segunda-feira, 2 de novembro de 2026
contato@gazetamercantil.com
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
GAZETA MERCANTIL
Home Empresas

Casas Bahia: recuperação judicial de R$ 17,3 bilhões pressiona fornecedores e seguradoras

Restrição de seguro de crédito já afetava as compras de estoque da varejista, que agora precisa preservar o abastecimento enquanto renegocia seu passivo.

por Daniel Wicker
25/08/2026 às 23h49
em Empresas
Casas Bahia - Gazeta Mercantil

O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia (BHIA3) abriu uma nova fase na crise da varejista e ampliou o alcance do problema para além dos bancos e investidores que financiaram a companhia nos últimos anos. Fabricantes de eletrodomésticos e eletrônicos, fornecedores de serviços e seguradoras responsáveis por garantir vendas comerciais a prazo agora passam a acompanhar de perto uma reestruturação que envolve aproximadamente R$ 17,3 bilhões em créditos sujeitos ao processo.

A recuperação tramita na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central de São Paulo e engloba dez empresas do grupo. A maior parte das obrigações incluídas no processo é formada por créditos quirografários, aqueles que não possuem garantia real ou preferência específica no recebimento. O tamanho do passivo, no entanto, explica apenas parte da situação. Para continuar funcionando durante a recuperação, a Casas Bahia também precisa manter uma extensa rede de fornecedores disposta a entregar mercadorias em condições que a companhia consiga financiar.

Leia também: Delação premiada Vorcaro: investigação revela bilhões no exterior e pressiona devolução de ativos.

Esse ponto tornou-se particularmente sensível porque a própria varejista já reconhecia dificuldades nessa relação antes de recorrer à Justiça. Nas demonstrações financeiras do segundo trimestre, a administração informou que os limites de crédito concedidos por seguradoras aos fornecedores não avançaram na intensidade esperada. Em resposta, a companhia passou a negociar diretamente prazos maiores com fabricantes e outros parceiros comerciais.

Seguro de crédito tornou-se parte da equação

O seguro de crédito comercial é pouco visível para o consumidor, mas tem papel importante no funcionamento do varejo. Um fabricante pode vender televisores, geladeiras ou smartphones para uma grande rede e receber apenas semanas ou meses depois. Para reduzir o risco de não pagamento, parte dessas vendas pode estar protegida por apólices contratadas junto a seguradoras especializadas.

Leia também: Aplicativo de delivery deve indenizar consumidor agredido por atendente de restaurante.

Quando a percepção de risco de uma varejista aumenta, a seguradora pode reduzir o limite autorizado para novas vendas, rever condições ou simplesmente deixar de aceitar parte da exposição. O impacto chega rapidamente ao fornecedor, que precisa decidir se continua vendendo sem a mesma proteção ou se exige pagamento antecipado, prazos menores e outras garantias.

Para uma empresa que já enfrenta restrições de liquidez, esse movimento pode criar um círculo difícil de romper. Menos crédito significa necessidade maior de dinheiro próprio para formar estoques. Ao mesmo tempo, a redução do estoque pode limitar vendas e diminuir a capacidade de geração de caixa.

Foi justamente essa pressão que levou a Casas Bahia a mudar sua estratégia durante 2026. A administração decidiu priorizar liquidez, rentabilidade e retorno sobre o capital em lugar da busca por volume a qualquer custo. A chamada Fase 2 do Plano de Transformação incluiu redução de compras, revisão do sortimento, fechamento de unidades e cortes na estrutura de despesas.

Até a divulgação das demonstrações financeiras, 298 lojas haviam sido fechadas.

Prejuízo bilionário reflete também ajustes contábeis

A recuperação judicial foi apresentada em meio a um resultado trimestral que chamou atenção pelo tamanho. A Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre de 2026, ante resultado negativo muito menor no mesmo período do ano anterior.

O número, porém, não deve ser interpretado como uma saída equivalente de dinheiro do caixa. Segundo a própria companhia, uma parcela relevante do prejuízo veio de ajustes contábeis e itens classificados como não recorrentes.

Em uma base ajustada, o prejuízo foi de aproximadamente R$ 978 milhões. Entre os efeitos extraordinários estavam despesas relacionadas à reestruturação, fechamento de lojas, baixa de ágio, provisões contratuais e, principalmente, uma redução de R$ 5,7 bilhões em ativos tributários diferidos.

