A investigação sobre a crise do Banco Master escalou para o campo político e regulatório. A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 10, a 10ª fase da Operação Compliance Zero, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para apurar um núcleo que teria operado pagamentos milionários para atacar o Banco Central, produzir dossiês ilegais contra jornalistas e executivos e intermediar repasses de R$ 134 milhões atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro por meio de um fundo nos Estados Unidos.
O alvo central da etapa é o publicitário Thiago Miranda, dono da agência Mithi. Segundo a PF, ele seria o articulador de um grupo chamado “O Time”, descrito como terceiro núcleo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao lado de estruturas já mapeadas como “A Turma” e “Os Meninos” em fases anteriores. A operação cumpriu dois mandados de busca e apreensão em Brasília.
A relevância econômica do caso está na combinação de três frentes que afetam diretamente o sistema financeiro. A primeira é a tentativa de manipulação da reputação do regulador. A segunda é o uso de recursos de origem bancária para finalidade político-cultural com trânsito internacional. A terceira é a estrutura de coleta ilegal de dados sigilosos, com cooptação de agentes públicos, o que eleva o custo de conformidade e de risco jurídico para instituições financeiras.
De acordo com a decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça registrou que não foram identificados, até agora, elementos que comprovem vínculo operacional direto entre “O Time” e os demais grupos de Vorcaro. Ainda assim, apontou que o grupo de Miranda teria empregado método semelhante ao da organização atribuída ao banqueiro para coagir, intimidar e violar privacidade e dados de jornalistas, pessoas ligadas a autoridades e adversários.
Repasse de R$ 134 milhões para fundo nos EUA entra no foco da PF
O ponto que conecta a investigação bancária ao mandato parlamentar, segundo a PF, é a intermediação feita por Miranda entre Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro. Diálogos extraídos do celular do publicitário, revelados em maio pelo Intercept Brasil e confirmados pelo Estadão, indicariam que Miranda marcou encontros entre o senador e o banqueiro e cobrou pagamentos atrasados.
Mensagens atribuídas a Flávio Bolsonaro citadas na apuração apontam acerto direto com Vorcaro para repasses de R$ 134 milhões, sob justificativa de patrocínio ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, com envio a um fundo sediado nos Estados Unidos e gerido por advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro. A Polícia Federal solicitou abertura de inquérito para verificar a destinação efetiva dos valores e apurar se houve desvio para financiar permanência de Eduardo Bolsonaro nos EUA ou outra finalidade. O status desse inquérito e a comprovação de desvio ainda estão em apuração.
Para o mercado, o trânsito internacional de recursos com origem no sistema financeiro, mesmo sob justificativa cultural, acende um alerta de governança. Operações com fundos no exterior exigem lastro contratual, comprovação de prestação de serviço, registro cambial e aderência às normas de prevenção à lavagem de dinheiro e de responsabilidade de administradores de instituições financeiras. A investigação sobre crimes contra o sistema financeiro, justamente uma das linhas citadas pela PF, trata desse enquadramento.
Projeto DV pagava até R$ 2 milhões para atacar Banco Central
A segunda frente da apuração tem impacto direto sobre a autoridade monetária. Segundo a PF, o grupo mantinha o chamado “Projeto DV”, iniciais de Daniel Vorcaro, para defender o Banco Master e atacar o Banco Central após medidas regulatórias contra a instituição. O mecanismo seria o pagamento a influenciadores digitais com ofertas de até R$ 2 milhões por postagens.
Thiago Miranda é apontado como principal recrutador. De acordo com os investigadores, ele abordava influenciadores e jornalistas com proposta de “gerenciamento de reputação” para um “importante executivo”, exigindo acordo de confidencialidade com multa de R$ 800 mil antes de revelar o nome do contratante. Quem assinava, descobria a tarefa de produzir conteúdo afirmando que o Banco Master teria sido vítima do Banco Central.
Quem recusava, virava alvo. A PF apurou uso de informações privadas obtidas de forma ilícita por meio de plataformas clandestinas de venda de dados para intimidar e coagir. O modelo cria um risco sistêmico de desinformação financeira, em que a percepção sobre solidez de bancos e sobre decisões do regulador passa a ser disputada por campanhas pagas, com potencial de afetar taxa de juros, custo de captação e confiança de depositantes.
