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Flávio Bolsonaro emitiu R$ 1,5 milhão em notas a empresas ligadas ao caso Master

Duas notas de R$ 500 mil foram canceladas; senador nega ter recebido da Copenhagen e afirma desconhecer vínculos com o banco.

por Júlia Campos
22/07/2026 às 15h20
em Política
Flávio Bolsonaro Emitiu R$ 1,5 Milhão Em Notas A Empresas Ligadas Ao Caso Master - Gazeta Mercantil - Política

O escritório de advocacia do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu, em abril de 2025, três notas fiscais de R$ 500 mil cada para duas empresas posteriormente relacionadas à estrutura financeira investigada no caso Banco Master. Duas notas destinadas à Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. foram canceladas no próprio dia da emissão, enquanto uma terceira, faturada para a Contábil Correa Contabilidade e Auditoria Ltda., não apresenta registro de cancelamento, segundo documentos fiscais divulgados nesta quarta-feira, 22 de julho.

As notas somam R$ 1,5 milhão, mas a emissão dos documentos, isoladamente, não comprova que os valores tenham sido efetivamente pagos, que os serviços tenham sido executados ou que tenha ocorrido qualquer irregularidade. No caso da Copenhagen, o próprio cancelamento indica que a operação inicialmente registrada não foi concluída nos termos constantes das notas.

Flávio Bolsonaro afirma que não recebeu recursos da Copenhagen e que a contratação discutida com a empresa não avançou. Sobre a Contábil Correa, o senador sustenta que firmou contrato regular de assessoria jurídica com a companhia, que utiliza o nome comercial BR Global e atende mais de 200 clientes.

O parlamentar também declara que não tinha conhecimento de qualquer relação entre as duas empresas e o Banco Master. Segundo sua defesa, qualquer tentativa de associá-lo a supostas irregularidades do grupo financeiro seria desprovida de fundamento.

Duas notas para a Copenhagen foram canceladas no mesmo dia

As duas primeiras notas fiscais foram emitidas em 7 de abril de 2025 pelo escritório de Flávio Bolsonaro em favor da Copenhagen. Cada documento tinha valor de R$ 500 mil e descrevia a prestação de serviços de consultoria jurídica.

As notas foram canceladas ainda naquela data. Dessa forma, os documentos registram uma tentativa de faturamento, mas não demonstram o recebimento de R$ 1 milhão pelo escritório do senador.

Dois dias depois, em 9 de abril, o escritório emitiu outra nota fiscal de R$ 500 mil. A destinatária foi a Contábil Correa, companhia sediada em São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo. Não foi identificado registro de cancelamento desse terceiro documento.

A ausência de cancelamento, porém, também não basta para comprovar o pagamento. Para estabelecer o fluxo financeiro, seria necessário analisar contratos, comprovantes bancários, registros contábeis, retenções tributárias e documentos capazes de demonstrar quais atividades foram realizadas.

A emissão das notas ganhou relevância porque Copenhagen e Contábil Correa apresentam conexões societárias e administrativas. O contador Rogério Lourenço Novo aparece como diretor da Copenhagen e como sócio da empresa de contabilidade.

A Copenhagen também está registrada no mesmo endereço comercial utilizado pela Contábil Correa. A coincidência de sede, somada à presença do mesmo contador nas duas estruturas, reforça a necessidade de esclarecer a natureza das contratações e a identificação dos clientes que teriam recebido os serviços jurídicos.

Copenhagen recebeu quase R$ 58 milhões do Banco Master

Criada em novembro de 2024, a Copenhagen declarou capital social de apenas R$ 40 e atividade principal de consultoria em gestão empresarial. Apesar de sua constituição recente e do capital reduzido, a companhia teria recebido R$ 57,9 milhões do Banco Master entre 2024 e 2025 por supostos serviços prestados.

Os primeiros repasses, que somaram R$ 11,2 milhões, teriam sido feitos pouco depois da abertura da empresa. A Copenhagen figurou entre as dez companhias que mais receberam recursos do Master no período analisado, de acordo com dados fiscais divulgados pela imprensa.

A diferença entre o capital declarado e o volume movimentado não constitui, por si só, prova de ilegalidade. Empresas prestadoras de serviços podem operar com capital social reduzido e faturamento elevado. No contexto do Banco Master, no entanto, o fluxo passou a ser examinado devido à dimensão dos valores e às suspeitas investigadas sobre a circulação de recursos por fundos e empresas conectadas ao grupo.

No papel, a Copenhagen pertence ao Estônia Fundo de Investimento Multiestratégia, administrado pela Trustee DTVM. A administradora declarou que não exercia ingerência sobre as relações comerciais da empresa nem participava da definição de pagamentos ou de negociações realizadas entre a Copenhagen e o Banco Master.

A Trustee afirmou ainda que a presença de um representante do fundo na administração da Copenhagen correspondia a uma prática de governança adotada em estruturas societárias que recebem investimentos. Segundo a instituição, a atuação teria observado a legislação, os controles internos e os procedimentos de conformidade aplicáveis.

