O Itaú Unibanco (ITUB4) decidiu colocar Luxemburgo no centro de sua estrutura bancária europeia, reunindo sob o Itaú Europe atividades hoje distribuídas entre diferentes entidades do grupo no continente. A reorganização, porém, não significa que o banco esteja transferindo todas as suas operações físicas para Luxemburgo ou encerrando a presença no Reino Unido, em Portugal e na Suíça. O movimento é principalmente societário, regulatório e de governança: essas operações continuarão atendendo clientes localmente, mas passarão a estar integradas a uma estrutura comum, com o banco luxemburguês assumindo papel central.
A distinção é importante porque a consolidação envolve negócios com características diferentes. Portugal já foi incorporado juridicamente ao Itaú Europe em junho e passou a funcionar como uma sucursal da instituição luxemburguesa. No Reino Unido, o banco continuará operando em Londres, embora parte dos funcionários seja transferida para Luxemburgo e a estrutura britânica passe gradualmente a se concentrar sobretudo em Global Markets. Na Suíça, a operação voltada ao private banking continuará atendendo clientes no país, mas deverá integrar a mesma arquitetura societária do grupo. A expectativa é concluir o processo até o fim de 2027, após as aprovações regulatórias necessárias.
Com a mudança, o Itaú pretende aproximar Corporate and Investment Banking (CIB), Global Markets e gestão patrimonial sem eliminar os centros locais de atendimento e execução. A plataforma europeia atende aproximadamente 350 empresas e mais de 50 contas globais de renda fixa e renda variável. Considerando também os negócios de wealth management envolvidos na futura estrutura, o conjunto administra cerca de US$ 51 bilhões e possui carteira de crédito próxima de US$ 7 bilhões.
Luxemburgo será o centro da estrutura, não o único local de operação
A principal mudança está na organização jurídica do grupo. O Itaú Europe, sediado em Luxemburgo, passa a funcionar como a instituição de referência para uma parcela crescente dos negócios europeus, permitindo que atividades hoje distribuídas entre diferentes bancos e subsidiárias estejam subordinadas a uma arquitetura comum. Isso facilita o uso do balanço, a governança, os controles internos e a supervisão regulatória, sem exigir que todas as equipes e clientes sejam fisicamente deslocados para o país.
O Reino Unido é o exemplo mais claro dessa diferença. A operação londrina não será fechada. Londres continuará sendo uma praça importante para o Itaú e deverá manter papel particularmente relevante em mercados globais. A transformação prevista é gradual: algumas posições atualmente localizadas na capital britânica serão deslocadas para Luxemburgo, enquanto o banco no Reino Unido deverá concentrar cada vez mais sua atuação em Global Markets. O Itaú não informou quantos funcionários serão transferidos.
Na prática, portanto, dizer que o Itaú está “levando as operações do Reino Unido para Luxemburgo” seria impreciso. O que ocorre é uma consolidação institucional na qual Luxemburgo assume maior peso na estrutura europeia, enquanto Londres permanece como centro operacional para atividades específicas.
A mesma lógica vale para a Suíça. O negócio de gestão patrimonial continuará vinculado ao mercado suíço e atendendo clientes de private banking, mas deverá passar a integrar a estrutura consolidada do Itaú Europe. A intenção é conectar mais facilmente esses clientes aos demais produtos internacionais do grupo, sem eliminar a presença local construída para atender esse segmento.
Portugal já foi incorporado ao Itaú Europe
Portugal está em estágio mais avançado porque a reorganização jurídica já ocorreu. Em 1º de junho de 2026, o Itaú concluiu uma fusão transfronteiriça na qual o Itaú BBA Europe, anteriormente sediado em Portugal, foi absorvido pelo Itaú Europe, instituição bancária constituída em Luxemburgo.
Com a operação, os ativos e passivos da antiga entidade portuguesa passaram para o Itaú Europe por sucessão universal. Isso não significou, entretanto, o encerramento das atividades em Portugal. O banco manteve uma sucursal no país, registrada perante as autoridades locais, para dar continuidade ao atendimento e aos negócios que já eram realizados no mercado português.
