O Bank of America voltou a enxergar a Bolsa brasileira com mais otimismo e elevou sua recomendação para as ações do País de marketweight, equivalente a uma posição neutra, para overweight, quando a orientação é manter uma exposição acima do peso de referência. A mudança ocorre menos de três meses depois de o banco americano ter reduzido sua aposta no mercado brasileiro e está diretamente ligada a uma revisão importante das expectativas para a trajetória da Selic.
O ponto central da nova tese é justamente a perspectiva de juros mais baixos. O BofA passou a projetar que a Selic chegará a 11,25% ao ano no fim de 2027, abaixo dos 12,75% previstos anteriormente. O banco também abandonou a expectativa de uma interrupção prolongada no ciclo de flexibilização monetária e passou a considerar a possibilidade de novos cortes ao longo das próximas reuniões do Comitê de Política Monetária, o Copom, até o final do próximo ano.
A projeção é mais otimista do que a mediana das instituições financeiras consultadas pelo Banco Central. O Relatório Focus divulgado nesta terça-feira, 8 de setembro, aponta Selic de 13,75% no encerramento de 2026 e de 12% no fim de 2027. A diferença pode parecer pequena à primeira vista, mas é relevante para a formação dos preços dos ativos: no horizonte de 2027, o Bank of America trabalha com uma taxa 0,75 ponto percentual abaixo do consenso do mercado.
BofA muda de posição após postura mais cautelosa em junho
A revisão representa uma mudança significativa na estratégia adotada pelo Bank of America ao longo de 2026. Em junho, a instituição havia reduzido a recomendação para o Brasil de overweight para marketweight, em um momento no qual enxergava uma combinação menos favorável de inflação resistente, juros elevados, perspectivas mais fracas para os lucros das empresas e aumento das incertezas relacionadas às eleições presidenciais.
Nos meses seguintes, porém, parte desse cenário começou a mudar. A Selic, que iniciou 2026 em 15% ao ano, caiu para 14,75% em março, 14,50% em abril, 14,25% em junho e chegou a 14% após a reunião de agosto do Copom. Para o BofA, mais importante do que os cortes já realizados é a possibilidade de que o processo avance de maneira mais intensa do que hoje está refletido nos preços dos ativos financeiros.
É essa diferença entre o que o mercado espera e o que o banco projeta que ajuda a explicar a volta para overweight. Se a Selic realmente se aproximar de 11,25% até o fim de 2027, haverá espaço para uma reavaliação importante do preço de diversas ações brasileiras, especialmente aquelas mais dependentes do crédito, do consumo doméstico e do custo de capital.
Com a taxa básica atualmente em 14%, a projeção do Bank of America implica uma redução adicional de 2,75 pontos percentuais. Trata-se de um movimento expressivo e mais profundo do que o sugerido pela mediana do Focus. Na prática, o banco acredita que a desaceleração da atividade econômica e a redução dos riscos inflacionários poderão dar ao Banco Central margem suficiente para levar os juros a um patamar inferior ao que hoje predomina nas projeções do mercado.
Juros menores podem destravar o preço das ações
A avaliação do BofA passa, em grande parte, pelo valuation das empresas brasileiras. Mesmo após períodos de valorização do Ibovespa em 2026, várias companhias continuam negociando abaixo de suas médias históricas. No início de setembro, antes mesmo da nova recomendação, o banco estimava que as empresas do índice não ligadas diretamente a commodities estavam sendo negociadas com um desconto de aproximadamente 15% em relação aos padrões históricos.
Juros menores podem ajudar a reduzir esse desconto por diferentes caminhos. O primeiro deles é financeiro: quanto menor a taxa usada para descontar os resultados futuros de uma companhia, maior tende a ser o valor presente de seus fluxos de caixa. Isso beneficia principalmente negócios cujo crescimento e geração de lucro estão concentrados nos próximos anos.
Também existe um efeito direto sobre as empresas endividadas. A queda das taxas pode reduzir o custo de refinanciamento, aliviar despesas financeiras e melhorar os resultados. Ao mesmo tempo, crédito mais barato costuma favorecer, com alguma defasagem, o consumo das famílias, os investimentos das empresas e setores que dependem fortemente de financiamento, como o mercado imobiliário.
Outro elemento importante é a competição entre Bolsa e renda fixa. Em um ambiente de juros muito altos, investidores conseguem obter retornos atraentes em aplicações consideradas mais conservadoras, o que reduz o incentivo para assumir risco em ações. À medida que as taxas caem, essa diferença diminui e a Bolsa tende a ganhar novamente espaço nas carteiras.
Essa é a lógica que sustenta boa parte da nova postura do Bank of America: não se trata necessariamente de uma expectativa de aceleração imediata dos lucros das empresas, mas da percepção de que o valor atribuído a esses lucros pode aumentar à medida que o custo do dinheiro diminui.
Empresas ligadas ao ciclo doméstico ganham espaço
O banco sinalizou que está aumentando a exposição a companhias mais sensíveis aos juros e que podem ter maior potencial de valorização durante um ciclo de flexibilização monetária. Em geral, esse ambiente tende a favorecer segmentos como varejo, construção, infraestrutura, tecnologia e algumas empresas do setor financeiro, embora isso não signifique que todas as ações dessas áreas tenham recebido uma recomendação individual de compra.
