Dólar hoje abre em alta sob tensão geopolítica: Trump, Groenlândia e a ameaça de guerra comercial
O mercado financeiro global inicia esta terça-feira (20) imerso em um cenário de aversão ao risco que impacta diretamente a cotação das moedas emergentes. O dólar hoje abriu a sessão em trajetória de alta, registrando um avanço de 0,28% por volta das 9h, cotado a R$ 5,3791. Este movimento reflete a cautela dos investidores diante da escalada das tensões diplomáticas e comerciais entre os Estados Unidos e a União Europeia, catalisada pelas recentes exigências do presidente Donald Trump sobre a aquisição da Groenlândia.
A volatilidade do dólar hoje não é um evento isolado, mas sim uma resposta sistêmica a um conjunto de fatores que incluem incertezas institucionais nos EUA, dados econômicos mistos na Ásia e a reconfiguração das expectativas de inflação e juros no Brasil, conforme apontado pelo mais recente Boletim Focus.
O Fator Trump e a Disputa pela Groenlândia
O principal vetor de pressão sobre o câmbio nesta manhã reside na política externa agressiva de Washington. O comportamento do dólar hoje é sensível ao anúncio feito por Donald Trump no último sábado (17), quando o mandatário norte-americano formalizou a intenção de impor tarifas punitivas a oito nações europeias. A medida, que entraria em vigor a partir de 1º de fevereiro de 2026, visa coagir esses países a apoiarem o plano dos Estados Unidos de comprar a Groenlândia, território autônomo dinamarquês estrategicamente localizado no Ártico.
A ameaça de Trump é escalonada e direta: uma tarifa inicial de 10% sobre todas as mercadorias exportadas para os EUA por Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia. O ultimato prevê ainda um agravamento draconiano, elevando a alíquota para 25% a partir de 1º de junho de 2026, caso não haja um acordo para a “compra completa e total” do território.
Para o mercado de câmbio, essa retórica reacende os temores de uma guerra comercial de largas proporções. Quando o comércio global é ameaçado, a liquidez tende a migrar para ativos de segurança, fortalecendo a moeda americana globalmente e pressionando o dólar hoje frente ao Real e outras divisas de países emergentes.
A Reação da Europa: O Instrumento Anticoerção
A resposta europeia adiciona mais camadas de complexidade à precificação do dólar hoje. Líderes do bloco classificaram as ameaças como “inaceitáveis” e já articulam contramedidas robustas. A França lidera o movimento de pressão para que a União Europeia acione seu “Instrumento Anticoerção”, um mecanismo legal desenhado especificamente para responder a chantagens econômicas de potências estrangeiras.
Informações de bastidores indicam que Bruxelas avalia a aplicação de tarifas retaliatórias na ordem de € 93 bilhões (aproximadamente R$ 580 bilhões) sobre produtos norte-americanos. Além disso, discute-se a restrição do acesso de empresas dos EUA ao mercado único europeu. Essa possibilidade de fragmentação do comércio transatlântico gera incerteza, o que tradicionalmente impulsiona a busca pela moeda norte-americana, elevando a cotação do dólar hoje.
O dilema europeu, contudo, é equilibrar a defesa de sua soberania econômica com a manutenção da aliança militar ocidental. Um rompimento profundo com Washington poderia fragilizar a segurança do continente, criando um cenário de risco geopolítico que mantém os mercados nervosos e o dólar hoje sustentado em patamares elevados.
Davos e a Incerteza Institucional nos EUA
Além do front comercial, o dólar hoje opera sob a expectativa do início do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. A presença confirmada de Donald Trump, que deve discursar amanhã, mantém os investidores em alerta. O presidente afirmou que utilizará a plataforma para defender sua posição sobre a importância estratégica da Groenlândia, o que pode gerar novos ruídos diplomáticos e volatilidade cambial.
Outro ponto de atenção que influencia a percepção de risco sobre a moeda americana é a estabilidade institucional do Federal Reserve (Fed). Nesta terça-feira, o mercado acompanha a audiência de Lisa Cook, diretora do Banco Central americano, na Suprema Corte dos EUA. O evento ocorre após uma tentativa de demissão por parte do Executivo, sendo interpretado pelos analistas como um teste crucial para a independência da autoridade monetária. Qualquer sinal de erosão na autonomia do Fed pode afetar a credibilidade da moeda a longo prazo, embora, no curto prazo, a incerteza tenda a aumentar a aversão ao risco, impactando o dólar hoje no Brasil.
Cenário Doméstico: Boletim Focus e a Curva de Juros
Enquanto o cenário externo dita a tendência macro, os fundamentos domésticos também compõem o preço do dólar hoje. O Banco Central divulgou nesta semana o Boletim Focus, trazendo ajustes nas expectativas do mercado para a economia brasileira em 2026 e nos anos subsequentes.
