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Safra encerra cobertura da Oncoclínicas (ONCO3) em meio à recuperação de dívida de R$ 5,1 bilhões

Banco deixa de emitir recomendação e preço-alvo para a companhia após ONCO3 perder quase metade do valor desde maio; crise de liquidez, renegociação com credores e risco de diluição permanecem no radar

por Camila Braga
31/07/2026 às 18h02
em Mercados
Oncoclínicas (Onco3) - Gazeta Mercantil

Oncoclínicas | Reprodução

O Banco Safra encerrou nesta sexta-feira (31) a cobertura das ações da Oncoclínicas (ONCO3), retirando de sua carteira de análise uma companhia que atravessa a fase mais delicada desde a abertura de capital. A instituição atribuiu a decisão a mudanças nas responsabilidades do analista encarregado pelo acompanhamento do setor, sem relacionar formalmente a medida à situação financeira da empresa. O movimento, contudo, ocorre menos de três semanas depois de a rede de tratamento oncológico protocolar um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas.

Até a interrupção da cobertura, o Safra mantinha recomendação de venda para ONCO3 e preço-alvo de R$ 2 por ação. Como os papéis acumularam desvalorização próxima de 48,3% desde o último relatório do banco, divulgado em 14 de maio, esse preço passou a representar uma valorização potencial de 244,83% sobre o fechamento de quinta-feira (30).

O percentual, porém, não constitui uma nova indicação de compra. Ele resulta da comparação entre a cotação atual e uma estimativa elaborada antes do pedido de recuperação extrajudicial, da intensificação da crise de liquidez e de outros acontecimentos que alteraram substancialmente a avaliação de risco da companhia.

Com o encerramento da cobertura, o preço-alvo de R$ 2 deixa de ser uma referência ativa do Safra. O banco não continuará atualizando projeções de receita, lucro, endividamento ou valor justo para as ações, a menos que decida retomar formalmente o acompanhamento da empresa no futuro.

Preço-alvo elevado não representa recomendação de compra

A distância entre a cotação de ONCO3 e o antigo preço-alvo pode produzir uma interpretação equivocada. Em condições normais, um potencial de valorização superior a 200% chamaria a atenção de investidores em busca de ativos descontados. No caso da Oncoclínicas, entretanto, a diferença foi formada principalmente pela queda acelerada da ação, e não por uma revisão favorável das perspectivas da empresa.

O último posicionamento vigente do Safra continuava sendo de venda. A instituição havia apontado fraqueza operacional, consumo elevado de caixa, estrutura de dívida pressionada e baixa visibilidade sobre a recuperação da rentabilidade.

Ao retirar a companhia da cobertura, o banco também deixa de validar o preço-alvo anterior. A estimativa passa a ter valor apenas histórico e não deve ser utilizada como indicação atual sobre o potencial de retorno das ações.

A diferença é relevante porque o valor de uma companhia em recuperação financeira depende de variáveis que podem mudar rapidamente. A negociação com credores, a conversão de dívidas em ações, a entrada de novos investidores e a venda de ativos podem alterar tanto o valor econômico da empresa quanto a participação dos atuais acionistas.

Para quem possui ONCO3, o centro da análise deixa de ser o preço-alvo produzido antes da crise e passa a ser o desfecho da recuperação extrajudicial. O processo definirá prazos, custos financeiros, possíveis capitalizações e o grau de diluição que poderá recair sobre os investidores atuais.

Recuperação extrajudicial abrange R$ 5,1 bilhões

A Oncoclínicas protocolou em 13 de julho o pedido de recuperação extrajudicial destinado à reestruturação de aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias, além de créditos entre empresas do próprio grupo.

A companhia informou ter iniciado o processo com o apoio de credores que representavam cerca de 37% dos créditos abrangidos. O percentual foi suficiente para o ajuizamento, mas ainda não assegura a homologação definitiva do plano.

Pelas condições divulgadas ao mercado, a Oncoclínicas dispõe de 90 dias, contados do processamento do pedido, para alcançar a adesão mínima exigida. Caso atinja o quórum legal, as novas condições poderão ser estendidas aos demais credores submetidos à mesma classe de créditos.

O plano poderá combinar diferentes instrumentos. Entre as alternativas apresentadas estão um novo aporte dos acionistas, a conversão de parte das dívidas em participação acionária, a substituição de obrigações existentes por novos títulos e o alongamento dos cronogramas de amortização.

Cada uma dessas possibilidades produz efeitos diferentes. O aumento de capital pode reforçar o caixa, mas tende a diluir os acionistas que não participarem da operação. A conversão de dívida em ações reduz o passivo financeiro, embora transfira parcela maior do capital aos credores. O alongamento dos vencimentos alivia a pressão imediata, mas pode elevar o custo total da dívida.

