A Bradseg, holding que concentra os negócios de seguros do Bradesco (BBDC4) fora do segmento de saúde, pretende ampliar sua presença no mercado brasileiro explorando a baixa contratação de proteção financeira por famÃlias e empresas, mas sem recorrer a reduções agressivas de preços para conquistar clientes. A estratégia foi detalhada pelo presidente da companhia, Ney Dias, em entrevista divulgada nesta segunda-feira (12), cinco meses depois de assumir o comando da operação. O grupo identifica oportunidades em seguros de vida, previdência, proteção patrimonial e agronegócio, ao mesmo tempo que procura preservar os resultados técnicos em modalidades nas quais a concorrência vem pressionando as margens.
A decisão de privilegiar rentabilidade em vez de crescimento acelerado aparece nos resultados de automóveis e ramos elementares, que incluem seguros patrimoniais e outras coberturas de danos. No segundo trimestre de 2026, a divisão Auto/RE registrou faturamento de aproximadamente R$ 2,6 bilhões, crescimento de 1,8% em relação ao mesmo perÃodo do ano anterior. O avanço moderado contrasta com o potencial de expansão identificado pela administração, mas reflete a decisão de não acompanhar ofertas consideradas insuficientes para remunerar adequadamente os riscos assumidos.
O segmento de automóveis representa uma carteira anual estimada entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões para a companhia. Segundo Dias, a manutenção de preços tecnicamente sustentáveis busca evitar que a seguradora dependa dos rendimentos obtidos com a aplicação das reservas financeiras para compensar eventuais perdas na atividade de seguros. A preocupação está relacionada à possibilidade de redução dos juros nos próximos anos, quando os resultados financeiros poderão deixar de oferecer a mesma contribuição à rentabilidade.
A estratégia ganha relevância após a reorganização societária do grupo, que separou as operações de saúde e odontologia em uma companhia de capital aberto, a Bradsaúde (SAUD3). Com a nova configuração, a Bradseg concentra atividades como automóveis, seguros patrimoniais, vida, previdência e capitalização, enquanto avalia oportunidades de integração comercial e operacional com os negócios que passaram a integrar a empresa de saúde.
Seguros de automóveis crescem 1,8%, mas companhia evita reduzir preços
A administração da Bradseg considera que a concorrência no seguro automotivo tem levado parte das empresas a oferecer preços mais baixos para ampliar participação de mercado. Essa estratégia pode elevar rapidamente o número de apólices, mas também comprometer os resultados quando o valor arrecadado não acompanha a frequência e o custo das indenizações, além das despesas comerciais e administrativas.
O desempenho do segundo trimestre ilustra a postura adotada pela companhia. O faturamento de Auto/RE alcançou aproximadamente R$ 2,6 bilhões, ante uma base próxima de R$ 2,55 bilhões no mesmo perÃodo de 2025, considerando a taxa de crescimento informada. A diferença equivale a um acréscimo nominal aproximado de R$ 46 milhões, desempenho relativamente limitado para uma operação desse porte.
O crescimento reduzido não significa necessariamente perda de rentabilidade. Em seguros, a expansão da receita precisa ser acompanhada pela qualidade dos riscos aceitos e pelo controle das indenizações. Uma companhia pode aumentar o faturamento e, ainda assim, apresentar deterioração de resultados caso a sinistralidade e as despesas avancem em ritmo superior ao dos prêmios arrecadados.
Essa relação é particularmente importante no ramo automotivo, no qual os custos dependem de fatores como frequência de acidentes, furtos, roubos, reposição de peças, reparos e caracterÃsticas da frota segurada. A disputa por clientes pode levar seguradoras a revisar preços, franquias e condições contratuais, mas os efeitos financeiros dessas decisões nem sempre aparecem imediatamente nos resultados.
Dias considera arriscado sustentar a expansão das carteiras principalmente com os rendimentos proporcionados pelas aplicações financeiras. Quando os juros estão elevados, as reservas mantidas pelas seguradoras podem gerar receitas importantes. Uma redução posterior das taxas, entretanto, diminui essa contribuição e expõe eventuais desequilÃbrios entre o valor dos prêmios cobrados e os riscos efetivamente assumidos.
