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Acordo Mercosul-UE: Vigência Provisória em Março Desafia Entraves e Une Blocos

por Eduardo Toscano
22/01/2026 às 10h29
em Economia
Acordo Mercosul-Ue: Vigência Provisória Em Março Desafia Entraves E Une Blocos - Gazeta Mercantil

Acordo Mercosul-UE deve entrar em vigor provisoriamente em março, desafiando entraves jurídicos em Bruxelas

O cenário do comércio internacional, marcado por volatilidade e realinhamentos geopolíticos, prepara-se para um marco decisivo no próximo mês. Fontes diplomáticas de alto escalão em Bruxelas confirmaram à agência Reuters que o Acordo Mercosul-UE deverá ter sua aplicação provisória iniciada já em março. A medida representa uma vitória pragmática do Poder Executivo europeu e dos governos sul-americanos sobre as manobras legislativas que tentam travar o tratado. A expectativa é que o Paraguai seja o primeiro país do bloco sul-americano a ratificar o documento, gatilho necessário para a vigência imediata das cláusulas comerciais, à revelia da contestação judicial iminente no Tribunal de Justiça da União Europeia.

A ativação do Acordo Mercosul-UE em caráter provisório é a resposta política e econômica da Europa para evitar que um pacto negociado ao longo de 25 anos seja soterrado pela burocracia ou pelo protecionismo agrícola de alguns Estados-membros. O movimento ocorre em um momento crítico, apenas dias após parlamentares europeus remeterem o texto ao tribunal superior do bloco, uma estratégia que, em tese, poderia congelar a implementação definitiva por até dois anos. No entanto, a diplomacia comercial encontrou no mecanismo de aplicação provisória a chave para destravar os fluxos de investimento e trocas de mercadorias.

Leia também: Fim da greve: professores e técnicos universitários assinam acordo.

A Mecânica da Aplicação Provisória

Para compreender a resiliência do Acordo Mercosul-UE, é fundamental entender a arquitetura jurídica dos tratados da União Europeia. O pacto é dividido em pilares. O pilar comercial, que envolve a redução de tarifas e quotas, é de competência exclusiva da União Europeia. Isso permite que, após a assinatura e a aprovação pelo Conselho da UE e pelo Parlamento Europeu (na parte comercial), o acordo entre em vigor antes mesmo da ratificação pelos parlamentos nacionais dos 27 países membros, que é exigida apenas para o pilar de cooperação política.

A informação de que “o Acordo Mercosul-UE será aplicado provisoriamente assim que o primeiro país do Mercosul o ratificar” demonstra a urgência de Bruxelas. O Paraguai, que detém um processo legislativo ágil e ocupa uma posição favorável ao livre comércio, desponta como o agente catalisador. A previsão de que isso ocorra em março coloca pressão sobre os opositores e envia um sinal claro aos mercados: a maior zona de livre comércio do mundo está prestes a sair do papel, conectando mais de 700 milhões de consumidores.

A Posição da Alemanha e o Fator Friedrich Merz

O peso político para que o Acordo Mercosul-UE avance, apesar das resistências, vem de Berlim. O chanceler alemão, Friedrich Merz, emergiu como um dos fiadores mais vocais do tratado. Durante sua participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos, Merz não poupou críticas à decisão do Parlamento Europeu de judicializar o tema, classificando o movimento como lamentável e um obstáculo desnecessário ao desenvolvimento econômico do continente.

Friedrich Merz, representando a maior economia industrial da Europa, entende que o Acordo Mercosul-UE é vital para a sobrevivência da competitividade alemã. “Mas tenham certeza: Não seremos impedidos. O acordo do Mercosul é justo e equilibrado. Não há alternativa a ele se quisermos ter um crescimento maior na Europa”, afirmou o chanceler. A declaração de Merz reflete a angústia do setor industrial, que vê nas tarifas norte-americanas e na agressividade comercial chinesa ameaças existenciais.

Para a Alemanha, o Acordo Mercosul-UE não é apenas sobre importar commodities; é sobre garantir mercados para seus automóveis, maquinários e produtos químicos, além de diversificar as cadeias de suprimento de matérias-primas críticas. A consternação das empresas alemãs com os atrasos recentes foi palpável, e a liderança de Merz busca assegurar que o pragmatismo econômico prevaleça sobre o ativismo protecionista.

O Contexto Geopolítico: EUA e China

A urgência na implementação do Acordo Mercosul-UE está intrinsecamente ligada ao tabuleiro geopolítico global. A Europa encontra-se espremida entre duas superpotências. De um lado, os Estados Unidos, com políticas tarifárias protecionistas que encarecem os produtos europeus e dificultam o acesso ao mercado norte-americano. Do outro, a China, que avança rapidamente sobre os mercados da América Latina, ocupando espaços que historicamente pertenciam às empresas europeias.

Os apoiadores do tratado argumentam que o Acordo Mercosul-UE é a única ferramenta capaz de compensar os negócios perdidos no Atlântico Norte e reduzir a dependência estratégica em relação a Pequim. Sem a consolidação deste pacto, a União Europeia corre o risco de irrelevância comercial na América do Sul, perdendo preferência em licitações governamentais e enfrentando barreiras tarifárias que os competidores asiáticos, muitas vezes, conseguem contornar através de acordos bilaterais diretos.

