Brasil e Estados Unidos chegam à Super Quarta desta quarta-feira, 16 de setembro, em momentos opostos de seus ciclos monetários. O Federal Reserve deve elevar os juros americanos em 0,25 ponto percentual, enquanto o Comitê de Política Monetária do Banco Central brasileiro é esperado pelo mercado a promover um corte de mesma magnitude na Selic. Caso as duas previsões se confirmem, a taxa básica brasileira cairá de 14% para 13,75% ao ano, ao mesmo tempo que o intervalo dos Fed Funds subirá para 3,75% a 4% ao ano.
A reunião americana termina primeiro. O comunicado do Federal Reserve está previsto para as 15h, no horário de Brasília, seguido pela entrevista coletiva do presidente do banco central dos Estados Unidos, Kevin Warsh. No Brasil, o resultado do Copom será divulgado a partir das 18h30. Até a publicação desta reportagem, nenhuma das duas decisões havia sido anunciada.
A possibilidade de movimentos em direções contrárias transforma a reunião desta quarta-feira em uma das mais relevantes do ano para os mercados brasileiros. Um aumento dos juros americanos tende a elevar o retorno dos ativos em dólar e pode tornar mais exigente o ambiente financeiro para países emergentes. Ao mesmo tempo, o Banco Central brasileiro avalia até onde pode continuar reduzindo a Selic sem comprometer a convergência da inflação para a meta.
O pano de fundo mudou rapidamente nas últimas semanas. Nos Estados Unidos, persistência inflacionária, preços de energia elevados e atividade econômica mais resistente reforçaram a expectativa de aperto monetário. No Brasil, inflação mais baixa e sinais de perda de ritmo da economia aumentaram as apostas em um quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual.
Fed pode fazer primeira alta de juros desde 2023
A expectativa predominante entre economistas consultados pela Reuters é de que o Federal Reserve aumente os juros em 0,25 ponto percentual, levando a taxa para a faixa entre 3,75% e 4% ao ano. Em levantamento divulgado antes da reunião, 85% dos participantes esperavam essa decisão.
Seria a primeira elevação da taxa americana desde 2023 e uma mudança importante em relação ao cenário considerado pelos mercados alguns meses atrás. A combinação entre inflação persistentemente acima da meta de 2%, atividade econômica ainda forte e pressão dos preços de energia levou investidores a voltar a precificar um ciclo de aperto monetário nos Estados Unidos.
Os dados divulgados nesta quarta-feira reforçaram a percepção de resistência da economia. As vendas no varejo americano cresceram 1,2% em agosto, acima das expectativas, depois de queda de 0,5% em julho. Uma medida considerada mais próxima do consumo utilizado nos cálculos do Produto Interno Bruto avançou 1,4%.
Os preços de importação também subiram 0,7% no mês e acumulam aumento de 7% em 12 meses, acrescentando uma nova fonte de pressão ao cenário inflacionário.
Esse conjunto de informações limita a margem do Fed para tolerar uma inflação prolongadamente acima da meta. A discussão deixou de ser apenas se haverá uma alta nesta reunião e passou a incluir a velocidade com que o banco central poderá avançar nos próximos meses.
Juros longos americanos já refletem preocupação com inflação
A mudança das expectativas aparece de forma especialmente clara no mercado de títulos públicos dos Estados Unidos. O rendimento dos Treasuries de dez anos aproximou-se de 5% nos últimos dias, enquanto títulos de prazos menores também registraram forte elevação.
Em 14 de setembro, o Treasury de dez anos estava em 4,97%, ante 4,80% no dia 8. O título de dois anos passou de 4,39% para 4,65% no mesmo intervalo. O movimento indica que os investidores passaram a exigir remuneração maior para financiar o governo americano em meio às incertezas sobre inflação, política monetária e situação fiscal.
O comportamento dos juros longos será importante mesmo que o Fed entregue exatamente o aumento esperado de 0,25 ponto percentual. Parte significativa da reação dos mercados deverá depender do discurso de Kevin Warsh e da sinalização sobre as próximas reuniões.
