O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (12) que o país tem “controle total” sobre o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas para o comércio mundial de petróleo e gás. A declaração ocorre em meio à continuidade das restrições à navegação na região e à escalada das divergências entre Washington e Teerã sobre as condições para normalizar o trânsito de embarcações.
Em publicação na plataforma Truth Social, Trump disse acreditar que os Estados Unidos manterão o controle da passagem marítima e classificou o bloqueio naval americano como um “muro de aço”. O presidente também afirmou que o Irã não teria capacidade militar para alterar a situação atual.
A declaração amplia a pressão política sobre Teerã justamente quando os mercados tentam avaliar se existe espaço para um acordo capaz de restabelecer o fluxo comercial pelo estreito. As negociações realizadas nas últimas semanas chegaram a alimentar expectativas de uma reabertura mais ampla da rota, mas as exigências apresentadas pelos dois lados voltaram a afastar a perspectiva de uma solução rápida.
O Estreito de Ormuz separa o Irã de Omã e funciona como uma das principais portas de saída do petróleo produzido no Golfo Pérsico. Antes da guerra iniciada no fim de fevereiro, aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados globalmente passava pela região, o que transforma qualquer alteração no tráfego local em um fator relevante para preços de combustíveis, inflação e atividade econômica em diferentes países.
Trump eleva tom contra o Irã
Ao comentar a situação no estreito, Trump voltou a adotar um discurso duro contra o governo iraniano. Segundo o presidente americano, o Irã perdeu capacidade militar suficiente para desafiar as forças dos Estados Unidos presentes na região.
Trump também fez críticas à situação econômica e política iraniana e afirmou que a liderança do país estaria enfraquecida. A publicação reforça a estratégia adotada pelo governo americano desde julho, quando Washington restabeleceu o bloqueio naval após o colapso de um cessar-fogo negociado anteriormente.
A Casa Branca já havia confirmado, em abril, que Trump havia determinado operações navais destinadas a restringir movimentos iranianos e tentar assegurar a passagem pelo Estreito de Ormuz. Na ocasião, o governo americano também destacou o aumento da produção energética dos Estados Unidos como instrumento para reduzir os impactos internacionais decorrentes da interrupção das exportações do Oriente Médio.
Em julho, Trump voltou a defender que os Estados Unidos assumissem um papel direto na segurança da hidrovia. A escalada militar foi acompanhada pelo restabelecimento do bloqueio de portos e instalações iranianas e por novos confrontos entre forças americanas e iranianas.
Apesar da afirmação de Trump de que Washington controla a passagem, indicadores do mercado de energia mostram que o fluxo comercial continua muito distante da normalidade observada antes do conflito.
Tráfego pelo Estreito de Ormuz segue limitado
Dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) divulgados nesta quarta-feira mostram que o agravamento das hostilidades em julho e no início de agosto interrompeu parte da recuperação registrada anteriormente.
Segundo a agência, a produção de petróleo dos países do Golfo avançou 2,5 milhões de barris por dia em julho, alcançando 23,9 milhões de barris diários. Mesmo com a melhora, o volume permaneceu 8,3 milhões de barris por dia abaixo dos níveis anteriores à guerra.
As exportações regionais, considerando inclusive rotas alternativas que não dependem diretamente de Ormuz, caíram 2,1 milhões de barris por dia e ficaram em cerca de 15 milhões de barris diários. Os carregamentos chegaram a aproximadamente 20 milhões de barris por dia no começo de julho, mas posteriormente recuaram para perto de 12 milhões.
A IEA atribuiu a deterioração ao novo fechamento efetivo da passagem no início de julho, aos ataques contra petroleiros e à ofensiva contra infraestruturas relacionadas à produção e ao transporte de energia.
No conjunto do mercado mundial, a agência estima que a oferta de petróleo tenha aumentado 2,4 milhões de barris por dia em julho, chegando a 101,5 milhões de barris diários. Ainda assim, a produção global permaneceu 6,3 milhões de barris por dia abaixo do registrado um ano antes.
Petróleo reage à incerteza sobre acordo
A permanência das restrições voltou a pressionar os preços internacionais do petróleo. O Brent, referência global, avançou durante a sessão desta quarta-feira e fechou a US$ 89,12 por barril, enquanto o petróleo americano West Texas Intermediate (WTI) terminou negociado a US$ 83,43.
A reação reflete principalmente a dificuldade dos investidores em antecipar os próximos movimentos diplomáticos. Nos últimos meses, anúncios de avanço nas negociações provocaram quedas expressivas nas cotações, enquanto declarações mais duras de Washington ou Teerã rapidamente devolveram o prêmio de risco aos contratos.
