A Positivo Tecnologia (POSI3) mais que dobrou sua receita com servidores no segundo trimestre de 2026, em um movimento que antecedeu a entrada definitiva em vigor do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata. A receita dessa linha de negócios alcançou R$ 174,3 milhões entre abril e junho, alta de 107,4% sobre os R$ 84 milhões registrados no mesmo período de 2025.
O avanço acrescentou R$ 90,3 milhões à receita trimestral de servidores em um ano e elevou o peso da operação dentro da Positivo. Os R$ 174,3 milhões corresponderam a aproximadamente 15,5% da receita bruta total de R$ 1,127 bilhão e a 28,8% dos R$ 605,3 milhões obtidos pelo bloco de Infraestrutura, Serviços e Soluções de TI.
O desempenho ocorreu antes da sanção, em 15 de setembro, da Lei nº 15.504, que instituiu de forma permanente o Redata. A nova legislação concede incentivos tributários para projetos de instalação, modernização e ampliação de data centers e permite a coabilitação de fabricantes de produtos de tecnologia da informação e comunicação quando fornecerem equipamentos a empresas beneficiárias.
Servidores ganham peso dentro da divisão de infraestrutura
No segundo trimestre de 2025, os servidores respondiam por cerca de 16,4% da receita de Infraestrutura, Serviços e Soluções de TI. Um ano depois, essa participação chegou a aproximadamente 28,8%, aumento de 12,4 pontos percentuais.
A companhia atribuiu o desempenho principalmente à procura de clientes corporativos por infraestrutura de inteligência artificial e ambientes de nuvem híbrida. Foram captados 37 novos clientes nessas duas frentes durante o trimestre, além da concentração de entregas de um projeto de computação de alta performance.
A mudança acompanha uma transformação na arquitetura tecnológica das empresas. Parte das aplicações que antes dependiam exclusivamente de grandes provedores de nuvem passou a ser instalada em estruturas próprias ou híbridas, sobretudo quando há exigências de controle de dados, latência, segurança ou previsibilidade de custos.
Nesse ambiente, aumenta a procura por servidores equipados com GPUs, maior capacidade de memória e armazenamento de alto desempenho. A Positivo informou que vem ampliando as vendas de servidores com GPUs Nvidia e associa parte da demanda ao avanço da inferência de inteligência artificial fora dos grandes data centers centralizados.
A empresa também começou a comercializar o Inteliserver, servidor de marca própria voltado a médias e grandes companhias e ao setor público, e apresentou a IA.Box, plataforma destinada à execução de aplicações de inteligência artificial em ambientes corporativos locais.
Redata abre espaço para fabricantes dentro do benefício fiscal
A Lei nº 15.504 não beneficia apenas as empresas que operam data centers. O texto permite a coabilitação de pessoas jurídicas que tenham contrato para fornecer produtos de tecnologia da informação e comunicação industrializados por elas e destinados ao ativo imobilizado de uma empresa habilitada ao regime.
Na prática, o dispositivo pode incluir fabricantes de servidores, sistemas de armazenamento e outros equipamentos na estrutura dos incentivos, desde que sejam cumpridas as condições previstas na legislação e na regulamentação.
Para empresas coabilitadas, a suspensão tributária pode alcançar insumos utilizados na industrialização dos equipamentos que serão entregues ao operador beneficiário. Depois da venda e da entrega do produto, os tributos suspensos podem ser convertidos em alíquota zero conforme as regras do programa.
O regime contempla PIS/Pasep, Cofins, IPI e, em determinadas condições, Imposto de Importação. No caso das importações, o benefício está restrito a componentes eletrônicos e outros produtos de tecnologia sem produção nacional equivalente e incluídos em relação definida pelo Poder Executivo.
A existência do Redata, portanto, não torna automaticamente toda a produção brasileira de servidores desonerada. O benefício dependerá do enquadramento da empresa, do vínculo contratual com o operador habilitado e dos produtos abrangidos pela regulamentação.
