A Copenhagen e Assessoria e Consultoria S.A., companhia constituída em 1º de novembro de 2024, recebeu R$ 11,2 milhões do Banco Master no mês seguinte à abertura e mais R$ 46,6 milhões ao longo de 2025, segundo dados fiscais analisados pelo Metrópoles. Meses depois do primeiro repasse, o escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu e cancelou duas notas de R$ 500 mil destinadas à consultoria. A sequência levou o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) a pedir, na quinta-feira, 23 de julho, que a Polícia Federal examine os documentos no âmbito das apurações relacionadas ao banco.
Flávio Bolsonaro afirma que não recebeu qualquer valor da Copenhagen e que a contratação discutida com a empresa não avançou. Segundo o senador, seu vínculo profissional foi firmado com a BR Global, nome fantasia da Contábil Correa Contabilidade e Auditoria Ltda., e não com o Banco Master.
A emissão e o cancelamento das notas fiscais, isoladamente, não comprovam a prática de irregularidade. Também não há, até o momento, confirmação pública de que a Polícia Federal tenha aberto uma investigação específica contra Flávio Bolsonaro em razão desses documentos.
O pedido apresentado por Lindbergh busca justamente esclarecer se houve efetiva prestação dos serviços descritos, qual foi a origem dos recursos envolvidos nas relações comerciais e se existe alguma conexão entre as notas e as operações financeiras investigadas no caso Banco Master.
Consultoria foi aberta com capital social de R$ 40
A Copenhagen e Assessoria e Consultoria S.A. foi registrada como sociedade anônima fechada e permanece com situação cadastral ativa. A atividade principal informada é a consultoria em gestão empresarial, enquanto o cadastro também inclui participação em outras sociedades.
O capital social declarado na abertura foi de apenas R$ 40. O endereço empresarial fica em um conjunto comercial no centro de São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo.
O baixo capital registrado não torna uma companhia irregular nem limita, por si só, o volume de recursos que ela pode receber. A diferença entre a estrutura formal da empresa e a dimensão dos repasses, contudo, tornou-se um dos pontos de interesse da apuração jornalística.
Segundo os dados publicados, a Copenhagen recebeu R$ 11,2 milhões do Banco Master em dezembro de 2024, poucas semanas depois de sua constituição. Em 2025, os repasses teriam alcançado outros R$ 46,6 milhões.
O total transferido pelo Banco Master nos dois anos chegou, portanto, a aproximadamente R$ 57,8 milhões. Esse volume colocou a Copenhagen entre as dez companhias que mais receberam recursos da instituição financeira no período analisado.
Repasses começaram antes das notas fiscais
A cronologia é um dos elementos centrais do caso. Os primeiros recursos do Banco Master chegaram à Copenhagen em dezembro de 2024, enquanto as notas emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro são de abril de 2025.
Em 7 de abril daquele ano, o escritório emitiu duas notas fiscais de R$ 500 mil cada em favor da Copenhagen. Os documentos descreviam serviços de natureza jurídica, mas foram cancelados na mesma data.
Dois dias depois, em 9 de abril, uma terceira nota, também no valor de R$ 500 mil, foi emitida para a Contábil Correa. Nesse documento, o serviço informado foi o de assessoria jurídica. Não há, nos registros publicados, indicação de cancelamento dessa terceira nota.
A existência de uma nota fiscal comprova que um documento tributário foi gerado, mas não demonstra automaticamente que o pagamento ocorreu ou que todo o valor foi efetivamente recebido. A confirmação do fluxo financeiro depende de registros bancários, contratos, comprovantes e documentos contábeis.
Da mesma forma, o cancelamento pode decorrer de diferentes circunstâncias comerciais ou tributárias, como erro de preenchimento, desistência da contratação ou substituição do documento. No caso da Copenhagen, Flávio Bolsonaro sustenta que as notas foram canceladas porque o negócio não foi concluído.
Contábil Correa aparece como elo empresarial
A Copenhagen e a Contábil Correa estão relacionadas ao contador Rogério Lourenço Novo. Ele figura como único sócio da empresa de contabilidade e aparece atualmente como diretor da consultoria.
O cadastro empresarial indica que o ingresso formal de Rogério Lourenço Novo na diretoria da Copenhagen ocorreu em 1º de setembro de 2025. A data é posterior às notas fiscais emitidas em abril daquele ano, distinção relevante para a reconstrução precisa da sequência societária.