Se o banco central indicar que a alta desta quarta-feira constitui apenas um ajuste isolado, o impacto sobre as condições financeiras pode ser diferente daquele produzido por uma mensagem de que um novo ciclo de aperto está começando. O mercado futuro já passou a considerar outras elevações ao longo dos próximos meses.
Copom pode fazer quinto corte consecutivo da Selic
No Brasil, a direção esperada é inversa. O Banco Central iniciou 2026 com a Selic em 15% ao ano e começou a reduzir a taxa em março. Na reunião de agosto, o Copom promoveu o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para os atuais 14%.
A expectativa predominante agora é de uma nova redução para 13,75% ao ano.
Caso a projeção seja confirmada, o ciclo de flexibilização acumulará 1,25 ponto percentual desde o início dos cortes. Mesmo assim, a política monetária brasileira permanecerá em terreno fortemente restritivo, principalmente quando comparada à inflação corrente.
O IPCA acumulado em 12 meses recuou de 4,44% em julho para 4,22% em agosto. No próprio mês de agosto, os preços caíram 0,32%, resultado mais baixo do que o esperado por economistas e a maior deflação mensal desde agosto de 2022.
Parte relevante dessa queda teve origem em fatores temporários, entre eles a redução das tarifas de energia associada ao bônus de Itaipu. Ainda assim, o movimento reforçou a avaliação de que a inflação perdeu intensidade no curto prazo.
Atividade brasileira também perde força
A inflação mais favorável veio acompanhada de novos sinais de desaceleração econômica. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br, caiu 0,2% em julho na comparação com junho, já descontados os efeitos sazonais.
A queda foi um pouco maior que a expectativa de retração de 0,1% de economistas consultados pela Reuters e acrescentou evidência de que os juros elevados vêm produzindo efeitos sobre a atividade.
O próprio Copom já vinha reconhecendo essa mudança. Na reunião de agosto, o Banco Central afirmou que os indicadores eram consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026, embora tenha ressaltado que o mercado de trabalho continuava resiliente e que as expectativas de inflação permaneciam desancoradas.
Essa combinação explica a cautela do ciclo atual. A autoridade monetária vem reduzindo a taxa em passos de apenas 0,25 ponto percentual, mantendo a mensagem de que a extensão total da flexibilização dependerá dos dados.
Um novo corte nesta quarta-feira, portanto, não significaria necessariamente a manutenção automática da mesma velocidade nas reuniões seguintes.
Diferença entre Brasil e EUA ainda permanece elevada
Mesmo com um corte da Selic e uma alta dos juros americanos, o diferencial nominal entre as duas economias continuará expressivo.
Considerando uma Selic de 13,75% e o limite superior dos Fed Funds em 4%, a diferença seria de 9,75 pontos percentuais. Antes das decisões, tomando a Selic de 14% e o teto americano de 3,75%, essa distância é de 10,25 pontos.
Na hipótese central do mercado, portanto, o diferencial diminuiria em 0,50 ponto percentual nesta quarta-feira.
Esse indicador é acompanhado porque ajuda a influenciar a atratividade relativa dos ativos brasileiros diante dos títulos americanos. Ele não determina sozinho a trajetória do câmbio, já que entram na equação risco fiscal, comércio exterior, preços de commodities, cenário político, crescimento e percepção global sobre economias emergentes.
A simultaneidade das decisões, porém, torna o movimento particularmente relevante. Enquanto os Estados Unidos tornam sua política monetária mais restritiva, o Brasil tenta iniciar uma normalização gradual depois de manter juros excepcionalmente elevados.
Petróleo acrescentou nova camada de incerteza
Outro componente que alterou a discussão entre os bancos centrais foi a escalada dos preços de energia após o agravamento das tensões no Oriente Médio.