O posicionamento também deve ser analisado à luz dos indicadores operacionais divulgados pelo Bradesco. No segundo trimestre, o Ãndice combinado da divisão Auto/RE ficou em aproximadamente 94,5%, conforme a apresentação de resultados do grupo segurador. O indicador relaciona sinistros e despesas aos prêmios ganhos, sendo utilizado para avaliar a eficiência técnica das operações. Valores inferiores a 100% indicam resultado positivo antes da consideração de determinadas receitas financeiras.
Grupo Bradesco Seguros lucra R$ 5,7 bilhões no primeiro semestre
A operação seguradora do Bradesco apresentou crescimento expressivo dos resultados consolidados nos primeiros seis meses de 2026. O Grupo Bradesco Seguros registrou lucro lÃquido de R$ 5,7 bilhões no semestre, alta de 20,4% em relação ao mesmo perÃodo do ano anterior. Apenas entre abril e junho, o lucro alcançou aproximadamente R$ 2,9 bilhões, crescimento de 28,3% na comparação anual.
Os números consolidados abrangem os diferentes negócios do grupo, incluindo saúde, e não devem ser interpretados como resultados exclusivos da Bradseg após a reorganização societária. Essa distinção é necessária para compreender o desempenho financeiro apresentado pelo Bradesco e a nova estrutura de administração das empresas.
No primeiro semestre, as receitas de prêmios, contribuições de previdência e capitalização, desconsiderando VGBL na comparação de crescimento, somaram R$ 58,2 bilhões, expansão de 6%. O resultado das operações de seguros, previdência e capitalização chegou a R$ 12,5 bilhões, avanço de 14,1%. A melhora foi sustentada pela evolução de 12,4% do resultado industrial e de 17,1% do resultado financeiro.
A participação das aplicações financeiras demonstra a importância das condições monetárias para o negócio. As seguradoras recebem os prêmios e constituem provisões destinadas ao pagamento de indenizações e obrigações futuras. Enquanto os recursos permanecem disponÃveis, são aplicados conforme as exigências regulatórias, produzindo rendimentos que complementam o resultado das operações.
Em junho, as provisões técnicas do Grupo Bradesco Seguros alcançaram R$ 467,3 bilhões, crescimento de 9,9% em 12 meses. Os ativos financeiros somavam R$ 491,4 bilhões, aumento de 10,2% na mesma comparação. Esses montantes incluem diferentes empresas e modalidades de cobertura, mas permitem dimensionar o peso da gestão de reservas na atividade seguradora.
A expansão também ocorreu nos canais digitais. As receitas de prêmios, contribuições de previdência e capitalização originadas por esses meios somaram R$ 3,5 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 16,5% em relação a 2025. O avanço reforça a estratégia de distribuição por múltiplos canais, considerada importante para alcançar consumidores que ainda não possuem seguros ou previdência complementar.
Nova tributação do VGBL leva Bradseg a buscar espaço no PGBL
A previdência complementar é outra frente de expansão identificada pela Bradseg, embora o segmento esteja passando por mudanças no comportamento dos investidores. Desde janeiro de 2026, os aportes anuais em planos Vida Gerador de BenefÃcio Livre (VGBL) passaram a estar sujeitos à cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 5% sobre a parcela que ultrapassar R$ 600 mil por pessoa fÃsica.
A regra foi estabelecida pelo Decreto 12.499, de junho de 2025, e considera a soma das contribuições realizadas pelo mesmo titular ao longo do ano, ainda que distribuÃdas entre seguradoras diferentes. Dessa forma, o limite não pode ser multiplicado simplesmente pela contratação de planos em instituições distintas.
Um exemplo ajuda a dimensionar o efeito financeiro da tributação. Um contribuinte que realizar aportes de R$ 700 mil em VGBL durante o ano terá R$ 100 mil acima do limite estabelecido. Sobre essa parcela, a incidência de 5% corresponde a R$ 5 mil de IOF. O imposto não alcança integralmente os R$ 700 mil, mas apenas o montante excedente.
