O dólar comercial fechou esta quarta-feira, 26 de agosto de 2026, cotado a R$ 5,152 para venda, com alta de 0,23% em relação à sessão anterior. A valorização foi pequena, mas ocorreu em um pregão carregado de informações relevantes para o câmbio: a inflação brasileira surpreendeu para baixo, enquanto os Estados Unidos mostraram inflação ainda distante da meta do Federal Reserve e crescimento econômico mais fraco do que no começo do ano.
A combinação produziu sinais diferentes para o real. A deflação de 0,40% registrada pelo IPCA-15 melhora a percepção sobre a dinâmica dos preços no Brasil, mas também reforça a possibilidade de novos cortes da taxa Selic, hoje em 14% ao ano. Juros menores reduzem gradualmente uma das principais vantagens do real diante do dólar: o elevado diferencial de taxas que atrai capital estrangeiro para aplicações brasileiras.
Nos Estados Unidos, o índice de preços de gastos com consumo, o PCE, avançou 0,2% em julho e acumulou 3,7% em 12 meses. O núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, também subiu 0,2% no mês e permaneceu em 3,3% no acumulado anual. São números ainda significativamente acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve e que mantêm o mercado cauteloso sobre a velocidade com que os juros americanos poderão recuar.
O resultado foi um dólar novamente próximo de R$ 5,15, região que tem funcionado como piso para a moeda nas últimas semanas. Segundo dados do fechamento, o câmbio permanece dentro de uma faixa relativamente estreita, aproximadamente entre R$ 5,14 e R$ 5,22 ao longo de agosto.
Dólar fecha em alta de 0,23%
A moeda americana havia encerrado a terça-feira próxima de R$ 5,14, após queda de 0,25%. o dólar hoje, abriu ao redor de R$ 5,149 e passou parte da manhã próxima da estabilidade antes de ganhar algum terreno diante do real.
No fechamento do mercado à vista, o dólar comercial era negociado a R$ 5,152, avanço de 0,23%. Embora o movimento tenha sido pequeno, a sessão interrompeu a queda registrada no pregão anterior e mostrou que o mercado ainda encontra dificuldade para empurrar a moeda americana de forma consistente abaixo da região dos R$ 5,14.
O comportamento também precisa ser visto em perspectiva. O câmbio atravessa um período de volatilidade bem menor do que aquele observado em outras etapas do ano. Mesmo com eleição presidencial se aproximando, mudanças nas expectativas para juros no Brasil e nos Estados Unidos e tensões geopolíticas no Oriente Médio, o dólar permanece negociando numa faixa relativamente limitada.
Isso acontece porque existem forças capazes de sustentar o real e outras que impedem uma valorização mais expressiva da moeda brasileira.
IPCA-15 cai 0,40% e muda cálculo para a Selic
No Brasil, o principal indicador do dia foi o IPCA-15 de agosto. A prévia da inflação oficial registrou deflação de 0,40%, depois de alta de 0,06% em julho. Foi uma desaceleração maior do que a observada no mês anterior e levou a inflação acumulada em 12 meses de 4,52% para 4,24%.
No acumulado de 2026, o IPCA-15 registra alta de 3,09%.
Três grupos tiveram influência importante sobre o resultado. Habitação caiu 1,41%, Transportes recuou 1% e Alimentação e bebidas apresentou redução de 0,57%. A energia elétrica residencial caiu 6,25%, enquanto passagens aéreas recuaram 13,30%. Entre os combustíveis, a gasolina ficou 1,23% mais barata e o etanol teve queda de 3,63%.
Para o mercado de câmbio, uma inflação menor produz dois efeitos que podem atuar em direções diferentes.
O primeiro é favorável ao real. Uma inflação controlada reduz o risco macroeconômico, melhora a previsibilidade da economia e diminui a possibilidade de uma deterioração monetária mais severa.
O segundo efeito, porém, pode favorecer o dólar: números mais fracos de inflação dão ao Banco Central maior espaço para cortar a Selic.
O Copom já iniciou um ciclo de flexibilização monetária e a taxa básica está atualmente em 14% ao ano. Quanto mais rápido esse processo avançar, menor tende a ser o diferencial entre os juros brasileiros e os juros das principais economias.
