A disputa pelo controle do patrimônio deixado por Leonardo Del Vecchio avançou para o centro da governança da EssilorLuxottica, dona da Ray-Ban, depois que o herdeiro Leonardo Maria Del Vecchio passou a questionar publicamente a condução do grupo e o papel de Francesco Milleri. Em resposta, o conselho de administração da companhia reafirmou por unanimidade, em 9 de setembro, sua confiança no presidente e CEO, na equipe executiva e na estratégia de médio e longo prazo.
O confronto ocorre em paralelo à forte perda de valor de mercado da empresa. Na Euronext Paris, as ações da EssilorLuxottica encerraram 10 de setembro em € 145,85, depois de terem alcançado € 323,80 no período de 52 semanas. A diferença equivale a uma queda de aproximadamente 54,9% entre o pico e o fechamento mais recente disponível na bolsa. Em 8 de setembro, a companhia valia cerca de € 69,9 bilhões.
A pressão, porém, encontra uma empresa operacionalmente ainda em expansão. No primeiro semestre de 2026, a receita da EssilorLuxottica cresceu 9,7% em moedas constantes, enquanto o lucro operacional ajustado avançou 15%. A geração de caixa livre alcançou € 1,07 bilhão no período, mais de € 100 milhões acima do primeiro semestre de 2025.
Herdeiro deixa funções executivas e concentra disputa na propriedade
Leonardo Maria Del Vecchio, de 31 anos, deixou no fim de agosto as funções executivas que ocupava na EssilorLuxottica, incluindo a presidência da Ray-Ban e o cargo de diretor de estratégia. A saída retirou do conflito uma dimensão operacional direta, mas abriu espaço para uma atuação mais concentrada como acionista da família.
O ponto central dessa disputa é a Delfin, holding luxemburguesa que reúne o patrimônio empresarial construído pelo fundador da Luxottica. Após a morte de Leonardo Del Vecchio, em 2022, os oito herdeiros receberam participações equivalentes de 12,5% na holding. A Delfin, por sua vez, possui cerca de 32,4% da EssilorLuxottica, tornando a estrutura familiar determinante para a definição da influência acionária sobre a maior empresa de óculos do mundo.
Leonardo Maria tentou alterar esse equilíbrio em 2026 ao buscar a aquisição das participações de 12,5% pertencentes ao irmão Luca e à irmã Paola. A operação, estimada em € 10 bilhões, poderia elevar sua participação na Delfin para 37,5%, transformando-o no maior acionista individual da holding familiar. A assembleia da Delfin aprovou a transação por seis votos a dois em abril, mas a operação não avançou até sua conclusão.
A tentativa de concentração acionária foi importante não apenas pelo tamanho financeiro, mas porque poderia alterar o equilíbrio interno de uma holding cuja governança dificulta mudanças profundas sem alinhamento entre os beneficiários. A partir do fracasso da operação, a disputa deixou de ser apenas patrimonial e passou a envolver de maneira mais explícita a gestão dos ativos controlados pela família.
A Delfin não concentra apenas sua participação na EssilorLuxottica. A holding também possui investimentos relevantes no setor financeiro e imobiliário italiano, ampliando a dimensão econômica da disputa sucessória. Isso faz com que as decisões sobre sua governança tenham reflexos que ultrapassam a fabricante de óculos.
Conselho tenta separar desempenho operacional de conflito familiar
O principal argumento da companhia para sustentar Milleri é que a deterioração das ações não corresponde a uma deterioração equivalente dos resultados operacionais.
No primeiro semestre de 2026, a EssilorLuxottica registrou crescimento de 9,7% da receita em câmbio constante. No segundo trimestre, a expansão foi de 8,7%. As vendas comparáveis das lojas cresceram 8%, enquanto o negócio principal de cuidados visuais e óculos manteve crescimento de média de um dígito. O portfólio de produtos voltados ao controle da miopia cresceu 24% em receita no segundo trimestre e a receita dos óculos com inteligência artificial quase dobrou no mesmo intervalo.
A rentabilidade também evoluiu. A margem operacional ajustada atingiu 18,6% no semestre, ou 18,9% quando consideradas taxas de câmbio constantes, com ganho de 80 pontos-base sobre a comparação indicada pela companhia. O avanço de 15% do lucro operacional ajustado, portanto, ocorreu em um ambiente de crescimento de receita e ampliação de margem, o que reforça a tese do conselho de que a queda das ações não pode ser explicada somente pela execução operacional.
A própria EssilorLuxottica afirmou, no comunicado do conselho de 9 de setembro, que sua estratégia permanece respaldada pelos resultados e que a administração continuará concentrada em estabilidade e execução de longo prazo. O conselho citou expressamente Milleri, seu vice-presidente executivo Paul du Saillant e a equipe de gestão ao renovar o apoio.
A companhia também vem ampliando sua exposição a áreas diferentes do negócio tradicional de lentes e armações. Em 2026, avançou em wearables, tecnologia médica e sistemas ópticos inteligentes, além da parceria com a Applied Materials para desenvolver novas gerações de soluções ópticas. A combinação com a Meta em óculos inteligentes também se tornou uma das principais apostas de crescimento da empresa.
Queda das ações mistura valuation, tecnologia e governança
A trajetória da ação ajuda a dimensionar a mudança de percepção do mercado. Em novembro de 2025, os papéis ainda eram negociados próximos de € 309,50 no fechamento mensal, segundo o histórico de mercado disponível. Em 10 de setembro de 2026, o encerramento ocorreu em € 145,85. A diferença entre esses dois pontos é de aproximadamente 52,9%.
