O Bitcoin (BTC) acelerou a recuperação nesta sexta-feira, 21 de agosto, e voltou a negociar na região dos US$ 78 mil, depois de avançar cerca de 8% em 24 horas. Com o movimento, a maior criptomoeda do mundo acumula valorização próxima de 25% na semana e caminha para registrar seu melhor desempenho semanal em mais de três anos, numa recuperação que começou nos mercados de títulos dos Estados Unidos e rapidamente se espalhou para ativos de maior risco.
Por volta do início da manhã, plataformas internacionais mostravam o Bitcoin acima de US$ 78 mil, no maior nível em aproximadamente três meses. A Coinbase indicava avanço de cerca de 24% em sete dias, enquanto outras referências de mercado registravam cotações entre US$ 77 mil e US$ 79 mil, diferença explicada pelos horários e pelas próprias características de negociação contínua das criptomoedas. Mesmo depois da disparada, o BTC ainda permanece muito abaixo do recorde superior a US$ 126 mil atingido em outubro de 2025.
A velocidade da valorização chamou mais atenção que o preço isoladamente. Até poucos dias atrás, o Bitcoin estava próximo dos US$ 64 mil e atravessava um período de forte desconfiança depois da correção ocorrida desde o recorde histórico. Em questão de sessões, a criptomoeda recuperou mais de US$ 10 mil e forçou investidores que apostavam em novas quedas a desmontar posições, produzindo um dos maiores movimentos de short squeeze vistos recentemente no mercado de ativos digitais.
O gatilho mais importante não surgiu, porém, dentro do próprio universo das criptomoedas. Ele veio do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que anunciou na quarta-feira, 19, uma mudança relevante em seu programa de recompra de títulos públicos de longo prazo. A decisão atingiu diretamente um dos principais fatores que vinham pressionando Bitcoin, ações e outros ativos de risco: a escalada dos juros dos Treasuries mais longos.
Tesouro dos EUA dobrou tamanho das recompras
O Tesouro anunciou oficialmente que vai aumentar em pelo menos duas vezes o tamanho máximo das operações destinadas a recomprar títulos nominais de longo prazo. O limite atual de US$ 2 bilhões por operação passará para pelo menos US$ 4 bilhões, abrangendo principalmente papéis com vencimentos entre dez e 30 anos. As novas operações começam em 9 de setembro.
A medida busca aumentar a liquidez em determinados segmentos do mercado de Treasuries em um momento no qual os juros longos americanos vinham sofrendo forte pressão. Em seu programa de recompra, o próprio Tesouro adquire títulos mais antigos no mercado e realiza novas emissões, procurando melhorar a negociação e o funcionamento de partes específicas da curva de juros.
Para o Bitcoin, o efeito ocorreu por vários canais simultaneamente. A perspectiva de um comprador maior para títulos de longo prazo contribuiu para aliviar os rendimentos desses papéis, enquanto o dólar perdeu força. Com taxas longas menores e uma moeda americana mais fraca, ativos que não pagam juros — como ouro e Bitcoin — voltaram a atrair investidores. O Financial Times registrou que o Bitcoin avançava quase 8% nesta sexta e mais de 20% na semana em meio à reação dos mercados à decisão do Tesouro.
Há, entretanto, uma distinção fundamental: a operação do Tesouro não é um novo programa de quantitative easing do Federal Reserve. O banco central americano não anunciou impressão de dinheiro nem retomada das compras de títulos utilizadas em ciclos anteriores de estímulo monetário. Trata-se de uma operação de gestão da dívida conduzida pelo Tesouro. Ainda assim, ao melhorar a liquidez de Treasuries longos e interferir nas condições do mercado de juros, a medida produz efeitos capazes de alcançar outros ativos financeiros.
Por que o Bitcoin reagiu tão violentamente
A mudança macroeconômica encontrou um mercado particularmente vulnerável a movimentos bruscos. Muitos investidores estavam posicionados para a continuação da queda do Bitcoin, criando grande concentração de operações vendidas nos mercados futuros.
Quando a cotação começou a subir, essas posições passaram a sofrer perdas. Investidores alavancados precisam aportar novas garantias ou encerrar suas operações. Em muitos casos, as próprias bolsas liquidam automaticamente as posições. Como fechar uma aposta vendida exige comprar o ativo, a valorização provoca novas compras, que empurram o preço ainda mais para cima e provocam outras liquidações.