Segundo Ney Dias, a mudança já influencia as decisões dos clientes que tradicionalmente realizavam contribuições elevadas nesses produtos. A companhia observa uma redução da disposição para ultrapassar o limite anual e identifica oportunidades de ampliar a distribuição do Plano Gerador de BenefÃcio Livre (PGBL), cuja estrutura tributária é diferente.
O PGBL permite deduzir contribuições da base de cálculo do Imposto de Renda até o limite de 12% dos rendimentos tributáveis, desde que o contribuinte cumpra os requisitos legais, incluindo a utilização da declaração completa. Em contrapartida, o imposto incidente no recebimento dos benefÃcios ou nos resgates alcança o valor total tributável, enquanto no VGBL a tributação do Imposto de Renda recai, em regra, sobre os rendimentos.
As caracterÃsticas distintas exigem que a escolha entre os produtos considere renda, regime tributário, prazo de investimento e objetivos de acumulação. O PGBL não constitui uma alternativa automaticamente mais vantajosa para todos os investidores, assim como o novo IOF não torna inviáveis todos os aportes em VGBL.
Para a Bradseg, a oportunidade envolve ajustar a oferta de previdência às necessidades dos clientes, especialmente aqueles que procuram instrumentos de planejamento de longo prazo. O grupo já havia anunciado no segundo trimestre a ampliação do portfólio de PGBL e VGBL, incluindo fundos com estratégias de diversificação internacional.
Seguro rural ganha espaço após mudança na legislação
No agronegócio, a Bradseg identifica potencial de crescimento em um mercado que sofreu retração na contratação de proteção contra perdas na produção. A redução dos recursos públicos destinados ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) prejudicou a capacidade de agricultores de contratar apólices, especialmente em atividades sujeitas a riscos climáticos elevados.
O levantamento de conjuntura da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) divulgado em outubro mostra que a área plantada protegida pelo programa correspondia a aproximadamente 3,4% do total em 2025. Para 2026, a estimativa é de queda para 2,78%, considerando os cortes orçamentários. A diferença de 0,62 ponto percentual corresponde a uma redução relativa de aproximadamente 18,2% na cobertura.
O mesmo estudo indica que, sem os cortes previstos, a proteção poderia alcançar 5,96% da área plantada. A diferença entre esse cenário e a projeção de 2,78% representa 3,18 pontos percentuais, evidenciando a influência da disponibilidade de recursos públicos sobre a contratação de seguros agrÃcolas.
A perspectiva regulatória mudou com a sanção da Lei 15.526, em 29 de setembro de 2026. A norma estabelece caráter obrigatório para as despesas federais destinadas à subvenção do prêmio do seguro rural, respeitados os limites previstos no projeto de lei orçamentária encaminhado pelo governo ao Congresso e as demais condições legais.
A mudança procura aumentar a previsibilidade dos recursos públicos destinados à contratação das apólices. Entretanto, o caráter obrigatório da despesa não significa cobertura ilimitada nem garante que todos os produtores terão acesso ao benefÃcio. A expansão efetiva continuará dependendo das dotações previstas, das condições de financiamento e da regulamentação do programa.
A nova legislação também estabelece prazos para procedimentos relacionados aos sinistros. Nos casos que não dependam da colheita ou de vistoria vinculada à liberação da área segurada, a regulação deverá observar prazo de até 15 dias a partir do aviso. Para a liquidação das indenizações, a regra geral especÃfica prevê prazo máximo de 30 dias depois da entrega da documentação exigida ou da vistoria, conforme a situação.
A Bradseg vê oportunidades tanto na proteção direta das atividades agrÃcolas quanto na oferta de outros produtos a produtores rurais e empresas do setor. Seguro de vida, previdência, coberturas patrimoniais e proteção de equipamentos fazem parte das modalidades que podem ser distribuÃdas aos clientes do agronegócio, dependendo do perfil de risco e das necessidades de cada atividade.
Parcerias com bancos e cooperativas devem ampliar distribuição
Além do desenvolvimento de produtos, a estratégia comercial da Bradseg envolve ampliar os canais de distribuição. A companhia pretende aprofundar sua atuação na rede do próprio Bradesco e fortalecer parcerias com bancos, cooperativas, varejistas e outras empresas que já mantêm relacionamento com consumidores e produtores rurais.
