Com a temporada de resultados do segundo trimestre de 2026 praticamente encerrada, o mercado passa a olhar menos para o que as empresas entregaram entre abril e junho e mais para os fatores capazes de alterar lucros, geração de caixa e valuation nos próximos trimestres. Gerdau (GGBR4), Vale (VALE3), Axia Energia (AXIA3) e o BDR da Eli Lilly (LILY34) aparecem nesse cenário com teses distintas, que passam pela recuperação da siderurgia brasileira, preços do minério de ferro, dividendos do setor elétrico e expansão do mercado global de medicamentos contra obesidade.
Não se trata de quatro empresas expostas aos mesmos fatores. Gerdau depende da evolução das margens e do equilíbrio entre Brasil e América do Norte; Vale continua sensível ao minério de ferro, embora avance em cobre; Axia combina geração de energia, desalavancagem e potencial de distribuição de capital; e Eli Lilly depende do crescimento de medicamentos como Mounjaro e Zepbound e da capacidade de transformar seu pipeline farmacêutico em novos produtos.
Os números recentes ajudam a explicar por que esses papéis seguem no radar. A Gerdau encerrou o 2T26 com vendas consolidadas de aço de aproximadamente 2,9 milhões de toneladas, aumento de 3% sobre um ano antes, enquanto a receita líquida alcançou R$ 17,9 bilhões, alta anual de 2%. A utilização da capacidade consolidada chegou a 82%.
Na Vale, o EBITDA pro forma atingiu US$ 4,1 bilhões, avanço de 19% em relação ao segundo trimestre de 2025, mesmo com o preço realizado do minério de ferro em US$ 95 por tonelada. Já a Lilly apresentou crescimento de 48% na receita trimestral, para US$ 23 bilhões, e elevou a projeção de faturamento para todo o ano.
Gerdau tenta melhorar rentabilidade no Brasil sem perder força nos Estados Unidos
A Gerdau chega ao período pós-balanços com uma questão central para sua tese: até que ponto a operação brasileira poderá recuperar rentabilidade enquanto a América do Norte continua sustentando parcela importante dos resultados.
No segundo trimestre, a produção consolidada de aço bruto atingiu 3,23 milhões de toneladas, crescimento de 5,8% na comparação anual. As vendas chegaram a 2,91 milhões de toneladas. A receita líquida de R$ 17,9 bilhões avançou 6,9% frente ao primeiro trimestre e 2% sobre igual período de 2025.
A melhora também apareceu na margem bruta. O lucro bruto alcançou R$ 2,83 bilhões, avanço de 39,3% em relação ao 2T25, enquanto a margem bruta passou de 11,6% para 15,8%. A empresa atribuiu parte do desempenho à evolução da América do Norte e à maior utilização dos ativos.
O Brasil, entretanto, permanece como um dos pontos de atenção. Demanda interna mais fraca, custo de capital elevado e competição com aço importado interferem na capacidade de recuperação das margens. É justamente a possibilidade de uma melhora operacional nessa frente que separa as avaliações dos analistas.
A XP elevou suas projeções de Ebitda para 2026 e 2027 e estabeleceu preço-alvo de R$ 30 para o fim de 2027, segundo as estimativas apresentadas ao mercado. O Itaú BBA também aumentou seu preço-alvo, de R$ 27 para R$ 29, mas passou a adotar recomendação neutra, indicando uma leitura de que parte da melhora esperada já estaria incorporada à cotação.
A própria Gerdau continua investindo em competitividade. Entre os projetos em andamento está Miguel Burnier, em Minas Gerais, cuja frente de mineração tinha avanço físico de 95% no fechamento do 2T26 e início de operação previsto para o segundo semestre. A companhia estima EBITDA potencial de aproximadamente R$ 1,1 bilhão associado ao projeto quando desenvolvido conforme o planejado.