É o mecanismo conhecido como short squeeze.
Estimativas de empresas especializadas em derivativos indicam liquidações de bilhões de dólares em posições pessimistas desde o início da recuperação. O fenômeno ajuda a explicar por que o Bitcoin não apenas reagiu ao anúncio americano, mas subiu numa velocidade muito superior à observada em mercados tradicionais. O movimento desta semana combina, portanto, demanda genuína com compras forçadas de investidores que estavam posicionados para a queda.
Esse detalhe também recomenda cautela com extrapolações. Uma alta provocada parcialmente por liquidação de posições pode ser extremamente intensa, mas esse combustível não dura indefinidamente. Quando a maior parte das apostas vendidas é eliminada, o mercado volta a depender essencialmente de novos compradores para sustentar a valorização.
ETFs voltam a receber dinheiro
Há sinais de que esses compradores também começaram a retornar.
Os ETFs de Bitcoin à vista negociados nos Estados Unidos voltaram a registrar entradas importantes de recursos nesta semana, depois de meses marcados por grande volatilidade nos fluxos. Dados compilados por provedores especializados indicam que os fundos caminham para uma das melhores semanas de captação desde janeiro.
Somente em uma das sessões, os ETFs americanos receberam mais de US$ 500 milhões líquidos, enquanto as entradas acumuladas da semana ultrapassaram US$ 1 bilhão.
Esse fluxo é particularmente relevante porque os ETFs funcionam como uma ponte entre o mercado financeiro convencional e o Bitcoin. Gestores, fundos, investidores institucionais e clientes de corretoras tradicionais podem adquirir exposição à criptomoeda sem precisar manter diretamente carteiras digitais ou administrar chaves privadas.
Quando há entrada líquida nesses produtos, os gestores precisam adquirir Bitcoin para dar lastro às cotas emitidas. O resultado é uma fonte de demanda que funciona de maneira diferente das operações especulativas de curto prazo nos mercados futuros.
A combinação entre short squeeze e entrada nos ETFs ajuda a explicar o tamanho do movimento desta semana: compradores forçados pressionaram a cotação rapidamente enquanto capital institucional passou a fornecer demanda adicional no mercado à vista.
Trump adiciona combustível político à recuperação
O segundo grande componente do rali veio de Washington. Na mesma quarta-feira em que o Tesouro anunciou a ampliação das recompras, o presidente Donald Trump recebeu na Casa Branca executivos de algumas das maiores companhias do mercado de criptomoedas e voltou a pressionar o Congresso pela aprovação de uma nova estrutura regulatória para o setor.
Participaram do encontro representantes de empresas como Coinbase, Kraken, Robinhood, Ripple e Intercontinental Exchange, além de autoridades reguladoras. Trump pediu ao Congresso que aprove uma versão do CLARITY Act, projeto destinado a definir com maior precisão a divisão de competências sobre ativos digitais nos Estados Unidos e estabelecer regras para a estrutura do mercado.
O projeto ainda enfrenta obstáculos importantes no Senado e não foi aprovado antes do recesso de agosto. Uma votação processual é esperada para setembro, e serão necessários 60 votos para que a proposta avance. Entre os pontos de divergência estão regras sobre conflitos de interesse, prevenção à lavagem de dinheiro e produtos financeiros oferecidos pelas empresas de criptomoedas.
Ainda assim, para investidores, o encontro reforçou a percepção de que a administração Trump continua politicamente comprometida com a expansão da indústria de ativos digitais nos Estados Unidos.
Essa interpretação também encontra respaldo na postura adotada pelos reguladores americanos neste ano. A SEC e a CFTC já anunciaram iniciativas para esclarecer a aplicação das leis federais aos criptoativos. Em março, as duas agências divulgaram entendimento conjunto sobre a classificação de diferentes tipos de tokens e sobre a divisão de competências regulatórias.
Na quinta-feira, 20, a CFTC também realizou a primeira reunião de seu novo Innovation Advisory Committee, com discussões envolvendo criptomoedas, inteligência artificial e mercados de previsão. O movimento mostra que, paralelamente ao debate legislativo no Congresso, os próprios reguladores estão redesenhando a estrutura institucional do mercado americano de ativos digitais.
