A Alphabet (GOOGL), controladora do Google, avançou na estratégia de garantir energia de longo prazo para sustentar a expansão de seus data centers e serviços de inteligência artificial ao fechar com a finlandesa Fortum um contrato de compra de energia nuclear associado à usina de Loviisa. O acordo terá duração de 22 anos, começa com capacidade menor em 2028 e chegará a 50% da capacidade da instalação entre 2030 e 2049, justamente no perÃodo em que a companhia pretende ampliar sua infraestrutura digital no paÃs.
O contrato está ligado ao programa de extensão da vida útil de Loviisa, cuja operação poderá ser mantida até 2050. A usina possui dois reatores e responde atualmente por cerca de 10% da geração de eletricidade da Finlândia. Para a Fortum, o compromisso de longo prazo reduz a incerteza sobre a receita necessária para financiar investimentos de aproximadamente € 1 bilhão destinados à continuidade das operações. Para o Google, o acordo cria maior previsibilidade sobre uma parcela da energia utilizada em uma estratégia de expansão que reúne data centers, computação para IA e serviços em nuvem.
A iniciativa é parte de um pacote mais amplo anunciado em 9 de setembro. O Google prevê investir € 13 bilhões na Finlândia em 2027 e 2028, incluindo infraestrutura digital, energia limpa e parcerias locais. A empresa afirma que a expansão abrangerá Hamina, Kajaani, Muhos e Vaala e que o desembolso representa seu maior investimento individual na Europa.
Contrato nuclear reduz exposição à volatilidade da eletricidade
O ponto central da operação está na previsibilidade. Em vez de depender integralmente da compra de energia no mercado durante duas décadas de expansão da demanda computacional, o Google passa a contratar antecipadamente uma parcela significativa da produção de uma usina já existente e em processo de modernização.
O PPA começa em 2028 com uma capacidade menor e alcança 50% da capacidade de Loviisa de 2030 a 2049. Os dois reatores têm 507 megawatts cada, somando pouco mais de 1 gigawatt de potência instalada. Tomando como referência a capacidade total da usina, a parcela máxima contratada equivale a cerca de 507 megawatts. A geração efetiva pode variar de acordo com disponibilidade, manutenção e operação dos reatores, razão pela qual a capacidade contratada não deve ser confundida diretamente com uma quantidade fixa de eletricidade produzida em cada ano.
A importância econômica do acordo cresce quando relacionada ao perfil da demanda dos data centers. A computação de IA exige grandes volumes de energia de forma contÃnua, especialmente em operações de treinamento e inferência. Nesse ambiente, contratos de longo prazo podem reduzir o risco de oscilações no preço da eletricidade e facilitar o planejamento dos custos operacionais de instalações com vida útil de vários anos.
O movimento também antecipa uma dificuldade estrutural do setor de tecnologia. A expansão de modelos de IA passou a depender não apenas da disponibilidade de chips e servidores, mas também de terrenos, conexão à rede elétrica, capacidade de transmissão e fontes firmes de energia. A escolha da Finlândia reflete essa equação: o Google afirma ter trabalhado com a operadora do sistema elétrico Fingrid, governos locais e órgãos de desenvolvimento para direcionar a expansão para regiões onde já existe infraestrutura de rede e oferta de eletricidade de baixo carbono.
Loviisa depende de investimentos para continuar operando
A extensão de Loviisa não é automática. A Fortum mantém um programa de aproximadamente € 1 bilhão para ampliar a vida operacional da usina até 2050. De acordo com a companhia, cerca de 80% dos projetos e € 700 milhões dos investimentos associados à continuidade da operação ainda dependiam de decisões de investimento na data do anúncio.
O PPA com o Google fornece à Fortum maior segurança de receita para levar adiante esse programa. A companhia estima que, quando 50% da capacidade de geração estiver contratada, o acordo poderá elevar em aproximadamente 1,4 ponto percentual o retorno comparável sobre ativos lÃquidos do grupo ao longo do tempo. O indicador de RONA da Fortum estava em 11% nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, segundo a empresa.
A negociação também abre espaço para aumento da capacidade da usina. Loviisa já possui uma elevação planejada de 38 megawatts, prevista para entrar em operação em 2028, e o acordo com o Google poderá viabilizar adicionalmente um aumento de 10 megawatts. A soma representa potencialmente 48 megawatts adicionais em relação à capacidade de referência atual, embora a ampliação esteja condicionada à execução dos investimentos e às etapas técnicas e regulatórias correspondentes.
A usina foi colocada em operação originalmente em 1977 e 1980. Em 2025, produziu cerca de 7,9 terawatts-hora e teve disponibilidade média de 89,4%. Com esses números, a produção média anual correspondeu a aproximadamente 0,9% da capacidade nominal instalada convertida em geração contÃnua, uma diferença explicada pelo fator de utilização, paradas programadas e demais condições operacionais.
Expansão de data centers ocorre antes do benefÃcio integral do contrato
O principal limite do acordo está no calendário. O Google anunciou os investimentos de infraestrutura e a estratégia energética agora, mas o benefÃcio integral do PPA não estará disponÃvel imediatamente. A contratação começa em 2028 e atinge a parcela de até 50% da capacidade apenas a partir de 2030.
Isso significa que boa parte da expansão de capacidade computacional da companhia continuará ocorrendo antes da plena entrega do contrato. O descompasso é relevante porque a Alphabet está elevando rapidamente seus gastos de capital em infraestrutura tecnológica.
No primeiro semestre de 2026, a Alphabet desembolsou US$ 80,6 bilhões em aquisições de propriedades e equipamentos, contra US$ 39,6 bilhões no mesmo perÃodo de 2025. No segundo trimestre isoladamente, os investimentos em capital chegaram a US$ 44,9 bilhões. A companhia também afirmou que pretende elevar significativamente os investimentos em infraestrutura técnica em 2026 e que os projetos de data centers podem levar anos entre a aquisição de terrenos, construção, instalação de equipamentos e entrada em operação.
