O dólar fechou em queda nesta quinta-feira, 14 de maio, e voltou ao patamar abaixo de R$ 5,00, depois de o mercado reduzir parte do prêmio de risco incorporado aos ativos brasileiros na sessão anterior. A moeda americana terminou o dia cotada a R$ 4,9863, com recuo de 0,45%.
Na quarta-feira, 13, o dólar havia avançado 2,31%, para R$ 5,0086, no maior ganho diário desde dezembro. O movimento foi associado ao aumento da incerteza política depois da divulgação de um áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.
A gravação, divulgada pelo Intercept Brasil, trata de pagamentos relacionados ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A repercussão atingiu o mercado em um momento de crescente atenção dos investidores à corrida presidencial de outubro.
Nesta quinta-feira, entretanto, parte da pressão foi devolvida. O real se valorizou mesmo diante de um cenário externo em que a moeda americana ganhava força contra outras divisas.
Por volta das 17h, o DXY, índice que acompanha o desempenho do dólar diante de uma cesta de seis moedas fortes, subia 0,21%, aos 98,505 pontos. O comportamento distinto do real reforçou a percepção de que fatores domésticos tiveram peso relevante na formação do câmbio ao longo do pregão.
Mercado reduz prêmio após estresse da véspera
A queda do dólar nesta quinta-feira foi interpretada principalmente como uma correção depois do movimento acentuado observado no pregão anterior.
Investidores continuaram acompanhando os desdobramentos políticos envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, mas a percepção de risco imediato diminuiu ao longo da sessão. O comportamento indicou que parte do mercado considerou exagerada a reação inicial registrada na quarta-feira.
Na véspera, a moeda americana rompeu novamente a barreira de R$ 5,00 em meio ao receio de que a repercussão do episódio pudesse alterar o cenário eleitoral e afetar a posição de Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência.
O senador ocupa posição relevante entre os nomes da direita para a eleição de outubro. Por isso, acontecimentos capazes de alterar a percepção sobre sua candidatura tendem a repercutir rapidamente sobre ativos brasileiros.
Em períodos eleitorais, mudanças nas expectativas sobre candidaturas, alianças, pesquisas e propostas econômicas podem provocar ajustes no dólar, na curva de juros e na Bolsa, principalmente quando investidores passam a reavaliar cenários para a política fiscal e econômica dos próximos anos.
Segundo a Reuters, os mercados brasileiros foram pressionados na quarta-feira após a publicação das informações envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, em um ambiente eleitoral que já vinha elevando a sensibilidade dos investidores às notícias políticas.
Áudio envolvendo Vorcaro permanece no radar
O episódio continuou sendo acompanhado pelo mercado durante esta quinta-feira.
O áudio divulgado na quarta-feira mostra Flávio Bolsonaro tratando com Daniel Vorcaro de pagamentos relacionados ao filme “Dark Horse”, produzido sobre Jair Bolsonaro.
Depois da publicação, Flávio afirmou conhecer Vorcaro e disse que a relação entre os dois começou em dezembro de 2024. De acordo com o senador, o contato posterior ocorreu porque parcelas referentes ao patrocínio da produção cinematográfica estavam atrasadas.
Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade. Segundo sua versão, tratava-se de uma relação privada vinculada ao financiamento do filme, sem contrapartida política ou concessão de benefício indevido.
A Associated Press também registrou a negativa do senador após a divulgação das mensagens de voz.
Daniel Vorcaro, por sua vez, tornou-se personagem central das investigações envolvendo o Banco Master. O caso ganhou relevância tanto financeira quanto política devido às suspeitas relacionadas às operações da instituição e às conexões mantidas pelo empresário.
O impacto sobre os mercados decorre menos de uma conclusão sobre o episódio e mais da incerteza sobre seus possíveis efeitos políticos. Até esta quinta-feira, ainda não era possível dimensionar de forma clara qual seria a repercussão do caso sobre a disputa presidencial.
Real avança apesar de fortalecimento global do dólar
A valorização do real ocorreu em uma sessão na qual o dólar ganhava terreno no exterior.
Esse descolamento indicou que a dinâmica doméstica teve influência importante na negociação da moeda brasileira. Depois da disparada de mais de 2% na quarta-feira, investidores reduziram posições de proteção e parte do prêmio político incorporado ao câmbio.
Movimentos dessa natureza são comuns após sessões marcadas por choques inesperados. A reação inicial costuma ser mais intensa, especialmente quando investidores ainda não conseguem mensurar os efeitos de uma notícia.
Nas sessões seguintes, à medida que novas informações são incorporadas aos preços, ocorre uma reavaliação do risco e, eventualmente, uma correção parcial.
Foi o que aconteceu nesta quinta-feira. O episódio envolvendo Flávio Bolsonaro não deixou de ser acompanhado, mas a demanda por proteção cambial diminuiu.