O recuo, entretanto, não ocorreu em uma única etapa nem pode ser atribuído exclusivamente à disputa dos Del Vecchio. Durante o período, investidores também passaram a reavaliar as perspectivas associadas aos óculos de inteligência artificial, segmento que havia ajudado a sustentar uma valorização muito elevada da companhia.
A própria evolução operacional mostra a complexidade desse processo. Embora a empresa informe que a receita de óculos com inteligência artificial quase dobrou no segundo trimestre de 2026, a expansão do negócio não elimina preocupações sobre concorrência, rentabilidade de produtos premium, privacidade e o ritmo de adoção de novas categorias. A combinação desses fatores ajuda a explicar por que uma empresa com crescimento de receita e lucro operacional ainda pode sofrer forte compressão de múltiplos.
A diferença entre desempenho empresarial e desempenho da ação também aparece na estrutura financeira. No balanço de 2025, a EssilorLuxottica encerrou o exercício com € 3,54 bilhões em caixa e equivalentes e dívida líquida de € 10,85 bilhões, enquanto o fluxo de caixa livre anual chegou a € 2,8 bilhões.
Esse quadro reduz a possibilidade de interpretar a desvalorização simplesmente como reflexo de deterioração financeira imediata. O mercado está precificando, além dos resultados correntes, as perspectivas de crescimento, o retorno sobre investimentos em novas tecnologias e o risco associado à governança.
Milleri chega à próxima renovação sob pressão da família
A posição de Milleri ganhou respaldo institucional antes mesmo da atual escalada pública. Em fevereiro, a EssilorLuxottica informou que os mandatos de Milleri, Paul du Saillant, Jean-Luc Biamonti e Marie-Christine Coisne-Roquette expirariam em 2027, dentro do cronograma de renovação escalonada do conselho.
O dado é relevante porque estabelece o próximo ponto formal em que a permanência da liderança poderá ser discutida no âmbito societário regular. Até lá, a atual composição do conselho mantém apoio explícito ao executivo.
Em abril, os acionistas da EssilorLuxottica aprovaram todas as 30 resoluções submetidas à assembleia anual, incluindo a política de remuneração dos administradores e o pagamento de € 4 por ação em dividendos relativos ao exercício de 2025.
A empresa, portanto, chega ao novo capítulo do conflito com uma base institucional distinta daquela existente dentro da Delfin. De um lado está o conselho da companhia listada, que reafirma a estratégia e a liderança. De outro, a holding familiar permanece como principal acionista e palco da disputa entre os herdeiros.
Ray-Ban e EssilorLuxottica entram no centro da sucessão
A saída de Leonardo Maria não elimina sua capacidade de influência. Ao contrário, desloca o foco da relação entre executivo e CEO para a relação entre acionista e estrutura de controle.
Esse movimento é particularmente sensível porque Leonardo Maria havia construído uma posição interna relevante. Além de liderar a Ray-Ban, ele participou da formulação da estratégia da companhia em uma fase de transformação tecnológica. A ruptura com Milleri, portanto, não representa apenas uma disputa entre gerações da família, mas também uma divergência sobre quem deve conduzir a próxima etapa do império empresarial.
Milleri foi colocado no centro da sucessão empresarial após a morte de Leonardo Del Vecchio. A própria EssilorLuxottica registrou que, em junho de 2022, o conselho decidiu reunir novamente as funções de presidente e CEO nas mãos do executivo, justificando a escolha pela necessidade de continuidade durante a integração dos negócios e pela relação profissional que Milleri mantinha com o fundador.
Quatro anos depois, essa mesma continuidade tornou-se o principal ponto de contestação do herdeiro. A questão deixou de ser somente quem administra a empresa hoje e passou a envolver quem terá legitimidade para definir a direção do conglomerado nos próximos anos.
Para a companhia, os próximos meses deverão combinar a execução de uma agenda operacional ainda baseada em crescimento, wearables, medtech e expansão internacional com a necessidade de preservar estabilidade societária. Para a família, a questão central permanece na Delfin e na capacidade de seus acionistas de encontrar um novo equilíbrio de poder.
Enquanto isso, o mercado continuará funcionando como um indicador adicional da percepção dos investidores sobre a combinação entre desempenho, estratégia e governança. A distância entre o pico de € 323,80 e os € 145,85 registrados em 10 de setembro representa uma perda de quase 55% no valor da ação desde a máxima de 52 semanas, dimensão suficiente para transformar a cotação em um dos principais elementos da disputa sobre a condução do grupo.
Fontes:
EssilorLuxottica – comunicado do conselho de administração de 9 de setembro de 2026 sobre a liderança e a estratégia do grupo
EssilorLuxottica – resultados do segundo trimestre e do primeiro semestre de 2026
EssilorLuxottica – relatório financeiro semestral de 2026 e informações sobre desempenho e posição financeira
EssilorLuxottica – comunicado sobre a renovação do conselho de administração e mandatos com vencimento em 2027
EssilorLuxottica – ata e resultados da Assembleia Geral Anual de 28 de abril de 2026
Euronext Paris – cotações históricas, capitalização de mercado e desempenho das ações da EssilorLuxottica
ANSA – informações sobre a estrutura acionária da Delfin e a tentativa de Leonardo Maria Del Vecchio de adquirir participações dos irmãos
Reuters – informações sobre a disputa entre os herdeiros Del Vecchio, a Delfin e a posição de Francesco Milleri









