O Banco Central passou a incluir de maneira mais concreta a internacionalização do Pix entre as frentes de desenvolvimento do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. A autoridade monetária avalia conectar a infraestrutura nacional a sistemas equivalentes de outros países, movimento que, se avançar, poderá permitir remessas internacionais e pagamentos de compras com liquidação em moeda local em poucos segundos.
A iniciativa aparece na segunda edição do Relatório de Gestão do Pix, documento que reúne a evolução do sistema entre 2023 e 2025 e apresenta os projetos considerados para os próximos anos. Pela primeira vez, a inserção internacional ganhou uma seção específica dentro da agenda futura do Pix, com dois modelos em discussão: ligações diretas entre o Brasil e determinadas jurisdições ou a participação brasileira em estruturas multilaterais capazes de conectar simultaneamente diferentes sistemas nacionais de pagamentos instantâneos.
Isso não significa, entretanto, que um “Pix Internacional” esteja prestes a ser lançado ou que já exista uma data para brasileiros transferirem diretamente reais para uma conta bancária estrangeira utilizando apenas uma chave Pix. O Banco Central descreve a iniciativa como uma possibilidade em avaliação e não estabeleceu cronograma, países prioritários ou arquitetura definitiva para a implementação das conexões.
O avanço é relevante porque ocorre depois de o Pix alcançar uma escala que transformou sua posição dentro do sistema financeiro brasileiro. Em 2025, foram realizadas quase 80 bilhões de transações, crescimento de 25,7% em relação ao ano anterior, enquanto o valor movimentado aumentou 33,8% e ultrapassou R$ 35 trilhões. A dimensão alcançada pelo sistema cria condições para que o debate deixe de se concentrar apenas em pagamentos domésticos e passe a incluir sua possível integração com infraestruturas estrangeiras.
Pix Internacional não seria apenas um Pix feito no exterior
A expressão “Pix Internacional” pode transmitir a impressão de que bastaria utilizar a mesma chave cadastrada no Brasil para enviar dinheiro diretamente a qualquer pessoa ou empresa fora do País. O modelo estudado pelo Banco Central é mais complexo porque envolve a interoperabilidade entre diferentes infraestruturas financeiras, cada uma submetida às regras, instituições, moedas e mecanismos de liquidação de sua própria jurisdição.
Hoje, a infraestrutura do Pix foi desenhada para realizar transações domésticas. Um pagamento feito entre participantes do sistema envolve contas denominadas em reais e liquidação dentro da estrutura brasileira. Para que a operação atravesse uma fronteira de maneira integrada, será necessário definir como o sistema brasileiro se comunicará com a infraestrutura estrangeira, como ocorrerá a conversão cambial e de que forma os recursos serão disponibilizados ao destinatário em sua moeda local.
O Banco Central aponta dois caminhos possíveis para resolver essa questão. O primeiro é a criação de interligações bilaterais, nas quais o Pix seria conectado diretamente ao sistema de pagamentos instantâneos de determinada jurisdição. O segundo consiste na participação em hubs multilaterais, plataformas construídas para permitir que vários sistemas nacionais se comuniquem por meio de padrões comuns.
A diferença é relevante em termos de escala. Uma estratégia baseada exclusivamente em acordos bilaterais exigiria a construção de uma conexão específica para cada novo país integrado. Uma estrutura multilateral, por outro lado, pode funcionar como uma espécie de ponto comum de conexão, reduzindo a necessidade de desenvolver individualmente toda a comunicação entre cada par de sistemas participantes.
Brasileiros já pagam com Pix no exterior, mas operação é diferente
O próprio Banco Central chama atenção para uma distinção importante: já existem estabelecimentos no exterior que permitem a brasileiros iniciar pagamentos utilizando o Pix, mas essas operações não constituem uma integração internacional da infraestrutura administrada pelo BC.
Empresas privadas desenvolveram modelos que permitem o uso do Pix por brasileiros em países como Chile, Argentina, Estados Unidos, Portugal e França. Nessas situações, instituições brasileiras mantêm parcerias com empresas ou instituições financeiras estrangeiras, criando uma experiência na qual o usuário pode visualizar um QR Code e iniciar o pagamento a partir de sua conta no Brasil.
Por trás da tela, entretanto, a operação ocorre em duas etapas. Primeiro, o Pix é realizado instantaneamente e em reais entre a conta do cliente brasileiro e uma instituição localizada no Brasil. Depois disso, a instituição responsável realiza uma remessa internacional pelos mecanismos tradicionais, fora da infraestrutura do Pix, para que o estabelecimento estrangeiro receba o dinheiro em moeda local.
