O conservadorismo em questões de costumes e valores morais alcançou em 2026 seu maior nível no Brasil desde 2018, segundo levantamento divulgado nesta terça-feira (13) pela Ipsos-Ipec. O Índice de Conservadorismo em Costumes passou de 0,652 em 2025 para 0,680 neste ano, aproximando-se dos patamares mais elevados da série histórica. O crescimento foi impulsionado principalmente pelo aumento do apoio a medidas de endurecimento penal, como prisão perpétua, redução da maioridade penal e pena de morte, enquanto as opiniões sobre direitos civis e questões reprodutivas apresentaram trajetórias diferentes.
A proporção de brasileiros classificados pela pesquisa com alto grau de conservadorismo subiu de 49% para 55% em um ano, crescimento de seis pontos percentuais. Ao mesmo tempo, a parcela situada na faixa intermediária diminuiu de 44% para 38%, e o grupo com baixo grau de conservadorismo passou de 8% para 7%. Os resultados indicam uma mudança no posicionamento dos entrevistados diante dos cinco temas utilizados para construir o indicador, mas não representam uma classificação direta da orientação partidária da população.
O levantamento ouviu 2 mil brasileiros em 130 municípios, entre 9 e 13 de setembro de 2026, por meio de entrevistas presenciais e domiciliares. A margem de erro máxima estimada para o total da amostra é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada aproximadamente um mês antes de sua divulgação, em um período de intensificação do debate sobre segurança pública e direitos individuais durante o processo eleitoral.
Índice de conservadorismo se aproxima dos recordes de 2016 e 2018
O indicador da Ipsos-Ipec utiliza uma escala de zero a um, na qual resultados mais próximos de zero representam posições classificadas como progressistas e valores próximos de um indicam maior adesão a opiniões consideradas conservadoras nas questões examinadas.
O índice de 0,680 registrado em 2026 é o terceiro mais elevado da série histórica, atrás apenas de 2018, quando alcançou 0,689, e de 2016, com 0,686. O menor resultado foi observado em 2022, quando o indicador ficou em 0,637.
A evolução revela oscilações significativas ao longo do período. Em 2010, o índice era de 0,657, avançou em 2016 e 2018, recuou para 0,639 em 2021 e atingiu o menor nível no ano seguinte. Em 2023, voltou a subir para 0,665, antes de diminuir para 0,652 em 2025.
A recuperação registrada neste ano coloca o indicador novamente próximo de suas máximas históricas. Entretanto, como a pesquisa não possui edições anuais em todos os períodos, a trajetória não pode ser interpretada como uma sequência contínua de crescimento ou queda entre cada ano.
O comportamento também demonstra que as opiniões sobre costumes podem variar entre levantamentos sem acompanhar necessariamente a mesma direção observada nos debates partidários e econômicos.
Prisão perpétua tem apoio de 78% dos brasileiros
As propostas de endurecimento das punições criminais concentram os maiores percentuais de aprovação entre os entrevistados. Segundo a Ipsos-Ipec, 78% dos brasileiros são favoráveis à prisão perpétua para crimes hediondos, crescimento de seis pontos percentuais em relação a 2025.
Outros 16% se declararam contrários à medida, enquanto 2% disseram não ser favoráveis nem contrários e 4% não souberam ou não responderam.
A redução da maioridade penal aparece em segundo lugar, com apoio de 71% da população. O percentual também avançou seis pontos em relação ao levantamento anterior, quando 65% eram favoráveis à mudança. A oposição à proposta alcança 23%, enquanto 2% se dizem neutros e 4% não responderam.
Esses resultados indicam que propostas relacionadas à responsabilização criminal encontram adesão elevada na população. Contudo, a pesquisa não investigou detalhadamente quais modelos de implementação seriam preferidos pelos entrevistados, nem estabeleceu se o apoio permanece igual diante de diferentes condições jurídicas e operacionais.
A distinção é relevante porque a prisão perpétua e a redução da maioridade penal exigiriam mudanças no ordenamento jurídico brasileiro.
A Constituição Federal proíbe penas de caráter perpétuo e estabelece que menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, sujeitos a legislação específica. Assim, o apoio identificado na pesquisa não significa que essas medidas possam ser implementadas por uma simples decisão administrativa.
O levantamento mede a opinião dos cidadãos sobre as propostas, enquanto sua eventual adoção depende de procedimentos legislativos e dos limites constitucionais aplicáveis.
Apoio à pena de morte chega a 52%, maior percentual da série
A mudança mais expressiva entre os temas relacionados à segurança pública ocorreu na avaliação da pena de morte.
Em 2025, 43% dos entrevistados eram favoráveis à medida, enquanto 49% se declaravam contrários. Na pesquisa de 2026, o apoio avançou nove pontos percentuais, alcançando 52%, enquanto a oposição caiu para 40%.
