O Banco Safra elevou de US$ 2.300 para US$ 2.500 o preço-alvo das ações do Mercado Livre (Nasdaq: MELI) para os próximos 12 meses e reiterou a recomendação de compra para a companhia. Pela avaliação do banco, o novo valor representa potencial de valorização de aproximadamente 27% e reflete uma combinação que tem se tornado central na discussão sobre a empresa: a concorrência aumentou, os investimentos continuam pressionando as margens, mas o crescimento operacional permanece suficientemente forte para sustentar uma visão positiva sobre o papel.
A revisão foi divulgada nesta segunda-feira, 31 de agosto, após a incorporação dos resultados do segundo trimestre de 2026 e de novas premissas macroeconômicas para os principais mercados da companhia. O Safra manteve o Mercado Livre como sua principal escolha no segmento de comércio eletrônico para 2026, mesmo reconhecendo que o ambiente econômico brasileiro ficou mais desafiador e que a competição por preço, logística e usuários exige investimentos elevados.
A tese do banco parte de uma avaliação importante para o investidor: parte relevante desses riscos já estaria refletida na cotação. Segundo o Safra, o Mercado Livre negocia a cerca de 40 vezes o lucro estimado para 2027, abaixo de sua média histórica de aproximadamente 55 vezes e também abaixo do múltiplo corrente de cerca de 44 vezes.
Isso não significa que a ação esteja barata em termos absolutos. O Mercado Livre continua sendo negociado com múltiplos elevados quando comparado a grande parte do mercado. O argumento do Safra é que esse prêmio se justifica pela velocidade de expansão, pela posição competitiva na América Latina e pela capacidade de combinar comércio eletrônico, serviços financeiros, crédito, publicidade e logística dentro do mesmo ecossistema.
Mercado Livre passou de US$ 10 bilhões de receita no trimestre
Os números divulgados pela própria companhia ajudam a entender por que o crescimento continua no centro da recomendação.
No segundo trimestre, o Mercado Livre registrou US$ 10,169 bilhões em receita líquida e receitas financeiras, avanço de 50% sobre o mesmo período de 2025. Foi a primeira vez que a empresa superou US$ 10 bilhões de receita em um único trimestre e o ritmo mais elevado de expansão em quatro anos.
A companhia completou ainda 30 trimestres consecutivos com crescimento superior a 30%, um histórico incomum para uma empresa que já opera em grande escala.
O volume bruto de mercadorias negociadas, conhecido como GMV, alcançou US$ 21,9 bilhões entre abril e junho. O avanço foi de 44% em dólares e de 36% em bases neutras de câmbio.
No Brasil, principal mercado da empresa, o GMV cresceu 39% em moeda constante. O número de itens vendidos aumentou 56%, reforçando a estratégia de aumentar a frequência de compras e ampliar a participação do Mercado Livre em categorias de tíquete mais baixo.
Esse crescimento tem relação direta com decisões comerciais que, no curto prazo, pesam sobre as margens.
Uma delas foi a redução do valor mínimo necessário para obtenção de frete grátis no Brasil. A empresa afirma que, um ano depois da mudança, os consumidores passaram a comprar mais produtos, em maior número de categorias e com melhor retenção.
A conversão no marketplace aumentou 1,1 ponto percentual em relação ao ano anterior. A parcela de usuários que compram produtos de três ou mais categorias por mês também aumentou 10 pontos percentuais desde a mudança.
É justamente aí que se encontra um dos principais dilemas da tese de investimento: o Mercado Livre está abrindo mão de parte da rentabilidade imediata para aumentar frequência, participação de mercado e fidelidade dos consumidores.
Lucro caiu apesar do salto da receita
O crescimento de 50% da receita não se traduziu em expansão equivalente do lucro.
O resultado operacional do Mercado Livre ficou em US$ 683 milhões no segundo trimestre, queda de aproximadamente 17% na comparação anual. A margem operacional recuou para 6,7%, ante 12,2% um ano antes.
O lucro líquido foi de US$ 466 milhões, queda de 11% sobre os US$ 523 milhões registrados no segundo trimestre de 2025.