Dossiês contra jornalistas e executivos ampliam risco jurídico
A terceira frente envolve coleta ilegal de dados sigilosos. Entre os alvos citados na investigação está a jornalista Malu Gaspar, colunista de O Globo. Segundo a PF, Miranda e Vorcaro teriam levantado dados sobre renda estimada, movimentações bancárias, operações em cartão e informações sobre filhos, com objetivo de reunir elementos potencialmente desabonadores.
Outro alvo teria sido o CEO do Itaú, Milton Maluhy Filho. Mensagens apreendidas mostram Vorcaro pedindo a Miranda levantamento sobre o executivo sob alegação de que estaria causando problemas. A resposta atribuída a Miranda foi “Deixa comigo”. Um dossiê com informações pessoais e patrimoniais do executivo e da esposa, com identidade visual da agência de Miranda, foi encontrado, segundo a PF.
A gravidade atribuída pela PF a esse braço da organização vai além da violação de dados. Na decisão, o ministro André Mendonça registrou que a estrutura de Vorcaro manteria núcleo especializado em intimidar adversários por meio de cooptação e corrupção de policiais, inclusive federais. Essa ramificação teria permitido, segundo os investigadores, que Vorcaro tomasse conhecimento antecipado de operação deflagrada em novembro de 2025, mobilizasse contatos para minimizar efeitos e tentasse deixar o país, sendo preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos momentos antes de embarcar em voo internacional.
O que muda na prática para bancos, influenciadores e fundos
Para instituições financeiras, o caso eleva o padrão de diligência sobre contratação de agências de gestão de crise e de influenciadores. Pagamentos para defesa de reputação precisam ser segregados de qualquer tentativa de interferir na atuação do Banco Central ou de obter vantagem regulatória. O Conselho Monetário Nacional e o Banco Central vêm endurecendo regras de governança e de responsabilização de administradores, e campanhas que buscam deslegitimar o regulador tendem a ser lidas como risco de compliance, não apenas de imagem.
Para o mercado de influência, o valor de até R$ 2 milhões por postagem e a multa contratual de R$ 800 mil por quebra de confidencialidade expõem um modelo de publicidade financeira sem transparência ao consumidor. A ausência de disclosure de patrocínio bancário em conteúdo que trata de política monetária viola normas do Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária e pode configurar publicidade enganosa, com impacto sobre investidores pessoa física que tomam decisão com base em narrativa de ataque ao regulador.
Para fundos e operações transfronteiriças, o repasse de R$ 134 milhões para estrutura nos EUA, se confirmado, exigirá comprovação de substância econômica do projeto cultural, de contrato de patrocínio e de origem lícita dos recursos. A PF investiga se houve embaraço à investigação e violação de dados sigilosos, além de organização criminosa. Miranda pode responder por esses crimes, conforme a corporação. A identificação completa dos integrantes de “O Time” e de policiais que teriam sido cooptados segue em andamento, com inquérito sob sigilo.
A defesa de Thiago Miranda divulgou nota negando ilegalidade. O advogado Rafael Martins afirmou que a atuação do publicitário sempre foi pautada pela legalidade, transparência e respeito às instituições e que ele não praticou ato criminoso nem participou de conduta para intimidar ou violar direitos de terceiros, colocando-se à disposição das autoridades. A defesa de Flávio Bolsonaro e de Daniel Vorcaro ainda não se manifestou nos autos tornados públicos até o fechamento desta edição.
Os próximos passos incluem perícia nos celulares apreendidos, quebra de sigilo de transações ligadas ao fundo nos EUA e oitivas de influenciadores que teriam recebido ofertas. Para o sistema financeiro, o recado é objetivo. A disputa de narrativa sobre solidez bancária e sobre decisões do Banco Central deixou de ser tema de mercado para entrar no escopo criminal, com potencial de redefinir limites entre gerenciamento de crise, lobby e atentado contra a governança do sistema.








