O Brasil poderá importar entre 9,5 milhões e 10 milhões de toneladas de trigo em 2027, diante da redução da produção nacional e das dificuldades para obter cereal com qualidade adequada à fabricação de farinha. A projeção foi apresentada nesta sexta-feira (23) por Tito Marquetti Martinho, diretor sênior de Originação e Trading de Trigo da Bunge Alimentos, durante o 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, realizado no Rio de Janeiro. O cenário preocupa a indústria moageira porque amplia a necessidade de compras externas e pode pressionar a infraestrutura portuária, os custos logísticos e o abastecimento regional. A Argentina deverá permanecer como principal fornecedora do cereal ao mercado brasileiro.
A estimativa representa um alerta para uma cadeia produtiva que já depende de importações para complementar a oferta doméstica. Segundo o especialista em mercado de trigo Elcio Bento, a produção nacional poderá ficar em 5,12 milhões de toneladas, queda de 37% em relação à referência utilizada em sua apresentação no congresso. Nesse cenário, o cereal brasileiro atenderia aproximadamente 36% do consumo nacional, aumentando a participação do produto importado. Os números apresentados pela indústria são projeções de mercado e diferem das estimativas oficiais de órgãos públicos.
Na avaliação da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), a menor disponibilidade interna já aponta para um crescimento expressivo das compras externas. O presidente-executivo da entidade, Rubens Barbosa, afirmou durante a abertura do congresso que as importações poderão alcançar ou superar 9 milhões de toneladas, em um movimento que poderá representar o maior volume dos últimos 30 anos. A projeção apresentada pela Bunge para 2027 amplia esse cenário e reforça a preocupação com a capacidade de atendimento da demanda. Os resultados efetivos dependerão da conclusão da colheita, das condições de qualidade e da disponibilidade internacional do cereal.
Conab prevê queda de 27,2% na produção brasileira de trigo
O recuo da produção nacional também aparece nas estimativas oficiais. No levantamento divulgado em 15 de outubro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou uma safra brasileira de 5,7 milhões de toneladas de trigo em 2026, redução de 27,2% em relação ao ano anterior. A retração está associada à diminuição da área cultivada e à perda de produtividade das lavouras. Na data da divulgação, aproximadamente 40,3% da área nacional havia sido colhida.
A estimativa da Conab é superior aos 5,12 milhões de toneladas apresentados por Elcio Bento no congresso, mas ambas indicam uma queda relevante da oferta doméstica. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), por sua vez, reduziu sua previsão para 5,8 milhões de toneladas na safra 2026/2027. As diferenças decorrem das metodologias, dos períodos de referência e das informações consideradas por cada instituição. Por isso, não devem ser interpretadas como resultados definitivos de uma colheita ainda em andamento.
| Fonte | Produção brasileira estimada |
|---|---|
| Análise de Elcio Bento apresentada à Abitrigo | 5,12 milhões de toneladas |
| Conab — outubro de 2026 | 5,7 milhões de toneladas |
| USDA — outubro de 2026 | 5,8 milhões de toneladas |
A menor produção ocorre em um mercado que precisa atender à demanda de indústrias de panificação, massas alimentícias, biscoitos e outros derivados. O Brasil possui capacidade de moagem distribuída por diferentes estados, mas a localização dos moinhos nem sempre coincide com a disponibilidade regional do cereal. Essa característica aumenta a importância do transporte e da integração entre fornecedores nacionais e estrangeiros. Em períodos de oferta restrita, os custos dessa operação tornam-se ainda mais relevantes para a competitividade das empresas.
Qualidade do trigo preocupa mais do que a redução do volume
Além da quantidade disponível, a qualidade do cereal tornou-se um dos principais desafios para a indústria. Segundo Elcio Bento, a produção de trigo Tipo 1 em São Paulo deverá ficar entre 70 mil e 80 mil toneladas. No Paraná, onde aproximadamente 70% da colheita havia sido concluída no momento de sua análise, a disponibilidade estimada dessa classificação variava de 500 mil a 600 mil toneladas. Os números indicam uma oferta restrita de trigo enquadrado nessa categoria comercial.