Por que a Selic importa tanto para o dólar
O Brasil continua oferecendo uma das maiores taxas de juros reais entre grandes mercados emergentes. Essa diferença incentiva uma estratégia conhecida como carry trade: investidores tomam recursos em moedas de países com juros menores e direcionam capital para mercados que oferecem taxas mais elevadas.
Enquanto a Selic permanece muito acima das taxas internacionais, ativos brasileiros tendem a continuar atraentes para parte desses investidores.
Esse fluxo gera demanda por reais e, consequentemente, pode ajudar a conter o dólar.
A dinâmica começa a mudar quando o mercado passa a prever cortes mais acelerados da Selic. Mesmo que o nível absoluto dos juros continue elevado, a perspectiva de queda futura diminui parte do retorno esperado dessas operações.
Isso explica por que uma notícia aparentemente positiva, como uma inflação menor, não resulta necessariamente em queda imediata do dólar.
A reação depende de como o mercado interpreta o efeito do dado sobre a política do Banco Central.
Inflação americana ainda está em 3,7%
Do outro lado da operação cambial está a política monetária americana, que nesta quarta-feira recebeu sinais menos confortáveis.
O PCE, indicador de inflação acompanhado de perto pelo Federal Reserve, acumulou alta de 3,7% nos 12 meses encerrados em julho. O núcleo permaneceu em 3,3%.
Na comparação mensal, tanto o índice cheio quanto o núcleo avançaram 0,2%.
O dado ganha importância porque a meta americana continua em 2%. Isso significa que o processo de desinflação nos Estados Unidos ainda não foi suficiente para permitir ao Fed ignorar os riscos de nova pressão sobre preços.
A questão central para o câmbio brasileiro está na diferença entre a trajetória dos juros dos dois países.
Se o Banco Central brasileiro corta a Selic enquanto o Federal Reserve mantém os juros americanos elevados — ou volta a discutir aperto monetário — o diferencial de taxas entre Brasil e Estados Unidos diminui mais rapidamente.
Esse cenário tende, em tese, a reduzir parte do suporte oferecido ao real pelo carry trade.
PIB americano desacelera para 1,5%
A economia dos Estados Unidos também apresentou crescimento menor no segundo trimestre.
A segunda estimativa divulgada pelo Bureau of Economic Analysis mostrou avanço anualizado de 1,5% do PIB entre abril e junho, abaixo dos 2,1% registrados no primeiro trimestre. O crescimento teve contribuição do consumo, exportações e investimentos, parcialmente compensada pela redução dos gastos governamentais.
O dado cria uma situação delicada para o Federal Reserve. A atividade está desacelerando, o que normalmente favoreceria juros menores, mas a inflação continua significativamente acima da meta.
Para o mercado, esse tipo de combinação aumenta a incerteza. Uma redução rápida de juros poderia reacender pressões inflacionárias, enquanto uma política monetária excessivamente restritiva aumenta o risco de enfraquecimento econômico.
Essa dúvida tende a se refletir diretamente na cotação do dólar frente às moedas emergentes.
Real ainda conta com diferencial elevado de juros
Apesar das expectativas de novos cortes no Brasil, a Selic continua em nível suficientemente alto para oferecer sustentação à moeda brasileira.
O Banco Central mantém a taxa em 14% ao ano, enquanto a inflação brasileira acumulada permanece muito abaixo desse patamar. O resultado é uma taxa de juros real elevada, característica que continua atraindo investidores para títulos domésticos.
Essa diferença ajuda a explicar por que o dólar permanece próximo da parte inferior da faixa observada neste mês.
O comportamento recente também mostra que o real tem conseguido absorver parte da volatilidade causada pelo cenário eleitoral e pelo ambiente externo sem movimentos bruscos.
Isso não significa que o câmbio esteja protegido.
À medida que o Copom avança no ciclo de cortes, o mercado começará a calcular qual será o ponto em que o diferencial de juros deixa de compensar riscos fiscais, eleitorais e externos.
