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Juros futuros devolvem ganhos após risco político ligado ao caso Master

DI para janeiro de 2035 chegou a cair 17 pontos-base pela manhã, mas encerrou praticamente estável após a decisão de Fachin.

por Camila Braga
11/09/2026 às 18h29
em Economia
Juros Futuros Devolvem Ganhos Após Risco Político Ligado Ao Caso Master-Gazeta Mercantil

As taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) terminaram a sessão desta sexta-feira (11) próximas da estabilidade, depois de uma mudança de direção ao longo do pregão. A curva de juros começou o dia reagindo positivamente à divulgação de inflação mais fraca no Brasil, mas passou a devolver parte dos ganhos durante a tarde diante da determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, para que sejam disponibilizados documentos mantidos sob sigilo no caso envolvendo o Banco Master.

Na ponta longa, o DI para janeiro de 2035 encerrou a sessão praticamente estável, a 14,165%, ante 14,164% no ajuste anterior. O contrato chegou a cair para 13,999% pela manhã, uma redução de 17 pontos-base, mas posteriormente passou a subir e atingiu 14,215% durante a tarde, alta de 5 pontos-base em relação ao fechamento anterior.

Leia também: Juros futuros iniciam em queda firme acompanhando exterior | Finanças.

O movimento ocorreu em um mercado que havia recebido sinais favoráveis no início do dia para a perspectiva de descompressão dos juros futuros. O IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, enquanto a inflação acumulada em 12 meses caiu para 4,22%. O resultado ficou abaixo das expectativas de mercado e reforçou a avaliação de que o Banco Central poderá continuar reduzindo a Selic, hoje em 14% ao ano.

A reversão parcial dos juros, portanto, não decorreu de uma mudança nos dados de inflação divulgados pela manhã, mas da incorporação de um novo componente de risco pelos investidores ao longo da sessão: a repercussão do caso Master sobre o ambiente político e institucional.

Sigilo do caso Master entra no radar dos juros futuros

Fachin determinou nesta sexta-feira que o ministro André Mendonça retire o sigilo dos documentos relacionados à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero, ressalvando apenas informações ligadas a diligências em andamento cuja divulgação possa comprometer a investigação. O prazo estabelecido para a remessa dos procedimentos é de 24 horas.

A decisão ampliou a expectativa de divulgação de informações que ainda não estavam disponíveis publicamente. O caso envolve a investigação sobre o Banco Master e o ex-controlador Daniel Vorcaro, cuja defesa já havia provocado a abertura de investigação no STF para apurar o vazamento de mensagens e informações obtidas de aparelhos celulares.

A determinação de Fachin também ocorre em meio a uma discussão interna no Supremo sobre o tratamento dado aos documentos do caso. Na quinta-feira, a Presidência da Corte havia determinado o levantamento de sigilos, mas a divulgação dos materiais não ocorreu integralmente. A nova ordem restringiu de maneira mais clara as hipóteses em que informações poderiam permanecer protegidas.

Para o mercado financeiro, a relevância do episódio passou a ser menos jurídica do que política e econômica. A possibilidade de novos documentos serem divulgados durante o fim de semana elevou a percepção de risco de manchetes e fatos novos antes da abertura dos mercados na segunda-feira.

Esse mecanismo ajuda a explicar a trajetória da curva de juros. Investidores que haviam reduzido posições em taxas mais altas durante a manhã passaram a buscar proteção diante da incerteza adicional. Com isso, parte importante da queda observada nos vencimentos longos foi devolvida durante a tarde.

Inflação melhora cenário para corte da Selic

Antes da mudança de humor provocada pelo noticiário político, os dados econômicos fornecidos ao mercado apontavam para um ambiente mais favorável à continuidade do ciclo de flexibilização monetária.

O IPCA registrou queda de 0,32% em agosto, resultado mais fraco que a deflação de 0,29% projetada por economistas. Em 12 meses, o índice acumulou alta de 4,22%, abaixo dos 4,27% esperados.

A distância entre o resultado acumulado e o teto de tolerância da meta de inflação passou a ser um dos pontos mais relevantes para a precificação dos juros. O sistema de metas contínuas estabelece objetivo de 3%, com intervalo de tolerância até 4,5%. Assim, a inflação acumulada em 12 meses voltou a permanecer dentro desse limite pelo segundo mês consecutivo.

O comportamento de componentes menos voláteis também ajudou a melhorar a leitura do indicador. A inflação de serviços caiu de 0,54% em julho para 0,03% em agosto. Já a medida de serviços subjacentes, que procura excluir componentes mais sujeitos a oscilações específicas, passou de 0,42% para 0,40%.

O resultado, porém, não elimina as incertezas para a política monetária. O Banco Central manteve a Selic em 14% ao ano na última decisão e indicou que seguirá avaliando a evolução da inflação, das expectativas e da atividade econômica antes de definir os próximos passos.

A combinação de atividade menos aquecida e inflação mais baixa vem fortalecendo a avaliação de que o Copom pode promover novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro. Caso essa redução seja confirmada, a taxa básica passaria para 13,75% ao ano.

Essa expectativa ajuda a entender por que a curva de juros abriu o dia em queda. A divulgação do IPCA alterou as probabilidades incorporadas aos contratos futuros, sobretudo nos vencimentos mais sensíveis à política monetária.

Atividade econômica também sugere desaceleração

Outro dado que contribuiu para a queda das taxas pela manhã foi o desempenho do varejo medido pelo Índice Cielo do Varejo Ampliado. As vendas recuaram 2% em agosto na comparação com o mesmo mês do ano anterior, descontada a inflação, segundo o indicador.

