O JPMorgan reduziu de R$ 24 para R$ 22 o preço-alvo das ações do Banco do Brasil (BBAS3) para dezembro de 2027 e manteve recomendação neutra para os papéis, numa revisão que reforça a preocupação com a qualidade da carteira de crédito e com a velocidade da recuperação da rentabilidade do banco. A instituição também cortou suas projeções de lucro para 2026 e 2027, citando principalmente as provisões, a exposição ao agronegócio, a piora da inadimplência no cartão de crédito e uma contribuição mais fraca de outras fontes de resultado.
Para 2026, o JPMorgan passou a estimar lucro recorrente de R$ 16,879 bilhões e retorno sobre o patrimônio líquido, o ROE, de aproximadamente 9%. O número chama atenção porque está R$ 1,121 bilhão abaixo do piso do guidance oficial do Banco do Brasil, que prevê lucro líquido ajustado entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões neste ano. A projeção da instituição americana é, portanto, cerca de 6,2% inferior ao limite mínimo indicado pela administração do BB.
Para 2027, o JPMorgan calcula lucro de R$ 23,524 bilhões, com ROE próximo de 12%. A projeção foi reduzida em 12% em relação à estimativa anterior. Pela magnitude do corte informada pela instituição, o cálculo anterior estava próximo de R$ 26,7 bilhões, o que representa uma redução de mais de R$ 3 bilhões na expectativa para o resultado do próximo ano.
O preço-alvo também foi cortado em 8,3%, de R$ 24 para R$ 22. A revisão ocorreu em um momento no qual BBAS3 já havia recuperado parte importante das perdas sofridas depois da divulgação de resultados mais fracos no início do ano, reduzindo a distância entre a cotação de mercado e o valor calculado pelo JPMorgan.
Projeção do JPMorgan fica abaixo da meta oficial do BB
A diferença entre a estimativa do JPMorgan e o guidance do Banco do Brasil tornou-se um dos pontos centrais da nova avaliação. A administração do banco reduziu em maio sua previsão de lucro líquido ajustado para 2026, passando de uma faixa de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões.
Na mesma revisão, o BB elevou a estimativa de custo do crédito para um intervalo entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões, depois de enfrentar forte aumento nas provisões no primeiro trimestre. Na ocasião, a instituição atribuiu a mudança principalmente à deterioração do risco no agronegócio, às incertezas macroeconômicas e ao ambiente geopolítico.
Mesmo depois desse ajuste promovido pelo próprio Banco do Brasil, o JPMorgan considera que o resultado pode terminar abaixo da faixa projetada pela administração.
O BB acumulou aproximadamente R$ 7,3 bilhões de lucro líquido ajustado no primeiro semestre, considerando R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre e R$ 3,9 bilhões no segundo. Para atingir o piso de R$ 18 bilhões do guidance, a instituição precisaria gerar aproximadamente R$ 10,7 bilhões no segundo semestre, média próxima de R$ 5,35 bilhões por trimestre.
Para chegar ao teto de R$ 22 bilhões, seriam necessários aproximadamente R$ 14,7 bilhões entre julho e dezembro, ou cerca de R$ 7,35 bilhões por trimestre.
Já para alcançar os R$ 16,879 bilhões estimados pelo JPMorgan, o BB precisaria produzir aproximadamente R$ 9,6 bilhões no segundo semestre. A comparação não constitui uma previsão para os próximos resultados, mas dimensiona o grau de recuperação implícito em cada cenário.
Inadimplência sobe para 5,61% e mantém provisões elevadas
A principal restrição à recuperação permanece no crédito. O índice de inadimplência acima de 90 dias chegou a 5,61% em junho, ante 5,05% no encerramento de março. Em apenas um trimestre, houve aumento de 0,56 ponto percentual.
A deterioração foi acompanhada por um custo de crédito ainda elevado. O Banco do Brasil reconheceu R$ 18,5 bilhões nessa linha durante o segundo trimestre, ligeiramente abaixo dos R$ 18,9 bilhões registrados nos três primeiros meses do ano.
