O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém a decisão de não conceder antes das eleições brasileiras o agrément a Daniel Perez, indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para comandar a embaixada americana em Brasília. A posição prolonga um impasse diplomático em um momento de aumento das tensões comerciais e políticas entre os dois países e agora coincide com o início oficial da campanha eleitoral de 2026.
Perez já concluiu a principal etapa política de sua indicação nos Estados Unidos. Em 7 de agosto, o Senado americano confirmou seu nome para o cargo de embaixador no Brasil por 51 votos a 47. A confirmação, porém, não é suficiente para que ele assuma a missão: o governo brasileiro precisa concordar com a indicação antes que o diplomata possa ser acreditado como chefe da representação americana.
A declaração mais explícita de Lula ocorreu na sexta-feira (14), durante entrevista aos podcasts As Cunhãs e Não Inviabilize. Ao falar sobre o pedido americano, o presidente afirmou: “Agora, só depois das eleições”. Lula questionou ainda a pressa de Washington em preencher o posto durante a reta final da disputa presidencial brasileira.
O contexto eleitoral mudou desde a entrevista. A propaganda eleitoral está oficialmente autorizada desde domingo (16), inclusive na internet, e o primeiro turno será realizado em 4 de outubro. O horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão começa em 28 de agosto. Com isso, o impasse em torno do representante americano passa a ocorrer já durante a campanha formal.
Daniel Perez foi confirmado pelo Senado por 51 votos a 47
Trump tornou pública a indicação de Daniel Perez em 1º de junho. A Casa Branca encaminhou o nome ao Senado para que ele assumisse o posto de embaixador extraordinário e plenipotenciário dos Estados Unidos na República Federativa do Brasil.
Perez passou posteriormente pela Comissão de Relações Exteriores do Senado. Em 22 de julho, o colegiado aprovou a indicação por 13 votos a 8, liberando o nome para análise pelo plenário. O processo terminou em 7 de agosto, quando um conjunto de indicações do governo Trump foi confirmado por 51 votos favoráveis e 47 contrários.
O registro oficial do Senado americano identifica Daniel Perez como confirmado para exercer o cargo de embaixador extraordinário e plenipotenciário dos Estados Unidos no Brasil. A votação encerrou a tramitação legislativa americana, mas não resolveu o obstáculo existente em Brasília.
Isso ocorre porque a aprovação do Senado e o agrément são etapas juridicamente distintas. O Senado autoriza, dentro do sistema institucional americano, a nomeação feita pelo presidente dos Estados Unidos. O governo brasileiro, por sua vez, decide se aceita a pessoa escolhida para chefiar a missão diplomática em seu território.
Brasil pode negar agrément sem apresentar justificativa
A exigência de concordância do país receptor está prevista na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. Pelo artigo 4º, o Estado que pretende enviar um chefe de missão deve assegurar previamente que o Estado receptor concedeu o agrément à pessoa que pretende acreditar.
A mesma regra estabelece que o país receptor não é obrigado a informar as razões de uma eventual negativa. Não existe, portanto, direito automático do governo americano de instalar no Brasil o embaixador escolhido por Trump apenas porque a indicação recebeu aprovação interna nos Estados Unidos.
No caso de Perez, Lula não anunciou uma rejeição definitiva. O presidente estabeleceu uma condição temporal: pretende deixar qualquer decisão para depois das eleições. Na prática, isso impede que o indicado assuma a embaixada durante pelo menos parte significativa da campanha presidencial.
Também não há prazo internacional obrigatório para que o Brasil conclua essa análise. A demora, entretanto, adquiriu significado político porque ocorre em meio a outros confrontos entre os governos Lula e Trump e porque Washington já completou sua própria tramitação.
Embaixada continua funcionando sem Daniel Perez
A falta do agrément não interrompe as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos nem significa fechamento da representação americana em Brasília. A embaixada permanece em funcionamento sob comando interino.
A missão americana informa atualmente que Kimberly Kelly exerce a função de chargé d’affaires ad interim, ou encarregada de negócios, desde 6 de julho de 2026. Ela é diplomata de carreira e responde pela representação enquanto não houver um embaixador acreditado.
A manutenção de uma encarregada de negócios permite que os canais diplomáticos, consulares e administrativos permaneçam abertos. O impacto da disputa é, portanto, principalmente político e hierárquico: Washington permanece sem um embaixador plenamente acreditado em Brasília em um período de deterioração da relação bilateral.
A própria permanência de Kimberly Kelly no comando da missão em 17 de agosto indica que a situação anunciada por Lula na sexta-feira continua sem mudança formal. Perez foi confirmado nos Estados Unidos, mas ainda não assumiu a representação no Brasil.
Crise já atingiu a embaixadora brasileira em Washington
O conflito sobre o novo representante americano não ocorre isoladamente. Antes mesmo da declaração de Lula, o governo Trump havia revogado o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio às divergências envolvendo o agrément de Perez e decisões brasileiras relacionadas a diplomatas americanos.
A medida ampliou a dimensão da crise. Segundo informações divulgadas sobre a decisão americana, a revogação do visto não equivaleu à expulsão formal de Viotti nem significou rompimento das relações diplomáticas, mas representou uma pressão direta sobre o governo brasileiro durante a disputa em torno da representação dos dois países.