Rogério Lourenço Novo também ocupa uma vaga efetiva no conselho fiscal da Ambipar. A companhia ambiental passou a aparecer em diferentes frentes das investigações e reportagens relacionadas às estruturas empresariais e financeiras ligadas ao caso Banco Master.
Ao ser procurado pelo Metrópoles, o contador afirmou ser o dono da Copenhagen desde setembro de 2025. Ele disse ter contratado o escritório de Flávio Bolsonaro para atender clientes de sua empresa de contabilidade, em uma modalidade que descreveu como “quarteirização” dos serviços jurídicos.
Questionado sobre quais clientes teriam sido atendidos ou sobre a natureza exata dos trabalhos realizados, Rogério afirmou possuir mais de 200 clientes e não se recordar imediatamente dos detalhes. Segundo a reportagem, ele solicitou tempo para consultar as informações, mas não apresentou novos esclarecimentos até a publicação.
Deputado pede que PF reconstrua caminho dos recursos
Lindbergh Farias encaminhou uma petição à Polícia Federal solicitando que as três notas fiscais sejam incorporadas às investigações relacionadas ao Banco Master, ao empresário Daniel Vorcaro e às estruturas financeiras associadas à instituição.
No documento, o deputado pede a realização de diligências para verificar se os serviços advocatícios declarados foram efetivamente prestados. Ele também quer que os investigadores analisem a origem e o destino dos recursos envolvidos nas operações.
O parlamentar sustenta que a proximidade temporal entre emissões, cancelamentos e outras movimentações empresariais precisa ser esclarecida por meio de documentação fiscal, bancária e contratual. O pedido também menciona a Trustee DTVM e o fundo Estônia, apontado como acionista da Copenhagen.
Uma representação parlamentar, porém, não determina automaticamente a abertura de inquérito nem comprova as alegações apresentadas. Cabe à autoridade policial avaliar se existem elementos mínimos que justifiquem diligências, inclusão de documentos em procedimentos existentes ou instauração de uma nova investigação.
Caso haja avanço da apuração, os investigadores poderão solicitar contratos, relatórios de atividades, notas, comprovantes de pagamento, movimentações bancárias e registros contábeis. Medidas que envolvam dados protegidos por sigilo dependem das autorizações legais e judiciais aplicáveis.
Pedido à PF não significa acusação formal contra senador
Até a publicação desta matéria, não havia informação oficial de que Flávio Bolsonaro tivesse sido formalmente incluído como investigado por causa das notas emitidas para a Copenhagen e a Contábil Correa.
A distinção é relevante porque o documento apresentado por Lindbergh expressa uma solicitação política e jurídica de apuração. A decisão sobre a existência de indícios, a definição de eventuais investigados e a adoção de diligências cabe às autoridades competentes.
As duas notas canceladas também não demonstram, sem outros elementos, que o escritório recebeu R$ 1 milhão da Copenhagen. Pelo contrário, o senador afirma que nenhum pagamento foi realizado porque a contratação não chegou a ser concluída.
A terceira nota, emitida para a Contábil Correa, deve ser analisada separadamente. Flávio confirma que possuía um contrato de assessoria jurídica com a empresa, mas os documentos divulgados não detalham quais atividades foram realizadas, durante quanto tempo ou em quais processos o escritório atuou.
Essas informações podem ser protegidas por deveres de confidencialidade próprios da advocacia. Ainda assim, uma eventual investigação pode buscar meios de verificar a existência e a regularidade dos serviços sem divulgar indevidamente dados sujeitos a sigilo profissional.
Flávio nega qualquer relação com o Banco Master
Em sua manifestação, Flávio Bolsonaro afirmou que o contrato de seu escritório foi firmado com a BR Global, nome fantasia da Contábil Correa, empresa que, segundo ele, atende mais de 200 clientes em São Paulo.
O senador disse ter sido consultado sobre a possibilidade de prestar serviços a uma cliente da BR Global, identificada como Copenhagen. A negociação, segundo sua versão, não avançou, razão pela qual as duas notas fiscais foram canceladas.
Flávio também declarou não ter recebido qualquer quantia da Copenhagen. Para o senador, as reportagens tentam vinculá-lo ao Banco Master apesar de não existir relação direta entre seu escritório e a instituição financeira.
