Aliados de Flávio Bolsonaro (PL) no Senado se mobilizam para impedir que a proposta que acaba com a escala de trabalho 6×1 seja votada antes do segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. Senadores de PL, PP e Republicanos discutiram uma estratégia conjunta e passaram a pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para que a PEC 221/2019 cumpra integralmente os prazos regimentais, o que reduziria a possibilidade de sua aprovação definitiva antes da disputa entre Flávio e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A ofensiva ocorre em um cenário no qual a própria oposição reconhece que existe apoio suficiente para a redução da jornada de trabalho. Parlamentares aliados de Flávio afirmam que não pretendem necessariamente bloquear o conteúdo da PEC e alguns admitem que devem votar a favor da mudança. A divergência central está no calendário: eles querem evitar que Lula possa associar uma eventual aprovação à sua campanha durante as duas semanas que antecedem a votação presidencial.
A senadora Tereza Cristina (PP-MS) foi encarregada de levar essa preocupação diretamente a Alcolumbre. Depois da conversa, afirmou que a redução da jornada semanal está praticamente pacificada entre os senadores, mas disse haver problemas no formato das escalas previsto no texto e defendeu que o Senado siga o rito normal, sem acelerar a tramitação.
O presidente do Senado, porém, descartou retirar a PEC do calendário. A proposta entra nesta quinta-feira, 8 de outubro, na terceira das cinco sessões de discussão necessárias antes da primeira votação. A sessão está oficialmente marcada para as 14h. Se o cronograma ordinário for cumprido, o primeiro turno poderá ser realizado na próxima semana.
Alcolumbre também deixou aberta uma possibilidade que preocupa ainda mais a oposição: caso seja apresentado um requerimento para calendário especial ou quebra do intervalo entre as votações, ele afirmou que colocará o pedido para decisão do plenário. Dessa forma, os próprios senadores poderão decidir se aceleram a PEC para tentar concluir os dois turnos antes de 25 de outubro.
A disputa transformou uma proposta trabalhista que vinha sendo discutida desde antes da campanha em um dos principais embates políticos do segundo turno. Lula defende a redução da jornada e tenta acelerar a votação. Flávio acusa o governo de usar o tema eleitoralmente, enquanto seus aliados procuram impedir que a aprovação seja concluída antes da eleição.
Aliados de Flávio tentam ganhar tempo no Senado
A articulação ganhou força nesta quarta-feira, 7, quando parlamentares de PL, PP e Republicanos se reuniram para avaliar quais instrumentos regimentais poderiam ser utilizados para evitar uma votação acelerada.
A estratégia não é necessariamente retirar a PEC da pauta. O objetivo imediato é assegurar o cumprimento de todos os intervalos previstos pelo Regimento Interno do Senado.
Uma proposta de emenda à Constituição precisa passar por cinco sessões de discussão antes da votação em primeiro turno. Se aprovada, ainda enfrenta três sessões de discussão antes do segundo turno.
Sem qualquer mudança nesse calendário, a votação final tende a ultrapassar a data da eleição presidencial.
O governo procura justamente evitar esse resultado.
A líder governista Teresa Leitão (PT-PE) trabalha na coleta de assinaturas para um calendário especial que permita encurtar os intervalos e acelerar a deliberação.
Alcolumbre afirmou que não pretende impedir a apresentação desse requerimento. Caso o pedido chegue à mesa, será submetido ao conjunto dos senadores.
Isso coloca a oposição diante de uma segunda batalha. Além de tentar convencer o presidente do Senado a não acelerar a proposta, os aliados de Flávio poderão precisar reunir votos suficientes para rejeitar um eventual calendário especial.
A terceira sessão de discussão prevista para esta quinta confirma que, por enquanto, Alcolumbre mantém a PEC avançando. A pauta oficial do Senado identifica expressamente a PEC 221/2019 como o primeiro item da sessão e registra que ela estará em sua terceira discussão em primeiro turno.
Damares diz que aprovação pode ajudar Lula
A motivação eleitoral da tentativa de adiamento foi explicitada pela senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
Na avaliação dela, uma aprovação antes do segundo turno não prejudicaria diretamente Flávio, mas poderia favorecer Lula durante a campanha. Damares também afirmou que considera inadequado discutir o assunto neste momento.
Ao mesmo tempo, a senadora reconheceu que existe apoio suficiente no Senado para aprovar a proposta e afirmou que a oposição não pretende realizar uma obstrução tradicional da votação.
Essa posição resume o dilema enfrentado pelos aliados do candidato do PL.
