O dólar voltou a superar a marca de R$ 5 nesta quarta-feira (13), em um movimento de forte aversão ao risco provocado pela deterioração do ambiente político doméstico e pelo aumento das preocupações fiscais. A moeda norte-americana encerrou o pregão em alta de 2,31%, cotada a R$ 5,0086, no maior valor de fechamento desde 10 de abril e na maior valorização diária em cinco meses.
A disparada ocorreu após reportagem do site Intercept Brasil revelar trocas de mensagens entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Segundo a publicação, haveria uma negociação envolvendo o financiamento de um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso sob acusação de tentativa de golpe de Estado.
A reação do mercado foi imediata. O dólar acelerou ganhos ao longo da tarde, rompeu o nível psicológico de R$ 5 e levou investidores a desmontarem posições em ativos brasileiros diante do aumento das incertezas políticas para a eleição presidencial de 2026.
Além da turbulência política, operadores também citaram desconforto crescente com medidas econômicas recentes do governo Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente iniciativas voltadas à contenção dos preços dos combustíveis e à redução de tributos sobre importações de baixo valor.
O movimento ocorreu em paralelo à abertura das taxas dos Treasuries nos Estados Unidos após dados de inflação acima do esperado, fator que também contribuiu para fortalecer o dólar globalmente.
Mercado reage à possível reconfiguração da disputa presidencial
A escalada do dólar ganhou força após a divulgação da reportagem envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Segundo o conteúdo publicado, mensagens trocadas por WhatsApp indicariam proximidade entre o senador e o banqueiro. Em um dos trechos divulgados, Flávio afirma: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Ainda de acordo com a reportagem, Daniel Vorcaro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões para financiar a produção de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, intitulado “Dark Horse”.
A notícia ampliou incertezas sobre o cenário eleitoral e provocou uma reprecificação rápida dos ativos domésticos.
Para agentes do mercado, o episódio aumenta dúvidas sobre a viabilidade política da candidatura de Flávio Bolsonaro e pode alterar a dinâmica da sucessão presidencial de 2026.
O movimento atingiu principalmente o câmbio, os juros futuros e ações ligadas à economia doméstica.
Analistas destacam que o real vinha apresentando desempenho relativamente positivo em 2026, sustentado por juros elevados, fluxo estrangeiro e valorização das commodities. A percepção de deterioração política, porém, interrompeu parte desse movimento.
Dólar registra maior ganho diário desde dezembro
Com máxima de R$ 5,0130 durante a reta final do pregão, o dólar encerrou acima de R$ 5 pela primeira vez em semanas.
A valorização diária de 2,31% foi a mais intensa desde 5 de dezembro de 2025. Com o avanço desta quarta-feira, a moeda passou a acumular alta de 1,13% em maio. No ano, contudo, ainda registra queda de 8,75% frente ao real.
Operadores relataram forte movimento de “stop” de posições vendidas em dólar, fenômeno que amplificou a volatilidade do câmbio.
Segundo Jacques Zylbergeld, superintendente de câmbio do Banco Rendimento, a combinação entre crise política e receio fiscal desencadeou uma realização mais intensa de lucros.
“O mercado aproveitou esses fatos para promover uma realização de lucros mais forte no câmbio. O dólar reagiu com força, superando R$ 5,00, em meio a stop de posições”, afirmou.
Até a divulgação da reportagem sobre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, o dólar operava em leve alta, acompanhando parcialmente o fortalecimento global da moeda norte-americana.
A partir da tarde, contudo, o movimento doméstico passou a prevalecer sobre os fatores externos.
Medidas do governo ampliam desconforto fiscal
Além da crise política, investidores demonstraram preocupação crescente com medidas recentes anunciadas pelo governo federal.
Na terça-feira (12), o Executivo editou a chamada Medida Provisória das “blusinhas”, eliminando o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50.
Já nesta quarta-feira, o governo anunciou uma subvenção para gasolina e diesel com o objetivo de conter o impacto da alta internacional do petróleo sobre os preços dos combustíveis.