Ele afirmou ainda que desconhecia qualquer conexão da BR Global ou da Copenhagen com o banco. O parlamentar anunciou que poderá adotar medidas judiciais contra associações que considere falsas ou sem fundamento.
A defesa também levantou suspeitas sobre a origem dos dados fiscais publicados, alegando que informações protegidas por sigilo podem ter sido vazadas com finalidade política. Não foi apresentada, entretanto, comprovação pública de participação de órgãos governamentais na entrega dos documentos à imprensa.
Trustee diz não interferir nas relações comerciais
A Copenhagen aparece vinculada ao fundo Estônia, cuja administração é atribuída à Trustee DTVM. A administradora afirmou, em manifestação divulgada anteriormente, que não exercia ingerência sobre as relações comerciais da consultoria.
Segundo a versão da Trustee, a instituição não participava da definição de pagamentos, contratações ou negociações conduzidas pela Copenhagen. A administradora também negou atuar para ocultar patrimônio de pessoas relacionadas ao Banco Master.
No mercado de capitais, o administrador fiduciário exerce funções de controle, supervisão e representação dos fundos, mas sua responsabilidade concreta depende da estrutura do veículo, dos contratos, dos prestadores de serviço e das decisões atribuídas ao gestor ou aos investidores.
A existência de um fundo de investimento na estrutura acionária de uma companhia também não prova irregularidade. O ponto sob análise é saber como as decisões foram tomadas, quais serviços justificaram os repasses e quem exerceu o controle econômico das operações.
A Comissão de Valores Mobiliários mantém procedimentos administrativos relacionados ao grupo Master, administradores, gestores de fundos e entidades conexas. Esses processos possuem objetos distintos e não permitem concluir, sem acesso individual aos autos, que todos os citados tenham cometido infrações.
Liquidação do Master amplia relevância dos repasses
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025. A medida foi motivada, segundo a autoridade monetária, por grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
A liquidação transferiu a administração da instituição para um liquidante nomeado pelo Banco Central. O procedimento busca identificar ativos, passivos, credores, devedores e responsabilidades decorrentes das operações realizadas antes do encerramento das atividades regulares.
Nesse contexto, pagamentos milionários feitos pelo banco a consultorias e prestadores de serviços passaram a receber maior escrutínio. Os investigadores procuram identificar a justificativa econômica das transferências, os beneficiários finais e a correspondência entre valores pagos e atividades contratadas.
O fato de uma empresa ter recebido dinheiro do Banco Master não a torna automaticamente participante de um esquema ilícito. Para caracterizar eventual responsabilidade, é necessário demonstrar conhecimento, participação, benefício indevido ou outra conduta prevista na legislação.
Os responsáveis pelas empresas, os administradores dos fundos e os demais envolvidos têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência. Acusações só podem ser tratadas como comprovadas depois da conclusão das investigações e das decisões judiciais cabíveis.
Documentos aumentam pressão por esclarecimentos no caso Master
A revelação das notas fiscais adiciona uma nova frente política ao caso Banco Master, que já provocou cobranças no Congresso, procedimentos regulatórios e investigações sobre operações financeiras realizadas antes da liquidação da instituição.
O ponto mais sensível não é apenas a emissão dos documentos, mas a combinação entre o tamanho dos repasses recebidos por uma empresa recém-constituída, o capital social reduzido e a ausência, até agora, de informações públicas detalhadas sobre os serviços que justificaram as transferências.
A defesa de Flávio Bolsonaro oferece uma explicação objetiva para o cancelamento das notas destinadas à Copenhagen: a contratação não teria avançado e nenhum valor teria sido recebido. Essa versão poderá ser confrontada com contratos, registros contábeis e movimentações financeiras caso a Polícia Federal decida incluir os fatos na apuração.
Também será necessário esclarecer a terceira nota emitida à Contábil Correa, identificar os serviços efetivamente executados e estabelecer se havia conhecimento prévio sobre as relações empresariais mantidas pelos clientes com o Banco Master.
A decisão da Polícia Federal sobre o pedido de Lindbergh definirá se os documentos permanecerão apenas no campo do embate político ou passarão a integrar formalmente as investigações. Até lá, não há acusação criminal comprovada contra Flávio Bolsonaro em razão das notas, e as informações divulgadas devem ser tratadas como elementos ainda sujeitos a verificação pelas autoridades.










