O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 produziu uma das maiores reprecificações recentes dos ativos brasileiros. Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente, uma diferença de 1,87 ponto percentual. Com os dois classificados para o segundo turno de 25 de outubro, o Ibovespa chegou a 209.605 pontos na sessão desta segunda-feira (5), alta de 9,10% sobre o fechamento de sexta-feira, enquanto o dólar recuou para R$ 4,95.
A distância entre os candidatos também foi relevante em termos absolutos. Flávio recebeu 56,10 milhões de votos válidos, enquanto Lula teve 53,88 milhões, diferença de 2,23 milhões de votos. O resultado, porém, não encerra a disputa e tampouco representa uma indicação definitiva sobre a condução da política econômica. O que mudou imediatamente foi a probabilidade atribuída pelo mercado a diferentes cenários para 2027.
A composição do Congresso reforçou essa leitura. O PL elegeu 121 deputados federais, 24 a mais do que em 2022, e terá a maior bancada da Câmara na próxima legislatura. No Senado, a legenda elegeu 19 representantes e deverá iniciar 2027 com 28 senadores. O número equivale a cerca de 34,6% das 81 cadeiras da Casa, mas ainda está longe de representar maioria isolada. Na Câmara, os 121 deputados correspondem a aproximadamente 23,6% das 513 cadeiras.
Queda dos juros é o principal canal para a Bolsa
A reação dos investidores está concentrada menos no resultado eleitoral em si do que nas consequências esperadas para juros, risco fiscal e fluxo de capital. Na prática, ações domésticas mais dependentes do custo do dinheiro passaram a incorporar uma hipótese de juros futuros menores caso um eventual governo de Flávio consiga executar um programa de ajuste fiscal considerado crível pelo mercado.
O movimento pode ser dimensionado pela própria variação do Ibovespa. O índice havia encerrado o pregão de 2 de outubro em 192.114,55 pontos. Na segunda-feira, a máxima de 209.605,70 pontos representou ganho de 17.491,15 pontos em relação ao fechamento anterior, equivalente a 9,10%.
No câmbio, a diferença também foi expressiva. O dólar comercial havia encerrado a sexta-feira a R$ 5,2165. A mínima registrada na sessão seguinte foi de R$ 4,9540, uma apreciação de aproximadamente 5,0% do real em relação ao fechamento anterior. A combinação de Bolsa em alta e dólar em queda indica redução do prêmio de risco exigido para ativos brasileiros, embora o movimento ainda seja essencialmente uma antecipação sobre o cenário político e não uma alteração imediata dos fundamentos fiscais.
É justamente nesse ponto que o mercado começa a separar as companhias que poderiam responder mais rapidamente a uma queda das taxas das empresas que funcionariam como proteção em um cenário de continuidade do atual governo.
O BTG Pactual avalia que uma eventual vitória de Flávio poderia levar as ações brasileiras de volta para a média histórica de negociação dos últimos dez anos, com potencial de alta adicional de 11% a 20% em reais. Em um cenário ainda mais favorável, associado a uma reprecificação acima da média, a instituição trabalha com potencial superior.
A hipótese, contudo, depende da transformação da expectativa em política econômica. A própria reação desta segunda-feira ocorre antes da definição da equipe de governo, do detalhamento de medidas fiscais e da capacidade do Executivo de construir maioria para aprová-las.
Varejo, construção e mercado de capitais ficam mais sensíveis
Entre os setores mais expostos ao fechamento da curva de juros estão varejistas, construtoras, administradoras de shopping centers, empresas de serviços financeiros e companhias mais alavancadas. A lógica é direta: juros menores reduzem o custo de financiamento, favorecem o consumo de bens duráveis e aumentam o valor presente dos fluxos de caixa futuros.
É por isso que as carteiras eleitorais elaboradas pelas instituições financeiras convergem em alguns nomes. O BTG colocou entre suas preferências Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Assaí (ASAI3), Cyrela (CYRE3), B3 (B3SA3), XP Inc. (XPBR31), Localiza (RENT3), Motiva (MOTV3), Rede D’Or (RDOR3), Equatorial (EQTL3), Energisa (ENGI11), Auren (AURE3), Sabesp (SBSP3) e Allos (ALOS3).
