As companhias brasileiras distribuíram US$ 4,4 bilhões em dividendos no segundo trimestre de 2026, crescimento subjacente de 12,8% em relação ao mesmo período do ano passado. O avanço colocou o Brasil entre os mercados de maior expansão da remuneração aos acionistas e superou tanto o ritmo registrado na América Latina quanto a média mundial, segundo o Global Dividend and Buyback Index da Janus Henderson.
O resultado brasileiro correspondeu a aproximadamente 38% dos dividendos pagos na América Latina entre abril e junho. Na região, as distribuições chegaram a cerca de US$ 11,7 bilhões e cresceram 1,7% em bases comparáveis. Globalmente, os dividendos atingiram US$ 757,8 bilhões, avanço subjacente de 7,3%.
A comparação mostra a velocidade do crescimento brasileiro: os 12,8% registrados no país ficaram 11,1 pontos percentuais acima da expansão latino-americana e 5,5 pontos acima da média global. Apesar disso, o Brasil ainda representa uma parcela relativamente pequena dos pagamentos mundiais, próxima de 0,6% do total do trimestre.
O levantamento também produziu uma mudança aparente na liderança entre as maiores pagadoras brasileiras. A JBS N.V., negociada na B3 por meio do BDR JBSS32, ocupou a primeira posição do ranking da Janus Henderson quando cada classe de ação é considerada separadamente, superando individualmente Petrobras ON (PETR3) e Petrobras PN (PETR4).
A leitura exige uma ressalva importante. Quando os pagamentos das duas classes da Petrobras são somados, a estatal continua à frente da JBS em valor total distribuído no período.
Petrobras pagou R$ 2,4 bilhões a mais que a JBS no critério consolidado
Dados da Elos Ayta apontam pagamentos de R$ 7,675 bilhões pela Petrobras relacionados ao segundo trimestre, contra R$ 5,251 bilhões da JBS. A diferença é de R$ 2,424 bilhões a favor da estatal.
Em termos proporcionais, o montante da Petrobras foi aproximadamente 46% superior ao atribuído à JBS nesse critério. A posição da JBS no topo do ranking, portanto, não significa que a companhia tenha transferido mais recursos aos acionistas do que a Petrobras no total.
A diferença decorre da metodologia utilizada no levantamento. PETR3 e PETR4 são contabilizadas separadamente porque representam classes distintas de ações. O mesmo ocorre com outras companhias que possuem mais de uma categoria de papel, como o Bradesco, que aparece com BBDC4 e BBDC3.
A JBS, por sua vez, aparece em uma única posição com a classe considerada pelo índice. Depois dela e das duas ações da Petrobras, o ranking brasileiro inclui Telefônica Brasil (VIVT3), Bradesco, Banco do Brasil (BBAS3), Rede D’Or (RDOR3), B3 (B3SA3) e Sabesp (SBSP3).
Essa metodologia é útil para acompanhar o valor distribuído associado a cada tipo de ação, mas não deve ser confundida com uma classificação das companhias pelo total absoluto desembolsado.
JBS quase triplica dividendo considerado pelo levantamento
A ascensão da JBS está ligada principalmente ao aumento da remuneração por ação. O valor considerado pela Janus Henderson passou de US$ 0,35 no segundo trimestre de 2025 para US$ 1,00 no mesmo período de 2026.
A diferença de US$ 0,65 representa crescimento de aproximadamente 186% em um ano. A expansão ajudou a colocar a companhia no topo da classificação brasileira por classe de ação.
O aumento ocorre paralelamente à expansão das operações globais da companhia de alimentos. A JBS encerrou o segundo trimestre com receita líquida recorde de US$ 23,9 bilhões, alta de 14% na comparação anual. O Ebitda ajustado atingiu US$ 1,257 bilhão.
O fluxo de caixa livre ficou positivo em US$ 130 milhões, melhora de US$ 185 milhões em relação ao segundo trimestre de 2025. O desempenho refletiu a combinação de resultados das operações brasileiras e internacionais, apesar das dificuldades enfrentadas pelo negócio de carne bovina na América do Norte.