Petróleo menor produz efeitos mistos para o real
Outro componente da sessão foi a continuidade da queda das cotações internacionais do petróleo. O Brent recuou novamente nesta quarta-feira, negociado próximo de US$ 86,94 por barril, em meio às expectativas de que Estados Unidos e Irã possam avançar em negociações capazes de normalizar parte do fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz.
Para o Brasil, o impacto cambial do petróleo não é linear.
Como exportador da commodity, preços maiores podem melhorar receitas externas e favorecer o fluxo de dólares para o país. Por outro lado, petróleo mais barato reduz pressões inflacionárias sobre combustíveis, transporte e cadeias produtivas, algo positivo para o cenário de preços doméstico.
Nesta quarta-feira, o segundo efeito esteve mais alinhado ao restante da agenda: inflação brasileira menor e expectativa de continuação do ciclo de flexibilização monetária.
Eleição ainda não domina o câmbio
O processo eleitoral de 2026 permanece no radar dos investidores, mas não foi o fator predominante da sessão desta quarta-feira.
Pesquisas recentes mostram uma disputa concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto o mercado acompanha especialmente as propostas fiscais dos candidatos.
Para o dólar, a eleição tende a ganhar importância à medida que forem ficando mais claras as perspectivas para dívida pública, resultado primário, política de gastos e relação do futuro governo com o Congresso.
O risco fiscal tem influência direta sobre o câmbio porque determina parte do prêmio exigido pelos investidores para permanecer no país.
Se houver percepção de deterioração das contas públicas, o dólar pode subir mesmo num ambiente internacional relativamente favorável. Se o mercado enxergar compromisso consistente com estabilização da dívida, o real tende a se beneficiar.
R$ 5,14 continua sendo região importante
A sessão desta quarta reforçou um nível que o mercado vem acompanhando durante agosto. O dólar tem encontrado dificuldade para romper de forma consistente a região de R$ 5,14.
A cotação chegou ao pregão depois de fechar a terça-feira perto desse patamar e voltou a subir para R$ 5,152.
Tecnicamente, não se trata de uma barreira fixa, mas o comportamento recente mostra concentração de negócios nessa faixa. A perda consistente desse piso exigiria provavelmente uma combinação de fluxo estrangeiro favorável, redução da percepção de risco doméstico e ambiente externo mais benigno para moedas emergentes.
Do lado contrário, uma reprecificação dos juros americanos, deterioração fiscal ou aumento da tensão eleitoral poderia devolver o dólar para a parte superior da faixa recente, acima de R$ 5,20.
O que acompanhar no dólar agora
Depois de um pregão marcado simultaneamente por deflação no Brasil e inflação persistente nos Estados Unidos, a discussão sobre juros volta a ocupar o centro das atenções.
No mercado doméstico, os próximos indicadores mostrarão se o IPCA-15 de agosto representa uma tendência mais ampla ou se parte importante da queda foi provocada por fatores pontuais, como o bônus aplicado às contas de energia elétrica.
Nos Estados Unidos, o foco permanece nas próximas manifestações do Federal Reserve e nos dados de emprego e inflação que antecederão as futuras decisões sobre juros.
Para o dólar, a equação permanece relativamente clara. Quanto maior o diferencial entre a Selic brasileira e os juros americanos, maior tende a ser o suporte ao real. Quanto mais rapidamente essa diferença diminuir, maior será o espaço para a moeda americana recuperar terreno.
O fechamento de R$ 5,152 nesta quarta-feira, portanto, reflete mais do que uma oscilação diária de 0,23%. O câmbio começa a precificar uma nova fase da política monetária: inflação em desaceleração no Brasil abrindo espaço para cortes da Selic, enquanto a inflação americana ainda impede o Federal Reserve de declarar vitória sobre os preços.
É justamente o ritmo dessa convergência entre os juros dos dois países que deverá determinar se o dólar conseguirá romper o piso próximo de R$ 5,14 ou se voltará a buscar níveis mais altos nas próximas sessões.
Fontes:
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IPCA-15 de agosto de 2026
Banco Central do Brasil — Taxa Selic e política monetária
U.S. Bureau of Economic Analysis — Personal Income and Outlays, julho de 2026
U.S. Bureau of Economic Analysis — PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre de 2026