Assim, mais do que simplesmente acompanhar o preço do aço, o mercado deverá observar se os ganhos de eficiência e os projetos de mineração serão suficientes para elevar estruturalmente a rentabilidade da operação brasileira.
Vale tenta reduzir dependência do minério com avanço do cobre
A Vale (VALE3) enfrenta um desafio diferente. O minério de ferro continua determinante para os resultados, mas a companhia amplia investimentos em metais básicos justamente em um momento em que o cobre ganha importância estratégica na eletrificação global.
No segundo trimestre, o preço médio realizado do minério de ferro fino ficou em US$ 95 por tonelada, queda de 1% em relação aos três meses anteriores, mas alta de 12% na comparação anual. O preço realizado do cobre avançou para US$ 14.062 por tonelada, crescimento de 57% em um ano.
O desempenho operacional compensou parte da pressão de custos. As vendas de minério de ferro cresceram 3% na comparação anual, as de cobre avançaram 10% e as de níquel aumentaram 7%. O EBITDA pro forma de US$ 4,1 bilhões cresceu 19%, enquanto o fluxo de caixa livre recorrente chegou a US$ 1,505 bilhão, quase US$ 500 milhões acima de um ano antes.
A dívida líquida expandida também recuou, de US$ 17,8 bilhões ao término do primeiro trimestre para US$ 16,7 bilhões no fim de junho. Paralelamente, o conselho aprovou US$ 1,701 bilhão em dividendos e juros sobre capital próprio relacionados aos resultados do primeiro semestre.
Bradesco BBI e BTG mantêm recomendação de compra para VALE3, com preços-alvo de R$ 97 e R$ 90, respectivamente, segundo as avaliações apresentadas ao mercado.
O ponto central da tese, no entanto, continua sendo o minério.
Uma recuperação da demanda chinesa ou estabilização das cotações teria impacto relevante sobre geração de caixa e percepção de risco. No sentido contrário, uma nova deterioração dos preços pressionaria os resultados, especialmente porque os custos do minério também subiram.
A companhia informou custo caixa C1 de US$ 24,10 por tonelada no trimestre, crescimento de 9% em um ano, influenciado principalmente pela valorização do real.
O cobre funciona como elemento de diversificação, mas ainda não elimina a dependência do minério. A Vale estreitou seu guidance de produção de cobre para 360 mil a 380 mil toneladas em 2026 e informou que o projeto Bacaba avançava à frente do cronograma, com início de operação agora projetado para o terceiro trimestre de 2027.
Axia coloca dividendos no centro da tese
Na Axia Energia (AXIA3), antiga Eletrobras, a discussão tem outra natureza. A empresa passou por ampla reorganização societária, operacional e financeira desde a privatização e agora tenta converter ganhos de eficiência e geração de caixa em maior retorno aos acionistas.
O Itaú BBA considera que a correção recente das ações abriu um ponto de entrada e elevou seu preço-alvo de R$ 50,30 para R$ 75,20, mantendo recomendação de compra.
Um dos elementos mais relevantes da projeção está na capacidade de distribuição de recursos. Nas estimativas do banco, a companhia poderia chegar a distribuir até R$ 20 bilhões por ano entre 2027 e 2030, produzindo um dividend yield médio próximo de 13%, caso as premissas se confirmem.
Essa projeção não representa dividendos aprovados ou garantidos. Depende da geração efetiva de caixa, decisões do conselho, investimentos, preços de energia, contratação do portfólio e ambiente regulatório.
A dimensão operacional ajuda a explicar o interesse pela empresa. A Axia informa possuir 81 usinas em operação, com 43,8 GW de capacidade instalada, além de 74,8 mil quilômetros de linhas de transmissão. A companhia também concluiu a migração para o Novo Mercado da B3 em junho de 2026.
A tese ainda envolve riscos políticos e regulatórios. Apesar da mudança no controle, o chamado Grupo Governo ainda concentrava cerca de 40,15% do capital total da companhia em junho, segundo a estrutura acionária divulgada pela empresa.
