O Itaú BBA rebaixou a recomendação das ações preferenciais da Gerdau (GGBR4) de outperform, equivalente a uma indicação de desempenho acima da média do mercado, para market perform, classificação comparável a neutra. A mudança ocorre depois de uma valorização de aproximadamente 33% dos papéis desde o fim de março, movimento que, na avaliação do banco, absorveu parte importante do potencial que anteriormente justificava uma postura mais otimista em relação à siderúrgica.
Apesar do rebaixamento, o Itaú BBA elevou o preço-alvo de GGBR4 para o fim de 2027, de R$ 27 para R$ 29 por ação. A combinação entre uma recomendação menos agressiva e um valor justo maior mostra que a revisão não decorre de uma piora das expectativas para a operação da Gerdau. O ponto central passou a ser o preço: depois do rali das ações, a diferença entre a cotação de mercado e o valor estimado pelos analistas ficou menor, reduzindo a margem para ganhos adicionais.
A avaliação coincide com um período de recuperação dos resultados da companhia. No segundo trimestre de 2026, a Gerdau apresentou Ebitda ajustado de R$ 3,43 bilhões, crescimento de 15,9% sobre os três primeiros meses do ano e de 33,9% na comparação anual. A margem Ebitda ajustada avançou para 19,2%, ante 17,7% no primeiro trimestre e 14,6% no mesmo período de 2025, enquanto o lucro líquido ajustado alcançou R$ 1,47 bilhão.
O contraste entre a melhora operacional e o rebaixamento da recomendação é explicado pelo valuation. Na avaliação do Itaú BBA, a tese fundamentalista continua apresentando elementos favoráveis, mas uma parcela maior desses fatores já passou a estar refletida no preço das ações. O banco elevou suas projeções de Ebitda para 2026 e 2027 entre 4% e 5%, deixando as estimativas acima do consenso, mas considera que a relação entre risco e retorno deixou de ter a mesma atratividade observada há alguns meses.
América do Norte concentra a força dos resultados
A principal razão para a melhora operacional da Gerdau está na América do Norte. A região voltou a apresentar crescimento significativo no segundo trimestre, sustentada por maior utilização da capacidade produtiva, recuperação dos preços realizados, mudança favorável no mix de produtos e demanda consistente em segmentos considerados estratégicos pela companhia.
O Ebitda ajustado das operações norte-americanas chegou a aproximadamente R$ 2,6 bilhões no segundo trimestre, expansão de 15,4% em relação aos três primeiros meses de 2026 e de 59% na comparação com o mesmo período do ano passado. A margem Ebitda alcançou 25,7%, diante de 24,1% no primeiro trimestre e 17,9% um ano antes, evidenciando a diferença de rentabilidade entre a região e a operação brasileira.
Os embarques de aço na América do Norte cresceram 5,5% na comparação trimestral e 7,3% em relação ao segundo trimestre de 2025. Nos aços longos comuns, a carteira de pedidos permaneceu acima de 100 dias, maior nível desde 2021, contribuindo para que a Gerdau registrasse seu maior volume trimestral de embarques desde a configuração de sua atual estrutura industrial.
A própria administração da companhia atribuiu parte do desempenho ao ambiente favorável de demanda em setores como energia renovável, data centers e indústria de transformação. A Gerdau também destacou produtividade e elevada utilização dos ativos como fatores que ajudaram a ampliar a rentabilidade das operações norte-americanas durante o trimestre.
Data centers e energia mudam o perfil da demanda
O comportamento da América do Norte não está ligado apenas à recuperação dos preços do aço. A composição dos clientes atendidos pela Gerdau vem mudando, com aumento da participação de atividades ligadas à construção não residencial, infraestrutura energética e expansão de data centers, segmentos que ganharam relevância no mercado norte-americano nos últimos anos.
Na avaliação apresentada pelo Itaú BBA, data centers e energia solar já respondem juntos por cerca de 12% dos embarques da companhia na região, participação que era praticamente inexistente há alguns anos. Essa mudança ajuda a diversificar a carteira e aumenta a presença da Gerdau em projetos que demandam volumes significativos de aço estrutural e soluções de maior valor agregado.
