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Congresso dos EUA cobra Rubio por possível ajuda do governo Trump a Flávio Bolsonaro

Grupo de 25 deputados democratas exige esclarecimentos sobre a entrada do senador nos Estados Unidos, a concessão de autorização migratória e eventual apoio logístico à viagem. Governo americano foi instado a responder até 13 de novembro.

por Eduardo Toscano
30/10/2026 às 14h08
em Política
Donald Trump - Gazeta Mercantil

Um grupo de 25 deputados democratas dos Estados Unidos encaminhou ao secretário de Estado, Marco Rubio, uma cobrança formal para esclarecer se integrantes do governo de Donald Trump participaram da saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil e de sua entrada em território americano. A correspondência, datada de 29 de outubro de 2026, reúne 15 questionamentos sobre a possível utilização de recursos diplomáticos, mecanismos migratórios e apoio logístico em favor do candidato derrotado na eleição presidencial brasileira.

Os parlamentares solicitaram respostas por escrito até 13 de novembro e pediram que funcionários do Departamento de Estado sejam colocados à disposição para uma reunião de esclarecimentos com representantes do Congresso. A iniciativa ocorre após a chegada de Flávio Bolsonaro e de sua família a Miami, em 28 de outubro, apesar de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que restringia suas viagens internacionais e determinava a entrega de seus passaportes.

A principal preocupação apresentada no documento é identificar se autoridades americanas conheciam as restrições judiciais impostas ao senador antes de autorizar sua entrada nos Estados Unidos. Os deputados também querem saber quem participou das decisões migratórias, quais procedimentos foram adotados e se houve articulação entre a Casa Branca, o Departamento de Estado e outros órgãos federais.

Deputados querem identificar quem autorizou entrada de Flávio Bolsonaro nos EUA

A correspondência foi liderada pelas deputadas Sydney Kamlager-Dove, da Califórnia, e Dina Titus, de Nevada, com adesão de outros integrantes do Partido Democrata. Entre os parlamentares associados à iniciativa estão Joaquin Castro, Pramila Jayapal, Greg Casar, Rashida Tlaib e Delia Ramirez.

O documento estabelece diferentes frentes de questionamento. Uma delas procura determinar quando o Departamento de Estado e a Embaixada americana em Brasília receberam informações sobre a ordem judicial brasileira. Outra busca esclarecer se houve análise da situação jurídica de Flávio Bolsonaro antes de qualquer autorização de viagem ou providência consular.

Os congressistas perguntam especificamente se autoridades dos Estados Unidos emitiram, renovaram, aceleraram ou facilitaram a concessão de vistos ao senador e a seus familiares durante o período eleitoral. Também exigem esclarecimentos sobre os critérios jurídicos utilizados e sobre a eventual consideração das investigações criminais em andamento no Brasil.

O pedido abrange possíveis contatos entre representantes do governo americano e integrantes da equipe de Flávio Bolsonaro. A intenção é identificar se funcionários públicos participaram de conversas com familiares, advogados, assessores políticos ou intermediários para organizar o deslocamento internacional.

A carta não apresenta uma conclusão de que o Departamento de Estado tenha cometido irregularidades. Seu objetivo declarado é obter informações capazes de esclarecer a existência, a extensão e a fundamentação de eventual participação de autoridades americanas.

Carta investiga possível apoio na organização do voo até Miami

Outro conjunto de perguntas trata dos preparativos da viagem. Os deputados querem saber se funcionários do governo americano colaboraram com a contratação de aeronaves, a obtenção de documentos, o transporte terrestre, o acesso a aeroportos ou outras providências necessárias ao deslocamento.

Flávio Bolsonaro chegou a Miami em 28 de outubro, acompanhado da esposa e das duas filhas. O itinerário divulgado incluiu uma passagem pela Argentina e uma escala em Guayaquil, no Equador, antes do desembarque na Flórida.

A presença desses países no trajeto levou os parlamentares a questionarem se funcionários americanos lotados na Argentina ou no Equador participaram de alguma coordenação relacionada à viagem. O pedido não pressupõe envolvimento das autoridades locais, mas procura identificar eventuais contatos diplomáticos e operacionais.