O caso evidencia que uma discussão inicialmente concentrada no procedimento de nomeação de um embaixador passou a integrar uma sequência mais ampla de atritos entre Brasília e Washington.
Além da questão diplomática, a relação bilateral está pressionada pelas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Na sexta-feira, a Comissão de Relações Exteriores do Senado brasileiro registrou que o governo iniciou o procedimento previsto na Lei da Reciprocidade Econômica diante das novas medidas tarifárias americanas.
Lula tenta abrir canal direto com Trump
Apesar do endurecimento no caso de Daniel Perez, Lula afirmou que busca uma nova conversa diretamente com Donald Trump. A estratégia apresentada pelo presidente combina resistência às pressões americanas com a tentativa de manter aberto um canal entre os dois chefes de Estado.
Na entrevista da sexta-feira, Lula disse querer uma conversa direta para pedir que Trump não interfira nos assuntos brasileiros, especialmente nas eleições. A advertência não é nova. Em junho, durante compromissos internacionais, o presidente brasileiro já havia declarado publicamente que as eleições brasileiras deveriam ser decididas exclusivamente pelos brasileiros.
Ao falar de Perez, Lula não apresentou evidência de que o indicado tenha pessoalmente realizado uma ação destinada a interferir no processo eleitoral. O argumento presidencial é preventivo: diante da tensão atual com a administração Trump e da proximidade da votação, o governo decidiu não entregar agora a autorização necessária para a posse do novo embaixador.
Essa diferença é relevante. Uma coisa é a crítica política de Lula ao governo Trump e às iniciativas americanas em relação ao Brasil; outra é atribuir a Perez uma conduta concreta de interferência eleitoral. Até o momento, as fontes oficiais consultadas não demonstram uma ação pessoal do indicado nesse sentido.
Campanha eleitoral aumenta peso político da decisão
A partir de domingo, 16 de agosto, candidatos e partidos passaram a poder realizar propaganda eleitoral geral nas ruas e na internet. O calendário estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral prevê o primeiro turno em 4 de outubro e eventual segundo turno em 25 de outubro.
Isso significa que, caso Lula cumpra literalmente a declaração de que só decidirá “depois das eleições”, a indefinição pode ultrapassar o primeiro turno. Se a Presidência for decidida apenas no segundo turno, uma leitura estrita da afirmação presidencial empurraria a solução para depois de 25 de outubro.
O governo brasileiro, entretanto, não anunciou formalmente uma data para responder ao pedido americano. A fala de Lula funciona, até o momento, como a indicação política mais clara do calendário que pretende adotar.
O tema também se conecta ao discurso de soberania que Lula vem levando à campanha. O presidente tem associado a relação com os Estados Unidos à defesa da autonomia brasileira, ao controle de minerais estratégicos, às riquezas naturais e à necessidade de ampliar a capacidade nacional de defesa.
Reciprocidade comercial adiciona nova frente de pressão
A disputa diplomática ocorre simultaneamente à abertura do processo brasileiro de reciprocidade contra tarifas americanas. A Lei da Reciprocidade Econômica permite que o país avalie medidas em resposta a barreiras comerciais adotadas por outras nações, mas o início do procedimento não significa aplicação automática de uma retaliação.
Nesta segunda-feira (17), o presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Nelsinho Trad (PSD-MS), voltou a defender que a negociação com Washington seja priorizada antes da adoção de contramedidas. A manifestação mostra que, embora o Congresso reconheça instrumentos de reação, há pressão para evitar uma escalada comercial.
A combinação entre tarifas, restrições diplomáticas, acusações de interferência política e o impasse sobre Daniel Perez transformou a relação Brasil-Estados Unidos em um dos principais temas externos do início da campanha presidencial.
O próximo movimento depende agora de Brasília e Washington. Trump já indicou seu representante e conseguiu confirmá-lo no Senado. Lula, por outro lado, controla a etapa sem a qual Perez não pode assumir o cargo no Brasil e sinalizou que pretende usar o calendário eleitoral como limite para qualquer decisão.
Enquanto não houver mudança nessa posição, a embaixada americana continuará operando sob comando interino e Daniel Perez permanecerá na situação incomum de estar confirmado pelo Senado dos Estados Unidos para representar o país em Brasília, mas ainda impedido de exercer a função pela ausência do consentimento brasileiro.
Fontes:
Casa Branca — ato de indicação de Daniel Perez para a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Senado dos Estados Unidos e Comitê de Relações Exteriores — tramitação e confirmação da indicação de Daniel Perez.
Embaixada dos Estados Unidos no Brasil — informações oficiais sobre a chefia da missão diplomática em Brasília.
Organização das Nações Unidas — Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas e regras aplicáveis ao agrément.
Tribunal Superior Eleitoral — calendário e regras da propaganda para as Eleições 2026.
Senado Federal — manifestações sobre a Lei da Reciprocidade Econômica e as relações comerciais com os Estados Unidos.
Agência Brasil — declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre eleições, soberania e relações com Donald Trump.
Reuters e Associated Press — informações sobre os desdobramentos diplomáticos envolvendo as representações do Brasil e dos Estados Unidos.