A situação financeira mostra a dimensão desse ciclo de expansão. Em 30 de junho de 2026, a Alphabet tinha US$ 242,5 bilhões em caixa, equivalentes e tÃtulos negociáveis de curto prazo, enquanto a dÃvida de longo prazo somava US$ 98,2 bilhões. Durante o primeiro semestre, a empresa levantou recursos por emissão de ações, ações preferenciais conversÃveis e dÃvida, em parte destinados a ampliar a infraestrutura de IA e computação global.
O crescimento da nuvem ajuda a explicar a disposição para sustentar esses desembolsos. No primeiro trimestre de 2026, o backlog do Google Cloud havia alcançado US$ 462 bilhões, praticamente dobrando em relação ao trimestre anterior. No segundo trimestre, o negócio registrou crescimento de 82% na receita, para US$ 24,8 bilhões, segundo os dados financeiros divulgados pela companhia.
A combinação entre contratos já fechados e aumento da capacidade de computação cria, portanto, uma pressão para que a infraestrutura energética esteja disponÃvel no mesmo ritmo. Sem eletricidade suficiente, parte da capacidade de servidores não pode ser convertida em receita, mesmo quando a demanda comercial já existe.
Finlândia vira peça de uma estratégia energética mais ampla
O acordo com a Fortum não será uma operação isolada. O Google anunciou também a contratação de um sistema de baterias de 94 megawatts próximo a um novo data center em Kajaani, além de iniciativas para ampliar a geração eólica terrestre. A empresa informou que pretende combinar geração nuclear, renováveis e sistemas de flexibilidade para acompanhar o crescimento de sua demanda.
A localização dos novos data centers também faz parte dessa estratégia. Em estudo encomendado pelo Google, a companhia afirma que a instalação hipotética de 1 gigawatt de nova demanda elétrica na região de Oulu-Kajaani, em vez do sul da Finlândia, poderia gerar € 520 milhões em economia para consumidores finlandeses ao longo de 20 anos. O cálculo considera a proximidade entre consumo e geração disponÃvel e a possibilidade de expansão da oferta regional.
O desenho permite ao Google atuar simultaneamente em três frentes: garantir energia para sua própria expansão, reduzir a pressão adicional sobre a rede e apoiar novos investimentos em geração. A empresa afirma que seus contratos de compra de energia limpa na Finlândia, desde 2019, já acrescentaram ao sistema mais energia do que o consumo de suas próprias operações no paÃs.
O investimento econômico também é significativo. Segundo o Google, a fase inicial de construção prevista para 2027 e 2028 deverá sustentar mais de 37 mil empregos em todo o paÃs e contribuir com € 3,6 bilhões anuais para o Produto Interno Bruto finlandês durante essa etapa. A companhia também destinou € 31 milhões a comunidades de Hamina, Kajaani, Muhos e Vaala para educação e desenvolvimento econômico, incluindo programas de capacitação em IA.
Energia passa a fazer parte da vantagem competitiva da IA
A relevância do contrato de Loviisa vai além da compra de eletricidade por uma empresa de tecnologia. A operação mostra como a competição por infraestrutura de IA está incorporando ativos tradicionalmente associados aos setores de energia e utilities.
O próprio formato do acordo indica essa mudança. O Google não está apenas adquirindo eletricidade de uma usina em funcionamento; está ajudando a criar as condições econômicas para que a instalação permaneça operando e receba investimentos de extensão e modernização. Em paralelo, a empresa negocia baterias, apoia novas fontes renováveis e mantém conversas com a Fortum sobre possÃveis novos projetos nucleares.
Para a Alphabet, esse tipo de contrato pode funcionar como proteção operacional em um setor em que a demanda por computação cresce mais rapidamente do que a capacidade de expansão fÃsica de determinadas redes elétricas. Para a Fortum, o compromisso de um grande consumidor fornece previsibilidade em um mercado sujeito a oscilações de preços e reduz o risco associado a investimentos de longo prazo.
O benefÃcio, contudo, dependerá da execução. A extensão da vida útil de Loviisa exige decisões adicionais de investimento, obras de modernização e manutenção de elevados padrões de segurança. Do lado do Google, os novos data centers precisarão avançar em cronograma, conexão à rede e entrada efetiva em operação.
A combinação de capacidade computacional, contratos de energia e investimentos locais cria uma equação na qual a disponibilidade de eletricidade deixa de ser apenas um custo de operação e passa a integrar o planejamento estratégico da expansão da inteligência artificial. O contrato com a Fortum garante uma parcela dessa oferta por mais de duas décadas, mas não elimina os desafios de ampliar geração, rede e armazenamento à medida que a demanda do Google e de outros grandes consumidores continuar avançando.
Fontes:
Google – anúncio do investimento de € 13 bilhões em infraestrutura de IA, energia limpa e expansão de data centers na Finlândia
Google – estratégia de crescimento energético na Finlândia, PPA nuclear, localização de data centers e estudo sobre impactos na rede elétrica
Fortum – comunicado ao mercado sobre o PPA de 22 anos com o Google, extensão de Loviisa, investimentos e aumento de capacidade
Fortum – dados operacionais da usina nuclear de Loviisa, produção de 2025 e disponibilidade dos reatores
Alphabet – Formulário 10-Q do segundo trimestre de 2026, investimentos em infraestrutura, dÃvida, liquidez e fluxo de caixa
Alphabet – informações financeiras e atualização sobre investimentos destinados à expansão de infraestrutura de IA