O modelo também pode funcionar no sentido inverso. Um estrangeiro no Brasil pode, por intermédio de determinadas empresas, utilizar o aplicativo de uma instituição de seu país para ler um QR Code Pix. Nesse caso, existe novamente uma cadeia privada responsável por debitar os recursos na moeda de origem, executar a operação cambial e fazer o pagamento em reais ao recebedor brasileiro.
Essas experiências são importantes porque demonstram demanda por uma jornada mais simples de pagamento internacional, mas continuam diferentes da proposta agora estudada pelo Banco Central. A interoperabilidade formal entre sistemas poderia reduzir parte das etapas intermediárias e aproximar a experiência transfronteiriça da velocidade observada atualmente dentro do Brasil.
Conexão pode reduzir custo e tempo das remessas
Uma transferência internacional tradicional pode envolver várias instituições antes que o dinheiro chegue ao destino. Além do banco ou instituição de pagamento utilizado pelo remetente, podem participar bancos correspondentes, prestadores de serviços de câmbio, infraestruturas de liquidação e a instituição financeira responsável por creditar os recursos ao destinatário.
Cada etapa pode adicionar custos, tempo de processamento e complexidade à operação. Dependendo dos países envolvidos, o usuário também pode ter dificuldade para saber previamente quanto será efetivamente recebido depois das tarifas e da conversão cambial.
A avaliação do Banco Central é que a interligação de sistemas nacionais de pagamentos instantâneos tem potencial para reduzir tarifas, aumentar a velocidade, ampliar o acesso e melhorar a transparência das transações transfronteiriças. Em uma arquitetura plenamente integrada, uma remessa poderia ser iniciada em uma jurisdição e disponibilizada em moeda local na outra ponta em poucos segundos.
Esse tipo de desenvolvimento não é uma discussão exclusivamente brasileira. Autoridades monetárias e organismos internacionais vêm estudando formas de conectar sistemas domésticos de pagamentos instantâneos justamente porque as transferências internacionais permanecem, em muitos mercados, mais lentas, caras e complexas do que os pagamentos realizados dentro de cada país.
Câmbio é uma das peças centrais da operação
Mesmo que dois sistemas nacionais consigam trocar mensagens instantaneamente, a operação internacional acrescenta um elemento inexistente na maioria das transações domésticas do Pix: a necessidade de converter moedas.
Um brasileiro que pague uma compra em euros, por exemplo, precisará ter reais debitados de sua conta enquanto o recebedor deverá obter euros. A infraestrutura precisa determinar em que momento a conversão será feita, quem fornecerá a taxa de câmbio, qual será o spread aplicado e qual participante assumirá os riscos envolvidos durante o processo.
A arquitetura também precisa garantir que pagamento e conversão ocorram de forma coordenada, reduzindo o risco de uma das partes da transação ser executada sem que a outra seja concluída. Sistemas internacionais precisam ainda lidar com liquidez em diferentes moedas, horários de funcionamento das infraestruturas envolvidas e responsabilidades de cada participante quando ocorre alguma falha.
Essas questões ajudam a explicar por que a criação de uma conexão internacional é mais complexa do que adicionar uma nova funcionalidade ao aplicativo de um banco. A experiência pode parecer simples para o usuário final, mas depende de uma infraestrutura regulatória e operacional capaz de coordenar participantes submetidos a diferentes jurisdições.
Regras de cada país aumentam complexidade
A integração internacional também exige compatibilizar regras de identificação de clientes, prevenção à lavagem de dinheiro, financiamento ao terrorismo, proteção de dados, tratamento de fraudes e supervisão das instituições participantes.
No ambiente doméstico, o Banco Central consegue estabelecer um conjunto único de regras para os integrantes do Pix e do Sistema de Pagamentos Instantâneos. Uma operação transfronteiriça, por definição, envolve pelo menos duas jurisdições e precisa respeitar as exigências existentes em ambas.
Por essa razão, projetos multilaterais de interoperabilidade de pagamentos costumam envolver não apenas aspectos tecnológicos, mas também padrões comuns de mensagens, governança, câmbio, controles de conformidade e mecanismos para solucionar falhas e disputas entre participantes.
