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Braskem (BRKM5) negocia recuperação extrajudicial antes de dívida de julho

Petroquímica busca apoio de credores para reestruturar passivos enquanto enfrenta alavancagem elevada, pressão global e incertezas em Maceió.

por Alice Nascimento
03/06/2026 às 08h53
em Empresas
Braskem (Brkm5) Negocia Recuperação Extrajudicial Antes De Dívida De Julho - Gazeta Mercantil - Empresas

A Braskem (BRKM5) negocia com credores a possibilidade de iniciar um processo de recuperação extrajudicial antes do vencimento de dívidas previsto para julho, segundo informações da Bloomberg News. A petroquímica busca apoio para uma reestruturação de passivos em meio à pressão financeira provocada por endividamento elevado, margens mais apertadas no setor petroquímico, demanda global enfraquecida e incertezas jurídicas relacionadas ao desastre ambiental em Maceió. As ações da companhia seguem no radar do mercado diante do risco de uma nova etapa formal de renegociação da dívida.

Segundo fontes ouvidas pela agência, a Braskem (BRKM5) avalia apresentar o pedido de recuperação extrajudicial assim que obtiver apoio de credores que representem ao menos um terço da dívida. A empresa também não teria descartado a possibilidade de buscar proteção judicial temporária por meio de medida cautelar, alternativa que já teria sido considerada no início do ano.

Leia também: Velocidade de afundamento da mina da Braskem diminui, diz Defesa Civil.

A recuperação extrajudicial é um mecanismo usado por empresas em crise financeira para renegociar dívidas diretamente com credores, com posterior homologação judicial do plano. Diferentemente da recuperação judicial, o processo tende a ser mais rápido e menos abrangente, pois parte de um acordo previamente construído com uma parcela relevante dos credores.

Recuperação extrajudicial pode suspender dívidas por 90 dias

A recuperação extrajudicial permitiria à Braskem (BRKM5) buscar uma suspensão temporária de 90 dias no pagamento de dívidas. Durante esse período, a companhia teria de avançar nas negociações com credores e construir apoio suficiente para aprovar um plano final de reestruturação.

Na prática, a medida pode dar fôlego de curto prazo ao caixa da petroquímica e reduzir o risco de uma pressão imediata de vencimentos. Para o mercado, porém, a adoção de uma recuperação extrajudicial seria interpretada como sinal de que a estrutura de capital da empresa exige ajustes relevantes.

A diferença central em relação à recuperação judicial está no grau de judicialização. Na recuperação extrajudicial, a companhia tenta negociar previamente com os credores e levar ao Judiciário um plano já pactuado. Na recuperação judicial, a empresa entra em um procedimento mais amplo, com maior intervenção formal e impacto potencial sobre diferentes classes de credores.

Mesmo sendo menos drástica que uma recuperação judicial, a recuperação extrajudicial costuma afetar a percepção de risco sobre a companhia. O mercado passa a acompanhar a adesão dos credores, os prazos de pagamento, eventuais descontos, garantias e mudanças nas condições da dívida.

Dívida e alavancagem ampliam pressão sobre a Braskem

A situação financeira da Braskem (BRKM5) se deteriorou em meio a uma combinação de fatores operacionais e financeiros. No primeiro trimestre de 2026, a companhia encerrou o período com endividamento bruto corporativo de US$ 9,4 bilhões, incluindo o saque da linha de crédito stand-by realizado em outubro de 2025.

A dívida em moeda estrangeira representava 91% do total, com prazo médio de 7,4 anos em março de 2026 e custo médio equivalente à variação cambial mais 6,34% ao ano. A exposição ao dólar aumenta a sensibilidade da estrutura de capital da companhia ao câmbio, embora parte das receitas da empresa também esteja relacionada a mercados internacionais.

A dívida líquida ajustada encerrou o trimestre em US$ 8,483 bilhões, alta de 13% em relação ao trimestre anterior e de 27% frente ao mesmo período de 2025. A alavancagem corporativa atingiu 16,81 vezes, avanço de 14% no trimestre e mais que o dobro do nível observado na comparação anual.

Esse patamar de alavancagem é um dos principais pontos de preocupação dos investidores. Em empresas cíclicas, como petroquímicas, margens mais fracas e geração de caixa pressionada podem dificultar a redução da dívida em momentos de baixa do ciclo.

Resultado do 1º trimestre mostrou lucro, mas operação mais fraca

A Braskem (BRKM5) registrou lucro líquido de R$ 1,446 bilhão no primeiro trimestre de 2026, alta de 107% em relação ao mesmo período de 2025. O número, porém, não eliminou a preocupação do mercado com a estrutura financeira da companhia.

O Ebitda recorrente somou R$ 1,0 bilhão no trimestre, queda de 24% na comparação anual. A receita líquida caiu 20%, para R$ 15,488 bilhões.

Esses dados mostram que, apesar do lucro contábil, a operação segue pressionada. Para uma empresa com dívida elevada, a geração recorrente de caixa é um indicador central, pois define a capacidade de honrar compromissos, financiar investimentos e reduzir alavancagem.

A companhia informou que a volatilidade nos mercados internacionais, intensificada a partir de março pelo conflito no Oriente Médio e pela alta dos preços de energia, não impactou materialmente o resultado trimestral. Ainda assim, o setor petroquímico global continua enfrentando margens apertadas, excesso de oferta em algumas cadeias e sinais de demanda fraca.