Essa combinação — receita crescendo rapidamente enquanto lucro e margem recuam — explica boa parte da cautela do mercado com a ação.
O próprio Mercado Livre reconhece que está priorizando investimentos considerados capazes de gerar valor no longo prazo, mesmo quando pressionam a rentabilidade corrente. Entre eles estão subsídios e descontos comerciais, expansão logística, frete, aquisição de clientes no Mercado Pago e ampliação do portfólio de crédito.
O Safra revisou para baixo suas projeções de margem bruta em 2,06 pontos percentuais para 2026, 3,37 pontos para 2027 e 2,53 pontos para 2028.
Os cortes estimados para a margem operacional, entretanto, foram menores: 0,18 ponto percentual em 2026, 0,80 ponto em 2027 e 0,94 ponto em 2028.
A leitura do banco é que ganhos de escala e alavancagem operacional poderão absorver uma parcela importante do impacto dos investimentos.
Safra mantém margem de longo prazo em 9%
Mesmo reduzindo as projeções de curto e médio prazo, o Safra manteve sua estimativa de margem operacional de longo prazo em 9%.
O número representa uma expansão de aproximadamente 2,2 pontos percentuais frente à margem de 6,8% projetada pelo banco para 2026.
Essa recuperação é um dos elementos mais importantes embutidos no preço-alvo de US$ 2.500. Para que a tese se concretize, o Mercado Livre terá de mostrar que os investimentos atualmente pressionando a margem produzem mais usuários, maior frequência de compras e maior geração de receita por cliente no futuro.
O banco projeta crescimento médio anual de 33% para a receita líquida entre 2025 e 2028. Para o GMV, a expectativa é de expansão média de 25% ao ano.
Mais relevante ainda é a estimativa de participação de mercado. O Safra calcula que a fatia do Mercado Livre no comércio eletrônico regional possa avançar de aproximadamente 34% em 2025 para 45% em 2028.
Caso essa projeção se confirme, quase metade das vendas do mercado de e-commerce considerado pelo banco estaria passando pela plataforma ao final do período.
Mercado Pago já movimenta mais de US$ 100 bilhões por trimestre
A segunda grande sustentação da tese está fora do comércio eletrônico tradicional.
O Mercado Pago atingiu 88 milhões de usuários ativos mensais no segundo trimestre, avanço de 30% em relação ao ano anterior. No Brasil, a expansão foi de 38%; no México, chegou a 45%.
O volume total de pagamentos superou US$ 100 bilhões pela primeira vez em um único trimestre, alcançando US$ 100,95 bilhões. O avanço foi de 56% em relação ao mesmo período de 2025.
Os ativos administrados pela plataforma financeira chegaram a US$ 23 bilhões, crescimento de 68%.
O crédito também está crescendo rapidamente. A carteira superou US$ 16 bilhões no segundo trimestre e avançou 75% em 12 meses, ritmo significativamente superior ao crescimento consolidado da receita.
Essa expansão aumenta o potencial de lucro da fintech, mas também eleva a exposição ao risco de crédito. As provisões para perdas cresceram à medida que a carteira aumentou, um fator que precisa continuar no radar dos investidores.
O Mercado Livre sustenta que a rentabilidade da operação de crédito permanece saudável. A administração também argumenta que o cartão de crédito possui importância estratégica porque usuários que utilizam tanto o marketplace quanto o Mercado Pago apresentam frequência e rentabilidade muito superiores às de clientes que permanecem em apenas uma das plataformas.
Publicidade surge como terceira avenida de margem
Outra frente que pode ajudar o Mercado Livre a reconstruir sua rentabilidade é a publicidade digital.
A receita de publicidade cresceu 62% em bases neutras de câmbio no segundo trimestre. A companhia informou ter ultrapassado pela primeira vez participação de 10% no mercado de publicidade digital da América Latina.
Esse negócio é relevante porque possui uma estrutura econômica diferente da logística e do e-commerce tradicional. A publicidade tende a apresentar margens superiores, já que utiliza a audiência, os dados de intenção de compra e o tráfego que o próprio marketplace já possui.
