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Delação de Vorcaro cita Alcolumbre e PT da Bahia no caso Banco Master

Ex-dono do Banco Master relatou suposto pagamento de US$ 30 milhões ao presidente do Congresso; Polícia Federal rejeitou a proposta de acordo.

por Júlia Campos
12/06/2026 às 07h00
em Política
Davi Alcolumbre - Gazeta Mercantil

A Polícia Federal rejeitou na noite desta quinta-feira, 11 de junho de 2026, a segunda proposta de colaboração premiada apresentada por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O empresário procurava negociar benefícios legais em troca de informações sobre supostas relações políticas e financeiras da instituição, incluindo uma alegação de pagamento de US$ 30 milhões em benefício do presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Segundo a avaliação atribuída aos investigadores, o material não apresentou elementos novos considerados suficientemente relevantes nem provas capazes de sustentar parte das acusações feitas pelo ex-banqueiro.

Leia também: Pressão sobre Galípolo no Banco Central aumenta após fala sobre caso Master e tensão com governo Lula.

A proposta também mencionava operações do Banco Master no mercado de crédito consignado da Bahia e decisões adotadas durante governos estaduais comandados pelo PT. Vorcaro citou medidas administrativas que, segundo sua versão, teriam favorecido a expansão da instituição no Estado.

A rejeição significa que não existe, até esta sexta-feira, 12 de junho, acordo de colaboração aceito pela Polícia Federal ou homologado pelo Poder Judiciário. As declarações permanecem como alegações de um investigado interessado em obter benefícios legais e dependem de comprovação independente.

Leia também: Nikolas Ferreira ameaça pedir impeachment de Davi Alcolumbre após recusa sobre Moraes.

Alcolumbre nega qualquer envolvimento em irregularidades. Rui Costa, que governou a Bahia entre 2015 e 2023, também nega favorecimento ou conduta irregular relacionada ao Banco Master.

Vorcaro relata suposto pagamento no exterior

Na proposta encaminhada à Polícia Federal, Vorcaro afirmou que US$ 30 milhões teriam sido depositados em uma conta no exterior em benefício de Davi Alcolumbre.

Segundo a versão apresentada pelo ex-controlador do Banco Master, o suposto repasse estaria relacionado ao apoio do parlamentar a interesses da instituição financeira.

O relato também menciona Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. De acordo com a narrativa entregue aos investigadores, ele teria participado de uma estrutura destinada a viabilizar a transferência dos recursos fora do país.

Até esta sexta-feira, não foram apresentados publicamente documentos bancários, identificação da conta, datas das transferências, contratos ou registros que comprovem a operação descrita.

Uma acusação dessa natureza exigiria o rastreamento da origem dos recursos, dos intermediários, das instituições financeiras utilizadas e do beneficiário final. Também seria necessário demonstrar a eventual relação entre o pagamento e algum ato praticado em favor do Banco Master.

A citação de Alcolumbre amplia a dimensão institucional do caso porque o senador preside o Congresso Nacional e ocupa posição central na definição da agenda legislativa e na interlocução com o Executivo, o Judiciário e os partidos políticos.

O peso do cargo, entretanto, não altera a necessidade de comprovação. Declarações apresentadas em uma tentativa de colaboração premiada não equivalem a denúncia formal, julgamento ou condenação.

Polícia Federal não identifica elementos suficientes

A Polícia Federal decidiu não prosseguir com a segunda proposta depois de avaliar a utilidade das informações apresentadas por Vorcaro.

Para que uma colaboração seja aceita, o investigado precisa entregar dados que permitam esclarecer crimes, identificar participantes, recuperar valores, localizar ativos ou abrir linhas efetivas de investigação.

Informações genéricas, já conhecidas ou desacompanhadas de elementos verificáveis reduzem o interesse das autoridades em conceder os benefícios previstos para um colaborador.

No caso do Banco Master, a avaliação é de que Vorcaro ainda não demonstrou que suas declarações podem produzir avanços concretos nas investigações.

A rejeição representa um revés para a estratégia de defesa do empresário. O ex-banqueiro tenta utilizar seu conhecimento sobre as operações da instituição e suas relações políticas e empresariais como base para uma negociação com os investigadores.

Sem documentos, mensagens, registros financeiros, contratos, testemunhas ou indicações precisas sobre a movimentação de recursos, a colaboração perde força jurídica.

A recusa também não significa que toda informação apresentada será automaticamente descartada. Caso algum dado concreto possa ser verificado, a Polícia Federal poderá realizar diligências independentemente da existência de um acordo.

Relação com governos da Bahia entra no relato

Além da acusação envolvendo Alcolumbre, Vorcaro se dispôs a detalhar a presença do Banco Master no mercado de crédito consignado da Bahia.

Segundo a versão apresentada por ele, a aproximação institucional teria começado em 2007, durante o governo de Jaques Wagner, por meio de operações associadas ao programa CredCesta.

O programa teria funcionado como uma das portas de entrada da instituição no mercado de crédito voltado a servidores públicos e beneficiários com renda recorrente.

O consignado é considerado um segmento estratégico porque as parcelas são descontadas diretamente dos salários ou benefícios. Esse mecanismo reduz o risco de inadimplência em comparação com outras modalidades de crédito.

Vorcaro também citou decisões tomadas durante a gestão de Rui Costa. O empresário alegou que medidas adotadas pelo governo estadual teriam contribuído para ampliar a presença do Banco Master nesse mercado.

