A comparação entre os mercados financeiros nos governos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva mostra resultados diferentes conforme o tipo de ativo e o período considerado. Levantamento da Elos Ayta divulgado em 16 de setembro de 2026 calcula que o Ibovespa acumulou valorização nominal de 24,86% durante os quatro anos de Bolsonaro, entre 2019 e 2022, enquanto o índice avançou 69,96% desde o início do terceiro mandato de Lula até 15 de setembro de 2026. O mesmo estudo aponta diferença também no CDI, indicador de referência para aplicações de renda fixa, e no índice de dividendos.
Os números, porém, não devem ser lidos como uma comparação isolada entre presidentes. As janelas têm duração diferente: o período de Bolsonaro corresponde aos quatro anos completos de seu mandato, enquanto a série de Lula 3 ainda estava em curso em 15 de setembro de 2026. Além disso, os ativos financeiros respondem a juros, inflação, câmbio, condições externas, preços de commodities, política monetária e expectativas econômicas, fatores que não são determinados exclusivamente pelo governo federal.
No mercado acionário, o levantamento atribui ao Ibovespa uma valorização acumulada de 69,96% desde janeiro de 2023 até 15 de setembro de 2026, ante 24,86% entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022. A diferença acumulada entre as duas janelas é de 45,10 pontos percentuais. Em termos relativos, o retorno acumulado na primeira janela foi cerca de 2,8 vezes o registrado na segunda, embora essa comparação não corresponda a uma taxa anual equivalente, porque os períodos têm extensões diferentes.
Bolsa brasileira atravessou ciclos opostos dentro dos dois períodos
A trajetória anual do Ibovespa ajuda a explicar por que a comparação acumulada precisa ser analisada com cautela. Segundo a B3, o índice terminou 2019 com alta de 31,58%, avançou 2,92% em 2020, caiu 11,93% em 2021 e subiu 4,69% em 2022. O resultado acumulado desses quatro anos é diferente da simples soma das variações anuais porque os retornos são compostos.
O comportamento durante Lula 3 também foi irregular. A B3 registra valorização de 22,28% do Ibovespa em 2023, queda de 10,36% em 2024 e alta de 33,95% em 2025. A série de 2026 disponível na base da B3 registra variação positiva no acumulado até a data de referência mais recente apresentada pela instituição.
Essa sequência mostra que o desempenho de um mandato não pode ser explicado por um único ano. Em 2024, por exemplo, o Ibovespa teve perda anual de 10,36%, depois de ter subido 22,28% em 2023. Em 2025, a valorização chegou a 33,95%. A oscilação reflete, entre outros fatores, mudanças nas expectativas sobre juros, inflação, atividade econômica, contas públicas e ambiente internacional.
Outro ponto importante é que o Ibovespa representa uma carteira teórica de ações e, portanto, não equivale ao retorno de todos os investidores da Bolsa. A rentabilidade efetivamente obtida por uma pessoa depende dos papéis escolhidos, do momento de compra e venda, de custos, impostos e eventual recebimento de dividendos.
Dividendos e renda fixa ampliam a diferença entre os indicadores
O levantamento da Elos Ayta também compara o IDIV, índice de dividendos da B3. De acordo com os dados apresentados, o indicador acumulou alta de 82,78% desde o início de 2023 até 15 de setembro de 2026, contra 51,51% entre 2019 e 2022. A diferença é de 31,27 pontos percentuais.
A comparação é relevante porque o IDIV busca representar o comportamento de ações de empresas que se destacam por remuneração aos acionistas. Assim, sua trajetória não é idêntica à do Ibovespa e pode ser influenciada pela composição do índice e pelo comportamento de empresas maduras e pagadoras de dividendos.
Na renda fixa, a diferença nominal é ainda mais evidente no levantamento. O CDI acumulou 57,46% no período de Lula 3 considerado pelo estudo, contra 27,79% nos quatro anos do governo Bolsonaro. A diferença chega a 29,67 pontos percentuais.
Esse resultado está diretamente ligado ao comportamento dos juros. A Selic começou 2019 em 6,50% ao ano e chegou a 2% ao ano em agosto de 2020, em meio à resposta da política monetária aos efeitos econômicos da pandemia. Depois, o Banco Central iniciou um ciclo de alta que levou a taxa a 13,75% ao ano em 2022.
Durante Lula 3, a Selic começou 2023 em 13,75%, caiu até 10,50% em 2024 e posteriormente voltou a subir. Em 2025, a taxa chegou a 15% ao ano e permaneceu nesse nível em parte de 2026. Em 5 de agosto de 2026, o Copom manteve a meta em 14% ao ano.
A consequência para o investidor de renda fixa é direta: quanto maior a taxa básica, maior tende a ser a remuneração nominal de aplicações pós-fixadas ligadas ao CDI e à Selic, embora o resultado líquido dependa de tributação, custos e características de cada produto.
Juros altos aumentam retorno nominal, mas também têm custo econômico
O desempenho do CDI não deve ser interpretado isoladamente como medida de melhora ou piora da economia. A taxa de juros é utilizada pelo Banco Central como instrumento de política monetária e afeta simultaneamente remuneração de aplicações financeiras, custo do crédito, decisões de investimento e condições de financiamento das empresas e famílias.
