O mercado financeiro reduziu pela sexta semana consecutiva a projeção para a inflação brasileira em 2026. A mediana das estimativas para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,03% para 5,02%, segundo o Relatório Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira, 10 de agosto.
A revisão é pequena, de apenas 0,01 ponto percentual em relação à semana anterior, mas prolonga o movimento de melhora das expectativas iniciado nas últimas semanas. Apesar da trajetória descendente, a projeção permanece distante do centro da meta de inflação, de 3%, e acima do limite superior de 4,5% estabelecido no regime de metas.
A pesquisa também mostrou estabilidade na expectativa para a taxa Selic ao fim de 2026, em 13,75% ao ano. Como o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros para 14% na última quarta-feira, 5, a mediana do Focus indica que o mercado espera, atualmente, apenas mais 0,25 ponto percentual de flexibilização monetária até dezembro.
Ao mesmo tempo, os economistas fizeram nova revisão para baixo da atividade econômica. A projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2026 caiu de 1,99% para 1,98%, enquanto a estimativa para 2027 sofreu redução mais acentuada, de 1,57% para 1,52%.
IPCA de 2026 cai pela sexta semana consecutiva
O movimento mais consistente do Focus está nas expectativas de inflação. No relatório anterior, com informações coletadas até 31 de julho, a mediana para o IPCA de 2026 havia recuado de 5,12% para 5,03%, completando cinco semanas consecutivas de queda.
A nova redução para 5,02% prolonga a sequência para seis semanas.
A trajetória recente mostra que as estimativas vêm cedendo gradualmente, embora continuem em níveis elevados:
| Indicador | Focus anterior | Focus atual |
|---|---|---|
| IPCA 2026 | 5,03% | 5,02% |
| IPCA 2027 | 4,22% | 4,22% |
| IPCA 2028 | 3,80% | 3,80% |
| IPCA 2029 | 3,50% | 3,50% |
Fonte: Banco Central. Elaboração: Gazeta Mercantil.
Para os horizontes mais longos, não houve alteração nesta semana. A projeção para 2027 permaneceu em 4,22%, enquanto as estimativas para 2028 e 2029 continuaram em 3,80% e 3,50%, respectivamente.
O quadro mostra uma expectativa de desinflação ao longo dos próximos anos, mas também revela que as projeções permanecem acima do centro da meta de 3% em todo o horizonte considerado pelo relatório.
Projeção de 5,02% ainda supera limite de 4,5%
Desde janeiro de 2025, o Brasil opera sob o sistema de meta contínua de inflação. O Conselho Monetário Nacional (CMN) estabeleceu meta de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Isso corresponde a uma faixa entre 1,5% e 4,5%.
Tecnicamente, portanto, a mediana de 5,02% projetada pelo Focus para o IPCA ao final de 2026 está 0,52 ponto percentual acima do limite superior da faixa de tolerância e 2,02 pontos percentuais acima do centro da meta.
Há, porém, uma distinção importante em relação ao antigo sistema de metas anuais. O cumprimento da meta não é mais avaliado exclusivamente pela inflação acumulada no ano-calendário. Desde 2025, o Banco Central considera a inflação acumulada em 12 meses, apurada continuamente.
A meta é considerada descumprida quando a inflação acumulada em 12 meses permanece fora da faixa de tolerância durante seis meses consecutivos.
Dessa forma, a projeção de 5,02% para dezembro é um indicador relevante da percepção do mercado sobre a inflação, mas não equivale isoladamente a uma declaração antecipada de descumprimento formal da meta.
Focus prevê Selic de 13,75% no fim de 2026
A expectativa para os juros também ganhou importância depois da decisão mais recente do Copom.
Na quarta-feira, 5 de agosto, o Banco Central reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano. Foi a terceira redução consecutiva realizada pelo Comitê em 2026.
No Focus anterior, divulgado antes dessa decisão, a mediana das instituições financeiras já havia caído de 14% para 13,75% para o encerramento do ano.
Nesta semana, a projeção permaneceu inalterada em 13,75%.
Com a Selic efetiva agora em 14%, o cenário implícito nas expectativas passou a representar espaço para apenas mais 0,25 ponto percentual de redução até dezembro, caso a mediana da pesquisa se confirme.
| Ano | Selic esperada no fim do período |
|---|---|
| 2026 | 13,75% |
| 2027 | 12,00% |
| 2028 | 10,50% |
| 2029 | 10,00% |
Fonte: Banco Central. Elaboração: Gazeta Mercantil.
Para 2027, a previsão permaneceu em 12%. As medianas para 2028 e 2029 também não foram modificadas, em 10,50% e 10%, respectivamente.
A diferença entre a Selic atual de 14% e os 12% projetados para o final de 2027 sugere que os agentes continuam esperando um ciclo gradual de flexibilização monetária, sem retorno rápido dos juros aos níveis observados antes do período de maior aperto.
Copom projeta inflação de 5,1% em 2026
O próprio Banco Central trabalha atualmente com uma projeção de inflação ligeiramente superior à mediana do mercado.
No comunicado da reunião de agosto, em que reduziu a Selic para 14%, o Copom apresentou projeção de 5,1% para o IPCA de 2026 em seu cenário de referência. Para 2027, a estimativa do Comitê ficou em 3,8%.