O Citi chega a uma composição semelhante, destacando Cyrela, Multiplan (MULT3), Sabesp, Assaí, C&A, Hapvida (HAPV3), Petrobras (PETR4), Vale (VALE3), XP e B3 em uma carteira associada a uma eventual vitória de Flávio. O banco relaciona o desempenho esperado a uma agenda com menor intervenção estatal, maior espaço para concessões e privatizações e uma eventual trajetória mais favorável dos juros.
A consequência já apareceu na sessão de segunda-feira. Companhias do varejo e do mercado de capitais estiveram entre as maiores altas do pregão, enquanto empresas exportadoras sofreram com a valorização do real. A transmissão do choque eleitoral, portanto, não ocorre de maneira uniforme dentro do Ibovespa.
Esse contraste é importante porque mostra que o resultado não representa simplesmente uma alta generalizada das ações brasileiras. Ele produz uma rotação entre modelos de negócios. Empresas cuja tese depende do crescimento interno e do custo de capital tendem a receber maior prêmio quando a curva de juros fecha. Exportadoras, por outro lado, podem perder parte do benefício de suas receitas em moeda estrangeira quando o real se fortalece.
Petrobras e Banco do Brasil carregam prêmio político
As estatais ocupam posição particular no chamado trade eleitoral porque o valor atribuído a elas incorpora, além de resultados operacionais, expectativas sobre gestão, nomeações, governança, política de preços e alocação de capital.
Petrobras (PETR3; PETR4) está no centro desse movimento. A Genial Investimentos estima que as ações da companhia negociam com desconto de 19,9% em relação a grandes petroleiras estatais e de 46,6% diante das companhias privadas usadas na comparação. Para a corretora, uma mudança de percepção sobre a interferência estatal poderia reduzir esse desconto antes mesmo de ocorrer qualquer alteração nos resultados da empresa.
A diferença de valuation ajuda a explicar por que a petroleira reage fortemente às eleições. Parte do valor que o mercado atribui à Petrobras depende do quanto os investidores confiam na previsibilidade da política de preços dos combustíveis, no retorno aos acionistas e na disciplina de investimentos. Uma mudança nessas expectativas pode alterar o múltiplo aplicado à companhia sem que produção, reservas ou geração de caixa tenham mudado no curto prazo.
O mesmo raciocínio aparece no Banco do Brasil (BBAS3). O papel vinha sendo acompanhado em carteiras eleitorais justamente pela percepção de que uma eventual redução do prêmio de risco poderia favorecer ativos de bancos e empresas ligadas ao mercado de capitais. Em 5 de outubro, o Banco do Brasil esteve entre as ações com maiores altas durante a forte reação ao primeiro turno.
Nesse caso, o efeito econômico pode ocorrer por dois canais. O primeiro é a redução do custo de capital e da percepção de risco sobre o país. O segundo é a perspectiva de aumento da atividade no mercado de capitais, com maior volume de ofertas de ações, emissões de dívida, fusões e aquisições e operações de crédito caso a economia caminhe para um ciclo de juros menores.
Cenário Lula favorece exportadoras e empresas resilientes
Uma vitória de Lula no segundo turno produziria uma rotação diferente. Não necessariamente significaria uma queda generalizada das ações, mas mudaria a composição dos ativos considerados mais protegidos contra um ambiente de juros elevados, dólar mais forte e maior cautela fiscal.
O Citi reuniu, nesse cenário, nomes como Cury (CURY3), Embraer (EMBR3), WEG (WEGE3), Axia Energia (AXIA3), Copel (CPLE3), Bradesco Saúde (SAUD3), Ultrapar (UGPA3), Gerdau (GGBR4), BTG Pactual (BPAC11) e Caixa Seguridade (CXSE3). A lógica combina exportadoras, empresas menos dependentes do consumo doméstico e companhias com exposição a programas públicos, como o Minha Casa, Minha Vida.