A mudança inverteu a estrutura anterior. Até então, o banco europeu tinha sede em Portugal e mantinha uma sucursal em Luxemburgo. Depois da fusão, Luxemburgo tornou-se a sede da instituição e Portugal passou a ser atendido por uma sucursal do banco luxemburguês.
É esse modelo de centralização jurídica com continuidade operacional em diferentes mercados que ajuda a entender a nova etapa envolvendo Reino Unido e gestão patrimonial.
Reorganização separa localização física de comando societário
A estrutura planejada pelo Itaú reúne negócios que continuarão sendo executados em diferentes países. Isso evita uma leitura segundo a qual todas as atividades europeias seriam concentradas fisicamente em Luxemburgo.
Corporate and Investment Banking continuará dependendo de profissionais próximos aos grandes clientes corporativos. Global Markets exige acesso a centros financeiros como Londres. O private banking mantém características próprias e relacionamento presencial com clientes de alta renda, particularmente na Suíça. A proposta do banco é integrar essas áreas institucionalmente sem eliminar essas especializações geográficas.
Essa arquitetura também permite que clientes utilizem diferentes partes do grupo com menos barreiras internas. Uma empresa europeia que mantenha investimentos na América Latina pode contratar crédito ou assessoria corporativa e, simultaneamente, utilizar produtos de câmbio, derivativos ou mercado de capitais. Investidores institucionais podem acessar renda fixa e renda variável latino-americanas, enquanto clientes privados podem utilizar a estrutura de gestão patrimonial.
O objetivo declarado é reduzir a fragmentação entre essas atividades e criar uma plataforma com governança mais uniforme. A centralização também pode reduzir duplicações administrativas e tornar mais eficiente a utilização de capital e do balanço.
Brexit aumentou necessidade de uma base dentro da União Europeia
A escolha de Luxemburgo também está ligada à transformação do sistema financeiro europeu depois do Brexit. Londres continua sendo um dos maiores centros bancários e de mercados de capitais do mundo, mas instituições que utilizavam o Reino Unido como principal porta de entrada para atender clientes em toda a União Europeia precisaram adaptar suas estruturas depois da saída britânica do bloco.
Para o Itaú, Luxemburgo oferece uma instituição bancária estabelecida dentro da União Europeia e submetida ao arcabouço regulatório comunitário. O Itaú Europe é registrado como instituição de crédito junto à autoridade financeira luxemburguesa e integra o sistema europeu de supervisão bancária.
Essa posição ganha importância com a implementação da sexta Diretiva de Requisitos de Capital, a CRD VI. Parte relevante das novas regras entra em aplicação em janeiro de 2027 e aumenta as exigências para bancos de países de fora da União Europeia que oferecem determinados serviços a clientes localizados dentro do bloco.
O Itaú é um grupo brasileiro e, portanto, pertence a um país terceiro para fins da legislação europeia. Ter uma instituição bancária estabelecida e supervisionada dentro da União facilita a continuidade e a expansão de serviços sujeitos a essas regras.
Mudança regulatória não significa saída de Londres
As novas exigências também não devem ser interpretadas como uma obrigação de abandonar o Reino Unido. O mercado londrino continua estratégico justamente por sua dimensão na negociação de títulos, moedas, derivativos e outros instrumentos financeiros.
Por isso, o planejamento do Itaú preserva uma instituição no Reino Unido. A diferença é que sua função dentro do grupo deve ficar mais concentrada em atividades de mercados globais, enquanto Luxemburgo assume uma parcela maior da estrutura bancária continental e da governança integrada.
A reorganização tenta, assim, aproveitar duas jurisdições com funções distintas. Luxemburgo oferece acesso institucional à União Europeia e ambiente voltado a operações financeiras transfronteiriças. Londres continua fornecendo acesso a um dos maiores centros globais de mercado de capitais.
Parte dos funcionários será deslocada de Londres para Luxemburgo justamente para adequar a estrutura operacional a essa nova divisão de responsabilidades. O número de transferências, entretanto, ainda não foi informado.
Itaú quer usar presença na América Latina como diferencial
A expansão europeia não tem como objetivo transformar o Itaú em um banco de varejo para consumidores do continente. A estratégia está concentrada em empresas, investidores institucionais e grandes patrimônios com relações financeiras entre Europa e América Latina.