O fim da escala 6×1 é uma pauta popular entre segmentos de trabalhadores e já recebeu apoio muito amplo na Câmara dos Deputados. Assumir uma posição frontalmente contrária pode produzir desgaste eleitoral.
Por outro lado, permitir que a PEC seja aprovada às vésperas do segundo turno pode entregar a Lula uma bandeira trabalhista de forte apelo justamente no momento em que o presidente tenta recuperar os votos necessários para superar Flávio.
Por isso, o debate político passou a ser menos sobre aprovar ou rejeitar a redução da jornada e mais sobre quando a votação deverá acontecer.
Wellington Fagundes (PL-MT), líder de bloco que reúne também Avante e Novo, afirmou que não pretende comandar uma obstrução quando o texto for colocado em votação. Ele também lembrou que, na Câmara, setores da oposição votaram favoravelmente à proposta.
Flávio chama votação de eleitoreira
Flávio Bolsonaro passou a atacar diretamente o calendário adotado pelo Senado.
O candidato do PL afirma que Lula está tentando transformar o fim da escala 6×1 em instrumento eleitoral e acusa o governo de oportunismo por acelerar a discussão entre o primeiro e o segundo turnos.
Ao mesmo tempo, Flávio evita assumir uma posição categórica contra a redução da jornada.
Ele diz ser favorável a mais descanso para os trabalhadores, mas questiona o impacto econômico da proposta e argumenta que outras medidas, como redução da tributação sobre a folha de pagamento, deveriam fazer parte do debate.
O coordenador de sua campanha, Rogério Marinho (PL-RN), também evita enquadrar a oposição simplesmente como contrária ao fim da escala 6×1.
Marinho defende maior liberdade para organizar jornadas e formas de remuneração e é autor de uma proposta baseada em remuneração por hora e acordos individuais.
A posição de Marinho também apareceu durante a tramitação na Comissão de Constituição e Justiça. Ele apresentou uma emenda específica sobre regimes diferenciados de trabalho. A proposta foi rejeitada pelo relator Omar Aziz (PSD-AM), assim como a maior parte das 36 emendas apresentadas na comissão.
Marinho, Tereza Cristina, Hamilton Mourão e Jaime Bagattoli votaram contra o parecer aprovado pela CCJ e também se posicionaram contra o requerimento de calendário especial discutido naquela etapa.
A resistência ao calendário, portanto, antecede o segundo turno presidencial, mas ganhou uma dimensão eleitoral muito maior depois que Flávio terminou a primeira votação à frente de Lula.
Alcolumbre rejeita adiar para depois da eleição
A tentativa dos aliados de Flávio encontrou até agora resistência de Davi Alcolumbre.
O presidente do Senado afirmou que seu compromisso anterior era evitar que a tramitação interferisse no primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Como essa etapa já passou, entende que não existe obrigação de suspender a análise até depois da votação de 25 de outubro.
Segundo Alcolumbre, o Senado seguirá o rito regimental. Isso permite que a primeira votação aconteça na próxima semana.
A oposição procurou o presidente da Casa justamente para modificar esse calendário.
Tereza Cristina relatou a Alcolumbre preocupações relacionadas ao conteúdo da proposta, principalmente sobre atividades que trabalham com escalas especiais. Ao sair da reunião, porém, reconheceu que a PEC continuaria seguindo seu trâmite normal.
Isso significa que os aliados de Flávio não conseguiram, até agora, retirar ou congelar a proposta.
A alternativa passou a ser impedir uma aceleração adicional.
Se não houver quebra de interstício, o tempo necessário para cumprir todas as sessões regimentais funciona a favor da estratégia oposicionista. Caso o governo consiga um calendário especial, a situação se inverte e pode haver espaço para concluir a análise antes do segundo turno.
PEC reduz jornada para 40 horas
A PEC 221/2019 reduz de 44 para 40 horas a duração máxima da jornada semanal de trabalho e estabelece dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial.
O texto está oficialmente em tramitação no Senado depois de ter sido aprovado em dois turnos na Câmara dos Deputados.
A implantação é gradual.
Na primeira etapa, prevista para começar 60 dias depois da eventual promulgação, a jornada máxima cairia de 44 para 42 horas semanais. Após 12 meses, passaria definitivamente para 40 horas.
Um dos dois dias de descanso deverá ocorrer preferencialmente aos domingos.
A mudança não determina que todas as empresas funcionem apenas de segunda a sexta-feira. Setores que operam continuamente poderão continuar utilizando escalas, desde que respeitem as regras de descanso e os limites constitucionais.
É justamente a situação desses setores que Tereza Cristina e outros senadores da oposição querem discutir com maior profundidade.