No acumulado do primeiro semestre, o custo de crédito ficou próximo de R$ 37,4 bilhões. Isso representa mais da metade do teto de R$ 70 bilhões previsto para todo o exercício.
O número precisa ser interpretado com cuidado, porque despesas de provisão e recuperações de crédito podem variar significativamente entre os trimestres. Ainda assim, mostra o tamanho da pressão que a qualidade dos ativos exerce sobre a demonstração de resultados.
O JPMorgan destacou também a deterioração no cartão de crédito, sinal de que os problemas não estão concentrados exclusivamente no agronegócio. A expansão da inadimplência em produtos de pessoa física aumenta a necessidade de acompanhar a qualidade da carteira de maneira mais ampla.
Ao mesmo tempo, o Banco do Brasil reduziu o ritmo de expansão dos empréstimos. A carteira de crédito ampliada encerrou junho acima de R$ 1,3 trilhão, com crescimento de apenas 0,6% frente a março e de 1,5% em 12 meses.
Agronegócio continua sendo a principal fonte de incerteza
A exposição ao agronegócio permanece no centro da análise porque o BB possui uma das maiores carteiras rurais do sistema financeiro brasileiro. Em junho, a carteira ampliada de agronegócios alcançou R$ 421,6 bilhões, aumento de 4,1% em 12 meses.
Esse volume equivale a aproximadamente um terço da carteira de crédito expandida da instituição e deixa o banco particularmente exposto às condições financeiras dos produtores rurais.
Nos últimos trimestres, renegociações, recuperações judiciais, juros elevados e dificuldades enfrentadas por segmentos específicos da produção agropecuária aumentaram o risco percebido nessa carteira. O banco reagiu ampliando garantias e tornando mais seletiva a concessão de novos créditos.
Na safra 2025/2026, aproximadamente 70% das novas operações rurais contratadas pelo BB utilizaram alienação fiduciária, segundo a instituição. A estratégia aumenta a proteção para financiamentos recentes, mas não elimina as perdas potenciais em contratos antigos que foram concedidos em condições diferentes.
É justamente esse intervalo entre a deterioração das operações existentes e a melhora gradual da qualidade das novas concessões que torna mais difícil prever a velocidade de normalização do custo de crédito.
Para o JPMorgan, essa incerteza continua impedindo uma leitura mais construtiva para BBAS3.
Lucro melhorou no trimestre, mas rentabilidade continua baixa
O Banco do Brasil encerrou o segundo trimestre com lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, crescimento de 13,9% frente aos três primeiros meses do ano e de 3,3% na comparação anual.
O resultado mostrou uma recuperação sequencial, mas ainda não foi suficiente para devolver a rentabilidade aos patamares observados antes da piora recente do crédito.
O retorno sobre o patrimônio líquido ficou em 8,3%. Essa rentabilidade permanece distante dos níveis alcançados por grandes bancos privados e também abaixo daquilo que historicamente sustentou parte da atratividade do Banco do Brasil para investidores.
A margem financeira bruta alcançou R$ 27,5 bilhões no trimestre, crescimento de 9,6% em 12 meses. As receitas de prestação de serviços atingiram R$ 9,1 bilhões e avançaram 3,4% frente ao primeiro trimestre.
Essas linhas mostram que a capacidade de geração de receita do banco continua relevante. O problema está na quantidade de recursos absorvida pelo risco de crédito.
Em outras palavras, o desafio atual não consiste apenas em ampliar receita, mas em transformar essa receita em lucro depois das provisões.
BB Seguridade também entra nas contas do JPMorgan
A revisão do JPMorgan não se limitou à carteira de empréstimos. Os analistas também apontaram menor expectativa para a margem financeira com o mercado e receitas mais fracas provenientes das participações societárias, especialmente da BB Seguridade (BBSE3).
Esse componente é importante porque a participação em seguros, previdência, capitalização e corretagem historicamente funciona como uma fonte complementar de lucro para o conglomerado Banco do Brasil, reduzindo a dependência exclusiva do resultado bancário tradicional.