A companhia também atravessa uma nova etapa societária. A reorganização internacional estabeleceu a JBS N.V. como holding do grupo e alterou a estrutura pela qual investidores acompanham as ações da empresa no Brasil e no exterior.
O crescimento da distribuição ocorre, portanto, em um período no qual a JBS combina receita recorde, diversificação geográfica e mudança em sua estrutura de mercado de capitais.
Petrobras mantém capacidade elevada de geração de caixa
Embora não lidere a classificação da Janus Henderson quando PETR3 e PETR4 são observadas separadamente, a Petrobras permanece uma das maiores distribuidoras de recursos aos acionistas no país.
No segundo trimestre, a estatal registrou lucro líquido de R$ 52,4 bilhões. O resultado foi beneficiado pelo aumento da produção de petróleo e derivados e pelos preços mais elevados do Brent no período.
A companhia aprovou em agosto R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio como antecipação da remuneração relativa ao exercício de 2026. O valor corresponde a R$ 1,34814262 por ação ordinária ou preferencial em circulação.
O montante aprovado não deve ser confundido com os R$ 7,675 bilhões considerados no levantamento sobre pagamentos ocorridos no segundo trimestre. Um valor se refere à remuneração aprovada com base no balanço encerrado em junho; o outro acompanha pagamentos realizados no período utilizado para a comparação internacional.
A política de remuneração da Petrobras relaciona a distribuição de recursos ao fluxo de caixa livre e ao nível de endividamento da companhia. Pelas regras atualmente adotadas, a empresa pode distribuir 45% do fluxo de caixa livre quando as condições financeiras previstas forem atendidas.
Essa estrutura ajuda a explicar por que a estatal continua ocupando posição central no mercado brasileiro de dividendos mesmo depois da redução dos pagamentos extraordinários observados em anos anteriores.
Brasil cresce quase oito vezes mais que a média latino-americana
A diferença entre Brasil e América Latina foi uma das características mais marcantes do segundo trimestre. Enquanto os dividendos brasileiros aumentaram 12,8%, a região cresceu somente 1,7%.
Isso significa que a expansão brasileira foi aproximadamente 7,5 vezes a taxa registrada na América Latina.
O México apareceu como outro mercado relevante, com cerca de US$ 3,4 bilhões em dividendos e recompras combinados, mas apresentou retração de 0,8% na comparação anual. O Brasil também se destacou pelo crescimento das recompras, ampliando o conjunto de instrumentos usados pelas empresas para devolver recursos aos acionistas.
Globalmente, a dinâmica continuou sendo liderada pelo setor financeiro. Bancos e outras instituições distribuíram US$ 239,7 bilhões em dividendos no segundo trimestre, avanço subjacente de 8,1%.
Nenhuma companhia brasileira, porém, entrou entre as 20 maiores pagadoras do mundo no período. A lista internacional foi liderada pela Saudi Arabian Oil Co., seguida por empresas como Nestlé, HSBC, Allianz, Microsoft e Nvidia.
A Petrobras já ocupou posição muito mais elevada nessa comparação. No quarto trimestre de 2022, chegou ao segundo lugar entre as maiores pagadoras globais. A última presença da companhia entre as 20 primeiras havia ocorrido no quarto trimestre de 2024.
Recompras acrescentam US$ 1,1 bilhão ao retorno de capital no Brasil
Os dividendos não foram a única forma utilizada pelas empresas brasileiras para devolver recursos aos investidores. As recompras de ações somaram US$ 1,1 bilhão no segundo trimestre, colocando o Brasil também na liderança latino-americana nessa modalidade.
Somados aos US$ 4,4 bilhões de dividendos, dividendos e recompras movimentaram aproximadamente US$ 5,5 bilhões em devolução de capital pelas companhias brasileiras durante o trimestre.
