As ações preferenciais da Braskem (BRKM5) caíam cerca de 13% nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, depois que o UBS BB reduziu a recomendação dos papéis de neutra para venda e cortou o preço-alvo de R$ 10,50 para R$ 3,75. Por volta das 11h40, BRKM5 era negociada a R$ 4,60, queda de 13,86%, enquanto a petroquímica avançava nas negociações para reestruturar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras submetidas à recuperação extrajudicial.
A revisão do preço-alvo foi de 64,3%, cálculo feito a partir dos valores anteriores e atuais definidos pelo banco. Em relação ao fechamento de R$ 5,34 da terça-feira, a nova referência de R$ 3,75 representa uma diferença de aproximadamente 29,8%. O UBS BB relaciona a mudança principalmente à combinação de dívida elevada, risco de diluição dos atuais acionistas e perspectiva de permanência dos spreads petroquímicos em patamares deprimidos nos próximos anos.
A avaliação ocorre menos de um mês depois de a Braskem protocolar seu pedido de recuperação extrajudicial. A companhia informou que o processo abrange aproximadamente US$ 10,9 bilhões em créditos quirografários e foi apresentado inicialmente com apoio de credores que representam 39,6% dos créditos sujeitos ao plano, percentual suficiente para permitir o ajuizamento.
O caso coloca o preço das ações diante de duas variáveis diferentes. De um lado, a empresa apresentou um forte resultado operacional no segundo trimestre, impulsionado temporariamente pela abertura dos spreads petroquímicos durante o conflito no Oriente Médio. De outro, continua com dívida líquida ajustada próxima de US$ 9,5 bilhões e uma estrutura de capital que ainda precisará ser renegociada com credores e acionistas.
UBS estima corte de até US$ 6,5 bilhões na dívida líquida
O tamanho do ajuste estimado pelo UBS BB mostra a dimensão do problema financeiro. Segundo os analistas do banco, a Braskem precisaria reduzir sua dívida líquida entre US$ 6 bilhões e US$ 6,5 bilhões para retornar a níveis considerados sustentáveis de alavancagem e geração de caixa.
A dívida líquida ajustada informada pela companhia no encerramento de junho era de US$ 9,427 bilhões. Se a redução estimada pelo UBS fosse aplicada integralmente a esse saldo, o ajuste equivaleria a aproximadamente 64% a 69% da dívida líquida atual. O passivo remanescente ficaria, numa conta indicativa, entre US$ 2,9 bilhões e US$ 3,4 bilhões.
Isso não significa que exista hoje uma decisão de reduzir a dívida exatamente nesses valores. Trata-se de uma estimativa dos analistas do UBS para uma estrutura de capital considerada sustentável, e não dos termos finais da recuperação extrajudicial.
A própria Braskem informou que ainda negocia as condições definitivas da reestruturação. O plano protocolado estabelece parâmetros que podem incluir alongamento das obrigações, capitalização de juros durante um período de alívio financeiro, eventual suporte de liquidez dos principais acionistas, aporte ou garantia de capital e possível conversão de parte dos créditos em participação acionária.
Essas alternativas ajudam a explicar por que o banco vê risco elevado para os atuais acionistas. Uma redução muito grande da dívida dificilmente dependeria apenas da geração operacional de caixa no curto prazo e poderia exigir uma combinação de renegociação, conversão de passivos em ações e capital novo.
Diluição pode chegar a 95% em cenário calculado pelo banco
O UBS BB estima que uma solução baseada exclusivamente em conversão de dívida em participação acionária e aumento de capital poderia produzir diluição de aproximadamente 70% a 95% dos acionistas minoritários.
A estimativa não representa uma decisão da Braskem nem uma condição já acordada com os credores. É um cenário elaborado pelo banco para dimensionar o possível efeito sobre os atuais acionistas caso a redução do endividamento dependa principalmente de capitalização de passivos e dinheiro novo.