Trata-se do maior percentual favorável à pena de morte registrado pela Ipsos-Ipec desde o início da série histórica, em 2010. Outros 5% dos entrevistados adotaram posição neutra e 4% não souberam ou não responderam, considerados os arredondamentos apresentados pelo instituto.
A inversão entre aprovação e rejeição distingue esse tema dos demais. Enquanto o apoio à prisão perpétua e à redução da maioridade penal já era majoritário no levantamento anterior, a pena de morte passou de uma situação de predominância da oposição para uma maioria favorável.
A Constituição brasileira, entretanto, proíbe a pena de morte, com exceção das situações de guerra declarada previstas no próprio texto constitucional.
Os dados revelam uma distância entre a opinião manifestada pelos entrevistados e as normas atualmente vigentes, sem permitir concluir quais alterações específicas seriam juridicamente viáveis ou defendidas por cada participante.
Também não é possível determinar, apenas a partir dos percentuais, os fatores que motivaram a mudança de opinião. Percepções sobre criminalidade, debates públicos e experiências individuais podem influenciar posicionamentos, mas a pesquisa não estabelece uma relação causal entre esses elementos.
Casamento homoafetivo divide opiniões, com 41% a favor e 41% contra
O comportamento das respostas sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo contrasta com o crescimento do apoio às medidas de endurecimento penal.
Em 2026, 41% dos entrevistados se declararam favoráveis ao casamento homoafetivo, exatamente o mesmo percentual registrado entre os contrários. Outros 12% disseram não ser favoráveis nem contrários, enquanto 6% não responderam.
Na comparação com 2025, o apoio aumentou de 38% para 41%, e a oposição caiu de 47% para 41%. Os resultados mostram uma redução da rejeição à medida, embora o percentual favorável permaneça abaixo dos 44% registrados entre 2021 e 2023.
Esse movimento demonstra que a elevação do índice geral de conservadorismo não corresponde a um crescimento uniforme das posições classificadas como conservadoras em todos os assuntos examinados.
Enquanto propostas de endurecimento penal ganharam apoio, houve aproximação entre posições favoráveis e contrárias ao casamento homoafetivo.
No Brasil, a celebração de casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo está assegurada pela Resolução nº 175 do Conselho Nacional de Justiça, em vigor desde 2013. A norma impede que cartórios recusem a habilitação, a celebração ou a conversão de união estável em casamento por essa razão.
A pesquisa mede a opinião sobre o tema, mas não modifica o reconhecimento jurídico desse direito.
Legalização do aborto enfrenta rejeição de 74%
A legalização do aborto permanece entre os assuntos com maior rejeição no levantamento. Segundo a Ipsos-Ipec, 74% dos entrevistados são contrários à medida, enquanto 17% se declaram favoráveis.
Outros 6% não assumiram posição favorável ou contrária, e 4% não souberam ou não responderam. Os números apresentam estabilidade em relação ao levantamento anterior, quando a oposição alcançava 75%.
A relativa estabilidade contrasta com as mudanças observadas nas questões de segurança pública. Embora o índice geral tenha avançado, a opinião sobre a legalização do aborto permaneceu praticamente inalterada.
É necessário distinguir a pergunta sobre legalização ampla das hipóteses nas quais a interrupção da gestação já é permitida pelo ordenamento jurídico brasileiro. Atualmente, existem previsões legais ou decisões judiciais que autorizam o procedimento em situações específicas, incluindo gravidez resultante de estupro, risco à vida da gestante e gestação de feto anencéfalo.
A pesquisa não permite concluir que os 74% contrários à legalização também rejeitam todas essas hipóteses. Para estabelecer essa distinção, seria necessário apresentar perguntas específicas sobre cada situação.
Maioria rejeita porte de armas, apesar de apoio à punição criminal
Os resultados sobre armas de fogo acrescentam outra diferença importante entre as opiniões da população.
Segundo o levantamento, 42% dos entrevistados apoiam a flexibilização dos critérios para a posse de armas em residências, enquanto 51% são contrários. Outros 3% assumem posição neutra e 3% não responderam.
No caso do porte de arma, que permite ao cidadão transportar o armamento consigo nas condições previstas pela legislação, o apoio é menor: 35% são favoráveis e 58% contrários. Outros 3% adotam posição neutra e 3% não responderam.
Os números mostram que o apoio ao endurecimento de penas criminais não corresponde necessariamente a uma preferência pela ampliação do acesso individual a armas de fogo.
A distinção entre posse e porte também é importante. A primeira está relacionada à manutenção do armamento em local autorizado, enquanto o segundo envolve sua condução fora desse ambiente, conforme os requisitos legais.
Embora tenham sido pesquisados, esses dois temas não integram o cálculo do Índice de Conservadorismo em Costumes. A Ipsos-Ipec explica que as perguntas sobre armas foram incorporadas somente em 2023 e ficaram fora do indicador para preservar a comparabilidade com as edições anteriores.
Jovens de 25 a 34 anos registram uma das maiores altas
A análise por características sociodemográficas mostra que o avanço do conservadorismo ocorreu de maneira desigual entre os grupos pesquisados.
