O dólar fechou em queda nesta quinta-feira, 14, e voltou ao patamar abaixo de R$ 5,00, após o mercado reduzir parte do prêmio de risco provocado na véspera pela divulgação de um áudio envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master. A moeda americana terminou o dia cotada a R$ 4,9863, com recuo de 0,45%, depois de ter saltado mais de 2% na quarta-feira, no maior avanço diário desde dezembro.
Na sessão anterior, o dólar havia fechado a R$ 5,0086, em alta de 2,31%, após o mercado reagir ao aumento da incerteza política em torno da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. A reportagem do Intercept Brasil revelou áudio em que o senador tratava de pagamentos ligados ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Nesta quinta-feira, porém, o câmbio corrigiu parte do movimento. A queda do dólar ocorreu mesmo com a moeda americana em alta no exterior. Por volta das 17h, o DXY, índice que mede o desempenho do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, subia 0,21%, aos 98.505 pontos.
Mercado reduz prêmio após estresse político
A queda do dólar foi interpretada como uma correção parcial depois do forte estresse da véspera. O mercado de câmbio continuou acompanhando os desdobramentos políticos do caso Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, mas reduziu a percepção de risco imediato.
O movimento indica que investidores avaliaram como excessiva parte da alta do dólar na quarta-feira. Naquele pregão, a moeda americana voltou a superar R$ 5,00 em meio ao receio de que a ligação entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro pudesse afetar o cenário eleitoral.
A reação foi especialmente forte porque Flávio Bolsonaro é visto como um dos principais nomes da direita na disputa presidencial de outubro. Qualquer fato capaz de alterar a viabilidade de sua candidatura tende a provocar reprecificação em ativos locais, principalmente câmbio, juros futuros e Bolsa.
Segundo a Reuters, mercados brasileiros foram pressionados na quarta-feira após reportagem que relacionou Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, ex-chefe do Banco Master, em meio a um ambiente eleitoral já sensível.
Áudio com Vorcaro segue no radar
O caso continuou no radar dos investidores nesta quinta-feira. O Intercept Brasil divulgou na quarta-feira um áudio em que Flávio Bolsonaro teria cobrado Daniel Vorcaro por pagamentos relacionados ao filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro.
Após a publicação, Flávio Bolsonaro admitiu conhecer Vorcaro e afirmou que a relação começou em dezembro de 2024. Segundo o senador, o contato foi retomado porque parcelas do patrocínio ao filme estavam atrasadas.
Flávio nega irregularidades. Em manifestações públicas, afirmou que o acordo era privado, sem contrapartida política ou benefício indevido. A Associated Press também registrou que o senador negou qualquer conduta irregular após a divulgação das mensagens de voz.
Daniel Vorcaro, por sua vez, está no centro de investigações sobre o Banco Master. O caso ganhou dimensão política e financeira por envolver suspeitas de fraude, a liquidação da instituição e possíveis conexões com atores do cenário eleitoral.
Real se recupera apesar de dólar forte no exterior
A queda do dólar no Brasil chamou atenção porque ocorreu em sentido contrário ao desempenho da moeda no exterior. O avanço do DXY indicava fortalecimento global do dólar, mas o real se valorizou na sessão.
Esse descolamento reforça a leitura de que o principal fator do dia foi a redução do prêmio de risco doméstico. Depois do salto da véspera, investidores voltaram a desmontar posições defensivas, favorecendo o real.
O movimento também foi apoiado por um ambiente externo mais favorável para ativos ligados a commodities. Ainda que o dólar global tenha subido, a melhora na percepção de risco e o comportamento do petróleo ajudaram moedas de países exportadores, como o Brasil.
Em pregões marcados por choques políticos, é comum que o câmbio tenha reação forte no primeiro momento e depois passe por ajuste técnico. A sessão desta quinta-feira teve esse perfil: o mercado não ignorou o caso político, mas reduziu a intensidade da proteção cambial.
Petróleo ajuda moedas de países exportadores
O real também foi beneficiado pela valorização do petróleo no mercado internacional. O contrato mais líquido do Brent, referência global, com vencimento em julho, fechou em leve alta de 0,09%, a US$ 105,72 o barril na Intercontinental Exchange, em Londres.
A alta do petróleo costuma favorecer moedas de países exportadores de commodities, como o Brasil, porque melhora a percepção sobre termos de troca, receitas externas e fluxo comercial.
Além disso, commodities mais fortes tendem a sustentar o apetite por ativos de mercados emergentes, especialmente quando não há deterioração adicional no cenário externo.
Para o câmbio brasileiro, o petróleo tem peso adicional pela importância da Petrobras (PETR3; PETR4) no mercado financeiro local e pelo papel das commodities na composição da balança comercial.
Trump e Xi também influenciam ativos globais
Na agenda internacional, investidores acompanharam a viagem do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China. O mercado monitorou sinais de aproximação com o presidente chinês Xi Jinping e possíveis efeitos sobre as tensões no Oriente Médio.
Segundo declarações do presidente americano citadas pelo texto-base, Xi teria oferecido apoio nas negociações entre Washington e Teerã e demonstrado interesse em um acordo para reduzir tensões geopolíticas.
A sinalização ajudou a compor um ambiente externo menos adverso, ainda que investidores tenham mantido cautela. A relação entre Estados Unidos, China e Irã segue relevante para preços de petróleo, fluxo global de capitais, moedas emergentes e percepção de risco.
Para o Brasil, qualquer redução da tensão geopolítica tende a favorecer ativos locais, ao diminuir a busca por dólar como proteção e reduzir pressões sobre juros globais e commodities.
Câmbio segue sensível ao cenário eleitoral
Apesar da queda desta quinta-feira, o dólar continua sensível ao cenário eleitoral brasileiro. A forte alta da véspera mostrou que investidores estão atentos a qualquer evento capaz de alterar o equilíbrio da disputa presidencial, a percepção sobre governabilidade futura ou a condução da política econômica.
O episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro trouxe incerteza adicional porque conecta um pré-candidato competitivo a um banqueiro investigado no caso Banco Master. A repercussão política ainda pode gerar novos desdobramentos, inclusive pedidos de investigação e reações dentro da própria direita.
A Reuters informou que a revelação deixou aliados de Flávio Bolsonaro em posição defensiva e gerou questionamentos sobre a estratégia política do senador, embora ele tenha negado irregularidades.
Para o mercado, o ponto central não é apenas o episódio em si, mas seu potencial de afetar a disputa eleitoral. Quanto maior a incerteza política, maior tende a ser a demanda por proteção no câmbio.
Dólar abaixo de R$ 5 não elimina volatilidade
O fechamento do dólar a R$ 4,9863 trouxe alívio depois do salto da véspera, mas não encerra a volatilidade no mercado de câmbio. A moeda voltou a ficar abaixo de R$ 5,00, mas segue sujeita a novos movimentos bruscos conforme avancem os desdobramentos políticos e a agenda externa.
No curto prazo, investidores devem acompanhar novas declarações de Flávio Bolsonaro, eventuais medidas no Congresso, informações sobre Daniel Vorcaro e sinais de reação do eleitorado e dos partidos. No exterior, dólar global, petróleo, Treasuries e tensões geopolíticas continuarão influenciando o real.
A sessão desta quinta-feira mostrou que o mercado corrigiu parte do susto político, mas ainda mantém o cenário eleitoral no centro da precificação. O dólar caiu, mas a sensibilidade dos ativos brasileiros a notícias de Brasília permaneceu elevada.