O impacto de uma diluição dessa magnitude seria substancial. Um investidor que atualmente possui 1% de determinada base acionária, por exemplo, poderia passar a representar apenas 0,30% dessa base numa diluição de 70%, antes de considerar diferenças entre classes de ações e os detalhes específicos de qualquer operação. Com diluição de 95%, a participação relativa cairia para cerca de 0,05%.
É justamente essa incerteza sobre a divisão do sacrifício financeiro entre credores e acionistas que aumenta a volatilidade das ações durante uma reestruturação.
O plano inicial da Braskem já incorpora o princípio de compartilhamento de esforços entre as partes envolvidas. A companhia informou que poderá haver suporte financeiro dos acionistas principais e capitalização de parte dos créditos, mas os valores, prazos e instrumentos ainda dependem de negociação.
Petrobras pode enfrentar aporte bilionário em cenário do UBS
A Petrobras (PETR3; PETR4) possui 47,03% das ações ordinárias e 36,15% do capital total da Braskem, segundo a estrutura societária atualizada da petroquímica. A posição torna a estatal uma das partes diretamente envolvidas na definição de uma solução para a estrutura de capital.
No cenário avaliado pelo UBS BB, caso a redução da dívida ocorra exclusivamente por conversão de passivos e uma injeção de recursos e a Petrobras pretenda preservar sua participação, a estatal poderia precisar aportar entre US$ 2 bilhões e US$ 2,5 bilhões.
Novamente, não se trata de um compromisso assumido pela Petrobras. O cálculo é uma hipótese dos analistas para estimar o volume de recursos necessário em uma estrutura específica de recapitalização.
A recuperação extrajudicial protocolada pela Braskem admite eventual suporte de liquidez dos acionistas principais e um possível compromisso de aporte ou garantia de capital ao fim do período de alívio, caso determinadas métricas financeiras não sejam alcançadas. Essas condições, contudo, permanecem sujeitas a negociação e às aprovações de governança das partes envolvidas.
Resultado forte do segundo trimestre teve componente temporário
A deterioração da percepção sobre a estrutura financeira contrasta com os números operacionais apresentados pela Braskem no segundo trimestre. A companhia registrou Ebitda recorrente de US$ 1,043 bilhão, equivalente a R$ 5,253 bilhões, e lucro líquido de aproximadamente US$ 664 milhões.
A melhora foi provocada principalmente pela abertura dos spreads químicos e petroquímicos durante o conflito no Oriente Médio. Restrições de oferta elevaram os custos de matérias-primas na Ásia e ampliaram temporariamente as margens entre os preços das resinas e seus insumos.
Esse movimento teve peso suficiente para reduzir a relação entre dívida líquida ajustada e Ebitda recorrente dos últimos 12 meses para 6,74 vezes, ante 18,18 vezes no trimestre anterior. A melhora do indicador, entretanto, ocorreu em grande parte porque o Ebitda trimestral aumentou fortemente.
O saldo da dívida continuou subindo. A dívida líquida ajustada passou de US$ 9,180 bilhões no primeiro trimestre para US$ 9,427 bilhões no segundo, avanço de aproximadamente US$ 247 milhões. A dívida bruta corporativa encerrou junho em cerca de US$ 10,4 bilhões.
A companhia também consumiu aproximadamente US$ 15 milhões em caixa no trimestre, principalmente em razão da variação negativa do capital de giro e da elevação dos estoques.
Para o UBS, o problema está justamente na dificuldade de transformar o resultado excepcional do segundo trimestre em uma trajetória recorrente de geração de caixa capaz de reduzir rapidamente o endividamento.
Nova capacidade da China volta a pressionar margens
A expectativa do banco é de que os spreads petroquímicos voltem a enfrentar pressão estrutural conforme novas fábricas entram em operação, principalmente na China.
Para o polietileno, o UBS BB estima a entrada de aproximadamente 7,6 milhões de toneladas de nova capacidade em 2027, sendo cerca de 60% provenientes da China. No mesmo período, a demanda global cresceria cerca de 4,6 milhões de toneladas.
A diferença entre as duas grandezas é de aproximadamente 3 milhões de toneladas. Em outras palavras, as adições de capacidade projetadas superariam o crescimento da demanda em cerca de 65%, aumentando o risco de excesso de oferta.