Hospitais, supermercados, hotéis, restaurantes, transportes, indústrias de funcionamento contínuo, agricultura e serviços essenciais são exemplos de atividades em que uma regra uniforme pode exigir adaptações específicas.
A oposição sustenta que o problema não está necessariamente na redução das horas semanais, mas no risco de restringir excessivamente a organização das escalas.
Câmara aprovou proposta por margem ampla
O histórico de votação ajuda a explicar por que os aliados de Flávio concentram sua estratégia no calendário em vez de tentar simplesmente derrotar a PEC.
Na Câmara dos Deputados, o texto foi aprovado em 27 de maio por uma maioria muito superior ao mínimo constitucional.
No primeiro turno, foram 472 votos favoráveis e 22 contrários. No segundo, 461 deputados votaram a favor e apenas 19 contra.
A votação mostrou apoio ao fim da escala 6×1 entre parlamentares de diferentes correntes políticas.
No Senado, a CCJ também aprovou parecer favorável ao texto recebido da Câmara. O relator Omar Aziz rejeitou as emendas apresentadas e preservou a essência da proposta.
Para ser aprovada no plenário, a PEC precisará receber pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores em cada um dos dois turnos.
Os próprios oposicionistas reconhecem que existe uma maioria favorável à redução da jornada.
Essa circunstância torna politicamente mais difícil transformar a estratégia de adiamento em um movimento explícito para derrotar o conteúdo.
Governo tenta transformar votação em marca do segundo turno
Para Lula, a tramitação oferece a possibilidade de colocar uma pauta trabalhista de grande alcance no centro da campanha eleitoral.
O presidente já acusou o PL de Flávio de tentar atrapalhar a votação e passou a cobrar publicamente uma posição dos parlamentares sobre a proposta. A acusação é uma manifestação política de Lula; a movimentação concreta dos oposicionistas registrada no Senado é para adiar a votação para depois de 25 de outubro, não necessariamente rejeitar definitivamente a PEC.
Governistas também trabalham para reduzir o intervalo entre as sessões e concluir a votação enquanto a campanha presidencial ainda está em curso.
Essa estratégia explica parte da urgência da oposição.
Se a matéria fosse analisada apenas depois da eleição, o debate sobre jornada de trabalho continuaria existindo, mas perderia sua influência direta sobre a disputa entre Lula e Flávio.
Antes de 25 de outubro, cada voto no Senado pode ser incorporado ao discurso eleitoral dos dois campos.
Para o governo, uma aprovação permitiria apresentar a redução de jornada como uma conquista vinculada à agenda de Lula.
Para os aliados de Flávio, adiar a decisão elimina essa possibilidade antes das urnas e abre mais espaço para discutir impacto sobre empresas, custos trabalhistas e modelos alternativos de jornada.
Disputa agora é pelo relógio
A PEC entra nesta quinta-feira em sua terceira sessão de discussão. Pelo rito ordinário, ainda serão necessárias duas antes da primeira votação.
O calendário oficial confirma que o Senado continua analisando a proposta.
Por isso, os próximos movimentos deixam de ser apenas sobre o conteúdo do texto.
Os aliados de Flávio precisam evitar que o governo consiga encurtar os prazos. O governo, por sua vez, tenta reunir apoio para um calendário especial.
Alcolumbre está no centro dessa disputa, mas sinalizou que não pretende decidir sozinho sobre eventual aceleração: se houver requerimento, o plenário será chamado a votar.
O cenário produz uma situação pouco usual. Parlamentares que podem acabar votando a favor da PEC trabalham simultaneamente para impedir que ela seja aprovada agora.
A razão declarada por integrantes da oposição é o momento eleitoral.
A própria Damares Alves sintetizou o cálculo ao afirmar que a votação poderia ajudar Lula, ainda que não prejudicasse diretamente Flávio. Outros senadores preferem fundamentar a tentativa de adiamento na necessidade de aperfeiçoar regras para escalas especiais.
As duas questões passaram a caminhar juntas.
A partir desta quinta-feira, portanto, a principal disputa sobre o fim da escala 6×1 no Senado não é apenas se existem 49 votos para aprovar a mudança. É se os aliados de Flávio Bolsonaro conseguirão impedir que esses votos sejam contabilizados antes de o país escolher o presidente no segundo turno.
Fontes
Senado Federal — PEC 221/2019 e tramitação oficial
Senado Federal — pauta do plenário de 8 de outubro de 2026
Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania — Parecer nº 59/2026
Câmara dos Deputados — votação da PEC 221/2019