O Mercado Livre vem utilizando inteligência artificial para automatizar gestão de campanhas, recomendações de orçamento e posicionamento de anúncios. A companhia também ampliou o inventário de publicidade em vídeo.
Quanto maior for a contribuição de Mercado Ads para o faturamento consolidado, maior será a possibilidade de compensar segmentos mais intensivos em capital, como logística e crédito.
Esse efeito ajuda a explicar por que o Safra mantém uma margem operacional de longo prazo superior àquela observada atualmente.
A concorrência continua sendo o principal risco
A recomendação positiva não elimina os riscos.
O próprio Safra destaca que a competição aumentou e que plataformas internacionais utilizam estratégias agressivas de preço para conquistar consumidores latino-americanos. Em resposta, o Mercado Livre também intensificou descontos e investimentos.
No Brasil, a companhia introduziu descontos para compradores que utilizam Pix e reduções nas taxas cobradas de vendedores em determinadas categorias e faixas de preço. Essas medidas reduzem receita no curto prazo, mas buscam ampliar oferta e competitividade do marketplace.
Também houve aumento dos custos de transporte e investimentos na aquisição de usuários e em terminais de pagamento.
A questão para o acionista não é apenas saber se o Mercado Livre continuará crescendo. O crescimento já está presente nos números. A variável fundamental é quanto desse crescimento poderá ser convertido novamente em expansão de margem.
Se a companhia precisar sustentar descontos, frete subsidiado e investimentos elevados indefinidamente para preservar participação de mercado, o múltiplo atribuído às ações pode ser pressionado.
Se, ao contrário, os investimentos atuais consolidarem uma base maior e mais recorrente de usuários e permitirem redução gradual dos incentivos, a alavancagem operacional poderá aparecer nos resultados.
O que significa o preço-alvo de US$ 2.500 para MELI34
Há ainda uma distinção importante para o investidor brasileiro.
O preço-alvo de US$ 2.500 estabelecido pelo Safra refere-se à ação do MercadoLibre negociada na Nasdaq sob o ticker MELI. Na B3, investidores brasileiros podem acessar a companhia por meio do BDR MELI34.
O BDR representa uma fração do ativo negociado no exterior e sua cotação também é influenciada pela variação cambial entre real e dólar. Portanto, o potencial calculado para MELI nos Estados Unidos não deve ser simplesmente reproduzido em reais como se fosse um preço-alvo direto para MELI34.
A B3 classifica MELI34 como BDR do MercadoLibre.
Para o investidor brasileiro, isso significa que a tese envolve duas variáveis: o desempenho da empresa e das ações no exterior e o comportamento do câmbio.
Crescimento de 33% ao ano é a principal aposta do Safra
O novo preço-alvo mostra que o Safra está disposto a aceitar margens menores no curto prazo em troca de uma expectativa de expansão suficientemente elevada para compensá-las.
O banco revisou para cima em 7% sua projeção de lucro líquido para 2026, mas reduziu em 3% a estimativa para 2027. Para 2028, elevou em 3% a projeção de receita consolidada.
A aparente contradição resume a situação atual do Mercado Livre: a empresa cresce rapidamente, mas está escolhendo reinvestir uma parcela relevante desse crescimento para ampliar sua vantagem competitiva.
O Safra estima retorno médio sobre o capital investido de aproximadamente 35% entre 2025 e 2028 e considera essa rentabilidade uma das justificativas para que MELI continue negociando com prêmio sobre empresas de crescimento menor.
A partir daqui, os próximos balanços deverão ser observados principalmente por três indicadores: velocidade de expansão do GMV, comportamento da carteira de crédito do Mercado Pago e recuperação das margens.
A próxima divulgação trimestral do Mercado Livre está prevista para novembro. Se a companhia conseguir manter crescimento elevado enquanto começa a demonstrar maior eficiência nos investimentos realizados em logística, preço, crédito e aquisição de usuários, a tese de retorno das margens ganhará força. Caso a pressão competitiva exija novos investimentos e prolongue a compressão da rentabilidade, o desconto atual em relação aos múltiplos históricos poderá revelar menos uma oportunidade e mais uma reprecificação estrutural do negócio.