A empresa afirmou que as obrigações operacionais correntes com pacientes, fornecedores e demais parceiros não fazem parte da recuperação extrajudicial. Também declarou que os atendimentos e as atividades regulares continuam sendo realizados normalmente.

Primeiro trimestre expôs a gravidade da crise de caixa

Os números do primeiro trimestre de 2026 já mostravam a redução da margem de segurança financeira da Oncoclínicas. Na avaliação publicada pelo Safra em maio, o caixa da companhia caiu de R$ 518 milhões no encerramento de 2025 para R$ 124 milhões ao final de março.

No mesmo período, a soma da dívida líquida com obrigações relacionadas a aquisições atingiu R$ 3,27 bilhões. O montante correspondia a 5,2 vezes o Ebitda utilizado pelo banco no cálculo de alavancagem.

A dívida financeira bruta somava R$ 3,33 bilhões e estava integralmente classificada no curto prazo, inclusive em instrumentos com vencimento contratual final posterior. Essa classificação ampliou a preocupação dos investidores com a capacidade da empresa de renegociar obrigações e evitar a aceleração de vencimentos.

A receita líquida ficou em R$ 1,161 bilhão no trimestre, queda de 22% em relação ao mesmo período de 2025. O volume de procedimentos recuou 23%, para aproximadamente 133 mil, enquanto o tíquete médio em oncologia avançou 14%, para R$ 10.585.

Segundo a análise do Safra, a escassez de medicamentos retirou cerca de R$ 40 milhões da receita bruta. A restrição de liquidez teria limitado a capacidade de adquirir produtos nas condições comerciais habituais, obrigando a companhia a realizar compras pontuais em condições menos favoráveis.

A Oncoclínicas também vinha encerrando relações com fontes pagadoras que exigiam capital de giro elevado ou apresentavam maior risco de inadimplência. A estratégia reduz exposição a contratos considerados desfavoráveis, mas provoca perda de receita no período de transição.

Resultado operacional e provisões pressionaram o balanço

Na metodologia adotada pelo Safra, o Ebitda ajustado do primeiro trimestre ficou negativo em R$ 49 milhões, com margem de menos 4,2%. A instituição havia projetado resultado positivo de R$ 139 milhões e margem de 10,3%.

O banco atribuiu parte da diferença à escassez de medicamentos, às condições menos favoráveis de compras emergenciais e à revisão das provisões para perdas de crédito. Os ajustes realizados pela nova administração somaram R$ 119 milhões.

Entre as provisões, o maior impacto individual envolveu aproximadamente R$ 148 milhões relacionados à Unimed Leste Fluminense. O episódio reforçou o risco associado a recebíveis de operadoras e fontes pagadoras com capacidade financeira pressionada.

O prejuízo líquido alcançou R$ 439 milhões na leitura apresentada pelo Safra, também afetado por R$ 157 milhões em despesas financeiras. A combinação entre resultado operacional negativo e custo elevado da dívida reduziu ainda mais a capacidade de recomposição do caixa.

A companhia consumiu R$ 394 milhões em recursos durante os três primeiros meses do ano. O movimento reuniu saídas operacionais, pagamento de juros, amortizações, investimentos e compromissos decorrentes de aquisições realizadas anteriormente.

Ao final do trimestre, o prazo médio de recebimento estava em 90 dias, enquanto o prazo médio de pagamento alcançava 111 dias. O alongamento das obrigações com fornecedores ajudou a preservar recursos, mas também revelou a dependência de renegociações para manter o funcionamento do ciclo financeiro.

Expansão deu lugar à venda de ativos e redução de riscos

A crise financeira obrigou a Oncoclínicas a acelerar uma revisão estratégica iniciada depois de anos de expansão por aquisições. A empresa, criada com foco em tratamentos oncológicos, havia ampliado sua exposição a hospitais gerais e outros ativos de maior complexidade operacional.

O crescimento elevou a escala do grupo, mas também aumentou a necessidade de capital, o endividamento e a exposição a negócios com dinâmica diferente das clínicas especializadas. Com a deterioração do caixa, a administração passou a priorizar o retorno às atividades centrais de oncologia, hematologia e radioterapia.

Entre os movimentos anunciados está a alienação da participação no Complexo Hospitalar Uberlândia, operação avaliada em R$ 160 milhões. A companhia também comunicou a venda do Hospital Vila da Serra por R$ 130 milhões, condicionada ao cumprimento das etapas previstas para a transação.

A venda de ativos não essenciais pode reduzir obrigações, liberar recursos e simplificar a estrutura do grupo. O efeito final, contudo, depende do valor efetivamente recebido, das dívidas associadas aos ativos e da capacidade de preservar as receitas dos serviços oncológicos prestados nessas unidades.