A utilização de um avião particular também integra o contexto da cobrança. Informações divulgadas sobre a viagem apontam que Jason Miller, aliado político e assessor próximo de Donald Trump, teria colaborado para viabilizar o transporte aéreo. A dimensão exata dessa possível participação e a eventual utilização de estruturas oficiais americanas permanecem entre os pontos que exigem esclarecimento documental.

A carta solicita ainda informações sobre possíveis consultas ao Departamento de Justiça e sobre a comunicação entre o Departamento de Estado e as autoridades responsáveis pela segurança de fronteiras e pela imigração nos Estados Unidos.

Polícia Federal confirma cancelamento dos passaportes brasileiros

As circunstâncias da saída de Flávio Bolsonaro do Brasil foram detalhadas pela Polícia Federal em comunicado oficial divulgado em 28 de outubro.

Segundo a corporação, a representação ao STF foi apresentada em 25 de outubro, após a identificação de risco de saída do país pelo senador, investigado no âmbito da Petição nº 16.877, em tramitação na Suprema Corte.

A Polícia Federal solicitou medidas cautelares que incluíam apreensão de passaportes, proibição de viagens internacionais e restrições de contato com outros investigados. Após a decisão judicial, os passaportes comum e diplomático brasileiros de Flávio Bolsonaro foram cancelados, e um alerta migratório foi inserido no sistema de controle utilizado pela corporação.

O senador foi intimado na manhã de 26 de outubro a entregar eventuais documentos de viagem de outras nacionalidades no prazo de 24 horas. De acordo com a PF, a determinação não foi cumprida, e não havia registro oficial de sua saída pelos postos brasileiros de controle migratório.

A corporação fez, porém, uma ressalva jurídica relevante: a existência de restrições sobre documentos de viagem, isoladamente, não caracteriza a condição de foragido nem autoriza automaticamente uma prisão. A investigação prossegue para esclarecer as circunstâncias do descumprimento das determinações judiciais.

Essa distinção é importante porque a imposição de medidas cautelares, a investigação de eventual violação dessas medidas e a decretação de prisão constituem etapas juridicamente diferentes. A saída do país em desacordo com uma ordem judicial não deve ser confundida, sem decisão específica, com uma situação formal de prisão decretada e não cumprida.

Tipo de autorização migratória concedida ao senador também é questionado

A documentação exigida pelos congressistas deverá ajudar a esclarecer qual mecanismo migratório permitiu a presença de Flávio Bolsonaro e de sua família nos Estados Unidos.

A carta menciona informações sobre a eventual concessão de vistos, mas solicita expressamente que o governo esclareça qual foi a base legal adotada e quais categorias migratórias foram consideradas. Os deputados também perguntam se as providências ocorreram antes ou depois do conhecimento das medidas impostas pelo STF.

Pela legislação americana, há diferenças entre a emissão de um visto e a concessão de uma autorização temporária de permanência por razões humanitárias, conhecida como humanitarian parole. Esse último instrumento permite, em situações determinadas, a presença temporária de estrangeiros nos Estados Unidos, sem representar necessariamente uma admissão migratória regular ou a concessão de residência permanente.

A distinção tem importância para o caso porque envolve autoridades e procedimentos diferentes. A emissão de vistos está associada ao Departamento de Estado, enquanto a autorização de entrada e determinados mecanismos de permanência temporária envolvem atribuições do Departamento de Segurança Interna e de suas agências.

Até 30 de outubro, a documentação oficial individualizada que permitiria confirmar publicamente todos os fundamentos da autorização concedida ao senador não havia sido localizada. A carta pretende obter justamente os registros e esclarecimentos necessários para identificar o processo decisório.

Governo americano terá de explicar eventual coordenação entre órgãos federais

Os questionamentos não se limitam à análise de vistos ou documentos. Os deputados também querem identificar se houve comunicação institucional entre autoridades de diferentes órgãos do governo Trump para permitir a entrada do brasileiro.

Entre as estruturas mencionadas estão o Departamento de Segurança Interna, a Alfândega e Proteção de Fronteiras, o Serviço de Cidadania e Imigração e o Departamento de Justiça.

O objetivo é estabelecer uma cronologia das decisões. Caso tenha existido assistência governamental, os parlamentares solicitam que sejam identificados os responsáveis, os procedimentos autorizados e as informações disponíveis no momento de cada providência.