A classificação considera características físicas e critérios de qualidade estabelecidos para o cereal. Para a indústria moageira, entretanto, também são importantes atributos como teor e qualidade das proteínas, força do glúten e comportamento da farinha durante o processamento. Diferentes produtos exigem combinações específicas dessas características, o que pode tornar necessário misturar lotes de origens distintas. Assim, mesmo quando há trigo disponível no mercado interno, parte da produção pode não atender integralmente às necessidades de determinados segmentos industriais.
Essa diferença explica por que a dependência externa não pode ser avaliada apenas pela comparação entre produção e consumo. Um país pode precisar importar trigo com características específicas mesmo quando possui estoques domésticos de outras classificações. No atual cenário, a indústria enfrenta simultaneamente a possibilidade de redução do volume disponível e maior heterogeneidade do produto colhido. A combinação tende a aumentar a complexidade das operações de compra e moagem.
Paraná pode registrar déficit de 1,85 milhão de toneladas
A redução da oferta também deverá alterar o abastecimento regional. Tradicionalmente responsável por fornecer trigo a outros mercados brasileiros, o Paraná poderá passar de um excedente de aproximadamente 100 mil toneladas para um déficit estimado em 1,85 milhão de toneladas, segundo análise apresentada por Elcio Bento. Essa mudança ampliaria a necessidade de receber cereal de outros estados ou do exterior. O resultado também poderá modificar os fluxos comerciais e elevar a importância da infraestrutura de transporte.
O Paraná possui participação estratégica na produção e no processamento de trigo, além de contar com acesso ao Porto de Paranaguá. A perspectiva de déficit significa que parte dos moinhos poderá depender mais intensamente de fornecedores externos à região. Essa necessidade envolve decisões sobre aquisição, armazenamento e transporte, especialmente quando o trigo importado precisa ser deslocado para unidades industriais localizadas no interior. A eficiência logística poderá influenciar diretamente os custos operacionais das empresas.
No Rio Grande do Sul, a preocupação está relacionada às condições da safra e à disponibilidade efetiva para comercialização. Durante o congresso, representantes do setor destacaram que a redução da produção deverá limitar a capacidade gaúcha de abastecer outros estados. O cenário exige atenção porque Paraná e Rio Grande do Sul tradicionalmente desempenham papel central na oferta brasileira do cereal. Uma retração simultânea nos dois mercados reduz as alternativas de fornecimento doméstico.
Chuvas e geadas prejudicaram lavouras gaúchas
As condições climáticas enfrentadas pelo Rio Grande do Sul contribuíram para as dificuldades da produção de trigo em 2026. Segundo Índio Brasil dos Santos, sócio da Solo Corretora de Cereais, a safra foi afetada por menor investimento nas lavouras, dificuldades nos tratos culturais e desenvolvimento limitado das plantas. O excesso de umidade e a baixa incidência de luz solar também prejudicaram diferentes fases do cultivo. Esses fatores comprometem o potencial produtivo e podem afetar a qualidade do grão colhido.
Em julho, períodos prolongados de chuva e céu encoberto reduziram as condições favoráveis ao desenvolvimento das lavouras. Agosto apresentou frio e precipitações, enquanto setembro foi marcado por chuvas acima da média e uma ocorrência de geada no dia 7. Em outubro, a continuidade das precipitações dificultou o avanço dos trabalhos em determinadas regiões. A sucessão de eventos climáticos ajuda a explicar a cautela dos participantes do mercado quanto ao resultado final da safra.
Na apresentação realizada durante o congresso, o rendimento estimado para as áreas analisadas foi de 2,5 mil quilos por hectare. Aproximadamente 27% da área considerada havia sido colhida, e a comercialização correspondia a cerca de 30% do volume projetado. Como esses indicadores foram apresentados antes da conclusão da colheita, ainda estavam sujeitos a revisões. A evolução das condições climáticas e dos trabalhos no campo permanece determinante para a oferta final.