Os economistas reduziram marginalmente a projeção de inflação para 2026, passando de 4,05% para 4,02%. Apesar da leve melhora, o patamar ainda exige cautela. A taxa Selic, que encerrou 2025 em robustos 15% ao ano — o maior nível em duas décadas —, deve iniciar uma trajetória de queda, com projeção de encerrar 2026 em 12,25%.
Essa dinâmica de juros é vital para entender o comportamento do dólar hoje. O diferencial de juros (a diferença entre a taxa brasileira e a americana) ainda é favorável ao Brasil, o que teoricamente atrairia capital estrangeiro para a renda fixa (carry trade), ajudando a conter a alta da moeda. No entanto, quando o risco externo aumenta desproporcionalmente, como ocorre agora com as ameaças de Trump, esse fluxo se inverte ou estanca, pressionando o câmbio para cima.
No que tange à atividade econômica, o Focus manteve a previsão de crescimento do PIB em 1,80% para 2026, uma desaceleração frente aos 2,25% estimados para 2025. Com uma economia crescendo menos, a atratividade para o investimento produtivo diminui, o que também retira força de valorização do Real frente ao dólar hoje. A projeção consensual do mercado é que a moeda americana encerre o ano cotada a R$ 5,50, indicando que a pressão cambial deve ser uma constante ao longo do exercício.
Panorama dos Mercados Globais
Para compreender a integralidade do movimento do dólar hoje, é necessário observar o comportamento das bolsas internacionais, que refletem o sentimento global de aversão ao risco.
Na Europa, o impacto das ameaças tarifárias foi imediato. O índice pan-europeu STOXX recuou 1,23%. Praças importantes como Frankfurt (DAX) e Paris (CAC 40) registraram quedas de 1,34% e 1,78%, respectivamente. Essa desvalorização dos ativos europeus frente à instabilidade política favorece o fortalecimento do índice DXY (que mede o dólar contra uma cesta de moedas fortes), contaminando a cotação do dólar hoje em mercados emergentes.
Na Ásia, o cenário também não contribuiu para o otimismo. Dados recentes da China mostraram o menor crescimento econômico em três anos, fruto de uma demanda interna enfraquecida. O gigante asiático é o maior parceiro comercial do Brasil; portanto, uma China mais fraca significa menor demanda por commodities brasileiras, menor entrada de dólares via exportação e, consequentemente, maior pressão de alta sobre o dólar hoje.
As bolsas asiáticas fecharam mistas, reagindo tanto aos dados fracos quanto às tentativas do banco central chinês de estimular a economia através de cortes de taxas. O índice Hang Seng, de Hong Kong, caiu 1,05%, enquanto o Nikkei japonês recuou 0,6%.
Acumulado e Tendências para a Semana
Analisando o desempenho recente, o dólar hoje tenta reverter uma tendência de queda observada no curto prazo. A moeda acumula um recuo de 0,16% na semana e de 2,27% tanto no mês quanto no ano. No entanto, a mudança abrupta no cenário geopolítico tem potencial para alterar essa trajetória técnica.
O Ibovespa, por sua vez, mostra resiliência com uma leve alta acumulada de 2,31% no ano, mas a abertura dos negócios às 10h será decisiva para testar se a bolsa brasileira conseguirá se descolar do pessimismo externo ou se sucumbirá à pressão que já eleva o dólar hoje.
Investidores devem monitorar atentamente os desdobramentos em Davos e qualquer nova declaração vinda da Casa Branca ou de Bruxelas. O mercado opera sob a máxima de que “incerteza gera volatilidade”, e no atual contexto, a volatilidade tem se traduzido em valorização da moeda refúgio.
A Dinâmica de Preços e o Futuro Imediato
O valor do dólar hoje é o resultado de um complexo equilíbrio entre fluxos comerciais, fluxos financeiros e expectativas futuras. A ameaça de tarifas de 10% a 25% sobre produtos europeus não afeta apenas a Europa; ela desorganiza as cadeias globais de valor e encarece o comércio internacional, gerando inflação em dólar e recessão em outras regiões.
Se o conflito escalar para uma guerra comercial de fato, a tendência é que o dólar hoje busque novos patamares de resistência, testando a banda superior das projeções do Boletim Focus. Por outro lado, se as negociações em Davos ou a diplomacia de bastidores conseguirem arrefecer os ânimos, poderemos ver um alívio na cotação.
O Brasil, com sua taxa Selic ainda em dois dígitos, possui um “colchão” de juros que protege parcialmente sua moeda, mas não é imune a choques externos dessa magnitude. A correlação entre o risco-país e o dólar hoje permanece alta.
Em resumo, a terça-feira se desenha como um dia de teste para a aversão ao risco. O investidor que acompanha o dólar hoje deve estar preparado para oscilações bruscas, guiadas mais pelas manchetes políticas internacionais do que pelos fundamentos microeconômicos locais. A disputa pela Groenlândia, que poderia parecer um tópico distante ou até anedótico, provou-se um gatilho real e perigoso para a estabilidade financeira global em 2026.