O resultado representou o pior desempenho para um mês de agosto desde 2020. A leitura adicionou evidências de perda de ritmo do consumo, em linha com outros indicadores recentes que apontam para moderação da atividade brasileira.

Para a curva de juros, sinais de menor pressão sobre a demanda têm dupla importância. Primeiro, reduzem o risco de que uma economia excessivamente aquecida alimente novas pressões inflacionárias. Segundo, aumentam o espaço para que o Banco Central reduza gradualmente o grau de restrição monetária.

A fotografia desta sexta-feira, portanto, combinou dois vetores opostos. De um lado, inflação e atividade forneceram elementos para uma queda dos juros futuros. De outro, o ambiente político e institucional elevou a demanda por proteção diante do risco de novas informações durante o fim de semana.

DI para 2028 acompanha menor alívio

O contrato de DI para janeiro de 2028 também terminou perto da estabilidade, a 13,62%, contra 13,633% no ajuste anterior. A queda de aproximadamente 1,3 ponto-base foi significativamente menor que a redução observada na parte intermediária e longa da curva ao longo da manhã.

A diferença entre os movimentos mostra que o mercado não tratou todos os vencimentos da mesma maneira. Os contratos mais longos tendem a incorporar, além das expectativas para a Selic, uma parcela maior do prêmio exigido pelos investidores para carregar risco fiscal, político e macroeconômico por períodos mais extensos.

Por isso, notícias capazes de alterar a percepção sobre o ambiente institucional podem provocar movimentos mais acentuados nesses prazos mesmo quando os dados de inflação apontam na direção oposta.

O DI para janeiro de 2035 é um exemplo. Entre a mínima de 13,999% às 10h03 e a máxima de 14,215% às 15h51, a diferença foi de 21,6 pontos-base dentro da própria sessão. Embora o contrato tenha terminado quase no mesmo nível do fechamento anterior, a amplitude intradiária revelou uma mudança relevante na percepção de risco.

Dólar e cenário externo adicionam volatilidade

O mercado de juros também operou em conjunto com o câmbio. Durante a tarde, quando o DI para 2035 atingiu a máxima do dia, o dólar se encontrava próximo do pico da sessão frente ao real, movimento que contribuiu para reforçar a procura por proteção.

No exterior, o índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos avançou 0,4% em agosto, em linha com as projeções de mercado. O rendimento da Treasury de dez anos, uma das principais referências globais para a formação do custo de capital, subia cerca de 3 pontos-base, para 4,969% no fim da tarde.

O comportamento dos Treasuries é relevante para ativos brasileiros porque altera a remuneração exigida para investimentos em mercados emergentes. Quando os rendimentos dos títulos americanos sobem, o diferencial necessário para compensar o risco de ativos brasileiros também pode aumentar.

O componente externo, contudo, não explica sozinho a oscilação dos DIs nesta sexta-feira. A intensidade da reversão ocorreu em paralelo à divulgação da determinação de Fachin e à expectativa de que novos documentos do caso Master pudessem ser disponibilizados antes do início da próxima semana.

Mercado entra no fim de semana com dois vetores

O fechamento dos juros futuros deixou uma combinação distinta da observada no início do pregão. O ambiente macroeconômico forneceu sinais para uma trajetória de queda das taxas: IPCA abaixo das expectativas, inflação em 12 meses dentro do intervalo de tolerância e indicadores apontando para moderação da atividade.

Ao mesmo tempo, o mercado incorporou um prêmio adicional de risco diante da possibilidade de novos desdobramentos políticos e institucionais relacionados ao caso Master.

A determinação de Fachin estabelece uma janela de 24 horas para a disponibilização dos documentos, o que cria a possibilidade de novas informações no período em que os mercados brasileiros estarão fechados. Esse fator ajuda a explicar a cautela observada na parte final do pregão e a compra de proteção por participantes de renda fixa.

Para a próxima semana, a atenção dos investidores estará concentrada na reunião do Copom, marcada para 15 e 16 de setembro, e no conteúdo que eventualmente vier a público no caso Master. O primeiro evento terá impacto direto sobre a trajetória da Selic; o segundo poderá influenciar a percepção de risco político e institucional.

Na prática, a sessão mostrou que uma melhora dos fundamentos de inflação pode não ser suficiente para sustentar uma queda contínua das taxas futuras quando surgem fatores capazes de alterar rapidamente a percepção de risco. O fechamento próximo da estabilidade escondeu, assim, uma disputa entre dois movimentos: a perspectiva de juros menores proporcionada pela desaceleração da inflação e o prêmio exigido pelos investidores diante da incerteza política do fim de semana.

Fontes:

Supremo Tribunal Federal – decisão da Presidência sobre o levantamento de sigilo e remessa de documentos relacionados à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero

Supremo Tribunal Federal – abertura de investigação para apurar o vazamento de mensagens e informações relacionadas a Daniel Vorcaro e ao Banco Master

Banco Central do Brasil – decisão do Copom de agosto de 2026 e definição da Selic em 14% ao ano

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – divulgação do IPCA de agosto de 2026 e composição da inflação acumulada em 12 meses

Cielo – Índice Cielo do Varejo Ampliado referente a agosto de 2026

Reuters – informações sobre o comportamento das taxas dos DIs, do dólar e as expectativas dos participantes do mercado na sessão de 11 de setembro de 2026

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