Esse último ajuste decorreu de uma revisão das projeções de lucros tributáveis futuros. Na prática, a empresa concluiu que parte dos créditos fiscais registrados no balanço já não poderia ser sustentada pelas expectativas atualizadas de geração de resultados.

Ainda que não represente uma saída imediata de caixa, a baixa revela uma mudança importante na percepção da administração sobre a rentabilidade futura do grupo.

Operação ainda produz Ebitda, mas juros pesam

O problema da Casas Bahia fica mais claro quando se observa a distância entre o desempenho operacional e a estrutura financeira. No segundo trimestre, a companhia registrou Ebitda ajustado de R$ 518 milhões, com margem de 7,4%. A receita bruta ficou próxima de R$ 8,3 bilhões e o volume bruto de mercadorias vendido chegou a R$ 10,5 bilhões.

O comércio eletrônico continuou apresentando crescimento, enquanto as lojas físicas sofreram com a estratégia de redução de estoque e fechamento de unidades. Mesmo assim, o negócio principal ainda gerava resultado operacional positivo.

A pressão aparecia depois dessa linha.

O resultado financeiro líquido foi negativo em R$ 1,278 bilhão no trimestre, valor significativamente superior ao Ebitda ajustado obtido no mesmo período. Isso significa que a geração produzida pela operação não era suficiente para absorver o custo financeiro da estrutura de capital.

Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que a companhia precisou buscar proteção judicial mesmo após uma série de operações realizadas desde 2024 para reduzir dívida, converter passivos e reorganizar sua estrutura societária.

Capital de giro continua sendo o problema imediato

Outro ponto destacado pela administração foi o capital circulante negativo. Para uma varejista, esse indicador tem implicações muito concretas porque o negócio depende continuamente da compra de mercadorias, manutenção de estoques e pagamento de fornecedores.

Ao final de junho, a Casas Bahia mantinha R$ 4,239 bilhões em estoques, uma redução de R$ 685 milhões em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, fornecedores de mercadorias e obrigações relacionadas a risco sacado somavam aproximadamente R$ 7,964 bilhões.

A redução de estoque ajudou a preservar caixa, mas também limitou a capacidade da empresa de aumentar vendas em determinadas categorias. Esse é um dos principais dilemas da recuperação: a companhia precisa diminuir a quantidade de recursos presos na operação sem deixar as lojas desabastecidas a ponto de comprometer receita e participação de mercado.

A recuperação judicial oferece tempo para renegociar as obrigações anteriores, mas não resolve sozinha a necessidade de financiar novas compras.

Fornecedores precisarão decidir quanto risco aceitar

É por isso que os fornecedores se tornam uma peça tão importante para o sucesso do processo.

Fabricantes precisam avaliar a exposição já existente e, ao mesmo tempo, decidir em quais condições continuarão atendendo a rede. Empresas que interrompem completamente as entregas reduzem seu risco financeiro, mas também podem perder um dos maiores canais de distribuição do mercado brasileiro. Quem continuar vendendo terá de avaliar prazos, garantias e volume de crédito concedido.

A mesma lógica vale para as seguradoras.

A relação de credores não permite saber quanto dos recebíveis da cadeia está efetivamente protegido por seguro de crédito. Também não é possível concluir que toda seguradora com atuação nesse mercado esteja diretamente exposta à Casas Bahia. Uma indenização depende de elementos específicos da apólice, como limite aprovado, validade da cobertura e natureza da operação.

Ainda assim, o fato de a própria Casas Bahia já ter relatado dificuldades na ampliação dos limites concedidos pelas seguradoras mostra que o setor vinha adotando uma postura mais conservadora antes do pedido judicial.

A experiência da Americanas em 2023 também permanece como referência para o mercado. Naquele caso, fornecedores protegidos por seguro apresentaram sinistros relevantes após a recuperação judicial, levando seguradoras a reavaliar limites e critérios de risco para grandes varejistas.

Casas Bahia já havia renegociado dívida em 2024

A recuperação atual não é a primeira tentativa de reorganizar a estrutura financeira da companhia.

Em abril de 2024, o grupo apresentou uma recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4,08 bilhões em passivos financeiros quirografários. O plano foi homologado em junho daquele ano e envolveu novas debêntures, alongamento de compromissos e mecanismos de conversão de dívida.

