começa a deixar sua marca na alocação de capital
O trimestre é apenas o segundo sob o comando executivo de Greg Abel, que sucedeu Warren Buffett como CEO no início de 2026. Buffett continua como presidente do conselho e permanece envolvido nas principais decisões de alocação de capital.
A própria posição na Alphabet mostra que a transição não significa uma ruptura simples entre as duas gestões. Buffett declarou posteriormente que a ideia inicial de investir na companhia foi dele e afirmou que continua discutindo decisões de capital com Abel.
Abel informou anteriormente que supervisiona aproximadamente 94% dos investimentos em ações da Berkshire, enquanto Ted Weschler administra os 6% restantes. O documento de posições não revela qual gestor foi responsável por cada movimentação específica.
O que os números mostram com mais clareza é uma alteração na utilização do caixa: depois de mais de três anos como vendedora líquida de ações, a Berkshire voltou a colocar dezenas de bilhões de dólares no mercado, acelerou recompras e transformou a Alphabet em uma das peças centrais de sua carteira.
Com quase US$ 38 bilhões investidos na controladora do Google ao fim de junho, a Berkshire passou a vincular uma parcela relevante de seu patrimônio acionário ao crescimento da Alphabet e à capacidade da companhia de converter os investimentos recordes em infraestrutura e inteligência artificial em geração futura de caixa.
Fontes:
U.S. Securities and Exchange Commission — registros societários da Alphabet referentes à colocação privada de ações para a Berkshire Hathaway.
Alphabet — comunicados regulatórios sobre a captação de capital e investimentos em infraestrutura de inteligência artificial.
Berkshire Hathaway — informações financeiras do segundo trimestre de 2026 e dados sobre alocação de capital.