O histórico oficial mostra que a Selic passou por movimentos muito distintos nos dois períodos. No governo Bolsonaro, houve forte redução dos juros em 2020 e 2021, seguida de uma rápida elevação em 2021 e 2022. No terceiro mandato de Lula, o ciclo começou com juros elevados, avançou para cortes em 2023 e 2024 e depois voltou a um patamar restritivo.
Isso ajuda a explicar por que o retorno de aplicações pós-fixadas pode ser elevado mesmo em um ambiente no qual o custo do dinheiro também é alto. Para quem possui recursos aplicados em produtos atrelados ao CDI, juros maiores significam remuneração maior em termos nominais. Para empresas endividadas e tomadores de crédito, entretanto, o mesmo ambiente representa maior despesa financeira.
A comparação também precisa considerar a inflação. Dados do Banco Central mostram IPCA anual de 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021 e 5,78% em 2022. Já no período seguinte, o índice registrou 4,62% em 2023, 4,83% em 2024 e 4,26% em 2025.
A inflação acumulada altera a interpretação de qualquer retorno nominal. Um investimento que rende 10% em um período de inflação elevada não produz o mesmo ganho de poder de compra que uma aplicação com retorno nominal semelhante em ambiente de inflação mais baixa.
Câmbio coloca outra dimensão na comparação
O levantamento também encontra comportamento diferente para os ativos denominados em moeda estrangeira. O dólar acumulou valorização de 34,66% entre 2019 e 2022, segundo a Elos Ayta, enquanto registrava queda acumulada de 1,32% na janela de Lula 3 até 15 de setembro de 2026. O euro avançou 25,47% no primeiro período e 6,71% no segundo.
A B3 mantém séries que permitem observar a diferença entre o retorno nominal do Ibovespa em reais e sua variação convertida para dólares. Em 2019, por exemplo, a alta nominal do índice foi de 31,58%, enquanto a valorização calculada em dólares ficou em 26,49%. Em 2020, o índice ganhou 2,92% em reais, mas caiu 20,18% na conversão para a moeda americana.
A diferença demonstra que o resultado de um investidor estrangeiro ou de um brasileiro que mede patrimônio em dólar pode ser bastante diferente daquele obtido por quem acompanha apenas o Ibovespa em reais.
O câmbio, por sua vez, não depende somente da política econômica doméstica. Juros nos Estados Unidos, fluxo internacional de capitais, preços de commodities, percepção de risco, condições fiscais e movimentos globais de valorização ou desvalorização do dólar também interferem na taxa de câmbio.
Bitcoin teve forte valorização nas duas janelas
Entre os ativos analisados pela Elos Ayta, o bitcoin apresenta uma das maiores oscilações. O levantamento calcula alta acumulada de 495,58% entre 2019 e 2022 e de 342,86% desde janeiro de 2023 até 15 de setembro de 2026.
O dado evidencia outra limitação de comparações entre governos: ativos com elevada volatilidade podem sofrer movimentos provocados por fatores internacionais que não guardam relação direta com a política econômica brasileira.
No caso das criptomoedas, mudanças regulatórias em diferentes países, entrada ou saída de capital institucional, ciclos de liquidez global e eventos específicos do mercado podem provocar variações muito superiores às observadas em ações ou títulos de renda fixa.
Por isso, o levantamento não permite concluir que um determinado ambiente político ou econômico seja, isoladamente, responsável pelo comportamento de cada ativo. Ele mostra como diferentes classes de investimento se comportaram em duas janelas temporais específicas.
Inflação foi o indicador com trajetória diferente
Entre os indicadores reunidos pela Elos Ayta, a inflação é apresentada com trajetória distinta das demais variáveis. O estudo calcula inflação acumulada de 26,93% durante os quatro anos do governo Bolsonaro e de 17,90% desde janeiro de 2023 até 15 de setembro de 2026.
Os números oficiais do Banco Central confirmam a composição anual da inflação e permitem observar a influência da pandemia e dos choques posteriores sobre os preços. Em 2021, o IPCA chegou a 10,06%, enquanto em 2022 desacelerou para 5,78%. No período seguinte, ficou abaixo de 5% em 2023, 2024 e 2025.
A comparação entre investimentos, portanto, depende do indicador escolhido. Bolsa, dividendos, CDI, moedas e criptomoedas produziram resultados diferentes nas duas janelas. Além disso, os períodos não são equivalentes em duração e Lula 3 ainda não havia terminado na data de corte do levantamento.
Para o investidor, a leitura dos números exige separar retorno nominal, retorno real, exposição cambial e risco. Para a análise econômica, os mesmos dados mostram que o desempenho dos mercados durante um governo resulta da combinação de política monetária, inflação, condições fiscais, ambiente internacional, preços de ativos e expectativas — e não apenas da identidade do presidente em exercício.
Fontes:
Banco Central do Brasil – histórico da meta Selic e decisões do Comitê de Política Monetária
Banco Central do Brasil – séries históricas do IPCA e inflação acumulada
B3 – histórico anual de variação do Ibovespa e séries de desempenho do mercado acionário
Elos Ayta – levantamento de rentabilidade de ativos financeiros nos governos Bolsonaro e Lula 3