Argentina deve continuar como principal fornecedora do Brasil
A perspectiva de importações mais elevadas reforça o papel da Argentina no abastecimento brasileiro de trigo. A proximidade geográfica e a integração comercial no Mercosul favorecem as transações entre os dois países. Além disso, a indústria brasileira já possui relações estabelecidas com fornecedores argentinos, o que contribui para a continuidade dos fluxos comerciais. A disponibilidade do cereal no país vizinho, entretanto, dependerá de sua própria safra e das condições internacionais de mercado.
A maior dependência externa também expõe o Brasil às oscilações cambiais. Como as negociações internacionais de trigo são influenciadas por preços em dólares, movimentos de valorização da moeda americana podem encarecer as compras realizadas pelos importadores brasileiros. Custos de transporte marítimo, armazenagem e desembaraço portuário também integram o valor final da matéria-prima. A combinação desses fatores pode afetar as margens dos moinhos e a formação de preços dos produtos derivados.
Outro elemento de incerteza envolve o mercado do Mar Negro, região relevante para o comércio internacional de trigo. O conflito entre Rússia e Ucrânia continua sendo acompanhado pelos participantes do setor devido a seus possíveis efeitos sobre produção, logística e exportações. Alterações no fluxo de embarques podem influenciar os preços internacionais e as decisões de compra de países importadores. Para o Brasil, esse risco reforça a importância de diversificar fornecedores e acompanhar a disponibilidade global do cereal.
Importações podem aumentar pressão sobre os portos brasileiros
A movimentação de até 10 milhões de toneladas de trigo importado em um ano representaria uma demanda logística significativa para o Brasil. Distribuído de maneira uniforme, esse volume equivaleria a aproximadamente 833 mil toneladas mensais, embora as compras efetivas variem conforme os períodos de colheita e as necessidades da indústria. O aumento exigiria capacidade de recebimento, descarga, armazenagem e transporte terrestre para os moinhos. Eventuais limitações nessas etapas podem elevar custos e comprometer a eficiência do abastecimento.
O desafio não se resume à movimentação dos navios. Após o desembarque, o trigo precisa seguir para unidades industriais localizadas em diferentes regiões, muitas delas distantes dos principais terminais marítimos. A disponibilidade de caminhões, a capacidade de armazenamento e os custos do transporte influenciam a competitividade das operações. Moinhos com acesso mais eficiente à infraestrutura portuária poderão apresentar vantagens em relação aos concorrentes com maior dependência de longos deslocamentos terrestres.
A maior utilização de trigo importado também poderá exigir ajustes na organização industrial. Empresas que recebem cereais com diferentes características precisarão adequar processos de mistura, controle de qualidade e moagem para manter a padronização das farinhas. Essa exigência tende a ampliar a importância da eficiência operacional. A redução de perdas e a estabilidade dos produtos finais serão fatores relevantes para preservar a rentabilidade.
Preço do pão e das massas poderá sofrer pressão?
O trigo é uma das principais matérias-primas utilizadas na fabricação de farinha, pães, massas e biscoitos. Por isso, mudanças em sua oferta e nos custos de aquisição podem influenciar a indústria alimentícia. A necessidade de importar volumes maiores aumenta a exposição dos moinhos ao câmbio, ao transporte internacional e aos preços praticados pelos fornecedores estrangeiros. Entretanto, essa combinação não significa aumento automático do preço dos alimentos ao consumidor.
O repasse depende de fatores adicionais, como contratos de fornecimento, estoques disponíveis, concorrência entre fabricantes e custos de outros insumos. Despesas com energia, embalagens, distribuição e mão de obra também participam da formação do preço final. Em determinados períodos, empresas podem absorver parte das oscilações da matéria-prima em suas margens. Em outros, aumentos persistentes de custos podem ser transferidos gradualmente aos produtos comercializados.