Em 2025, a empresa voltou a alterar sua estrutura de capital por meio da 11ª emissão de debêntures, que movimentou aproximadamente R$ 2,4 bilhões e incluiu séries conversíveis em ações.

Essas operações tiveram efeito relevante sobre a dívida líquida. No segundo trimestre de 2026, a Casas Bahia afirmava ter reduzido esse indicador em cerca de R$ 4 bilhões em 12 meses e levado a relação entre dívida líquida e Ebitda ajustado para 0,4 vez.

Mesmo assim, a liquidez continuou pressionada.

A diferença ajuda a explicar a situação atual. Reduzir dívida líquida não significa necessariamente eliminar problemas de capital de giro. Uma empresa pode apresentar alavancagem menor e ainda enfrentar dificuldades para financiar estoque, pagar fornecedores e manter o ciclo operacional.

Recuperação será testada dentro das lojas

A apresentação do pedido judicial transfere parte da negociação para um ambiente supervisionado pela Justiça, mas o desafio econômico continuará sendo resolvido no dia a dia da operação.

A companhia terá de convencer fornecedores a continuar enviando mercadorias, recuperar parte do acesso ao crédito comercial e manter condições suficientes para financiar estoques. Ao mesmo tempo, precisará avançar na redução de despesas financeiras e apresentar um plano capaz de convencer credores de que o grupo pode voltar a gerar caixa de forma sustentável.

O fechamento de lojas, a redução de estoque e a revisão de despesas mostram que a Casas Bahia já está operando em uma escala mais enxuta. A questão agora é saber onde está o ponto de equilíbrio entre preservar dinheiro e manter produtos suficientes para sustentar as vendas.

O próximo marco jurídico será a apresentação e a negociação do plano de recuperação, com definição das condições oferecidas às diferentes classes de credores. Para a operação, porém, o indicador mais imediato será outro: a continuidade do abastecimento.

Se fabricantes e seguradoras mantiverem crédito suficiente para que as compras continuem, a empresa ganha espaço para executar sua reestruturação. Se os limites forem reduzidos de maneira mais agressiva, a crise financeira poderá se transformar rapidamente em um problema operacional.

Esse será um dos testes centrais da recuperação da Casas Bahia nos próximos meses.


Fontes:

Grupo Casas Bahia — Informações Financeiras Intermediárias do segundo trimestre de 2026 e Relatório da Administração

Grupo Casas Bahia — Relações com Investidores e documentos sobre o pedido de recuperação judicial

Comissão de Valores Mobiliários — decisão relacionada à recuperação extrajudicial anterior do Grupo Casas Bahia

Comissão de Valores Mobiliários — documentos societários e financeiros do Grupo Casas Bahia

Leia também

  • LVMH perde mais de €250 bilhões em valor de mercado desde 2023
  • 3corações conclui compra da Yoki e Kitano por R$ 800 milhões

LEIA MAIS

Embraer (Embj3) Salta Quase 8% E Lidera Ibovespa Com Expectativa De Novos Contratos-Gazeta Mercantil
Empresas

Embraer (EMBJ3) fecha acordo para até seis aviões KC-390 à Grécia; contrato inicial soma € 590 milhões

Embraer (EMBJ3) fecha acordo de € 590 milhões para fornecer três aviões KC-390 à Grécia, com opção de mais três. Primeira entrega será em 2027.

Leia MaisDetails
Hortifrútis Caem 6,5% Nos Supermercados De São Paulo Em Agosto, Aponta Apas-Gazeta Mercantil
Tecnologia

Hackers atacam supermercados na Europa e elevam temperatura de freezers a 50°C

Hackers atacam supermercados europeus e elevam temperatura de freezers a 50°C. Invasões atingem lojas na Bélgica, Suécia, Luxemburgo e Estônia.

Leia MaisDetails
Chilli Beans Pede Recuperação Extrajudicial E Amplia Lista De Empresas Em Crise Em 2026 - Gazeta Mercantil - Empresas
Empresas

Chilli Beans pede recuperação extrajudicial e amplia lista de empresas em crise em 2026

Chilli Beans pede recuperação extrajudicial em 2026. Veja outras empresas em crise, como Braskem, Casas Bahia, Oncoclínicas e St. Marche.