O modelo adotado é conhecido como B2B2C, no qual uma seguradora fornece produtos por meio de outra empresa que mantém contato direto com o cliente final. A estrutura permite oferecer proteção financeira em ambientes nos quais o consumidor já realiza operações, como contratação de crédito, aquisição de veÃculos, compras no comércio e utilização de serviços bancários.
A abordagem procura reduzir dificuldades de acesso aos seguros, especialmente entre pessoas que não costumam procurar diretamente uma corretora ou seguradora. No agronegócio, por exemplo, cooperativas e instituições de crédito rural podem funcionar como canais para apresentar coberturas de vida, previdência e proteção patrimonial a produtores que tradicionalmente associam o seguro apenas à lavoura ou ao maquinário.
A dimensão do mercado brasileiro ajuda a explicar o interesse pela expansão. Segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), o setor supervisionado arrecadou R$ 244,96 bilhões entre janeiro e julho de 2026, enquanto indenizações, benefÃcios, resgates e sorteios somaram R$ 149,78 bilhões. As provisões técnicas do mercado alcançaram aproximadamente R$ 2,20 trilhões em julho, demonstrando a relevância econômica das operações de seguros, previdência e capitalização.
Apesar desses valores, a cobertura permanece limitada em diferentes segmentos. Relatório publicado pela Susep em setembro estimou que apenas cerca de 9% das perdas econômicas provocadas por desastres climáticos no Brasil são cobertas pelo mercado segurador, diante de uma média mundial próxima de 45%. O dado evidencia uma diferença de 36 pontos percentuais e ajuda a dimensionar o espaço potencial para ampliar instrumentos de proteção financeira.
A administração da Bradseg pretende aproveitar essas oportunidades sem abandonar a disciplina na precificação dos riscos. A combinação entre baixa penetração dos seguros, reorganização societária e mudanças regulatórias oferece diferentes caminhos para expansão, mas também exige controle de custos, eficiência operacional e capacidade de avaliar as necessidades dos clientes.
O principal desafio da companhia será transformar o potencial de mercado em crescimento sustentável, especialmente em um ambiente no qual a concorrência por preços pode comprometer margens e a eventual redução dos juros tende a diminuir a contribuição das receitas financeiras. Para Ney Dias, a expansão precisa preservar a rentabilidade técnica das operações, permitindo que a Bradseg aumente sua participação no mercado sem depender de condições monetárias favoráveis para compensar desequilÃbrios na atividade seguradora.
Fontes:
Bradesco – relatório de análise econômica e financeira do segundo trimestre de 2026, com informações sobre faturamento, lucro, sinistralidade, provisões técnicas e desempenho dos segmentos de seguros.
Bradesco Seguros – divulgação dos resultados do primeiro semestre de 2026, com dados sobre rentabilidade, produtos, previdência e expansão dos canais digitais.
Superintendência de Seguros Privados – Boletim de julho de 2026, com dados consolidados de arrecadação, indenizações, benefÃcios e provisões técnicas do mercado segurador brasileiro.
Superintendência de Seguros Privados – relatório de setembro de 2026 sobre cobertura securitária de perdas decorrentes de desastres climáticos no Brasil.
Superintendência de Seguros Privados – comunicado de 30 de setembro de 2026 sobre a sanção do novo Marco Legal do Seguro Rural.
Presidência da República – Lei 15.526, de 29 de setembro de 2026, com alterações nas regras de subvenção pública, contratos e indenizações do seguro rural.
Confederação Nacional das Seguradoras – Conjuntura CNseg nº 140, de outubro de 2026, com dados e projeções sobre a cobertura do seguro rural e seus efeitos orçamentários.
Presidência da República – Decreto 12.499, de 11 de junho de 2025, com alterações na incidência de IOF sobre contribuições para planos VGBL.
Receita Federal – orientações sobre o tratamento tributário dos planos PGBL e VGBL e os limites de dedução das contribuições na declaração do Imposto de Renda.
Ministério da Agricultura e Pecuária – Plano Trienal do Seguro Rural 2025-2027, com diretrizes para concessão de subvenções e condições de acesso ao programa.