A evolução dos preços internacionais do trigo também poderá compensar ou ampliar os efeitos da redução da produção brasileira. Caso a oferta global permaneça elevada, o país poderá encontrar condições de aquisição mais favoráveis, mesmo com maior necessidade de importações. Por outro lado, problemas climáticos em grandes produtores ou restrições logísticas podem alterar rapidamente essa perspectiva. O impacto sobre os consumidores dependerá do comportamento conjunto dessas variáveis.
Dados oficiais mostram importações de 428,5 mil toneladas em setembro
As estatísticas de comércio exterior oferecem uma referência sobre o fluxo recente de compras internacionais. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Brasil importou aproximadamente 428,5 mil toneladas de trigo e centeio não moídos em setembro de 2026, movimentando US$ 105,1 milhões. O volume ficou 24,6% abaixo do registrado no mesmo mês de 2025. A categoria estatística reúne trigo e centeio, portanto não corresponde exclusivamente às aquisições de trigo.
Em agosto, as compras desses cereais somaram aproximadamente 514,7 mil toneladas, com valor de US$ 125,8 milhões. A comparação mostra que as importações oscilaram entre os dois meses, sem uma trajetória contínua de crescimento no período. Essas movimentações refletem condições comerciais específicas e não permitem antecipar, isoladamente, o total que será importado em 2027. A projeção de até 10 milhões de toneladas está relacionada principalmente à disponibilidade esperada para o próximo ano.
A diferença entre os volumes recentes e as estimativas futuras reforça a necessidade de acompanhar os próximos levantamentos. A conclusão da colheita brasileira, a definição da oferta argentina e a evolução dos estoques determinarão o ritmo das compras externas. O comportamento dos preços internacionais também influenciará o momento de contratação dos embarques. Para a indústria, antecipar essas mudanças será importante na administração dos custos e na garantia de fornecimento.
Menor produção coloca abastecimento de trigo entre os desafios de 2027
As projeções apresentadas no Congresso Internacional da Indústria do Trigo apontam para um período de maior dependência do mercado externo. A possibilidade de importar até 10 milhões de toneladas em 2027 evidencia a distância entre a produção nacional e as necessidades da indústria, especialmente diante das preocupações com a qualidade do cereal disponível. Ao mesmo tempo, a previsão oficial de queda de 27,2% na safra brasileira confirma a dimensão do desafio produtivo. A combinação exige atenção à logística, aos custos e à capacidade de abastecimento dos moinhos.
O cenário também destaca diferenças regionais importantes. A perspectiva de déficit no Paraná e as dificuldades enfrentadas pelas lavouras gaúchas poderão alterar os fluxos tradicionais de fornecimento. A Argentina tende a ganhar ainda mais relevância como parceira comercial, enquanto os portos brasileiros deverão receber atenção crescente das empresas importadoras. A capacidade de adaptação da cadeia produtiva será determinante para limitar os efeitos da menor oferta doméstica.
Para 2027, os principais pontos de acompanhamento serão o resultado definitivo da safra brasileira, a qualidade do trigo colhido, os preços internacionais e a capacidade logística de receber volumes maiores. A estimativa de importação ainda não representa uma quantidade contratada ou confirmada, mas sinaliza a dimensão das necessidades previstas pelo setor. Seu cumprimento dependerá das condições de mercado e da evolução do consumo interno. A prioridade da indústria será assegurar matéria-prima suficiente e adequada para manter a regularidade da produção de farinha e de seus derivados.
Fontes
Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) — 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, realizado de 21 a 23 de outubro de 2026, no Rio de Janeiro.
Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) — Primeiro Levantamento da Safra de Grãos 2026/2027, divulgado em 15 de outubro de 2026.
Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) — Relatório de oferta e demanda agrícola de outubro de 2026.
Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) — Estatísticas oficiais do comércio exterior brasileiro, importações de trigo e centeio não moídos, agosto e setembro de 2026.
Ministério da Agricultura e Pecuária — Informações sobre as relações comerciais agrícolas entre Brasil e Argentina.