Um dos pontos mencionados foi um decreto editado em 2022 que, segundo o relato, teria restringido a portabilidade de determinadas operações.

Rui Costa nega irregularidades. Jaques Wagner aparece no relato como referência temporal do início da relação institucional, mas não é apontado no material como destinatário de pagamento.

Portabilidade de crédito está entre os pontos citados

A portabilidade permite que um cliente transfira uma dívida para outra instituição que ofereça juros menores ou condições mais favoráveis.

No mercado de crédito consignado, esse mecanismo estimula a concorrência entre bancos e financeiras e pode reduzir o custo dos contratos para servidores e beneficiários.

Regras que dificultem a migração podem favorecer instituições que já possuem carteiras formadas, porque limitam a capacidade de concorrentes de oferecer condições alternativas aos clientes.

É nesse ponto que Vorcaro tenta estabelecer uma ligação entre decisões administrativas do governo baiano e a expansão do Banco Master.

A alegação, contudo, precisa ser confrontada com o conteúdo exato das normas, os efeitos produzidos no mercado e o tratamento concedido às demais instituições financeiras.

Também seria necessário comprovar que uma decisão pública foi tomada com o objetivo específico de favorecer o banco, e não como parte de uma política aplicada de maneira geral.

A Polícia Federal considerou que as informações apresentadas até agora não foram suficientes para confirmar essa conexão ou justificar a formalização do acordo de colaboração.

Caso Banco Master ganha dimensão política

A menção ao presidente do Congresso aumenta o alcance político das investigações e pode provocar pedidos de esclarecimento no Legislativo.

Alcolumbre ocupa uma posição de influência sobre votações de interesse econômico, nomeações, negociações partidárias e relações entre os Poderes.

O senador nega envolvimento em irregularidades. Sem provas independentes, a acusação permanece vinculada exclusivamente ao relato de Vorcaro.

O caso já envolve referências a outros nomes da política nacional. Entre os citados nas apurações aparecem o senador Ciro Nogueira (PP-PI), o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e o presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda.

A presença de autoridades e dirigentes partidários não comprova a existência de pagamentos ilícitos ou favorecimento. Cada alegação precisa ser analisada separadamente e acompanhada de evidências verificáveis.

A divulgação dos relatos, porém, aumenta a pressão política sobre os envolvidos, mesmo sem acordo de delação ou acusação formal apresentada pelo Ministério Público.

Crédito consignado amplia interesse sobre operações do banco

O mercado de consignado ocupa papel relevante nas investigações porque movimenta grandes volumes e depende de convênios com órgãos públicos.

Para instituições financeiras de médio porte, o acesso a carteiras de servidores pode representar uma fonte estável de receita e um canal de expansão acelerada.

A previsibilidade dos pagamentos torna esses ativos atraentes para bancos, fundos e investidores. As carteiras também podem ser cedidas, securitizadas ou utilizadas em diferentes estruturas de financiamento.

Esse modelo exige controles rigorosos sobre a origem dos contratos, a autorização dos clientes, as taxas cobradas e a relação entre instituições financeiras e entes públicos.

As investigações sobre o Banco Master buscam esclarecer se a expansão em determinados segmentos foi acompanhada de práticas irregulares, favorecimento político ou estruturas destinadas a ocultar riscos.

Até esta sexta-feira, as acusações apresentadas por Vorcaro não resultaram em conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal ou administrativa dos citados.

Investigações afetam confiança e reputação

O avanço das apurações produz efeitos que ultrapassam a esfera política. Instituições financeiras dependem de confiança para captar recursos, manter investidores e operar em mercados regulados.

Suspeitas envolvendo pagamentos a autoridades, crédito consignado e decisões de governos podem aumentar a cautela de parceiros comerciais, credores e órgãos de supervisão.

A continuidade das investigações também amplia a atenção sobre a governança de bancos médios e sobre os mecanismos utilizados para financiar uma expansão rápida.

Investidores tendem a observar a qualidade dos ativos, a origem dos recursos, o nível de concentração das carteiras e os controles internos adotados pela administração.

Mesmo quando não há condenação ou comprovação de irregularidade, o risco reputacional pode afetar negociações, avaliação de ativos e disponibilidade de financiamento.

A apuração deverá separar operações comerciais regulares de eventuais estruturas montadas para obter vantagens indevidas ou transferir recursos de maneira irregular.

Colaboração depende de provas verificáveis

A decisão da Polícia Federal reforça que o valor de uma delação não depende apenas da relevância política das pessoas mencionadas.

Para justificar um acordo, o colaborador precisa apresentar informações que possam ser verificadas e que produzam resultados para a investigação.

No caso do suposto pagamento de US$ 30 milhões, seriam necessários registros capazes de identificar a conta de origem, o destino, os bancos envolvidos, os intermediários e as datas da movimentação.

Também seria preciso demonstrar qual interesse do Banco Master teria sido atendido e qual ato foi praticado como contrapartida.

Sem esses elementos, a acusação continua no campo das declarações não comprovadas.

A recusa da segunda proposta reduz, no curto prazo, a possibilidade de Vorcaro obter benefícios por meio da colaboração. O empresário poderá, contudo, apresentar novos documentos ou uma proposta reformulada caso consiga demonstrar maior utilidade para as investigações.

Até esta sexta-feira, a situação jurídica permanece inalterada: não há delação aceita, não existe homologação judicial e as alegações contra Alcolumbre, Rui Costa e outros citados ainda dependem de comprovação pelas autoridades competentes.

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