Reportagem anterior mostrou que Rogério Lourenço Novo passou a dirigir a Copenhagen em setembro de 2025, pouco antes da deflagração da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes relacionadas ao Banco Master. O contador também integra o conselho fiscal da Ambipar (AMBP3).

Contador aparece como elo entre as duas contratantes

Rogério Lourenço Novo declarou ser o proprietário da Copenhagen desde setembro de 2025. Ele afirmou ter contratado o escritório de Flávio Bolsonaro para atender clientes de sua empresa contábil por meio de uma modalidade que classificou como “quarteirização”.

Segundo essa versão, a Contábil Correa teria terceirizado determinados serviços jurídicos e, em seguida, destinado o trabalho do escritório de Flávio Bolsonaro aos próprios clientes. Essa estrutura poderia explicar a emissão de uma nota diretamente para a empresa contábil e a tentativa de faturamento para a Copenhagen.

O contador, contudo, não informou imediatamente quais clientes receberam os serviços, que demandas jurídicas foram atendidas ou quais profissionais executaram o trabalho. Ele alegou administrar uma carteira com mais de 200 clientes e disse não se recordar das informações no momento em que foi questionado.

A identificação dos serviços é um ponto central. Contratos de assessoria jurídica de R$ 500 mil normalmente precisam estar acompanhados de definição de escopo, período de execução, responsáveis técnicos, relatórios, pareceres ou outros registros de atividade profissional.

A existência dessa documentação permitiria verificar se o valor da nota emitida para a Contábil Correa correspondia a um contrato continuado, a uma demanda específica ou ao atendimento indireto de outras empresas.

Rogério Lourenço Novo já foi investigado pela Polícia Federal em uma apuração sobre suposta utilização de notas fiscais de empresas consideradas de fachada para redução indevida de tributos entre 2013 e 2015. O prejuízo fiscal foi estimado, à época, em mais de R$ 100 milhões.

As apurações foram posteriormente arquivadas pelo Ministério Público Federal depois que a principal companhia investigada aderiu a um programa de parcelamento da dívida tributária. Uma investigação anterior arquivada não autoriza concluir que os documentos emitidos em 2025 sejam falsos ou que reproduzam o mesmo tipo de conduta.

Flávio Bolsonaro nega vínculo com o Banco Master

Em nota, Flávio Bolsonaro afirmou que contratou regularmente com a BR Global, nome comercial utilizado pela Contábil Correa. Segundo o senador, a empresa presta serviços de contabilidade e auditoria a centenas de clientes no estado de São Paulo.

O parlamentar disse ter sido consultado sobre a possibilidade de trabalhar para a Copenhagen, apresentada como cliente da BR Global. A contratação, segundo ele, não avançou, razão pela qual as duas notas de R$ 500 mil foram canceladas.

Flávio Bolsonaro sustenta que não recebeu qualquer valor da Copenhagen. A afirmação é compatível com o cancelamento das notas, mas a verificação completa depende do cruzamento dos documentos fiscais com movimentações bancárias e registros contábeis.

Em relação à Contábil Correa, a manifestação confirma a existência de contrato de assessoria jurídica, mas não detalha o período da prestação, o objeto específico do trabalho nem se a nota de R$ 500 mil foi integralmente paga.

O senador também negou ter conhecimento de vínculos entre as duas companhias e o Banco Master. Segundo ele, não havia razão para relacionar a contratação jurídica às operações financeiras investigadas envolvendo Daniel Vorcaro.

Flávio Bolsonaro afirmou ainda que não é investigado por causa dessas notas. Até o momento, as informações tornadas públicas sobre os documentos não indicam que o parlamentar tenha sido formalmente incluído como investigado nesse núcleo específico.

O pré-candidato acusou órgãos governamentais de possível vazamento de dados protegidos por sigilo fiscal com finalidade eleitoral. Ele anunciou que pretende representar aos órgãos competentes para que a origem da divulgação seja apurada e afirmou que poderá adotar medidas nas esferas cível e criminal.

Emissão de nota não comprova recebimento ou participação em ilícito

O ponto juridicamente mais relevante é a diferença entre os vários estágios de uma operação comercial. Uma empresa pode emitir uma nota fiscal antes de receber, cancelar o documento devido à desistência do cliente ou registrar o faturamento sem que o pagamento seja realizado imediatamente.

Para comprovar o recebimento, seriam necessários extratos, ordens de transferência, lançamentos contábeis ou declarações das partes. Para demonstrar a prestação do serviço, seria preciso examinar contratos, comunicações profissionais, pareceres, peças jurídicas, reuniões ou outros resultados do trabalho contratado.

Também não há, apenas pela existência das notas, elementos suficientes para afirmar que o escritório de Flávio Bolsonaro conhecia a origem dos recursos movimentados pelas empresas ou tinha acesso à estrutura societária relacionada ao Master.

A relevância jornalística está na convergência de fatores: valores elevados, proximidade temporal entre as notas, presença de um mesmo contador nas duas contratantes e conexão posterior da Copenhagen com movimentações milionárias do Banco Master.