A proteção comercial dos Estados Unidos também permanece como componente importante do cenário. Segundo a própria Gerdau, os ajustes nas tarifas da Seção 232, implementados a partir do segundo trimestre de 2025, contribuíram para criar condições mais favoráveis aos produtores locais. A combinação entre menor pressão das importações, utilização elevada das usinas e demanda resiliente permitiu uma recuperação expressiva da rentabilidade norte-americana.
O Itaú BBA elevou suas premissas para a região e passou a projetar margem Ebitda de aproximadamente 21% em 2027. A estimativa considera alguma normalização futura dos preços do aço, o que significa que o banco não está simplesmente extrapolando para os próximos anos as margens excepcionalmente elevadas observadas no segundo trimestre.
Brasil apresenta recuperação mais lenta
No Brasil, a trajetória é diferente. Embora a Gerdau tenha conseguido melhorar os resultados na comparação com o primeiro trimestre, o ambiente doméstico continua sendo mais desafiador devido à demanda moderada, à competição entre produtores locais e à presença ainda elevada de produtos importados no mercado brasileiro.
Os embarques da operação brasileira atingiram 1,35 milhão de toneladas no segundo trimestre, avanço de 2,1% em relação ao trimestre anterior. As vendas para o mercado doméstico cresceram 7,5%, alcançando 1,11 milhão de toneladas, enquanto a produção de aço bruto aumentou 6,2%, para 1,56 milhão de toneladas. O maior nível de utilização das unidades industriais também contribuiu para diluir custos fixos.
O Ebitda ajustado do segmento Brasil alcançou aproximadamente R$ 705 milhões, crescimento de 22% sobre o primeiro trimestre. A margem passou de 9,2% para 10,5%. Apesar da melhora sequencial, o resultado ainda ficou abaixo do observado um ano antes: o Ebitda recuou 19,6% na comparação anual, enquanto a margem havia sido de 12% no segundo trimestre de 2025.
A diferença mostra por que o mercado brasileiro continua sendo tratado com maior cautela. A recuperação existe, mas parte de uma base de rentabilidade deprimida e ocorre em um contexto no qual a siderurgia doméstica ainda enfrenta limitações para recompor preços com a mesma intensidade observada na América do Norte.
Importações continuam pressionando siderúrgicas
Um dos principais problemas permanece na concorrência do aço estrangeiro. De acordo com os dados apresentados pela Gerdau, as importações brasileiras de aço diminuíram mais de 30% no segundo trimestre em relação aos três primeiros meses do ano e também caíram frente ao mesmo período de 2025. Foi a primeira retração desse fluxo desde 2022, com movimento particularmente perceptível no segmento de produtos planos.
A melhora, entretanto, ainda não eliminou a pressão competitiva. A taxa média de penetração das importações permaneceu em 22,5% do consumo aparente de aço no primeiro semestre de 2026, patamar considerado elevado pela companhia. A própria Gerdau afirmou que a demanda por aço permaneceu moderada durante o trimestre, com relativa estabilidade na construção civil e maior pressão sobre determinados setores industriais.
Nesse ambiente, medidas de defesa comercial passaram a ganhar peso crescente para as siderúrgicas. Em fevereiro de 2026, o governo brasileiro aplicou direitos antidumping definitivos, por até cinco anos, sobre importações chinesas de determinadas categorias de laminados planos a frio e laminados planos revestidos, após investigações conduzidas pelas autoridades de comércio exterior.
Existe ainda uma investigação envolvendo produtos laminados planos a quente originários da China, iniciada em junho de 2025. Para a Gerdau, uma eventual decisão que amplie a proteção nesse segmento pode ser particularmente relevante diante dos investimentos realizados em Ouro Branco e da estratégia de aumentar a exposição da companhia a produtos planos no mercado brasileiro.
Miguel Burnier entra na fase decisiva
A recuperação da rentabilidade no Brasil também depende de projetos estruturais que a Gerdau vem executando para reduzir custos. Um dos mais importantes é a plataforma de mineração sustentável de Miguel Burnier, em Minas Gerais, destinada a aumentar a disponibilidade de minério de ferro para as operações siderúrgicas da companhia.