Para o usuário, o objetivo é que toda essa complexidade fique praticamente invisível. A lógica perseguida pelas autoridades é aproximar a experiência internacional daquela já conhecida nos pagamentos instantâneos domésticos: iniciar uma operação de maneira simples, conhecer previamente as condições e ter confirmação rápida de que o dinheiro chegou ao destino.
Escala do Pix mudou o tamanho da discussão
A internacionalização entra no radar em um momento no qual o Pix já ultrapassou a condição de tecnologia emergente no mercado brasileiro. Ao final de dezembro de 2025, 148 milhões de pessoas físicas e 12 milhões de empresas fizeram ou receberam pelo menos uma transação pelo sistema naquele mês.
O Banco Central registrava ainda mais de 920 milhões de chaves Pix, enquanto o recorde diário chegou a 313,3 milhões de transações em 5 de dezembro de 2025. Somente naquele mês, foram processadas aproximadamente 7,8 bilhões de operações e movimentados R$ 3,7 trilhões.
A expansão também elevou a importância operacional da infraestrutura. O Sistema de Pagamentos Instantâneos funciona durante 24 horas por dia, inclusive em fins de semana e feriados, e foi estruturado para processar individualmente as transações em tempo real.
Esse grau de utilização faz com que qualquer projeto de integração internacional precise preservar os padrões de disponibilidade, segurança e velocidade que se tornaram parte da experiência cotidiana do Pix. A internacionalização, portanto, não depende apenas de encontrar parceiros estrangeiros, mas também de garantir que novas conexões não criem riscos para uma infraestrutura que passou a ter papel central no funcionamento da economia brasileira.
Pix terá outras frentes de expansão
A inserção internacional é apenas uma das linhas de desenvolvimento apresentadas pelo Banco Central. A agenda futura inclui iniciativas destinadas a aproximar o Pix de outros serviços financeiros e ampliar os casos de uso da infraestrutura.
Entre os projetos está o desenvolvimento de uma solução que permita utilizar fluxos futuros de recebimentos via Pix como garantia em operações de crédito. A proposta busca permitir que empresas com volume relevante de pagamentos instantâneos utilizem essa previsibilidade financeira para melhorar a qualidade das garantias apresentadas aos credores e, potencialmente, reduzir o custo de financiamento.
O BC também trabalha nos ajustes necessários para integrar o Pix ao chamado split tributário, mecanismo previsto na reforma dos tributos sobre o consumo. Nesse modelo, parte dos tributos incidentes sobre determinadas operações poderá ser separada automaticamente durante o fluxo do pagamento, exigindo integração entre participantes da cadeia financeira e agentes tributários.
Outra frente envolve duplicatas escriturais, com a possibilidade de utilização de QR Code Pix para liquidação desses ativos. A iniciativa pretende aproximar pagamentos, gestão de recebíveis e crédito empresarial, criando novos usos para a infraestrutura além das transferências e compras realizadas diretamente pelos consumidores.
Ainda não há data para o Pix Internacional
Apesar de o tema ter avançado ao ser incorporado formalmente à agenda futura do sistema, o Banco Central não anunciou uma data para o lançamento de um Pix Internacional. Também não foram divulgados países com os quais uma conexão bilateral seria construída primeiro nem definida eventual participação brasileira em um hub multilateral específico.
O estágio atual é de avaliação dos modelos de interoperabilidade e acompanhamento das soluções transfronteiriças que já estão sendo desenvolvidas pelo setor privado. A passagem dessa fase para uma implementação concreta dependerá de decisões regulatórias, negociações com autoridades estrangeiras, definição da arquitetura tecnológica e solução das questões relacionadas a câmbio, segurança e conformidade.
A mudança mais importante, portanto, não é a existência de um Pix capaz de atravessar fronteiras neste momento, mas o fato de que essa possibilidade passou a integrar oficialmente o planejamento para a evolução do sistema. Depois de transformar os pagamentos domésticos e atingir quase 80 bilhões de transações anuais, o próximo desafio estudado pelo Banco Central é descobrir como conectar essa infraestrutura a outras redes sem perder a velocidade e a simplicidade que impulsionaram sua adoção no Brasil.
Fontes:
Banco Central do Brasil — Relatório de Gestão do Pix 2023-2025
Banco Central do Brasil — Pix em números
Banco Central do Brasil — Relatório Anual do Sistema de Pagamentos Instantâneos 2025
Bank for International Settlements — projetos de interoperabilidade de pagamentos internacionais