Leia MaisDetails
Marketplace - Gazeta Mercantil
Economia

Governo prepara compras públicas em marketplaces com sistema de seleção automática

Governo prepara Sicx para compras públicas em marketplaces, com seleção automática de fornecedores e primeiros testes previstos para o fim de 2026.

Leia MaisDetails
Oncoclínicas (Onco3) - Gazeta Mercantil
Empresas

Oncoclínicas (ONCO3) tenta renegociar dívida em meio a disputa societária bilionária

Oncoclínicas (ONCO3) renegocia R$ 5,7 bilhões em dívidas enquanto disputa societária de até R$ 14 bilhões envolve Centaurus, CVM e decisão judicial.

Leia MaisDetails

GAZETA MERCANTIL ENCERRADO

19:01:13
IBOV

IBOVESPA

B3
Consultando... buscando última cotação
$

DÓLAR

USD/BRL
Consultando... buscando última cotação
€

EURO

EUR/BRL
Consultando... buscando última cotação
₿

BITCOIN

BRL
Consultando... buscando última cotação
Gazeta Mercantil · dados de mercado
Sênior Sistemas Sênior Sistemas Sênior Sistemas
PUBLICIDADE

Veja Também

Admin Ajax 2025 12 11T094346.625 (1)
Economia

Nota fiscal do Simples Nacional mudou: veja 4 passos para emitir NFS-e no novo sistema

Leia MaisDetails
Telemarketing - Gazeta Mercantil
Economia

SAC terá atendimento humano obrigatório a partir de hoje; veja as novas regras

Leia MaisDetails
Bitcoin (Btc) E Criptomoedas (Imagem: Canva Pro)
Criptomoedas

Binance registra saída de US$ 4,72 bilhões após ataque hacker de US$ 6,3 bilhões

Leia MaisDetails
Embraer (Embj3) Salta Quase 8% E Lidera Ibovespa Com Expectativa De Novos Contratos-Gazeta Mercantil
Empresas

Embraer (EMBJ3) fecha acordo para até seis aviões KC-390 à Grécia; contrato inicial soma € 590 milhões

Leia MaisDetails
Ouro Hoje - Gzt - Gazeta Mercantil
Mercados

Ouro sobe quase 2% com queda do petróleo e fecha a US$ 3.969,60

Leia MaisDetails

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco
Gazeta Mercantil Logo White

contato@gazetamercantil.com

Gazeta Mercantil — marca jornalística fundada em 1920, com continuidade editorial contemporânea no ambiente digital por meio do domínio oficial gazetamercantil.com.

EDITORIAS

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

Veja Também:

Nota fiscal do Simples Nacional mudou: veja 4 passos para emitir NFS-e no novo sistema

SAC terá atendimento humano obrigatório a partir de hoje; veja as novas regras

Binance registra saída de US$ 4,72 bilhões após ataque hacker de US$ 6,3 bilhões

Embraer (EMBJ3) fecha acordo para até seis aviões KC-390 à Grécia; contrato inicial soma € 590 milhões

Ouro sobe quase 2% com queda do petróleo e fecha a US$ 3.969,60

Hackers atacam supermercados na Europa e elevam temperatura de freezers a 50°C

  • Anuncie Conosco
  • Política de Correções
  • Política Editorial
  • Política de Privacidade
  • Termos de Uso
  • Sobre a Gazeta Mercantil
  • Expediente
  • Política de Conflitos de Interesse

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

  • Economia
  • Mercados
    • Dólar
    • Ibovespa
    • Fundos Imobiliários
    • Criptomoedas
  • Empresas
  • Negócios
  • Política
  • Brasil
  • Mundo
  • Tecnologia
  • Agronegócio
  • Trabalho
  • Saúde
  • Loterias
  • Esportes
    • Futebol
  • Cultura & Lazer
    • Filmes e Séries
  • Lifestyle
  • Anuncie Conosco

© 2026 GAZETA MERCANTIL - Marca jornalística fundada em 1920. Site oficial: gazetamercantil.com - Todos os direitos reservados. - ISSN 1519-0129 - contato@gazetamercantil.com - Grupo SMEdit - Av.Paulista 777 - Bela Vista - São Paulo - SP

Últimas notícias da Gazeta Mercantil