Elizabeth Warren e Adam Schiff pediram à Securities and Exchange Commission (SEC) que investigue a Truth API, serviço da Trump Media & Technology Group (DJT) para fornecer a clientes institucionais acesso automatizado e de baixa latência a publicações influentes do Truth Social. Em carta de 28 de julho ao presidente da autarquia, Paul Atkins, os senadores democratas solicitaram análise sobre possível incidência das normas federais de valores mobiliários, incluindo regras contra uso indevido de informação relevante e manipulação.
O pedido concentra-se na diferença de velocidade entre o novo canal pago e as formas convencionais de acompanhar a rede social. A Trump Media informou que o produto utiliza métodos de entrega adotados pelo setor para transmitir conteúdo legível por máquinas em milissegundos, com funcionamento contínuo. Para Warren e Schiff, essa vantagem pode permitir que instituições reajam a manifestações presidenciais antes de investidores que dependem da plataforma aberta ou de notificações comuns.
A companhia apresentou a Truth API em 16 de julho e estimou que o serviço estaria disponível a clientes institucionais a partir de 1º de agosto. No comunicado arquivado na SEC, declarou ter contratado clientes antes da estreia e estar integrando novos parceiros, mas não revelou nomes, preços nem condições comerciais. Até esta segunda-feira (3), a SEC não havia anunciado publicamente a abertura de uma investigação sobre o produto.
A controvérsia também envolve a estrutura acionária da empresa. O relatório anual da Trump Media informa que Donald Trump é o único beneficiário de um trust que detinha 41,1% do poder de voto da companhia em 25 de fevereiro de 2026. Os senadores sustentam que esse interesse econômico torna relevante examinar se a monetização de publicações presidenciais cria benefício privado e riscos para a confiança no mercado.
Produto mira operações que dependem de baixa latência
A Truth API é o primeiro produto de licenciamento de dados da Trump Media. Segundo a descrição corporativa, o serviço fornece acesso em tempo real a publicações das contas classificadas entre as mais relevantes do Truth Social, além de um arquivo histórico iniciado em 2022. A empresa prometeu cobertura durante 24 horas por dia e distribuição por padrões técnicos já utilizados em sistemas financeiros.
O público-alvo declarado inclui firmas de negociação de alta frequência e gestores que empregam algoritmos. Esses participantes dependem de dados estruturados para que sistemas automáticos identifiquem novas informações e enviem ordens sem monitoramento manual. A própria empresa vinculou a proposta comercial ao custo provocado por atrasos na recepção de conteúdo capaz de influenciar decisões de investimento.
Kevin McGurn, presidente-executivo interino da Trump Media, afirmou no anúncio que os mercados já reagem a publicações do Truth Social. Segundo o executivo, a conexão direta e licenciada permitiria transformar um ativo proprietário em receita recorrente e de margem elevada. A companhia, no entanto, classificou as estimativas de contribuição financeira, adoção e disponibilidade como declarações prospectivas sujeitas a demanda, concorrência e outros riscos.
O comunicado corporativo não informou a quantidade de contas incluídas nem apresentou uma tabela pública de preços. Warren e Schiff registraram na carta que o custo mensal estaria, conforme informações reunidas por eles, entre US$ 60 mil e US$ 100 mil. Como esses valores não constam do anúncio da companhia nem do documento encaminhado por ela à SEC, representam uma afirmação dos parlamentares, e não uma condição comercial confirmada pela Trump Media.
Senadores cobram análise de manipulação e proteção ao investidor
Warren e Schiff formularam três grupos de perguntas à SEC. O primeiro solicita uma avaliação jurídica da estrutura da Truth API diante das normas que tratam de operações com informação relevante não pública e manipulação. O segundo pede acesso a análises anteriores que a comissão ou sua equipe já tenham realizado sobre produtos semelhantes. O terceiro questiona como a agência pretende proteger investidores e a integridade dos mercados diante da entrega acelerada de comunicações originadas no nível mais alto do governo.
Nesse último bloco, os senadores pedem que a autarquia detalhe mecanismos de fiscalização aplicáveis a redes sociais que licenciam acesso por interface a firmas de negociação. Também querem saber quais protocolos preservariam a independência de uma eventual apuração envolvendo usuários de destaque da plataforma e quais instrumentos estariam disponíveis para investidores de varejo comunicarem irregularidades ou buscarem reparação.
A carta não conclui que houve infração. Ela pede que a SEC determine se a configuração proposta se enquadra em alguma proibição existente. Os próprios parlamentares citam a regra federal que relaciona responsabilidade por insider trading à negociação com conhecimento de informação relevante não pública. A questão submetida à agência é se a diferença temporal criada pelo produto, somada à natureza das publicações, produz riscos alcançados pela legislação de mercado de capitais.