Nesse cálculo, as recompras corresponderam a 20% do total combinado. Em relação exclusivamente ao valor pago em dividendos, o volume recomprado equivale a 25%.
Entre as empresas brasileiras com programas relevantes de recompra apareceram Ambev (ABEV3), Itaú Unibanco (ITUB4), Vale (VALE3), B3, Rede D’Or, Bradesco e Nu Holdings.
A diversidade dessa lista mostra que a utilização das recompras ultrapassa um único setor. Há bancos, mineração, bebidas, infraestrutura de mercado, saúde e serviços financeiros digitais entre as companhias que recorreram ao instrumento.
A recompra reduz a quantidade de ações em circulação quando os papéis são efetivamente cancelados e pode elevar indicadores calculados por ação, além de oferecer às empresas maior flexibilidade para administrar a distribuição de capital.
Recompras globais avançam 26,8% e chegam a US$ 572 bilhões
No mundo, as recompras cresceram ainda mais rapidamente que os dividendos. As companhias desembolsaram US$ 572 bilhões na aquisição de ações próprias no segundo trimestre, aumento de 26,8% sobre o mesmo período de 2025.
A tecnologia ultrapassou o setor financeiro e tornou-se a maior fonte global de recompras, com US$ 121,1 bilhões. O movimento ocorre ao mesmo tempo em que grandes empresas do setor elevam investimentos em inteligência artificial, data centers e capacidade computacional.
Nos dividendos, a situação é diferente. O setor financeiro permaneceu na liderança mundial, com US$ 239,7 bilhões distribuídos.
Essa distinção mostra como as empresas utilizam os dois instrumentos de maneiras diferentes. Dividendos regulares costumam criar uma expectativa maior de continuidade entre os acionistas. Programas de recompra podem ser ampliados, reduzidos ou suspensos mais rapidamente, de acordo com geração de caixa, preço das ações, endividamento e necessidade de investimentos.
Gestora espera expansão de dividendos e recompras em 2026
A Janus Henderson projeta crescimento global entre 5% e 6% para os dividendos em 2026. Para as recompras, a estimativa é de expansão entre 7% e 8%.
O crescimento de 12,8% observado no Brasil durante o segundo trimestre ficou, portanto, acima da projeção anual atualmente considerada pela gestora para o mercado global.
Isso não significa que o mesmo ritmo brasileiro será mantido nos próximos trimestres. Pagamentos de dividendos dependem do calendário adotado por cada companhia, dos resultados corporativos, da geração de caixa, do endividamento, de investimentos planejados e das políticas específicas de remuneração aos acionistas.
O segundo trimestre mostra, porém, que o retorno de capital ganhou força entre as companhias brasileiras. Além dos US$ 4,4 bilhões em dividendos, as recompras adicionaram US$ 1,1 bilhão ao volume devolvido aos investidores.
A liderança da JBS por classe de ação representa uma mudança relevante na composição do ranking, enquanto a Petrobras continua com maior desembolso quando suas duas classes são consolidadas. Ao mesmo tempo, bancos, empresas de infraestrutura, saúde, telecomunicações e saneamento mantiveram presença entre as principais pagadoras.
O resultado deixa o mercado brasileiro com dois movimentos simultâneos em 2026: expansão dos dividendos acima das médias regional e mundial e crescimento do uso das recompras como instrumento complementar de distribuição de capital.
Fontes:
Janus Henderson – Global Dividend and Buyback Index do segundo trimestre de 2026, com dados de dividendos, recompras e projeções globais
Petrobras – resultados financeiros e operacionais do segundo trimestre de 2026
Petrobras – informações sobre remuneração aos acionistas aprovada com base no balanço de 30 de junho de 2026
JBS – resultados financeiros e operacionais do segundo trimestre de 2026
JBS Relações com Investidores – informações societárias e de remuneração aos acionistas
Elos Ayta – levantamento dos pagamentos de dividendos de companhias brasileiras no segundo trimestre de 2026