Outro componente é o ambiente de preços de energia. Hidrelétricas possuem capacidade de ajustar a geração de acordo com condições hidrológicas, contratos e demanda do sistema. Em cenários mais favoráveis de preços, essa flexibilidade pode aumentar o valor econômico dos ativos.
O ponto a acompanhar será a conversão da transformação operacional em caixa efetivamente disponível para os acionistas.
Eli Lilly cresce 48% e prepara próxima geração de medicamentos contra obesidade
O quarto ativo foge completamente do ciclo brasileiro de commodities, siderurgia e energia.
O BDR da Eli Lilly (LILY34) oferece exposição indireta a uma das maiores farmacêuticas do mundo justamente durante uma expansão acelerada do mercado de tratamentos contra diabetes e obesidade.
A companhia registrou US$ 22,974 bilhões de receita no segundo trimestre, crescimento de 48% em relação aos US$ 15,558 bilhões de um ano antes. O lucro líquido reportado alcançou US$ 7,095 bilhões, avanço de 25%.
Dois produtos respondem por grande parte dessa aceleração.
O Mounjaro gerou US$ 9,943 bilhões em receitas no trimestre, alta de 91%, enquanto o Zepbound alcançou US$ 4,928 bilhões, avanço de 46%. Juntos, os medicamentos produziram quase US$ 15 bilhões em vendas em apenas três meses.
Diante do desempenho, a Lilly elevou sua projeção de receita para 2026. O intervalo anterior, entre US$ 82 bilhões e US$ 85 bilhões, passou para US$ 85 bilhões a US$ 87 bilhões.
O próximo catalisador relevante está no pipeline.
A retatrutida apresentou resultados positivos adicionais em estudos de fase 3 para obesidade. Segundo a própria Lilly, o pacote clínico necessário para pedidos globais de registro em obesidade, apneia obstrutiva do sono e dor associada à osteoartrite do joelho está completo, com intenção de apresentar o pedido à agência reguladora dos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2027.
A Empiricus mantém recomendação de compra para LILY34, sustentada pela expansão dos medicamentos existentes e pelo potencial de novos produtos.
O risco está justamente nas expectativas elevadas. Crescimento acelerado, inovação e liderança em medicamentos contra obesidade já estão parcialmente refletidos na avaliação da companhia. Resultados clínicos, concorrência, preços, cobertura por planos de saúde e capacidade de produção continuarão influenciando a percepção do mercado.
Quatro ações, quatro catalisadores diferentes
O fechamento da temporada de balanços deixa claro que o potencial dessas quatro ações não pode ser resumido a uma única variável.
Na Gerdau, o mercado acompanha margens, eficiência operacional e recuperação do Brasil. Na Vale, minério de ferro, China, custos e expansão do cobre continuam determinantes. Na Axia, a discussão avança para geração de caixa e capacidade de transformar eficiência em dividendos. Na Eli Lilly, o crescimento depende do avanço da franquia de medicamentos metabólicos e da execução de um dos maiores pipelines da indústria farmacêutica.
Os preços-alvo e recomendações das instituições financeiras refletem cenários construídos a partir dessas expectativas e podem ser revistos conforme resultados, preços de commodities, juros, regulação e execução empresarial mudem.
O trimestre encerrado em junho forneceu os números. Daqui para frente, o desempenho das ações dependerá principalmente de quanto dessas expectativas será efetivamente convertido em lucro e caixa.
Fontes:
Gerdau — resultados trimestrais, apresentação de resultados e informações operacionais referentes ao segundo trimestre de 2026.
Vale — relatório de desempenho financeiro e operacional do segundo trimestre de 2026.
Axia Energia — informações corporativas, estrutura acionária e documentos de Relações com Investidores.
Eli Lilly — resultados financeiros do segundo trimestre de 2026, guidance anual e atualização do pipeline clínico.