O argumento político dos senadores parte do uso do Truth Social por Trump para divulgar opiniões e intenções sobre decisões governamentais, setores e companhias. Na avaliação registrada por Warren e Schiff, vender um caminho tecnicamente mais rápido para esse conteúdo pode reduzir a percepção de tratamento equitativo entre instituições e pessoas físicas. Essa interpretação integra o pedido de investigação e ainda não constitui entendimento oficial da SEC.
Trust mantém 114,75 milhões de ações da companhia
Registros societários arquivados na SEC mostram que Trump transferiu 114,75 milhões de ações ordinárias da companhia para o Donald J. Trump Revocable Trust em 17 de dezembro de 2024, sem compra ou venda. O documento identifica o presidente como instituidor e único beneficiário atual do trust. Donald Trump Jr. aparece como único administrador, com poder exclusivo de voto e investimento sobre os papéis mantidos pela estrutura.
Na data usada pelo formulário de 2024, o bloco correspondia a 52,9% da classe, calculado sobre 216,92 milhões de ações em circulação em 29 de outubro daquele ano. A participação relativa diminuiu após a ampliação do capital. O relatório anual referente a 2025 registra 276,73 milhões de ações emitidas e em circulação em 25 de fevereiro de 2026 e atribui ao trust aproximadamente 41,1% do poder de voto.
A própria Trump Media reconhece no relatório que a concentração pode permitir a Trump determinar o resultado de matérias submetidas aos acionistas quando for exigida maioria ou pluralidade de votos. Entre os exemplos citados estão eleição de diretores, mudanças nos documentos societários e operações como fusões, consolidações ou venda de parcela substancial dos ativos. O documento acrescenta que os interesses do controlador podem divergir dos demais investidores.
A empresa tornou-se aberta em 25 de março de 2024, após a conclusão da combinação de negócios com a Digital World Acquisition Corp., e suas ações passaram a ser negociadas na Nasdaq. No balanço de 2025, a Trump Media registrou vendas líquidas de US$ 3,68 milhões e prejuízo líquido de US$ 712,34 milhões, resultado afetado, entre outros itens, por perdas com ativos digitais e investimentos. Nesse quadro, a Truth API foi apresentada como uma nova fonte potencial de receita de longo prazo.
Pressão parlamentar alcança associações financeiras
O pedido de Warren e Schiff foi precedido por iniciativas de outros congressistas. Em 20 de julho, o deputado democrata Ritchie Torres enviou carta a Paul Atkins solicitando que a SEC avaliasse a estrutura, a divulgação comercial, a operação e o uso da Truth API. Ele também pediu coordenação com a Commodity Futures Trading Commission e o Office of Government Ethics para examinar questões de integridade do mercado e conflito de interesses.
Torres encaminhou cinco perguntas à autarquia. Entre elas, quis saber se haveria revisão antes da data anunciada para a estreia, quais salvaguardas impediriam clientes ou partes relacionadas de receber o conteúdo antes do público, se a agência avaliaria riscos de fraude e manipulação e se seriam exigidas informações sobre clientes, preços, métodos de distribuição, controles internos e benefícios aos principais acionistas.
No dia seguinte, o senador Mark Warner enviou correspondência a dirigentes de seis associações do setor financeiro e pediu que as entidades rejeitassem o serviço. Ele afirmou que a entrega paga estabeleceria dois níveis de acesso a comunicações presidenciais capazes de afetar preços. Warner também questionou a dependência dos contratantes em relação à Trump Media, responsável por definir acesso, continuidade e condições do produto.
As três iniciativas têm natureza de fiscalização política e não equivalem a processo sancionador. Warren, Schiff e Torres dirigiram seus pedidos à agência responsável por aplicar a legislação federal de valores mobiliários; Warner buscou influenciar a conduta das instituições que poderiam contratar o serviço. Nenhum dos documentos oficiais apresentados pelos parlamentares registra, por si só, uma decisão da SEC contra a companhia ou seus administradores.
Documentos deixam clientes e preços sem identificação
A Trump Media afirma que, antes da Truth API, interessados em acompanhar as contas mais relevantes dependiam de monitoramento manual porque não existia uma interface oficial integrada. O produto substitui esse processo por uma transmissão licenciada, contínua e estruturada. A diferença central, portanto, não está no conteúdo anunciado pela empresa, mas no canal, no formato e no tempo de entrega.
Os documentos corporativos consultados não identificam os clientes já contratados, o número de parceiros em integração ou a receita esperada. Também não esclarecem se todos os assinantes receberão as publicações simultaneamente, quais contas serão incluídas ou quais controles internos acompanharão a distribuição. Parte das perguntas enviadas à SEC procura justamente definir se essas informações deverão ser apresentadas à agência, aos acionistas ou ao público.
A disponibilidade em 1º de agosto era uma expectativa. O comunicado advertia que adoção, demanda e concorrência poderiam alterar os resultados. Até 3 de agosto, não havia novo anúncio corporativo com confirmação operacional, clientes ou condições definitivas. A próxima etapa depende da resposta da SEC e de eventual atualização da companhia.









