O Brasil pode registrar deflação em agosto de 2026, com queda média dos preços ao consumidor pela primeira vez em um ano. O movimento, porém, não significa que o custo de vida esteja prestes a cair de forma generalizada nem que o problema da inflação esteja resolvido.
A mediana das projeções do mercado financeiro reunidas pelo Banco Central aponta queda de 0,17% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em agosto. Se a estimativa for confirmada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), será a primeira variação mensal negativa desde agosto de 2025.
Ao mesmo tempo, os economistas consultados pelo Banco Central esperam que o IPCA encerre 2026 em 5,02%. O percentual está acima do limite superior de 4,5% do intervalo de tolerância em torno da meta contínua de inflação de 3%.
Para 2027, a projeção está em 4,24%.
A aparente contradição entre uma deflação mensal e uma inflação anual ainda elevada tem explicação: boa parte da queda esperada para agosto deverá decorrer de fatores temporários, especialmente o desconto extraordinário concedido na conta de energia elétrica.
Além disso, inflação negativa em um mês não significa que todos os produtos e serviços estejam ficando mais baratos.
Por que o Brasil pode ter deflação em agosto?
O principal fator por trás da expectativa de IPCA negativo está na energia elétrica residencial.
Em agosto, consumidores elegíveis recebem o Bônus de Itaipu, proveniente da distribuição de recursos relacionados à comercialização de energia da usina hidrelétrica.
O benefício alcança potencialmente cerca de 83,8 milhões de unidades consumidoras residenciais e rurais, desde que tenham registrado consumo faturado inferior a 350 kWh em pelo menos um mês de 2025.
O bônus totaliza aproximadamente R$ 872,1 milhões e aparece como desconto nas contas de energia de agosto.
O efeito tende a produzir uma redução relevante no componente de energia elétrica do IPCA.
A FGV IBRE calcula que, dependendo da localidade, o desconto possa provocar redução de aproximadamente 5,77% a 8,55% na conta de energia no mês.
O movimento ocorre justamente depois de a eletricidade residencial ter sido uma das maiores pressões sobre a inflação em julho.
No mês passado, a energia elétrica subiu 3,09% e respondeu sozinha por aproximadamente 0,13 ponto percentual do IPCA.
Conta de luz pode cair agora e subir novamente
O desconto de agosto não representa uma redução permanente das tarifas de energia.
A bandeira tarifária permanece amarela, o que significa cobrança adicional de R$ 1,885 para cada 100 kWh consumidos.
Assim, a queda esperada neste mês está ligada principalmente ao Bônus de Itaipu, um evento extraordinário.
Quando esse desconto deixar de aparecer nas faturas, o componente de energia elétrica poderá exercer pressão contrária sobre o IPCA.
Por isso, parte do efeito de agosto poderá ser devolvida estatisticamente nos meses seguintes.
A própria trajetória esperada pelo mercado mostra essa possibilidade.
Para agosto, a projeção é de:
-0,17%
Para setembro:
+0,51%
E para outubro:
+0,33%
Ou seja, o mercado espera que a inflação volte ao terreno positivo imediatamente após a possível deflação de agosto.
Alimentos também podem ajudar a conter inflação
A trajetória recente dos alimentos também pode contribuir para um IPCA mais baixo em agosto.
Em julho, o grupo Alimentação e bebidas caiu 0,67%, produzindo impacto negativo de 0,14 ponto percentual sobre a inflação oficial.
A alimentação consumida dentro de casa teve redução ainda maior, de 1,14%.
Alguns produtos registraram quedas expressivas.
O tomate ficou 29,09% mais barato em julho.
A batata-inglesa caiu 19,59%.
A cenoura teve redução de 14,41%.
O café moído recuou 2,45%.
A maior oferta de determinados produtos agrícolas contribuiu para esse movimento.
Isso não significa, entretanto, que os alimentos necessariamente continuarão caindo na mesma intensidade durante agosto. Produtos agrícolas estão sujeitos a fortes oscilações provocadas por safra, clima, custos de transporte, câmbio e condições de oferta.
Gasolina também ajudou a segurar o IPCA
Os combustíveis foram outro fator de alívio recente.
A gasolina caiu 1,37% em julho e retirou aproximadamente 0,07 ponto percentual do IPCA daquele mês.
A redução dos combustíveis pode produzir efeitos que vão além do próprio abastecimento dos veículos.
Gasolina e diesel influenciam custos de transporte, logística e distribuição de mercadorias. Quando os preços permanecem mais baixos por períodos prolongados, podem ajudar a reduzir pressões indiretas sobre outros produtos.
A trajetória futura, porém, continua condicionada ao comportamento do petróleo internacional, do câmbio e da política de preços dos combustíveis.
Inflação de julho já ficou perto de zero
A possível deflação de agosto vem depois de uma forte desaceleração do IPCA.
A inflação oficial foi de apenas 0,07% em julho, depois de 0,16% em junho.
No acumulado entre janeiro e julho, o índice chegou a 3,44%.
Em 12 meses, desacelerou para 4,44%, ficando dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual em torno da meta contínua de 3%.
Apesar da melhora recente, a inflação projetada para o fechamento de 2026 permanece em 5,02%.
A Gazeta Mercantil calculou que, partindo dos 3,44% acumulados até julho, seria necessário um aumento de aproximadamente 1,53% entre agosto e dezembro para que o IPCA termine o ano no nível atualmente projetado pelo mercado.
Portanto, mesmo com uma deflação em agosto, ainda há espaço para aceleração relevante nos meses seguintes.
Como o Brasil pode ter deflação e inflação de 5,02% no mesmo ano?