A plataforma oferece crédito corporativo, financiamento ao comércio exterior, assessoria financeira, renda fixa, renda variável e derivativos. Uma multinacional europeia com subsidiária no Brasil, por exemplo, pode recorrer ao Itaú para financiar operações, realizar proteção cambial ou estruturar transações utilizando a presença que o grupo já possui na América Latina.
O fluxo também ocorre na direção contrária. Empresas latino-americanas com operações, investidores ou necessidades de financiamento na Europa podem utilizar a estrutura internacional do banco. No private banking, clientes latino-americanos com patrimônio no Hemisfério Norte formam outro público relevante.
O Itaú pretende transformar essa combinação em uma vantagem diante dos concorrentes. Em vez de disputar de maneira ampla o mercado bancário europeu, busca ocupar o espaço de instituição especializada na conexão financeira entre as duas regiões.
Estrutura reúne cerca de US$ 51 bilhões em ativos sob gestão
Os números divulgados pelo banco ajudam a dimensionar o conjunto de negócios que deverá ficar sob essa arquitetura integrada. A estrutura envolvida possui aproximadamente US$ 51 bilhões em ativos sob gestão e carteira de crédito de cerca de US$ 7 bilhões, considerando também os negócios de gestão patrimonial mantidos pelo Itaú no Hemisfério Norte.
Esses valores não devem ser interpretados como ativos atualmente concentrados no balanço do Itaú Europe. Parte corresponde a operações que ainda estão em outras estruturas do grupo e que serão integradas progressivamente. O mesmo cuidado vale para os US$ 51 bilhões em ativos sob gestão: o número incorpora o negócio de wealth management e não representa simplesmente recursos administrados hoje pela entidade bancária de Luxemburgo.
A reorganização pretende justamente aproximar estruturas que atualmente aparecem separadas. O Itaú Europe já funciona como banco luxemburguês e já incorporou a antiga instituição portuguesa, mas as etapas envolvendo Reino Unido e gestão patrimonial continuarão sendo executadas até 2027.
Consolidação deve avançar até o fim de 2027
A expectativa do Itaú é concluir a reorganização até o final de 2027, condicionada às autorizações dos diferentes reguladores. Até lá, haverá uma transição que envolve transferência de posições, adaptações de sistemas, reorganização societária e definição das responsabilidades de cada praça.
Portugal já opera como sucursal do Itaú Europe. Londres permanecerá ativa, com peso crescente de Global Markets. A operação suíça de private banking continuará atendendo clientes em seu mercado, embora passe a integrar a estrutura consolidada. Luxemburgo, por sua vez, funcionará como o principal centro bancário e regulatório do conjunto.
Essa é a principal distinção necessária para compreender o anúncio. O Itaú não está simplesmente fechando bancos em diferentes países para concentrar funcionários e clientes em Luxemburgo. Está reduzindo o número de estruturas independentes e colocando diferentes operações sob uma organização bancária comum, ao mesmo tempo em que preserva a atuação física e comercial em mercados considerados estratégicos.
A mudança representa uma etapa importante na internacionalização do Itaú porque substitui uma estrutura historicamente fragmentada por país por uma plataforma europeia mais integrada. Se o cronograma for cumprido, Luxemburgo terá papel central na governança e no balanço do grupo na região, enquanto Londres, Portugal e Suíça continuarão desempenhando funções específicas dentro da operação internacional.
Fontes:
Itaú Unibanco – informações sobre a reorganização das atividades de Corporate and Investment Banking, Global Markets e gestão patrimonial na Europa
Itaú Europe – informações institucionais sobre a instituição bancária sediada em Luxemburgo e sua sucursal em Portugal
Itaú BBA Europe – documentos sobre a fusão transfronteiriça concluída em junho de 2026 e transferência de ativos e passivos para o Itaú Europe
União Europeia – sexta Diretiva de Requisitos de Capital e regras aplicáveis a instituições de países terceiros
Bloomberg – informações sobre permanência das operações no Reino Unido, Portugal e Suíça, transferência parcial da equipe de Londres e cronograma de consolidação até 2027
Reuters – informações sobre a consolidação das atividades europeias de banco corporativo, banco de investimento e mercados globais sob a estrutura do Itaú Europe