Alta do ouro mostra que movimento vai além das criptomoedas
Um dos aspectos mais interessantes da recuperação é que o Bitcoin não está subindo sozinho. O ouro também registrou forte valorização depois da mudança anunciada pelo Tesouro americano, reforçando a percepção de que parte do mercado está buscando proteção contra riscos relacionados ao dólar, à inflação e à situação fiscal dos Estados Unidos.
Essa coincidência é importante porque ajuda a diferenciar a atual recuperação de movimentos puramente especulativos do universo cripto. Quando Bitcoin e ouro sobem simultaneamente enquanto o dólar enfraquece, o mercado costuma interpretar parte do movimento como uma busca por ativos escassos diante do receio de perda de poder de compra das moedas tradicionais.
O fenômeno é frequentemente chamado de debasement trade, ou negociação baseada na expectativa de desvalorização monetária.
O ouro, porém, possui características diferentes. Sua volatilidade costuma ser substancialmente menor e sua história como reserva de valor atravessa séculos. Bitcoin continua sendo um ativo muito mais volátil e sensível à alavancagem, o que explica por que uma mudança relativamente pequena nas condições financeiras pode provocar oscilações percentuais muito maiores na criptomoeda.
Dívida americana está no centro da discussão
Por trás da decisão do Tesouro está uma questão maior: o aumento das preocupações com a dívida pública americana.
Os juros dos títulos mais longos haviam atingido níveis que não eram vistos há anos, pressionados pelas dúvidas de investidores sobre déficit fiscal, necessidade de novas emissões e capacidade do governo de financiar uma dívida cada vez maior sem pagar prêmios significativamente mais elevados.
A ampliação das recompras foi interpretada por parte do mercado como tentativa de melhorar o funcionamento desse segmento da curva. Ao mesmo tempo, a decisão levantou discussões sobre até onde o governo americano está disposto a intervir para impedir uma deterioração mais intensa das condições financeiras.
Esse debate interessa diretamente ao Bitcoin porque uma de suas principais narrativas de investimento está baseada justamente na oferta limitada. O protocolo estabelece um máximo de 21 milhões de unidades, característica frequentemente utilizada por investidores para apresentar o ativo como uma alternativa a moedas cujo volume pode ser ampliado por governos e bancos centrais.
Isso não significa que o Bitcoin seja uma proteção garantida contra inflação ou deterioração fiscal. A queda de mais de 50% registrada entre o recorde de 2025 e os níveis mínimos deste ano é evidência suficiente de que a criptomoeda continua sujeita a ciclos extremamente violentos.
US$ 80 mil volta ao radar
Depois da valorização desta semana, a barreira psicológica de US$ 80 mil voltou ao radar do mercado. A aproximação desse nível ocorre muito mais rapidamente do que grande parte dos investidores esperava há apenas alguns dias, quando o Bitcoin ainda negociava próximo dos US$ 60 mil.
O que acontece depois será um teste importante para determinar a natureza da recuperação.
Se os ETFs continuarem recebendo recursos, os juros longos americanos permanecerem sob controle e o ambiente regulatório continuar avançando, o Bitcoin poderá encontrar demanda suficiente para consolidar parte da valorização. Se, ao contrário, os rendimentos dos Treasuries voltarem a subir ou o fluxo institucional perder força, uma parcela do movimento provocado pelo short squeeze poderá ser devolvida rapidamente.
A experiência recente recomenda cautela. O mesmo ativo que agora caminha para ganhar cerca de um quarto do valor em uma única semana ainda negocia dezenas de milhares de dólares abaixo do recorde atingido menos de um ano atrás.
Por enquanto, entretanto, a reversão é inequívoca. O Bitcoin saiu de aproximadamente US$ 64 mil para a região dos US$ 78 mil em poucos dias, posições vendidas foram destruídas, investidores institucionais voltaram aos ETFs e Washington proporcionou simultaneamente dois estímulos ao mercado — um financeiro, vindo do Tesouro, e outro político, vindo da Casa Branca.
A combinação foi suficiente para transformar uma recuperação em uma das semanas mais fortes da história recente do Bitcoin.
E, depois de meses nos quais a principal pergunta era até onde a criptomoeda ainda poderia cair, o mercado voltou a discutir algo que parecia distante: quanto falta para os US$ 80 mil — e se esse movimento consegue sobreviver depois que o combustível do short squeeze acabar.