O processo de desinvestimento não representa apenas uma redução do tamanho da companhia. Ele marca uma mudança na estratégia que sustentou parte do crescimento após o IPO de 2021.

A prioridade agora é preservar liquidez, concentrar recursos nas operações com maior domínio técnico e reconstruir a capacidade de geração de caixa. A recuperação dependerá menos da abertura de novas unidades e mais da rentabilidade das estruturas existentes.

Negociação com Porto e Fleury terminou sem acordo

A Oncoclínicas também buscou uma solução societária que envolvia a Porto Seguro (PSSA3) e o Fleury (FLRY3). A operação em estudo previa a criação de uma nova empresa que reuniria ativos e atividades do grupo, com aportes e instrumentos financeiros destinados a reorganizar parte do passivo.

As negociações foram encerradas em abril, depois que as partes decidiram não renovar o período de exclusividade previsto no acordo preliminar. Com o fim das tratativas, a Oncoclínicas informou que continuaria avaliando propostas financeiras e societárias capazes de enfrentar sua situação econômico-financeira.

Na mesma fase, a empresa recorreu à Justiça com um pedido de tutela cautelar para suspender os efeitos de cláusulas que poderiam provocar o vencimento antecipado das dívidas e interromper temporariamente a cobrança de determinadas obrigações financeiras.

A medida buscava criar um período de estabilidade para a negociação com credores. Posteriormente, a companhia avançou para a recuperação extrajudicial, instrumento mais amplo para reorganizar o passivo.

O encerramento das conversas com Porto e Fleury reduziu a possibilidade de uma solução estratégica imediata com dois grupos consolidados do setor de saúde. Ao mesmo tempo, deixou a companhia mais dependente de um acordo direto com bancos, debenturistas, detentores de recebíveis e outros credores financeiros.

Saída do Safra reduz referências para o mercado

A descontinuidade da cobertura não muda os contratos, a operação ou o processo de recuperação da Oncoclínicas. Seu efeito direto está na redução da quantidade de análises independentes disponíveis aos investidores.

Relatórios de bancos normalmente reúnem projeções de desempenho, estimativas de fluxo de caixa, cenários de endividamento e avaliações sobre riscos. Quando uma instituição deixa de acompanhar uma companhia, o mercado perde uma dessas referências, ainda que outros bancos e corretoras mantenham suas próprias equipes de análise.

Em empresas submetidas a uma reestruturação financeira, a falta de consenso pode aumentar a volatilidade. Pequenas mudanças na expectativa de recuperação dos credores, no risco de diluição ou na operação podem provocar oscilações expressivas na cotação.

O antigo preço-alvo de R$ 2 não incorpora necessariamente os termos que serão negociados na recuperação extrajudicial. Também não considera eventuais novas emissões de ações, conversões de dívida ou alterações na estrutura de capital que ainda não foram definidas.

Por isso, a aparente valorização potencial de 244,83% não pode ser tratada como promessa de retorno. O valor econômico de ONCO3 dependerá de quanto da empresa permanecerá com os atuais acionistas depois da reestruturação e de qual capacidade de geração de caixa restará após o novo acordo financeiro.

Balanço do segundo trimestre testará continuidade operacional

A Oncoclínicas programou a divulgação dos resultados do segundo trimestre para 12 de agosto, com teleconferência no dia seguinte. O balanço será o primeiro a permitir uma avaliação mais ampla da operação após a intensificação das negociações com credores e o avanço do processo de recuperação extrajudicial.

Os investidores deverão observar a posição de caixa, o volume de procedimentos, a disponibilidade de medicamentos, o comportamento dos recebíveis e a evolução dos pagamentos a fornecedores. A geração operacional será determinante para medir se a companhia conseguiu reduzir o consumo de recursos registrado no início do ano.

A demonstração financeira também deverá atualizar o efeito das provisões de crédito, o custo da dívida e os impactos dos desinvestimentos. Outro ponto será a capacidade de manter o atendimento sem novas restrições provocadas pelo capital de giro.

No campo financeiro, a adesão dos credores ao plano permanece como a variável mais imediata. A companhia precisa alcançar o percentual necessário dentro do prazo legal para ampliar a abrangência da recuperação e consolidar novas condições de pagamento.

A saída do Safra da cobertura ocorre, portanto, em um momento no qual ONCO3 deixou de ser apenas uma tese de recuperação operacional. A ação passou a depender diretamente de uma reorganização financeira capaz de preservar o negócio, reduzir o passivo e definir quanto do valor futuro da Oncoclínicas continuará pertencendo aos atuais acionistas.

Tags: ações ONCO3Banco Safradívida da OncoclínicasMercado FinanceiromercadosONCO3Oncoclínicasrecuperação extrajudicialsetor de saúde

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