Esses elementos justificam escrutínio e esclarecimentos públicos, especialmente porque Flávio Bolsonaro é senador e pré-candidato à Presidência. Eles não substituem, entretanto, a necessidade de prova individualizada para atribuição de responsabilidade.

A posição atual do parlamentar na disputa presidencial amplia o impacto político do episódio. Flávio Bolsonaro foi indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como representante de seu grupo político na eleição de outubro e aparece como um dos principais postulantes ao Planalto.

Relação anterior com Vorcaro aumenta repercussão

As notas fiscais surgem depois da divulgação de outras relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Mensagens e gravações reveladas anteriormente mostraram que o senador procurou o empresário para obter patrocínio privado destinado a um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Segundo as reportagens, Vorcaro teria destinado ao menos R$ 61 milhões ao projeto cinematográfico. Em uma gravação de setembro de 2025, Flávio teria cobrado parcelas atrasadas necessárias para a continuidade da produção.

O senador reconheceu que manteve contato com Vorcaro e buscou o patrocínio, mas negou qualquer contrapartida irregular. Ele afirmou que o dinheiro seria privado, destinado a um projeto privado, e que não ofereceu vantagens políticas ou governamentais ao banqueiro.

Flávio Bolsonaro também declarou não ter recebido pessoalmente recursos ou benefícios relacionados ao filme. Na ocasião, defendeu a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito para separar pessoas inocentes dos responsáveis por eventuais crimes envolvendo o Master.

As conversas sobre o filme não demonstram relação direta com os contratos jurídicos registrados nas notas fiscais. A proximidade entre os personagens e a circulação de valores por empresas associadas ao caso, no entanto, elevam o grau de interesse público sobre a documentação.

A apuração precisa determinar se os episódios são independentes ou se houve algum intermediário comum. Até que apareçam documentos ou depoimentos que estabeleçam essa conexão, a relação entre o patrocínio cinematográfico e as notas deve ser tratada apenas como uma hipótese ainda não demonstrada.

Caso Master reúne investigações financeiras e societárias

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e de outras instituições de seu conglomerado em 18 de novembro de 2025. A autoridade monetária também submeteu o Banco Master Múltiplo a Regime Especial de Administração Temporária, posteriormente convertido em liquidação.

A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, apura suspeitas de crimes contra o sistema financeiro, organização criminosa, lavagem de dinheiro e condutas destinadas a interferir nas investigações, entre outros possíveis delitos. As imputações dependem da apuração individual e do julgamento das autoridades competentes.

A Polícia Federal deflagrou em julho a décima fase da operação. Essa etapa passou a investigar indícios de atuação coordenada para comprometer a credibilidade do Banco Central, intimidar jornalistas, obter informações sigilosas e monitorar pessoas ligadas a autoridades públicas.

A Comissão de Valores Mobiliários também mantém investigações e processos administrativos envolvendo o Grupo Master, a REAG e outras entidades relacionadas. A autarquia ressalva que os procedimentos estão em diferentes estágios e que a existência de investigação não equivale a condenação.

O caso tornou-se uma das maiores crises recentes do sistema financeiro brasileiro. Além das consequências para investidores e credores, as apurações passaram a alcançar gestores de fundos, administradores, empresas prestadoras de serviços e agentes políticos que tiveram contato com Daniel Vorcaro.

Notas ampliam escrutínio sobre relações políticas do Banco Master

A divulgação das três notas abre uma nova frente de pressão sobre Flávio Bolsonaro no momento em que o senador busca consolidar sua candidatura presidencial. O episódio deverá alimentar pedidos de esclarecimento no Congresso e ampliar a disputa política em torno de uma eventual comissão de inquérito sobre o Banco Master.

Para a apuração avançar, será necessário esclarecer se a nota de R$ 500 mil destinada à Contábil Correa foi paga, qual foi a origem dos recursos, quais serviços foram prestados e quem se beneficiou do trabalho jurídico.

Também será preciso examinar quem negociou a possível contratação com a Copenhagen, por que duas notas de igual valor foram emitidas no mesmo dia e qual circunstância levou ao cancelamento imediato dos documentos.

No caso da Contábil Correa, a apresentação do contrato, dos comprovantes de pagamento e dos produtos jurídicos entregues poderá confirmar a versão de uma prestação regular de serviços. A ausência desses elementos tende a manter as dúvidas sobre a justificativa econômica da operação.

Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma que adotará medidas judiciais contra tentativas de associá-lo ao esquema investigado no Master. A Copenhagen, a Contábil Correa, seus administradores e os demais citados têm direito à defesa e à presunção de inocência.

Até que a investigação documental seja concluída, o fato comprovado é restrito: o escritório emitiu três notas que somavam R$ 1,5 milhão, duas delas foram canceladas e a terceira permanece sem registro público de cancelamento. A existência de crime, pagamento ilícito ou participação do senador nas irregularidades atribuídas ao Banco Master não está demonstrada pelos documentos divulgados.

Tags: Banco MasterContábil CorreaCopenhagenDaniel VorcaroEleições 2026Flávio Bolsonaroinvestigaçãonotas fiscaisoperação Compliance ZeroPLPolítica

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