A comparação mostra que mercado e autoridade monetária enxergam inflação ainda elevada em 2026, embora exista diferença marginal entre as estimativas.
Enquanto a mediana do Focus caiu para 5,02%, a projeção do Copom está em 5,1%. Em ambos os casos, os números continuam superiores ao teto de 4,5% da faixa de tolerância em torno da meta.
Esse quadro ajuda a explicar a cautela observada nas expectativas para a Selic. Mesmo após a redução dos juros para 14%, os agentes não projetam, por enquanto, um processo acelerado de cortes até dezembro.
Mercado reduz previsão para o PIB
Além da inflação, o Focus desta semana trouxe deterioração nas expectativas para o crescimento econômico.
Para 2026, a projeção de expansão do PIB passou de 1,99% para 1,98%. A alteração é pequena, mas interrompe a estabilidade observada nas últimas edições.
A mudança mais significativa ocorreu em 2027. A mediana caiu de 1,57% para 1,52%, uma redução de 0,05 ponto percentual em apenas uma semana.
Para 2028 e 2029, as instituições mantiveram previsão de crescimento de 2% ao ano.
| Ano | PIB projetado |
|---|---|
| 2026 | 1,98% |
| 2027 | 1,52% |
| 2028 | 2,00% |
| 2029 | 2,00% |
Fonte: Banco Central. Elaboração: Gazeta Mercantil.
A combinação de redução das expectativas de inflação com menor crescimento esperado é particularmente relevante para a política monetária. Uma desaceleração mais pronunciada da atividade tende, em condições normais, a reduzir pressões sobre preços e demanda, mas a decisão do Banco Central depende também da inflação corrente, das expectativas, do mercado de trabalho, da política fiscal e das condições internacionais.
Dólar permanece projetado em R$ 5,20
No mercado de câmbio, houve estabilidade nas principais projeções.
A expectativa para o dólar ao final de 2026 permaneceu em R$ 5,20. Para 2027, a mediana continuou em R$ 5,28, enquanto a estimativa para 2028 ficou novamente em R$ 5,30.
A única alteração ocorreu no horizonte mais distante. Para o fim de 2029, a projeção recuou de R$ 5,39 para R$ 5,37.
| Ano | Dólar projetado |
|---|---|
| 2026 | R$ 5,20 |
| 2027 | R$ 5,28 |
| 2028 | R$ 5,30 |
| 2029 | R$ 5,37 |
Fonte: Banco Central. Elaboração: Gazeta Mercantil.
A estabilidade da projeção cambial de curto prazo é outro componente relevante para as expectativas de inflação, uma vez que oscilações persistentes do real podem ser transmitidas aos preços domésticos por meio de combustíveis, alimentos, insumos industriais e produtos importados.
Focus mostra melhora gradual, mas expectativas continuam desancoradas
A sexta redução consecutiva da projeção do IPCA representa uma mudança favorável na direção das expectativas, mas ainda não significa que o problema inflacionário esteja resolvido.
Há quatro semanas, o Focus apontava expectativa de inflação de aproximadamente 5,30% para 2026. No relatório de 31 de julho, a estimativa já havia caído para 5,03%, e nesta semana chegou a 5,02%.
A redução acumulada é relevante, mas o nível continua elevado quando comparado à meta de 3%.
O comportamento dos horizontes seguintes também merece atenção. A projeção de 4,22% para 2027 está dentro da faixa de tolerância, porém permanece 1,22 ponto percentual acima do centro da meta. Para 2028, a diferença ainda é de 0,80 ponto percentual.
Somente em 2029 a mediana de 3,50% se aproxima mais claramente do objetivo perseguido pelo Banco Central, embora ainda permaneça meio ponto percentual acima dele.
Esse afastamento persistente entre as expectativas e a meta é um dos fatores considerados pelo Copom na calibragem dos juros.
O que o Focus sinaliza para os próximos meses
O relatório desta segunda-feira deixa três sinais principais para a economia brasileira.
O primeiro é que o processo de revisão das expectativas de inflação continua. A sexta queda consecutiva do IPCA projetado reforça a percepção de que o pico das revisões para cima pode ter ficado para trás, embora 5,02% ainda seja um patamar elevado.
O segundo está na política monetária. Com a Selic efetiva em 14% e o mercado esperando 13,75% em dezembro, as instituições não estão projetando uma sequência extensa de cortes de juros no restante de 2026.
O terceiro aparece na atividade econômica. A redução das projeções do PIB tanto para 2026 quanto, principalmente, para 2027 sugere expectativa de crescimento mais moderado, cenário que pode influenciar a trajetória da inflação e as próximas decisões do Banco Central.
O Focus, no entanto, não representa uma previsão do próprio Banco Central. O relatório consolida as medianas das estimativas enviadas por bancos, gestores de recursos, corretoras, consultorias, empresas do setor real e outras instituições participantes do Sistema Expectativas de Mercado.
As projeções podem mudar semanalmente à medida que novos dados de inflação, atividade, emprego, câmbio, contas públicas e cenário internacional sejam incorporados aos modelos dos participantes.