A resposta está na forma como a inflação é calculada.
O IPCA de um determinado mês mede apenas a variação média dos preços naquele período.
Já o índice anual acumula os resultados de todos os meses.
Um mês negativo não apaga os aumentos registrados anteriormente.
Imagine um produto que custa R$ 100.
Depois de uma alta de 10%, o preço passa para R$ 110.
Se posteriormente ocorrer uma queda de 1%, o preço diminui para R$ 108,90.
Embora tenha ocorrido deflação no segundo período, o produto continua 8,9% mais caro do que no início.
É por isso que consumidores podem ouvir que houve deflação e ainda perceber preços elevados no supermercado, no aluguel ou nos serviços.
Deflação não significa que tudo ficou mais barato
Outro ponto importante é que o IPCA representa uma média ponderada de centenas de produtos e serviços.
Alguns preços podem cair fortemente enquanto outros continuam subindo.
É possível, por exemplo, que energia e alimentos apresentem redução suficiente para levar o índice geral ao terreno negativo, mesmo com aumentos em:
aluguéis;
mensalidades escolares;
planos de saúde;
restaurantes;
serviços pessoais;
medicamentos;
e outros componentes do orçamento familiar.
Cada família também possui uma inflação diferente.
Quem gasta proporcionalmente mais com energia e alimentos poderá perceber um alívio maior em agosto.
Já famílias com peso elevado de aluguel, educação ou serviços podem sentir uma redução muito menor no custo mensal.
Setembro pode devolver parte da queda
A projeção de 0,51% para setembro é uma das evidências de que o mercado não enxerga a deflação de agosto como início de uma queda persistente dos preços.
Uma das razões é justamente a natureza temporária do Bônus de Itaipu.
Quando o desconto deixa de existir, a base da conta de energia retorna a um patamar mais elevado.
Esse efeito pode empurrar novamente o IPCA para cima.
Para outubro, o mercado espera alta adicional de 0,33%.
Considerando as projeções de -0,17% em agosto, +0,51% em setembro e +0,33% em outubro, a Gazeta Mercantil calcula que novembro e dezembro ainda precisariam acumular inflação próxima de 0,85% para que o IPCA alcance os 5,02% esperados para 2026.
Selic continua em 14% mesmo com inflação mais baixa
A possível deflação de agosto também não significa uma queda imediata e acentuada dos juros.
A taxa Selic está em 14% ao ano.
O mercado financeiro espera que ela termine 2026 em 13,75%.
Para o fim de 2027, a projeção está em 12% ao ano.
A diferença mostra que os economistas ainda trabalham com um cenário de juros elevados por um período prolongado.
O Banco Central não define a Selic olhando apenas para o resultado do IPCA de um único mês.
A autoridade monetária considera principalmente a inflação esperada para os próximos trimestres, o comportamento dos serviços, os núcleos de inflação, o mercado de trabalho, a atividade econômica, o câmbio, as expectativas e os riscos fiscais.
Por isso, uma deflação provocada em grande parte por um desconto temporário na energia tende a produzir efeito limitado sobre a condução estrutural da política monetária.
Juros altos continuam pesando no bolso
A manutenção da Selic em patamar elevado tem efeitos diretos sobre famílias e empresas.
Empréstimos ficam mais caros.
Financiamentos de veículos e imóveis tendem a carregar taxas maiores.
Empresas pagam mais para financiar estoques e investimentos.
Consumidores endividados destinam parcela maior da renda ao pagamento de juros.
Ao mesmo tempo, aplicações de renda fixa continuam oferecendo remuneração elevada.
Esse é justamente um dos canais utilizados pelo Banco Central para combater a inflação: juros altos restringem crédito e consumo, reduzindo a pressão da demanda sobre os preços.
O custo desse mecanismo aparece também sobre a atividade econômica.
O mercado espera crescimento do Produto Interno Bruto de 1,98% em 2026.
Para 2027, a projeção está em apenas 1,50%.
Primeira deflação em um ano
Caso o IPCA de agosto realmente fique negativo, será a primeira deflação mensal desde agosto de 2025.
Naquela ocasião, o índice caiu 0,11%.
O retorno ao terreno negativo após um ano tende a produzir uma manchete positiva para o consumidor, especialmente se alimentos e energia continuarem contribuindo para a desaceleração.
Mas o dado isolado precisa ser interpretado com cautela.
A inflação acumulada de 2026 continuará positiva.
Diversos serviços permanecem pressionados.
A expectativa do mercado para o ano continua acima do limite superior do intervalo da meta.
E as projeções já apontam para nova aceleração do IPCA em setembro.
Assim, duas afirmações aparentemente contraditórias podem ser verdadeiras ao mesmo tempo:
o Brasil pode registrar deflação em agosto e terminar 2026 com inflação acima da meta.
Para o consumidor, agosto pode representar algum alívio imediato, principalmente na conta de energia e em determinados alimentos.
Para o Banco Central, entretanto, o resultado terá de ser analisado junto com a composição do índice e as projeções para os meses seguintes.
A diferença é fundamental: um mês de preços em queda pode ajudar o orçamento das famílias, mas ainda está longe de significar que a inflação brasileira foi definitivamente controlada.
Fontes:
Banco Central do Brasil — Relatório Focus com expectativas de mercado coletadas até 14 de agosto de 2026.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo de julho de 2026.
Agência Nacional de Energia Elétrica — informações sobre bandeira tarifária e Bônus de Itaipu nas faturas de agosto de 2026.
FGV IBRE — análise do impacto do Bônus de Itaipu sobre as tarifas residenciais de energia elétrica.