Para o Mercosul, a lógica é similar. Diversificar parceiros comerciais é uma questão de segurança nacional e estabilidade econômica. O Acordo Mercosul-UE oferece ao Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai uma alternativa de alta qualidade, com acesso a tecnologias e investimentos sustentáveis que a parceria com a China, focada majoritariamente em infraestrutura e commodities brutas, nem sempre proporciona.

A Resistência Francesa e o Protecionismo Agrícola

O principal foco de resistência ao Acordo Mercosul-UE continua sendo a França. Liderando um bloco de países descontentes, Paris ecoa as preocupações de seus agricultores, que temem a concorrência dos produtos sul-americanos. O argumento central dos críticos é que a entrada em vigor do tratado inundará o mercado europeu com carne bovina, açúcar e aves a preços competitivos, prejudicando os produtores locais que operam sob custos regulatórios mais elevados.

No entanto, a decisão de aplicar o Acordo Mercosul-UE provisoriamente a partir de março sinaliza que a Comissão Europeia e o Conselho da UE optaram por não deixar que o interesse setorial de um grupo específico de agricultores mantenha refém a política comercial de todo o bloco. O embate entre a visão industrialista alemã e o protecionismo agrário francês é o pano de fundo dessa disputa, com o Acordo Mercosul-UE servindo como o campo de batalha onde se define o futuro da orientação econômica da Europa.

O Papel do Brasil e do Governo Lula

Do lado sul-americano, o governo brasileiro tem tratado a aprovação do Acordo Mercosul-UE como prioridade absoluta. A administração Lula minimizou os entraves jurídicos recentes, focando na articulação política para a ratificação no Congresso Nacional. Para o Brasil, o acordo representa a oportunidade de reindustrialização e de inserção em cadeias globais de valor, além de ganhos estruturais de longo prazo, conforme projetado por instituições financeiras como a XP Investimentos.

A entrada em vigor provisória do Acordo Mercosul-UE em março permitiria ao Brasil começar a colher os frutos da redução tarifária imediatamente. Setores como o agronegócio exportador, mas também a indústria têxtil e de calçados, seriam beneficiados. Além disso, a segurança jurídica proporcionada por um tratado internacional deste porte atrai Investimento Estrangeiro Direto (IED), fundamental para a retomada do crescimento sustentável da economia brasileira.

O Desafio no Tribunal de Justiça Europeu

A manobra dos parlamentares europeus de remeter o Acordo Mercosul-UE ao Tribunal de Justiça Europeu cria uma sombra de incerteza, mas não uma barreira intransponível imediata. O processo judicial pode levar até dois anos para ser concluído. Durante esse período, a aplicação provisória garante que o comércio flua sob as novas regras.

Se o tribunal decidir contra algum aspecto do acordo no futuro, ajustes pontuais podem ser feitos, mas a integração econômica já estará em curso, criando fatos consumados difíceis de reverter. A aposta dos negociadores é que, uma vez que as empresas de ambos os lados do Atlântico adaptem suas operações à realidade do Acordo Mercosul-UE, o lobby pela sua manutenção será mais forte do que a pressão política para derrubá-lo.

O argumento dos parlamentares que acionaram a corte baseia-se em questionamentos sobre a base legal utilizada para fatiar o acordo e sobre competências ambientais. Contudo, a Comissão Europeia, apoiada por juristas do Conselho, sustenta que o Acordo Mercosul-UE segue estritamente os tratados da União e que a aplicação provisória é um instrumento legítimo e necessário diante da paralisia legislativa.

Perspectivas Econômicas para Março

Com a provável ratificação pelo Paraguai em março, o Acordo Mercosul-UE deixará de ser uma promessa diplomática para se tornar uma realidade de mercado. Exportadores e importadores já começam a se preparar para as mudanças nas alíquotas de importação e nas regras de origem. A expectativa é de um aumento no volume de comércio bilateral já no segundo semestre de 2026.

Para o consumidor, o Acordo Mercosul-UE pode significar acesso a produtos europeus (como vinhos, azeites, queijos e automóveis) com preços mais acessíveis, enquanto a indústria nacional terá acesso a máquinas e equipamentos de ponta sem o custo proibitivo das tarifas atuais. A modernização do parque industrial brasileiro depende, em grande parte, dessa facilidade de importação de tecnologia, que o acordo proporciona.

Um Passo Irreversível?

A decisão de avançar com a aplicação provisória do Acordo Mercosul-UE demonstra a vitalidade do pacto e a determinação política de seus signatários. Friedrich Merz e as lideranças do Mercosul compreendem que o custo da inação é alto demais em um mundo fragmentado.

Embora os desafios jurídicos em Luxemburgo e os protestos em Paris continuem a gerar manchetes, a realidade econômica impõe-se. O Acordo Mercosul-UE é visto como a única alternativa viável para garantir crescimento, diversificação e relevância geopolítica para ambos os blocos. Março de 2026 promete ser o mês em que, após 25 anos de negociações, Europa e América do Sul finalmente começarão a operar como parceiros preferenciais, desafiando o ceticismo e abrindo uma nova era nas relações transatlânticas. O mercado financeiro e o setor produtivo aguardam com otimismo cauteloso, sabendo que, apesar dos ruídos, a integração via Acordo Mercosul-UE é o caminho lógico para a prosperidade mútua.

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