Poucos dias antes da revisão da visão sobre o Brasil, o Bank of America havia divulgado uma carteira latino-americana com presença relevante de empresas brasileiras. Entre os nomes estavam JBS (JBSS32), Raia Drogasil (RADL3), Assaí (ASAI3), Petrobras (PETR4), Bradesco (BBDC4), BTG Pactual (BPAC11), Itaú Unibanco (ITUB4), B3 (B3SA3), Rede D’Or (RDOR3), Hypera (HYPE3), Motiva (MOTV3), Vale (VALE3), Axia (AXIA3), Equatorial (EQTL3) e Totvs (TOTS3).
Essa carteira, porém, não deve ser interpretada como uma lista automática das maiores beneficiárias da nova projeção de juros. Cada companhia possui características próprias, níveis diferentes de endividamento e exposição distinta à atividade econômica. A nova estratégia do BofA indica, sobretudo, uma disposição maior para assumir risco em empresas ligadas ao mercado doméstico.
Nos setores de materiais e petróleo, a posição permanece mais equilibrada. O banco mantém uma visão marketweight para materiais, com exposição por meio da Vale (VALE3), e também para petróleo, tendo a Petrobras (PETR4) como referência. Isso sugere que a revisão positiva está menos ligada a uma aposta generalizada em commodities e mais à expectativa de melhora para ativos diretamente influenciados pela trajetória dos juros no Brasil.
Eleições continuam no radar dos investidores
O aumento da exposição ao Brasil chama atenção porque ocorre justamente durante a aproximação das eleições presidenciais de 2026. A incerteza política havia sido um dos fatores considerados pelo próprio Bank of America quando decidiu adotar uma postura mais cautelosa em junho, e esse risco não desapareceu.
O mercado continua acompanhando as propostas dos candidatos para a política fiscal, a trajetória da dívida pública, os gastos do governo, as reformas econômicas e a relação da próxima administração com o Banco Central. Uma piora significativa das expectativas fiscais poderia pressionar os juros futuros, mesmo em um cenário no qual o Copom continue reduzindo a Selic.
Esse é um ponto importante porque a Bolsa não reage apenas à taxa básica definida pelo Banco Central. O comportamento da curva de juros de médio e longo prazo também influencia diretamente o valor das empresas. Caso investidores passem a exigir prêmios maiores diante de preocupações fiscais, parte do efeito positivo esperado com o ciclo de cortes da Selic poderia ser neutralizada.
A diferença, na avaliação atual do BofA, é que esse risco já não parece suficiente para justificar uma posição neutra. O banco considera que a possibilidade de juros mais baixos e de expansão dos múltiplos das ações pode compensar parte das incertezas políticas e eleitorais que ainda cercam o mercado brasileiro.
Desaceleração da economia também traz riscos
A mesma perda de força da atividade econômica que pode facilitar novos cortes na Selic também cria desafios para as companhias abertas. Empresas dependentes do consumo podem enfrentar crescimento mais lento das receitas, enquanto bancos e outras instituições financeiras podem conviver com deterioração da qualidade do crédito e aumento da inadimplência.
Em agosto, uma análise separada do Bank of America já havia chamado atenção para sinais de piora no crédito observados nos resultados de bancos e varejistas. Depois de um período prolongado de juros elevados, famílias e empresas passaram a enfrentar maior dificuldade para honrar compromissos, o que obrigou algumas instituições a aumentar suas provisões.
A nova recomendação não significa que esses problemas deixaram de existir. O que mudou foi a avaliação sobre a relação entre os riscos e os preços das ações. Para o banco, a possibilidade de expansão dos múltiplos provocada pela queda dos juros pode ser suficiente para compensar, ao menos parcialmente, eventuais revisões negativas de lucros causadas pela desaceleração da economia.
Esse talvez seja o ponto que melhor resume a mudança de postura do Bank of America. O banco não está afirmando que os riscos desapareceram nem que todas as empresas brasileiras entrarão em um ciclo de forte crescimento. A avaliação é de que, aos preços atuais e diante da perspectiva de uma Selic mais baixa, o potencial de valorização passou a justificar uma exposição maior ao mercado brasileiro.
Copom será o próximo teste para a tese do BofA
A próxima reunião do Copom, marcada para setembro, será um dos primeiros testes para essa visão mais otimista. O mercado acompanha não apenas a magnitude de um eventual novo corte, mas principalmente as indicações do Banco Central sobre o ritmo que poderá ser adotado nas reuniões seguintes.
Se a inflação continuar cedendo e a atividade econômica permitir novos cortes, a diferença entre a trajetória hoje projetada pelo mercado e o cenário mais agressivo do Bank of America poderá diminuir. Nesse caso, empresas mais sensíveis aos juros podem continuar sendo reprecificadas antes mesmo de a Selic chegar efetivamente aos níveis projetados para 2027.
É justamente por isso que a mudança do BofA vai além de uma simples revisão de recomendação para a Bolsa. A decisão representa uma aposta de que o ciclo monetário brasileiro entrou em uma nova fase e de que os investidores ainda não incorporaram por completo aos preços a intensidade da queda dos juros que pode ocorrer até o fim do próximo ano.
Fontes: Bank of America; Banco Central do Brasil; Comitê de Política Monetária; Relatório Focus; informações públicas de mercado.