No balanço do segundo trimestre, a empresa informou que avançava na conclusão da fase de testes integrados de Miguel Burnier e mantinha a previsão de início das operações no terceiro trimestre de 2026. O projeto tem importância estratégica porque pode ampliar o abastecimento próprio de minério e reduzir custos na operação de Ouro Branco, fortalecendo a competitividade dos ativos brasileiros.
A Gerdau também informou que o projeto de processamento de sucata em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, encerrou o trimestre com 90% de avanço físico, igualmente com expectativa de entrada em operação no terceiro trimestre. Os dois investimentos fazem parte de uma estratégia mais ampla para elevar produtividade e reduzir custos estruturais no País.
A companhia investiu aproximadamente R$ 1 bilhão em Capex no segundo trimestre, dos quais 56% foram direcionados a competitividade e 44% a manutenção. Cerca de 80% dos investimentos realizados no período foram destinados às operações brasileiras, o que mostra a prioridade dada à modernização da estrutura industrial no País.
Antidumping pode melhorar ambiente competitivo
Para o Itaú BBA, a defesa comercial permanece entre os possíveis vetores positivos ainda não integralmente capturados pela tese. Uma decisão favorável na investigação envolvendo laminados a quente poderia limitar a competição de determinados produtos chineses e criar condições melhores para recuperação dos preços domésticos.
O cenário também poderia ser favorecido por uma retomada mais forte do consumo brasileiro ou por uma desvalorização do real. Um câmbio mais depreciado tende a tornar importações menos competitivas e, ao mesmo tempo, aumenta em reais a contribuição financeira das operações internacionais da Gerdau, especialmente aquelas localizadas na América do Norte.
Há, entretanto, riscos relevantes. Uma desaceleração da economia dos Estados Unidos poderia reduzir a demanda dos setores que atualmente sustentam a carteira da companhia, enquanto uma queda mais intensa dos preços internacionais do aço afetaria spreads e margens. No Brasil, a continuidade de uma demanda fraca poderia limitar o efeito dos ganhos de produtividade e dos investimentos em redução de custos.
Essa combinação ajuda a explicar a postura do Itaú BBA. O banco não abandonou a tese de melhora operacional da Gerdau, mas passou a avaliar que o preço atual exige resultados progressivamente mais fortes para sustentar uma valorização semelhante à observada desde março.
Valuation passa a pesar sobre GGBR4
Pelas premissas atribuídas ao relatório, a Gerdau negocia ao redor de 4 vezes o valor da empresa sobre o Ebitda projetado para 2027, enquanto o rendimento estimado do fluxo de caixa livre se aproxima de 9%. Os múltiplos continuam compatíveis com uma companhia geradora de caixa, mas oferecem uma margem menor depois da valorização acumulada das ações.
O próprio histórico recente ajuda a colocar a mudança em perspectiva. No início de junho, o radar de preferências do Itaú BBA ainda apresentava GGBR4 com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 27. A valorização posterior, somada à revisão das projeções operacionais, deslocou o debate: a questão deixou de ser apenas se os resultados da Gerdau estavam melhorando e passou a ser quanto dessa recuperação já havia sido antecipada pelo mercado.
Por isso, o novo preço-alvo de R$ 29 para o fim de 2027 não contradiz o corte da recomendação. O banco continua projetando crescimento dos resultados e identifica vetores capazes de sustentar a geração de caixa, mas considera que a relação entre ganho potencial e riscos existentes ficou mais equilibrada.
Para os próximos trimestres, a atenção dos investidores deverá permanecer dividida entre dois cenários. Na América do Norte, o principal teste será verificar se a carteira superior a 100 dias e as margens elevadas conseguem resistir a uma eventual normalização do mercado. No Brasil, o foco estará na entrada em operação dos projetos de competitividade, na evolução das importações e nas decisões de defesa comercial capazes de alterar o equilíbrio do setor.
A Gerdau chega a essa etapa com números operacionais mais fortes do que no início do ano, menor alavancagem e uma contribuição crescente das operações norte-americanas. Para GGBR4, contudo, a melhora dos fundamentos agora precisa ser analisada ao lado de uma ação que já percorreu uma parcela relevante do caminho antecipado pelos analistas.