O petróleo chegou a superar US$ 100 por barril em meio às preocupações com oferta e rotas de transporte. A pressão sobre combustíveis aumentou o receio de uma nova rodada inflacionária internacional e levou investidores a elevar as expectativas de juros em várias economias desenvolvidas.
Nesta quarta-feira, entretanto, as cotações recuavam depois de informações sobre aumento da disponibilidade de petróleo saudita. O movimento ajudou a aliviar momentaneamente a pressão sobre os títulos públicos internacionais.
Para o Fed, o desafio é avaliar até que ponto a energia pode contaminar outros preços e expectativas. Para o Banco Central brasileiro, a questão também importa porque petróleo mais caro pode pressionar combustíveis, transporte, custos produtivos e projeções de inflação.
Na ata da reunião de junho, o Copom já havia destacado a necessidade de avaliar com serenidade os efeitos diretos e indiretos dos conflitos no Oriente Médio antes de determinar a extensão do ciclo de redução da Selic.
Comunicação dos bancos centrais pode ser mais importante que o número
Como tanto o aumento de 0,25 ponto nos Estados Unidos quanto o corte da mesma magnitude no Brasil estão amplamente considerados nas expectativas, a maior surpresa pode estar nos comunicados.
Nos Estados Unidos, investidores procurarão sinais sobre a disposição do Fed para realizar novas altas e sobre como Kevin Warsh interpreta a combinação de crescimento forte e inflação acima da meta.
O comunicado também poderá indicar se os integrantes do comitê passaram a considerar que a inflação representa um risco mais persistente do que se imaginava anteriormente.
No Brasil, o ponto central será a linguagem empregada pelo Copom para descrever os próximos passos. Na reunião anterior, a autoridade evitou assumir compromisso com novos cortes e reiterou que a política monetária precisava continuar suficientemente restritiva para assegurar a convergência da inflação.
O comportamento das expectativas de preços, o mercado de trabalho, a política fiscal, o câmbio e os efeitos dos conflitos internacionais seguem entre os elementos monitorados pelo Banco Central.
Super Quarta pode redesenhar expectativa para o fim de 2026
As decisões desta quarta-feira não encerram a discussão sobre juros. Ao contrário, devem definir o ponto de partida para as expectativas do último trimestre do ano.
Se o Fed confirmar a alta e sinalizar disposição para continuar apertando a política monetária, o cenário internacional poderá permanecer mais desafiador para economias emergentes. Juros americanos maiores elevam o custo global do dinheiro e podem afetar moedas, bolsas, crédito e preços de ativos.
No Brasil, um novo corte levaria a Selic a 13,75%, mas ainda deixaria uma taxa real elevada. Isso oferece espaço para continuidade da flexibilização se inflação e atividade mantiverem trajetória favorável, embora o Copom tenha enfatizado repetidamente que não pretende antecipar decisões.
A particularidade desta Super Quarta está justamente nessa divergência. O Brasil estaria realizando o quinto corte consecutivo em sua taxa básica enquanto os Estados Unidos iniciariam sua primeira elevação desde 2023.
Mais do que o movimento imediato de 0,25 ponto percentual em cada país, investidores e empresas acompanharão o que os dois bancos centrais indicarão sobre a direção futura. A resposta determinará se a diferença entre as políticas monetárias brasileira e americana continuará diminuindo até o fim de 2026 ou se as autoridades passarão a adotar uma postura mais cautelosa diante das novas pressões sobre a inflação global.
Fontes:
Banco Central do Brasil – comunicados e atas das reuniões do Comitê de Política Monetária
Banco Central do Brasil – calendário oficial das reuniões do Copom e séries históricas de inflação e juros
Federal Reserve – calendário e informações oficiais da reunião do Federal Open Market Committee de setembro de 2026
Reuters – levantamento com economistas sobre as decisões esperadas do Federal Reserve e do Banco Central do Brasil
Reuters – informações sobre inflação, vendas no varejo, juros dos Treasuries e expectativas de política monetária nos Estados Unidos
IBGE – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo de agosto de 2026