Setor petroquímico enfrenta ciclo global desfavorável

A possível recuperação extrajudicial da Braskem (BRKM5) ocorre em um momento difícil para o setor petroquímico. A indústria global atravessa um ciclo de menor rentabilidade, pressionada por capacidade adicional de produção, custos voláteis de energia e menor demanda em mercados relevantes.

Empresas petroquímicas são altamente sensíveis ao ciclo econômico. Quando a atividade desacelera, a demanda por resinas, plásticos e insumos industriais tende a perder força. Ao mesmo tempo, se a oferta global permanece elevada, os spreads petroquímicos se comprimem.

No caso da Braskem (BRKM5), esse cenário se soma à complexidade da operação internacional e à necessidade de administrar passivos financeiros elevados. A volatilidade do petróleo e da nafta, além do câmbio, também afeta custos e margens.

A pressão setorial reduz a margem de manobra da companhia para desalavancar apenas por meio da melhora operacional. Por isso, a renegociação com credores passou a ser observada como uma alternativa para reorganizar a estrutura de vencimentos e tentar preservar liquidez.

Maceió segue como fonte de custos e incertezas

Além do cenário global desfavorável, a Braskem (BRKM5) ainda lida com desdobramentos do desastre ambiental em Maceió, relacionado à exploração de sal-gema. O caso gerou custos elevados, acordos, provisões e incertezas jurídicas para a companhia.

Esse passivo continua sendo um fator relevante na análise de risco da petroquímica. Mesmo após avanços em acordos e medidas de reparação, investidores acompanham a possibilidade de novas obrigações, impactos financeiros adicionais e eventuais discussões judiciais.

A situação em Maceió também pesa sobre a percepção reputacional da companhia. Para credores e acionistas, o caso representa uma fonte de incerteza que dificulta a avaliação precisa da capacidade futura de geração de caixa.

Em um processo de recuperação extrajudicial, passivos contingentes e obrigações ligadas a reparações podem ter papel importante nas negociações, ainda que a estrutura específica do plano dependa dos termos apresentados pela companhia e aceitos pelos credores.

Venda de controle adiciona camada de incerteza

A situação da Braskem (BRKM5) também é influenciada pelas tentativas de venda da participação da Novonor, antiga Odebrecht, na companhia. O processo de mudança de controle tem sido acompanhado há anos pelo mercado e adiciona incerteza à governança da petroquímica.

Em abril, a Braskem informou que a Novonor e a NSP Investimentos assinaram contrato para vender o controle da companhia ao fundo de investimento em participação Shine I, assessorado pela IG4.

A eventual conclusão da operação pode alterar a estrutura de controle e a estratégia futura da petroquímica. No entanto, a negociação ocorre em paralelo à deterioração financeira e às discussões com credores, o que torna o processo mais complexo.

Para investidores, a combinação entre potencial mudança de controle, alavancagem elevada e possível recuperação extrajudicial exige cautela. O valor das ações da Braskem (BRKM5) tende a refletir não apenas o desempenho operacional, mas também a percepção sobre quem ficará à frente da companhia e como será tratada a dívida.

Credores terão papel decisivo na reestruturação

A adesão dos credores será o ponto central para definir se a recuperação extrajudicial avançará. A Braskem (BRKM5) precisa construir apoio suficiente para apresentar um plano que seja viável do ponto de vista financeiro e aceitável para os detentores da dívida.

Credores costumam avaliar diferentes fatores antes de aceitar uma reestruturação: capacidade de pagamento, garantias, prazos, juros, prioridade de recebimento, risco de recuperação judicial e valor de liquidação em cenário adverso.

Para a companhia, uma negociação bem-sucedida pode alongar vencimentos, reduzir pressão de caixa e abrir espaço para atravessar o ciclo negativo do setor. Para os credores, o desafio é encontrar um equilíbrio entre preservar valor e evitar uma deterioração maior da situação financeira da empresa.

A possibilidade de medida cautelar também permanece no radar. Esse instrumento poderia oferecer proteção temporária contra cobranças enquanto a companhia tenta costurar um acordo mais amplo.

Ações da Braskem seguem expostas a risco financeiro

As ações da Braskem (BRKM5) devem continuar sensíveis às notícias sobre a negociação com credores. A eventual recuperação extrajudicial pode ser vista como tentativa de reorganização financeira, mas também como confirmação de que a empresa enfrenta pressão relevante para lidar com seus passivos.

Para o acionista, o principal risco é a diluição de valor em uma reestruturação mais dura, a piora da percepção de crédito ou a necessidade de medidas adicionais para reforçar o caixa. Por outro lado, um acordo bem estruturado poderia reduzir incertezas e permitir que o mercado volte a focar na recuperação operacional da petroquímica.

A trajetória dos papéis dependerá da capacidade da companhia de obter apoio dos credores, esclarecer os termos da reestruturação, avançar na venda de controle e mostrar melhora operacional em um setor ainda pressionado.

Até que haja uma definição formal, o mercado deve acompanhar de perto os vencimentos de julho, a posição dos credores e eventuais comunicados da Braskem (BRKM5). A negociação marca um momento decisivo para a petroquímica, que precisa equilibrar dívida elevada, ciclo setorial adverso, passivos jurídicos e indefinição societária.

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