Quando a contribuição dessas empresas perde força, a necessidade de recuperação das operações de crédito e da margem bancária aumenta.
A leitura do JPMorgan, portanto, combina três pressões: provisões mais elevadas, menor contribuição esperada da tesouraria e redução das expectativas relacionadas às participações societárias.
Isso ajuda a explicar por que o banco americano reduziu o lucro projetado para 2027 mesmo considerando uma melhora do ROE em relação aos níveis atuais.
Preço-alvo de R$ 22 se aproximou da cotação de mercado
A revisão ocorreu depois de uma recuperação expressiva de BBAS3 desde a divulgação do balanço do segundo trimestre.
Em 13 de agosto, primeiro pregão depois dos números, a ação encerrou a R$ 18,21, com queda de 4,16%. Pouco mais de um mês depois, o papel voltou à região de R$ 22.
Por volta das 12h35 desta quarta-feira, BBAS3 era negociada a R$ 22,17, alta de 0,59% no pregão, enquanto o Ibovespa operava praticamente estável.
Nesse nível, o preço-alvo de R$ 22 estabelecido pelo JPMorgan para dezembro de 2027 praticamente coincide com a cotação corrente. A comparação reforça a lógica da recomendação neutra: dentro das premissas utilizadas pelo banco, não existe uma diferença relevante entre o preço observado e o valor calculado para o papel.
Isso não significa que BBAS3 necessariamente permanecerá nesse nível, nem que a recomendação represente uma indicação de venda. Preços-alvo dependem das premissas adotadas por cada instituição e podem ser modificados conforme resultados, cenário econômico, custo de capital e percepção de risco.
O JPMorgan também destacou que a volatilidade associada ao cenário eleitoral é um dos motivos para manter uma postura equilibrada em relação às ações, em vez de adotar uma avaliação mais negativa.
Próximos balanços terão de mostrar normalização do crédito
A discussão sobre BBAS3 passa agora pela capacidade de o Banco do Brasil demonstrar que o custo do crédito atingiu um ponto de estabilização e pode começar a recuar de maneira sustentável.
Uma melhora isolada do lucro trimestral não resolve essa questão se a inadimplência continuar aumentando. O indicador acima de 90 dias subiu de 5,05% para 5,61% entre março e junho, mesmo enquanto o custo de crédito apresentou pequena redução sequencial.
Os próximos resultados permitirão avaliar se esse comportamento representa uma defasagem entre a formação das provisões e a inadimplência ou se novas perdas precisarão continuar sendo reconhecidas.
Também será importante acompanhar o cumprimento do guidance. A projeção do JPMorgan de R$ 16,879 bilhões para 2026 coloca o banco americano explicitamente abaixo da faixa de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões mantida pela administração.
Se o resultado do Banco do Brasil permanecer dentro da própria meta, a diferença em relação à estimativa do JPMorgan será um dos elementos a serem revistos. Caso o lucro se aproxime da projeção da instituição americana, aumentará a discussão sobre a possibilidade de uma nova revisão das expectativas corporativas.
Para os próximos trimestres, três indicadores deverão concentrar a atenção: inadimplência, custo do crédito e retorno sobre o patrimônio. São essas variáveis que determinarão se a melhora observada no segundo trimestre representou o início de uma recuperação mais consistente ou apenas uma pausa dentro de um período ainda pressionado para a rentabilidade do Banco do Brasil.
Fontes:
JPMorgan – atualização das estimativas para Banco do Brasil, recomendação, preço-alvo e projeções de lucro para 2026 e 2027
Banco do Brasil – resultados financeiros e operacionais do segundo trimestre de 2026
Banco do Brasil Relações com Investidores – informações trimestrais e apresentação de resultados do segundo trimestre de 2026
Banco do Brasil – projeções corporativas para 2026, incluindo lucro líquido ajustado e custo do crédito
BB Seguridade Relações com Investidores – resultados e informações financeiras do segundo trimestre de 2026
Reuters – informações sobre a revisão das estimativas do JPMorgan para o Banco do Brasil