A Nomos utiliza lógica parecida. Em sua cesta associada à continuidade de Lula aparecem Suzano (SUZB3), WEG (WEGE3), BB Seguridade (BBSE3), Caixa Seguridade (CXSE3) e TIM (TIMS3). Em outra divisão, a casa separa empresas consideradas resilientes em diferentes cenários, como Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Sabesp, Equatorial, CPFL Energia (CPFE3) e Axia Energia.
A diferença fundamental entre as duas cestas está na variável macroeconômica utilizada como referência. No cenário associado a Flávio, a aposta está concentrada em uma eventual compressão dos juros e do prêmio de risco. No cenário Lula, ganham importância empresas capazes de absorver juros mais altos, dólar valorizado ou menor crescimento doméstico.
Para exportadoras como Suzano e Embraer, há ainda uma relação direta com o câmbio. Uma eventual valorização do real reduz, em reais, o valor das receitas obtidas no exterior. Isso ajuda a explicar por que papéis desse grupo podem ficar para trás em uma sessão na qual o índice dispara.
O segundo turno muda a natureza do risco
O forte movimento desta segunda-feira não deve ser interpretado como uma antecipação automática do resultado de 25 de outubro. O mercado passou a atribuir probabilidades diferentes aos cenários, mas ainda terá três semanas de campanha, alianças, pesquisas eleitorais, debates e divulgação de propostas econômicas até a votação.
Além disso, o desempenho do PL no Congresso altera a capacidade potencial de negociação de um futuro governo, mas não elimina a necessidade de formar coalizões. A legenda terá 121 deputados e 28 senadores, números expressivos, mas insuficientes para aprovar sozinha mudanças constitucionais, leis complementares ou projetos que dependam de maioria mais ampla.
Esse ponto é especialmente relevante para a tese de ajuste fiscal. Uma vitória de Flávio poderia reduzir o prêmio de risco inicialmente, mas a sustentação do movimento dependeria de propostas concretas, equipe econômica, relação com o Congresso e capacidade de executar medidas de contenção de despesas. É essa sequência que separa uma alta provocada pela expectativa de uma transformação estrutural dos fundamentos.
Do lado de Lula, o mercado também não trabalha com uma carteira baseada apenas em queda dos preços dos ativos. As recomendações mostram que há setores capazes de atravessar um ambiente de maior incerteza, especialmente exportadores, seguradoras, utilities e companhias com geração recorrente de caixa.
Assim, o trade eleitoral ganhou uma característica mais sofisticada após o primeiro turno. O investidor deixou de olhar apenas para quem está à frente na disputa e passou a precificar quais empresas têm maior sensibilidade aos mecanismos econômicos que podem mudar a partir de 2027. Juros, câmbio, risco fiscal, governança das estatais e atividade doméstica passaram a funcionar como os principais eixos de seleção de ativos até a definição do próximo presidente.
O segundo turno, portanto, não será apenas uma disputa pelo Palácio do Planalto para os mercados. Será também o período em que essas expectativas terão de ser confrontadas com propostas econômicas e com a capacidade política de transformar promessas em medidas efetivas. Até lá, a tendência é de maior dispersão entre os papéis e de forte sensibilidade da Bolsa e do câmbio a cada nova informação da campanha.
Fontes:
Tribunal Superior Eleitoral – resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, votação de Flávio Bolsonaro e Lula e calendário do segundo turno
Câmara dos Deputados – composição projetada da próxima legislatura e bancada de 121 deputados eleitos pelo PL
Senado Federal – eleição de 19 senadores pelo PL e composição prevista de 28 integrantes da bancada a partir de 2027
B3 – comportamento do Ibovespa e referência do mercado acionário brasileiro no período que antecedeu e sucedeu o primeiro turno
BTG Pactual – avaliação do potencial de reprecificação das ações brasileiras e setores favorecidos em eventual vitória de Flávio Bolsonaro
Genial Investimentos – análise do desconto de Petrobras em relação a petroleiras privadas e estatais e impacto do risco político sobre a companhia
Citi – carteiras temáticas de ações para cenários de vitória de Flávio Bolsonaro ou Lula nas eleições de 2026
Nomos – seleção de ações associadas aos diferentes cenários eleitorais e empresas consideradas resilientes