IA e nuvem híbrida mudam a origem da demanda
A Positivo vem reposicionando sua operação para reduzir a dependência histórica dos computadores pessoais e ampliar a presença em infraestrutura, serviços e soluções corporativas.
No segundo trimestre, o bloco de Infraestrutura, Serviços e Soluções de TI também contou com R$ 103 milhões de receita em computadores corporativos, alta de 67,8%, e R$ 164 milhões na Positivo S+, crescimento de 19,9%. O segmento destinado a instituições públicas, em contraste, caiu 32,2%, para R$ 133,9 milhões.
A expansão de servidores e serviços compensou essa retração e ampliou a participação das soluções corporativas dentro do portfólio.
O movimento está ligado à necessidade crescente de capacidade computacional para aplicações de inteligência artificial. Modelos e sistemas de IA exigem processadores especializados, memória, armazenamento e infraestrutura de refrigeração capazes de operar cargas intensivas.
Parte dessa infraestrutura está concentrada em grandes data centers, mas outra parcela pode ficar dentro das próprias empresas. É nesse espaço que soluções de IA local, servidores com GPUs e ambientes híbridos passam a competir com modelos baseados exclusivamente em nuvem pública.
Redata exige contrapartidas dos operadores
O incentivo tributário aprovado pelo governo vem acompanhado de exigências para os operadores de data centers beneficiários.
As empresas habilitadas deverão atender sua demanda de eletricidade com fontes renováveis ou de baixa emissão e cumprir parâmetros de eficiência hídrica. A legislação também prevê obrigações de transparência relacionadas à sustentabilidade dos empreendimentos.
Os beneficiários terão ainda de investir no Brasil o equivalente a 2% do valor dos produtos adquiridos com incentivos em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação ligados à economia digital.
Outra exigência é destinar ao mercado brasileiro pelo menos 10% da capacidade efetiva de processamento, armazenamento e tratamento de dados instalada com benefício do regime. A legislação permite substituir essa obrigação por investimento adicional equivalente a 10% das aquisições beneficiadas em pesquisa e inovação.
Para empreendimentos instalados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, determinadas contrapartidas são reduzidas em 20%, numa tentativa de descentralizar a expansão da infraestrutura digital.
PLP 74 trata de uma frente fiscal distinta
O marco dos data centers envolve ainda o Projeto de Lei Complementar nº 74 de 2026, que não deve ser confundido com a lei que instituiu o Redata.
O PLP 74 foi aprovado pelo Senado em 3 de setembro, por 66 votos a zero, e encaminhado à sanção presidencial. O texto inclui o regime de data centers entre as medidas que podem ficar fora de determinadas restrições aplicadas à concessão de benefícios tributários em 2026.
Já a criação definitiva do Redata ocorreu pela Lei nº 15.504, sancionada em 15 de setembro. O texto teve origem no Projeto de Lei nº 278 de 2026 e substituiu a estrutura temporária estabelecida pela Medida Provisória nº 1.318 de 2025, cuja vigência terminou em fevereiro.
A distinção é relevante porque o Redata já existe juridicamente. O PLP 74 trata de sua compatibilização com regras fiscais aplicáveis aos benefícios tributários.
Resultado mostra mudança no perfil da Positivo
Os números do trimestre mostram que a operação de servidores passou a ocupar uma posição mais relevante dentro da Positivo antes mesmo da nova política tributária para data centers.
A companhia saiu de uma estrutura na qual servidores representavam pouco mais de um sexto da divisão de infraestrutura para uma participação próxima de 29% em um ano.
Esse avanço não significa que o desempenho futuro dependerá exclusivamente de projetos enquadrados no Redata. A demanda atual inclui infraestrutura própria de empresas, nuvem híbrida, inteligência artificial local e computação de alta performance.
O novo regime, porém, cria um mecanismo capaz de estimular investimentos em data centers e aproximar fabricantes locais da estrutura de incentivos. Para a Positivo, a oportunidade estará em converter a expansão da capacidade computacional instalada no país em novos pedidos de servidores, sistemas de armazenamento e soluções de inteligência artificial.