Também foi incluída uma pergunta sobre eventuais solicitações apresentadas por autoridades brasileiras ao governo americano. Os deputados querem saber se Washington recebeu pedidos relacionados à localização do senador, à sua situação migratória ou à possibilidade de ingresso nos Estados Unidos e, em caso positivo, quais respostas foram fornecidas.

O prazo estabelecido na correspondência é de 15 dias corridos a partir de sua data, em 29 de outubro. A manifestação é uma iniciativa de fiscalização parlamentar e não equivale, por si só, à abertura de uma investigação judicial ou à emissão de uma intimação compulsória. Eventuais medidas adicionais dependerão dos instrumentos legais e parlamentares que venham a ser utilizados.

Cobrança ocorre após derrota de Flávio Bolsonaro por 4,43 milhões de votos

A viagem do senador aconteceu nos dias seguintes ao segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, realizado em 25 de outubro.

Segundo os resultados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%.

A diferença entre os candidatos foi de 4.430.191 votos, ou 3,58 pontos percentuais. O resultado foi anunciado pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, ainda na noite da votação.

Após chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma manifestação pública em que inicialmente se apresentou como presidente eleito do Brasil e questionou a legitimidade da votação. Posteriormente, alterou o documento, passando a utilizar a expressão de liderança política em lugar da reivindicação direta da vitória eleitoral.

As declarações do senador não modificam os resultados oficiais proclamados pela Justiça Eleitoral. A contestação política de uma eleição e a alteração jurídica do resultado são situações distintas, e não foi apresentada decisão eleitoral que revertesse a vitória de Lula.

O episódio ampliou a dimensão diplomática da controvérsia ao envolver o tratamento concedido pelos Estados Unidos a um candidato derrotado que também enfrenta restrições judiciais no país de origem.

Relações entre Brasil e Estados Unidos entram na discussão parlamentar

A carta inclui uma preocupação específica com as consequências da eventual assistência americana para as relações bilaterais.

Os deputados perguntam se o Departamento de Estado avaliou o risco de que medidas de apoio a Flávio Bolsonaro fossem interpretadas como interferência em procedimentos judiciais ou em assuntos políticos internos do Brasil.

A questão envolve dois aspectos distintos. O primeiro é a prerrogativa dos Estados Unidos de aplicar sua legislação migratória e decidir sobre a entrada de estrangeiros. O segundo diz respeito à eventual utilização de recursos governamentais para facilitar o deslocamento de uma pessoa submetida a restrições judiciais em outro país.

A existência de uma decisão brasileira restringindo viagens internacionais não determina automaticamente a classificação migratória que outro governo deve atribuir ao viajante. Entretanto, o conhecimento prévio dessa decisão e a eventual participação de autoridades estrangeiras no planejamento do deslocamento são circunstâncias que podem ter relevância jurídica e diplomática.

Por essa razão, os parlamentares solicitaram esclarecimentos sobre as avaliações realizadas pelo governo Trump antes de permitir a entrada do senador.

O pedido também procura determinar se foram considerados possíveis efeitos sobre a cooperação institucional entre os dois países, especialmente em matérias que envolvem investigações criminais e decisões judiciais.

A próxima etapa formal prevista é a apresentação das respostas solicitadas ao secretário Marco Rubio até 13 de novembro. A documentação eventualmente encaminhada poderá esclarecer se a atuação americana ficou restrita aos procedimentos migratórios ou se envolveu participação governamental mais ampla na viagem de Flávio Bolsonaro.

Fontes:

Congresso dos Estados Unidos — Carta parlamentar dirigida ao secretário Marco Rubio, datada de 29 de outubro de 2026, com 15 questionamentos sobre a viagem de Flávio Bolsonaro e prazo de resposta solicitado para 13 de novembro.

Polícia Federal — Nota oficial de 28 de outubro de 2026 sobre as medidas cautelares, cancelamento de passaportes, alerta migratório e investigação do descumprimento das determinações judiciais.

Tribunal Superior Eleitoral — Resultado oficial do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, divulgado em 25 de outubro e detalhado em comunicado de 26 de outubro.

Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos — Orientações institucionais sobre autorizações temporárias de entrada por razões humanitárias e sua distinção dos procedimentos regulares de admissão migratória.

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