O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou que a medida terá custo estimado de aproximadamente R$ 3 bilhões por mês, inicialmente por dois meses.
A iniciativa ocorre em meio à disparada das cotações internacionais do petróleo após a escalada da guerra no Oriente Médio.
Para o mercado financeiro, porém, as novas medidas aumentam dúvidas sobre o compromisso fiscal do governo e alimentam receios de adoção de políticas econômicas consideradas expansionistas às vésperas do ciclo eleitoral.
Analistas observam que a combinação entre estímulos fiscais, aumento de gastos e tentativa de recomposição de popularidade tende a elevar o prêmio de risco exigido por investidores.
Ambiente externo também pressionou o câmbio
Embora os fatores domésticos tenham dominado o pregão, o cenário internacional também contribuiu para o fortalecimento do dólar.
Nos Estados Unidos, dados de inflação ao produtor vieram acima das expectativas em abril, reforçando a percepção de que o Federal Reserve poderá manter juros elevados por mais tempo.
O índice de preços ao produtor (PPI) mostrou pressão adicional nos custos da economia norte-americana, um dia após números mais fortes da inflação ao consumidor.
Com isso, os rendimentos dos Treasuries avançaram ao longo do dia, fortalecendo o dólar frente a moedas emergentes e desenvolvidas.
O índice DXY, que mede o desempenho da moeda norte-americana frente a uma cesta de seis divisas fortes, subia cerca de 0,20% no fim da sessão, perto dos 98,5 pontos.
Ainda assim, operadores observaram que o real teve desempenho pior que o de outras moedas latino-americanas, evidenciando o peso do cenário político doméstico na formação do câmbio brasileiro.
Real perde força após meses de valorização
Até esta semana, o real vinha sendo apontado como uma das moedas de melhor desempenho entre mercados emergentes em 2026.
A valorização era sustentada principalmente pelo diferencial elevado de juros do Brasil em relação aos países desenvolvidos e pela melhora dos termos de troca favorecida pela alta das commodities.
Segundo profissionais do mercado, a perspectiva de mudança de política econômica a partir de 2027 também ajudava a reduzir prêmios de risco, especialmente após o crescimento de nomes da oposição nas pesquisas eleitorais.
Pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira mostrou melhora na aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o petista numericamente à frente de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial.
Para estrategistas, o mercado vinha monitorando o avanço de Flávio Bolsonaro nas sondagens eleitorais como um potencial vetor de mudança de direção econômica no médio prazo.
A revelação envolvendo Daniel Vorcaro alterou parte dessa percepção e ampliou a volatilidade dos ativos brasileiros.
“O real vinha se destacando com base na tese de melhora dos termos de troca e de carry elevado. Isso não mudou. Mas as questões domésticas podem passar a ser o principal gatilho para o movimento do câmbio daqui para frente”, afirmou Jacques Zylbergeld.
Volatilidade deve aumentar com aproximação das eleições
A avaliação predominante entre estrategistas é que o mercado brasileiro tende a operar sob volatilidade crescente nos próximos meses.
A antecipação do debate presidencial de 2026, combinada às incertezas fiscais e ao ambiente internacional ainda pressionado por juros elevados e tensões geopolíticas, deve manter investidores atentos ao noticiário político.
Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, movimentos bruscos como o desta quarta-feira tendem a se tornar mais frequentes à medida que o calendário eleitoral se aproxima.
“Esse tipo de movimentação do mercado vai ser bem mais frequente daqui para frente. A volatilidade no câmbio é maior em ano eleitoral”, afirmou.
O episódio reforçou a percepção de que o comportamento do dólar seguirá altamente sensível a pesquisas eleitorais, medidas econômicas do governo e novos desdobramentos envolvendo figuras centrais da disputa presidencial.
Em um cenário de juros ainda elevados e fluxo estrangeiro mais seletivo, qualquer deterioração adicional do ambiente político ou fiscal tende a ampliar a pressão sobre o real e aumentar o custo de proteção cambial no mercado brasileiro.







