A Cogna (COGN3) encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido de R$ 148,9 milhões, avanço de 25,3% em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado veio acompanhado de crescimento de dois dígitos da receita, expansão da geração de caixa e redução da alavancagem, embora os efeitos do novo marco regulatório da educação superior tenham aumentado a pressão sobre as margens da principal divisão do grupo.
A receita líquida consolidada alcançou R$ 1,96 bilhão entre abril e junho, alta de 17,8% na comparação anual. No primeiro semestre, o faturamento chegou a R$ 4,11 bilhões, crescimento de 24,7% sobre os seis primeiros meses de 2025.
O Ebitda recorrente, indicador utilizado para acompanhar a geração operacional de resultado, avançou 6,8%, para R$ 589,4 milhões no trimestre. A expansão ficou abaixo do crescimento da receita e veio acompanhada de uma redução de três pontos percentuais na margem, refletindo principalmente a mudança do perfil das operações no ensino superior.
Já o lucro líquido ajustado somou R$ 210,2 milhões, crescimento de 18,1% em relação ao segundo trimestre de 2025. No acumulado do primeiro semestre, o indicador chegou a R$ 411 milhões, alta de 23,6%.
Educação Básica se torna principal motor de crescimento
O desempenho mais forte do trimestre veio da Educação Básica, segmento que reúne operações como Vasta e Saber. A receita líquida da divisão cresceu 50,5%, alcançando R$ 650,2 milhões no segundo trimestre.
O Ebitda recorrente da área avançou ainda mais, com alta de 62,7%, para R$ 74 milhões. A margem operacional cresceu 0,9 ponto percentual no período, apesar de efeitos desfavoráveis relacionados à composição das receitas.
Grande parte da aceleração veio do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). A receita relacionada ao programa atingiu R$ 124,1 milhões, salto de 457,8% na comparação com o mesmo trimestre de 2025.
Segundo a companhia, parte dessa receita estava originalmente prevista para o quarto trimestre do ano passado, mas o reconhecimento foi deslocado para o primeiro e o segundo trimestres de 2026 em razão do calendário de compras do governo federal.
A Cogna também informou ter aumentado em oito pontos percentuais sua participação no PNLD, alcançando 30% de participação no mercado. Para o grupo, esse ganho não afeta apenas o atual ciclo comercial, mas também pode ampliar as receitas provenientes de recompras nos anos seguintes.
Receitas de subscrição avançam mais de 20%
Outro componente importante da Educação Básica foi o avanço das receitas de subscrição, que cresceram 22,1%, para R$ 391,5 milhões.
No chamado Conteúdo Core, o crescimento foi de 19,4%, enquanto as Soluções Complementares registraram expansão de 220,2%. A companhia atribuiu esse desempenho à entrada de novas escolas e ao aumento do cross selling, estratégia pela qual produtos e serviços adicionais são comercializados para clientes que já fazem parte da base.
O crescimento expressivo da receita, entretanto, não impediu uma queda na margem bruta da Educação Básica. O indicador recuou 10,3 pontos percentuais, para 45,6%.
A Cogna explicou que o movimento está relacionado principalmente ao maior peso do PNLD no mix de receitas. O programa público possui margens estruturalmente inferiores às observadas no segmento B2B, além de envolver custos de produção dos materiais distribuídos.
A companhia classificou a redução como predominantemente sazonal e vinculada à composição dos produtos e ao momento de reconhecimento das vendas.
Novo marco muda dinâmica no ensino superior
Se a Educação Básica acelerou, a Educação Superior apresentou uma combinação de crescimento mais moderado e maior pressão sobre rentabilidade.
A receita líquida do segmento alcançou R$ 1,31 bilhão, crescimento de 6,3% na comparação anual. A modalidade presencial avançou 5,9%, enquanto o semipresencial teve crescimento de 14%.
Em sentido contrário, o ensino a distância recuou 1,4%, movimento associado pela empresa aos efeitos do novo marco regulatório da educação superior.
O Decreto nº 12.456, publicado em 2025, estabeleceu novas regras para a oferta de cursos de graduação a distância no Brasil, com requisitos relacionados a atividades presenciais, formatos acadêmicos, infraestrutura e organização dos cursos.
Para grupos educacionais com grande número de alunos no EAD, as mudanças exigem uma adaptação gradual do portfólio e favorecem a migração de parte da demanda para formatos com maior nível de presencialidade.
Esse processo já aparece nos números da Cogna.
Captação no EAD cai quase 34%
A captação total de novos alunos da companhia caiu 16,5% no primeiro semestre, pressionada principalmente pela redução de 33,9% nas entradas do ensino a distância.
Ao mesmo tempo, a captação presencial cresceu 11,6%, enquanto o formato semipresencial apresentou expansão de 3,4%.
A movimentação mostra uma alteração relevante na composição da base de estudantes. O número de alunos presenciais cresceu 8,2%, chegando a 206,3 mil, enquanto a base semipresencial aumentou 13,3%, para 404,8 mil estudantes.