Entre os brasileiros de 25 a 34 anos, o índice passou de 0,643 em 2025 para 0,696 em 2026, aumento de 0,053 ponto na escala utilizada pela Ipsos-Ipec. Foi a maior elevação entre as faixas etárias.
No grupo de 16 a 24 anos, o indicador avançou de 0,594 para 0,622. Entre os entrevistados de 35 a 44 anos, passou de 0,667 para 0,695.
Já entre pessoas de 45 a 59 anos, a variação foi menor, de 0,686 para 0,691. Para aqueles com 60 anos ou mais, o índice subiu de 0,652 para 0,674.
Os resultados indicam que o crescimento não ficou concentrado na população mais velha. Em algumas faixas de adultos jovens, o aumento foi superior à variação observada na média nacional.
Entre homens, o índice chegou a 0,712, ante 0,688 no levantamento anterior. Entre mulheres, avançou de 0,619 para 0,650, recuperando o nível observado em 2023.
Apesar do crescimento entre mulheres, a diferença em relação aos homens permanece relevante. Os dados também mostram que os perfis demográficos apresentam trajetórias próprias e não devem ser tratados como grupos politicamente homogêneos.
Norte e Centro-Oeste apresentam maior avanço regional
O conjunto das regiões Norte e Centro-Oeste registrou a maior elevação regional do indicador, passando de 0,643 para 0,710 entre 2025 e 2026.
Na região Nordeste, o índice subiu de 0,642 para 0,674. Entre moradores das capitais, a variação também foi expressiva, com avanço de 0,637 para 0,685.
Na população com renda familiar superior a cinco salários mínimos, o indicador passou de 0,665 para 0,708. O crescimento mostra que a mudança de posicionamento não esteve restrita aos grupos de menor renda.
Há, contudo, uma divergência entre a tabela técnica e o comunicado de divulgação da Ipsos-Ipec. Na apresentação detalhada do estudo, o Sul aparece como a única região com queda, de 0,669 para 0,659, enquanto o Sudeste apresenta elevação de 0,657 para 0,680. O comunicado institucional atribui a retração ao Sudeste, com números correspondentes àqueles apresentados para o Sul no relatório técnico.
Essa diferença precisa ser considerada na interpretação regional, especialmente porque a comparação depende da correta identificação das localidades.
Como a Ipsos-Ipec calcula o conservadorismo?
O índice é construído a partir de cinco perguntas relacionadas a pena de morte, prisão perpétua, maioridade penal, casamento homoafetivo e legalização do aborto.
As respostas classificadas como conservadoras recebem pontuação 1, enquanto as consideradas progressistas recebem zero. Respostas intermediárias ou sem posicionamento recebem pontuação 0,5. A média das cinco pontuações produz o indicador individual, posteriormente consolidado para os grupos pesquisados.
O resultado não mede todas as dimensões possíveis do conservadorismo, como opiniões sobre economia, tamanho do Estado, religião ou política externa. Também não equivale a uma medida direta de preferência eleitoral.
Por isso, o avanço do índice não permite concluir que determinada candidatura receberá mais votos ou que a população tenha adotado posições semelhantes em questões econômicas.
Em 2026, quando o país se prepara para o segundo turno presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, o levantamento oferece informações sobre o posicionamento da sociedade diante de temas frequentemente presentes no debate público. Não se trata, porém, de uma pesquisa de intenção de voto, e as respostas não foram utilizadas para projetar o resultado da eleição.
A principal conclusão é que o conservadorismo em costumes voltou a crescer no Brasil, impulsionado especialmente pelo apoio a punições criminais mais severas. Ao mesmo tempo, o levantamento mostra movimentos diferentes em assuntos relacionados a direitos civis, aborto e armas.
A combinação desses resultados revela um cenário no qual opiniões classificadas como conservadoras coexistem com posições distintas sobre liberdade individual, segurança e direitos. O índice de 0,680 sintetiza essa evolução, mas a compreensão do comportamento da sociedade exige observar cada tema separadamente.
Fontes
- Ipsos-Ipec — Índice de Conservadorismo em Costumes, pesquisa nacional realizada entre 9 e 13 de setembro de 2026, apresentação técnica com 31 páginas.
- Ipsos-Ipec — Comunicado institucional de 13 de outubro de 2026 sobre a evolução do índice, aprovação das propostas de segurança pública e diferenças sociodemográficas.
- Ipsos-Ipec — Índice de Conservadorismo Brasileiro de 2025, utilizado para comparação histórica.
- Constituição Federal de 1988 — Artigos 5º, inciso XLVII, e 228, sobre limitações às penas e responsabilidade penal.
- Conselho Nacional de Justiça — Resolução nº 175/2013, referente ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.
- Supremo Tribunal Federal — Julgamento da ADPF 54, sobre interrupção da gestação de feto anencéfalo, e disposições do Código Penal sobre hipóteses legalmente permitidas.









