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Governo acelera salvaguardas antes da votação do acordo Mercosul-UE no Senado

por Henrique Valverde
26/02/2026 às 10h27
em Economia
Mercosul - Gazeta Mercantil

Governo acelera decreto de salvaguardas antes de votação do acordo Mercosul-UE no Senado

Brasília — O governo federal decidiu antecipar a edição do decreto que regulamenta mecanismos de proteção à indústria e ao agronegócio como estratégia para consolidar apoio político à ratificação do acordo Mercosul-UE no Congresso Nacional. A medida, confirmada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), deve ser publicada antes da votação final no Senado Federal e ocorre em meio à pressão do setor produtivo por garantias adicionais de defesa comercial.

O movimento ganhou tração após o Parlamento Europeu aprovar regras mais rígidas para monitoramento de importações agrícolas no âmbito do tratado entre os dois blocos. A mudança elevou a preocupação de produtores brasileiros, que passaram a exigir contrapartidas regulatórias internas para evitar vulnerabilidades competitivas.

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Segundo Alckmin, o texto do decreto será encaminhado à Casa Civil e deverá ser editado nos próximos dias. A regulamentação estabelecerá critérios objetivos para aplicação de salvaguardas já previstas no acordo Mercosul-UE, mas que ainda carecem de normatização doméstica para execução prática.

Pressão do agronegócio e reação do Executivo

A Frente Parlamentar da Agropecuária intensificou o diálogo com o Palácio do Planalto nas últimas semanas, defendendo que a publicação do decreto ocorresse antes mesmo da votação na Câmara dos Deputados. Embora o cronograma legislativo tenha avançado, o governo sinalizou que a regulamentação será formalizada antes da análise no Senado.

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O tema ganhou relevância adicional após a decisão do Parlamento Europeu de reduzir de 10% para 5% o gatilho de crescimento médio trienal das importações agrícolas considerado suficiente para abertura de investigação e eventual suspensão de benefícios tarifários. A alteração foi interpretada como endurecimento do ambiente regulatório europeu no contexto do acordo Mercosul-UE.

Para setores do agro, a nova regra pode ampliar o risco de acionamento de mecanismos de defesa na União Europeia, especialmente em produtos classificados como sensíveis. O governo brasileiro sustenta que a regulamentação interna das salvaguardas fortalecerá a capacidade de reação do país diante de eventuais distorções.

Estrutura das salvaguardas comerciais

As salvaguardas são instrumentos reconhecidos no direito internacional do comércio e permitem que um país suspenda temporariamente concessões tarifárias quando houver prejuízo grave ou ameaça à produção nacional. No caso do acordo Mercosul-UE, esses mecanismos já constam no texto negociado, mas exigem detalhamento normativo para aplicação no ordenamento brasileiro.

O decreto em elaboração pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) deverá disciplinar três hipóteses centrais: estabelecimento de cotas que deixem de observar as preferências acordadas; suspensão temporária de reduções tarifárias previstas; e restabelecimento do nível tarifário original anterior ao tratado.

De acordo com o MDIC, a regulamentação ampliará transparência, previsibilidade e segurança jurídica para empresas exportadoras e para segmentos potencialmente expostos à concorrência externa após a implementação do acordo Mercosul-UE.

Articulação política no Congresso

A confirmação do decreto ocorreu após reunião entre Alckmin e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Também participaram o relator da matéria, deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP), o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), e o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan.

Nos bastidores, a avaliação é de que o decreto reduz resistências e amplia a margem de apoio parlamentar ao acordo Mercosul-UE, tratado considerado estratégico pela equipe econômica. Hugo Motta afirmou que a pressão do agro não deve impedir a aprovação da matéria e que eventuais ajustes podem ser conduzidos por meio de regulamentação posterior.

O relator Marcos Pereira declarou que a formalização das salvaguardas oferece conforto adicional ao setor produtivo e contribui para mitigar receios quanto à exposição competitiva.

Dimensão econômica do tratado

O acordo Mercosul-UE envolve um mercado combinado de aproximadamente 720 milhões de consumidores e um PIB agregado estimado em US$ 22 trilhões. Negociado ao longo de mais de 25 anos, o tratado prevê redução gradual de tarifas, ampliação de quotas e facilitação de investimentos e compras governamentais.

Para o Brasil, a expectativa é ampliar o acesso de produtos agropecuários ao mercado europeu, incluindo carnes, açúcar, etanol e suco de laranja, além de fortalecer a inserção da indústria nacional em cadeias globais de valor. A indústria, por sua vez, vê oportunidade de modernização produtiva, mas também alerta para o aumento da concorrência de bens manufaturados europeus.

A consolidação do acordo Mercosul-UE ocorre em um cenário internacional marcado por tensões comerciais e revisão de políticas tarifárias em grandes economias. Analistas apontam que o tratado pode representar vetor relevante de diversificação de mercados para o Brasil, reduzindo dependência de destinos específicos de exportação.

Regras europeias e impacto regulatório

A decisão do Parlamento Europeu de endurecer critérios para monitoramento de importações agrícolas introduziu elemento político sensível no processo de ratificação. Produtores europeus argumentam que enfrentam padrões ambientais e sanitários rigorosos e demandam proteção adicional frente à concorrência externa.

O novo limite de 5% para investigação de importações foi interpretado por representantes do agronegócio brasileiro como sinal de maior cautela europeia na implementação do acordo Mercosul-UE. O governo brasileiro, contudo, sustenta que o texto negociado preserva o equilíbrio de concessões e mantém instrumentos de defesa suficientes.

A regulamentação das salvaguardas no Brasil é vista como resposta institucional a esse novo ambiente regulatório, reforçando a capacidade de monitoramento e reação em caso de impactos adversos.

Segurança jurídica e ambiente de negócios

Especialistas em comércio exterior destacam que previsibilidade normativa é fator determinante para decisões de investimento. A publicação do decreto antes da votação no Senado sinaliza compromisso com estabilidade regulatória e governança transparente.

A entrada em vigor do acordo Mercosul-UE pode estimular fluxos de investimento direto, sobretudo em setores integrados a cadeias globais, como automotivo, químico e de máquinas e equipamentos. Ao mesmo tempo, segmentos mais sensíveis à concorrência externa acompanham a regulamentação das salvaguardas como instrumento de equilíbrio competitivo.

Para a equipe econômica, a consolidação do tratado representa etapa relevante na estratégia de inserção internacional do Brasil e de ampliação da competitividade estrutural da economia.

Próximos passos no Senado

Com a tramitação avançando na Câmara, o foco do governo passa a ser o Senado Federal, onde o acordo Mercosul-UE deverá enfrentar novo escrutínio político. A expectativa é que o decreto de salvaguardas já esteja vigente quando o texto chegar à Casa revisora.

A articulação envolve diálogo com líderes partidários e representantes de setores produtivos, em tentativa de construir consenso em torno do tratado. O desfecho da votação será determinante para definir o ritmo de implementação das concessões tarifárias previstas.

O avanço do acordo Mercosul-UE no Congresso ocorre sob monitoramento atento de agentes econômicos e investidores, que acompanham o processo como indicador da agenda de abertura comercial do país. A regulamentação das salvaguardas, nesse contexto, consolida-se como peça-chave para equilibrar integração internacional e proteção estratégica da produção nacional.

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