O ticket médio total também avançou, com alta de 10,9% no semestre, chegando a R$ 428.
O efeito financeiro dessa mudança, entretanto, não é neutro. Modalidades que exigem maior presencialidade podem apresentar uma estrutura de custos diferente daquela encontrada em cursos predominantemente digitais, o que ajuda a explicar a pressão observada sobre a rentabilidade.
O Ebitda recorrente da Educação Superior cresceu apenas 1,8% no segundo trimestre, alcançando R$ 515,4 milhões. A margem recuou 1,8 ponto percentual, para 39,3%.
No primeiro semestre, o Ebitda recorrente da divisão chegou a R$ 918,5 milhões, crescimento de 2,5%, enquanto a margem caiu 2,1 pontos percentuais.
Geração de caixa livre quase dobra
Além da expansão do lucro, outro ponto de destaque no balanço foi a geração de caixa.
A geração de caixa livre atingiu R$ 251,9 milhões no segundo trimestre, crescimento de 87,8% em relação ao mesmo período de 2025. No primeiro semestre, o montante chegou a R$ 504,3 milhões, avanço de 77,7%.
A geração de caixa operacional após investimentos, ou capex, somou R$ 394,9 milhões entre abril e junho, aumento de 33,1%. Nos seis primeiros meses do ano, chegou a R$ 713 milhões, alta de 30,4%.
A evolução do caixa reforça uma tendência relevante para a companhia porque amplia a capacidade de financiar investimentos, reduzir endividamento ou realizar operações estratégicas sem depender exclusivamente de novas fontes de capital.
Ao mesmo tempo, a melhora da conversão de resultado operacional em caixa ocorre em um período no qual a Cogna continua reorganizando seu portfólio e ampliando negócios relacionados à educação básica e a serviços destinados às instituições de ensino.
Dívida líquida recua e alavancagem melhora
A dívida líquida da Cogna encerrou junho em R$ 2,78 bilhões, redução de R$ 21,8 milhões, ou 0,8%, em relação ao segundo trimestre de 2025.
O caixa e equivalentes de caixa alcançaram R$ 1,43 bilhão, crescimento de 51,6% em um ano.
Com isso, a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado caiu de 1,22 vez no segundo trimestre de 2025 para 1,10 vez no 2T26. Desconsiderando a aquisição da Educbank, a alavancagem teria terminado o período em 1,02 vez.
A redução do indicador mostra que o crescimento do resultado operacional e a geração de caixa estão ajudando a companhia a absorver investimentos e operações de aquisição sem provocar uma deterioração equivalente na estrutura financeira.
Em junho, a Cogna anunciou a aquisição adicional de 47% da Educbank por R$ 46,3 milhões, elevando para 90% a participação da Somos Sistemas de Ensino na empresa.
A Educbank atua com soluções de gestão financeira para escolas, incluindo cobrança, recebimento e parcelamento de mensalidades. A operação amplia a presença da Cogna em serviços que vão além do conteúdo educacional tradicional.
Resultado financeiro sofre efeito dos derivativos
Apesar do avanço operacional, o resultado financeiro apresentou impacto negativo da marcação a mercado de instrumentos derivativos.
A linha de ganhos e perdas com esses instrumentos registrou despesa líquida de R$ 13,9 milhões no segundo trimestre, depois de uma receita de R$ 11,9 milhões no mesmo período de 2025.
A empresa utiliza derivativos como instrumentos de proteção contra oscilações de taxas de juros e câmbio. Por essa razão, variações contábeis dessa natureza não necessariamente representam a mesma movimentação de caixa no período.
Mesmo com essa pressão, a combinação de maior resultado operacional, redução de itens não recorrentes e menor despesa com Imposto de Renda e Contribuição Social contribuiu para que o lucro líquido consolidado avançasse 25,3%.
Cogna chega ao segundo semestre com mudança no mix de negócios
O balanço do segundo trimestre evidencia duas forças diferentes dentro da Cogna. De um lado, a Educação Básica apresentou aceleração expressiva, sustentada pelo PNLD, crescimento das receitas de subscrição e ampliação da presença em escolas parceiras.
De outro, o ensino superior passa por uma transição provocada pelas mudanças regulatórias, com retração na captação do EAD e expansão relativa dos formatos presencial e semipresencial.
A consequência aparece diretamente nas margens. Enquanto o faturamento consolidado cresceu 17,8%, o Ebitda recorrente avançou 6,8%, sinalizando que parte da expansão de receita ocorreu em atividades ou formatos com rentabilidade menor.
Para os próximos trimestres, um dos principais pontos de acompanhamento será justamente a capacidade da companhia de compensar a mudança estrutural no ensino superior com aumento de ticket, crescimento da presencialidade, expansão da Educação Básica e maior geração de caixa.
A evolução da captação após a implementação das novas regras também deverá indicar com maior clareza como o novo marco regulatório da educação superior afetará a composição da base de alunos e as margens da Cogna nos próximos ciclos.