No polipropileno, o banco projeta mais 3,1 milhões de toneladas de capacidade em 2027, aproximadamente 75% delas na China, volume próximo do crescimento esperado da demanda.
O UBS incorporou às suas estimativas para 2027 um spread de US$ 395 por tonelada para PE-nafta, queda anual de 13%; US$ 823 por tonelada para PE-etano, redução de 18%; e US$ 485 por tonelada para PP-propeno, recuo de 9%.
Esses números ajudam a explicar a avaliação de que o salto de rentabilidade observado no segundo trimestre não constitui, sozinho, evidência de uma recuperação estrutural das margens da companhia.
Braskem tem prazo para alcançar quórum do plano
A recuperação extrajudicial foi protocolada em 24 de agosto e teve seu processamento deferido pela 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo quatro dias depois.
A decisão judicial manteve por 120 dias a suspensão de execuções relacionadas aos créditos abrangidos, considerando nesse prazo os 60 dias de proteção já concedidos anteriormente em tutela cautelar. A empresa recebeu ainda 90 dias para demonstrar que alcançou o quórum necessário à homologação do plano.
Os credores que aderiram inicialmente representam 39,6% dos créditos sujeitos. O objetivo é chegar ao percentual legal necessário para que um plano atualizado possa vincular a totalidade dos créditos abrangidos pela recuperação.
O prazo também funciona como uma janela para negociar os pontos mais sensíveis da reestruturação: prazo das dívidas, tratamento dos juros, participação dos acionistas, eventual aporte de recursos e possível conversão de créditos em capital.
Até que esses elementos sejam definidos, a estrutura econômica final da companhia e o percentual de participação que permanecerá com os atuais acionistas continuarão incertos.
Queda das ações reflete risco financeiro além do ciclo petroquímico
O corte do preço-alvo de R$ 10,50 para R$ 3,75 sinaliza que a discussão sobre BRKM5 deixou de ser predominantemente uma avaliação do ciclo petroquímico e passou a depender cada vez mais da forma como a dívida será reorganizada.
A Braskem possui operações industriais relevantes e demonstrou no segundo trimestre que consegue capturar margens elevadas quando as condições internacionais são favoráveis. O desafio é compatibilizar essa capacidade operacional com um passivo financeiro que levou a companhia à recuperação extrajudicial.
O próprio mercado de crédito já incorporou parte dessa deterioração. A página de relações com investidores da Braskem registra classificação corporativa “D” pela S&P e “RD” pela Fitch, níveis associados a eventos de inadimplência ou reestruturação de obrigações financeiras.
Para os acionistas, o próximo ponto decisivo não será apenas a evolução dos preços de resinas ou das matérias-primas, mas a composição do plano atualizado negociado com os credores.
A dimensão do ajuste calculado pelo UBS ajuda a explicar a reação desta quarta-feira: reduzir entre US$ 6 bilhões e US$ 6,5 bilhões de uma dívida líquida próxima de US$ 9,5 bilhões exigiria uma transformação profunda da estrutura de capital. O resultado dessas negociações determinará quanto da companhia continuará pertencendo aos atuais acionistas e qual será o tamanho do endividamento que a Braskem carregará quando sair do processo de reestruturação.
Fontes:
Braskem – fatos relevantes sobre o pedido, o processamento e os termos preliminares da recuperação extrajudicial
Braskem – relatório de resultados do segundo trimestre de 2026, com dados de dívida, Ebitda, lucro e geração de caixa
Braskem Relações com Investidores – estrutura acionária e classificações de risco de crédito da companhia
Comissão de Valores Mobiliários – documentos da recuperação extrajudicial e informações financeiras divulgadas pela Braskem
UBS BB – análise sobre recomendação, preço-alvo, estrutura de capital, spreads petroquímicos e cenários de diluição
Reuters – informações sobre o relatório do UBS BB e desempenho das ações BRKM5 no pregão de 16 de setembro de 2026