O ambiente externo também apresentou elementos favoráveis a ativos ligados a commodities, contribuindo para limitar uma pressão mais intensa sobre moedas de países emergentes.
Petróleo fecha em leve alta e ajuda ambiente para commodities
O mercado de petróleo também integrou o conjunto de fatores observados pelos investidores nesta quinta-feira.
O contrato mais líquido do Brent, referência internacional da commodity, com vencimento em julho, fechou em leve alta de 0,09%, cotado a US$ 105,72 por barril na Intercontinental Exchange (ICE), em Londres.
A valorização do petróleo tende a favorecer países exportadores de commodities ao melhorar as perspectivas de receitas externas e termos de troca.
No caso brasileiro, o efeito também é acompanhado pela relevância do setor de petróleo na balança comercial e pelo peso da Petrobras (PETR3; PETR4) no mercado de capitais.
O petróleo, entretanto, foi um elemento complementar na sessão. A principal explicação para o desempenho do real continuou sendo a redução da pressão doméstica verificada após o forte movimento de quarta-feira.
Trump e Xi entram no radar dos mercados globais
No ambiente internacional, investidores também acompanharam a viagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China e os sinais emitidos após contatos com o presidente chinês Xi Jinping.
As atenções estavam voltadas para possíveis avanços na relação entre Washington e Pequim e para a participação chinesa nas tentativas de reduzir as tensões envolvendo os Estados Unidos e o Irã.
Segundo declarações de Trump, Xi teria demonstrado disposição para contribuir nas negociações entre Washington e Teerã.
Qualquer sinal de redução das tensões geopolíticas tende a repercutir imediatamente sobre petróleo, moedas, juros e ativos considerados de risco.
A situação permanece relevante especialmente porque uma escalada no Oriente Médio poderia gerar nova pressão sobre os preços da energia e aumentar a procura internacional pelo dólar e por outros ativos considerados defensivos.
Para países emergentes, um ambiente global de menor aversão ao risco costuma favorecer o fluxo de capital, embora fatores domésticos possam se sobrepor a essa tendência.
Eleição presidencial aumenta sensibilidade dos ativos brasileiros
O comportamento do dólar nos últimos dois pregões evidencia a importância crescente da eleição presidencial de 2026 na formação dos preços dos ativos brasileiros.
À medida que a disputa de outubro se aproxima, investidores começam a atribuir maior peso a pesquisas eleitorais, alianças partidárias, propostas econômicas e acontecimentos capazes de alterar a posição dos principais candidatos.
Nesse ambiente, episódios políticos aparentemente restritos a Brasília podem rapidamente afetar o câmbio e a curva de juros.
O mercado procura antecipar quais cenários eleitorais poderiam resultar em maior ou menor risco fiscal, mudanças na política econômica e alterações na relação entre Executivo e Congresso a partir de 2027.
É nesse contexto que a repercussão envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro passou a ser acompanhada.
A revelação trouxe um novo componente de incerteza porque envolve um dos nomes mais relevantes da direita na disputa presidencial e um empresário relacionado a um caso financeiro de grande repercussão.
Segundo a Reuters, aliados do senador passaram a lidar com questionamentos sobre os possíveis efeitos políticos do episódio. Flávio Bolsonaro, porém, continuou negando qualquer irregularidade.
Ainda é cedo para determinar se a controvérsia terá impacto significativo sobre sua pré-candidatura.
Dólar abaixo de R$ 5 não encerra período de volatilidade
O fechamento a R$ 4,9863 devolveu o dólar ao nível inferior a R$ 5,00 nesta quinta-feira, mas não significa que a volatilidade tenha desaparecido.
Em apenas dois pregões, a moeda registrou uma alta de 2,31% seguida de queda de 0,45%, ilustrando a sensibilidade do mercado às mudanças na percepção de risco.
Os investidores devem continuar acompanhando as manifestações de Flávio Bolsonaro, eventuais novos elementos relacionados a Daniel Vorcaro e a reação dos partidos ao episódio.
No exterior, a relação entre Estados Unidos e China, a tensão envolvendo o Irã, os preços do petróleo e o comportamento dos títulos do Tesouro americano permanecerão entre as principais referências para o câmbio.
A sessão desta quinta-feira mostrou uma redução do estresse observado na véspera, mas não uma reversão completa do quadro de cautela.
Com a campanha presidencial ganhando espaço na agenda dos mercados, acontecimentos políticos tendem a exercer influência cada vez maior sobre a cotação do dólar nos próximos meses.
O retorno da moeda para abaixo de R$ 5,00 trouxe alívio imediato, mas a rápida mudança registrada entre quarta e quinta-feira serve como indicativo de que o câmbio brasileiro entrou em um período no qual política doméstica, cenário eleitoral e ambiente internacional deverão disputar espaço diariamente na formação dos preços.