A própria Agência Internacional de Energia chamou atenção para o nível excepcional de volatilidade. Em julho, os preços internacionais de referência chegaram a oscilar em uma faixa próxima de US$ 40 por barril, acompanhando mudanças abruptas nas expectativas sobre negociações e confrontos militares.
Em determinado momento do mês, o petróleo chegou a atingir aproximadamente US$ 105 por barril, antes de devolver parte da alta. A referência North Sea Dated encerrou julho em US$ 96,80 e estava próxima de US$ 92 quando a IEA concluiu seu relatório de agosto.
IEA reduz previsão para oferta mundial de petróleo
O impacto do conflito já levou a Agência Internacional de Energia a revisar novamente suas projeções para 2026.
A instituição passou a estimar uma redução média de 4,3 milhões de barris por dia na oferta mundial de petróleo neste ano, levando a produção global para aproximadamente 102 milhões de barris diários.
A estimativa considera que o aumento da produção nas Américas compensará apenas parcialmente as perdas registradas no Oriente Médio e na Rússia. Para 2027, caso haja normalização progressiva das operações, a agência projeta recuperação significativa da oferta.
Do lado da demanda, o cenário também foi revisado para baixo. A IEA agora prevê redução de 1,6 milhão de barris por dia no consumo mundial de petróleo em 2026. O número representa uma deterioração de aproximadamente 510 mil barris diários em comparação com a projeção divulgada no mês anterior.
Combustíveis mais caros, dificuldades logísticas e interrupções nas cadeias internacionais de suprimentos estão entre os fatores que ajudam a explicar a perda de demanda.
A agência estima ainda que o mercado mundial poderá registrar déficit de aproximadamente 1,8 milhão de barris por dia no terceiro trimestre, mais que o dobro do déficit calculado no relatório anterior.
Estoques mundiais diminuem
Outro fator observado pelos mercados é a redução dos estoques disponíveis para amortecer novas interrupções.
Os estoques globais de petróleo monitorados pela IEA caíram 69 milhões de barris apenas em julho. Desde o início da guerra, a redução acumulada alcançou aproximadamente 410 milhões de barris, equivalente a uma retirada média de 2,7 milhões de barris por dia.
Ao final de julho, os estoques observados haviam caído para menos de 7,9 bilhões de barris, o menor nível desde abril de 2025. A agência advertiu que a margem de segurança criada pelos estoques existentes está diminuindo rapidamente e que a normalização do Estreito de Ormuz se tornou ainda mais relevante para estabilizar o mercado.
A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) também revisou suas projeções diante das limitações persistentes.
No relatório de curto prazo publicado em 11 de agosto, a agência americana informou que aumentou sua estimativa para o volume de produção interrompido no Oriente Médio e adotou como premissa a continuidade de restrições severas ao trânsito pelo Estreito de Ormuz durante agosto.
A EIA projeta que o Brent poderá apresentar preço médio próximo de US$ 85 por barril no terceiro trimestre de 2026. A expectativa é de queda gradual posteriormente, caso a produção do Oriente Médio consiga se aproximar dos níveis anteriores ao conflito durante 2027.
Negociações continuam sem solução definitiva
A disputa pelo funcionamento do Estreito de Ormuz tornou-se um dos principais obstáculos para uma solução diplomática mais ampla entre Estados Unidos e Irã.
Teerã apresentou condições que incluem mudanças nas sanções econômicas e compensações relacionadas ao conflito. Washington, por sua vez, também passou a exigir reparações e rejeitou propostas que permitiriam ao governo iraniano estabelecer cobranças obrigatórias sobre embarcações que atravessam o estreito.
Omã tem atuado como interlocutor nas discussões relacionadas à navegação. As conversas chegaram a avançar sobre um possível novo desenho para as rotas marítimas, mas isso não foi suficiente para garantir a retomada integral do tráfego comercial.
Dessa forma, a declaração de Trump sobre o “controle total” americano ocorre enquanto a realidade operacional continua marcada por baixo fluxo de embarcações, riscos militares e dificuldade para restabelecer os níveis de exportação anteriores à guerra.
Para o mercado de petróleo, o ponto central permanece o mesmo: uma normalização efetiva do Estreito de Ormuz poderia devolver volumes relevantes de petróleo ao mercado e aliviar a pressão sobre estoques e preços. Caso as restrições persistam ou novos ataques atinjam navios e instalações energéticas, o risco de novas oscilações continua elevado.
Fontes
- Agência Internacional de Energia — Oil Market Report, agosto de 2026.
- U.S. Energy Information Administration — Short-Term Energy Outlook, 11 de agosto de 2026.
- Casa Branca — informações oficiais sobre a operação naval americana no Estreito de Ormuz.
- Declarações públicas de Donald Trump e informações de mercado divulgadas em 12 de agosto de 2026.









