O ministro da Fazenda, Dario Durigan, colocou a redução dos juros e a mudança na jornada de trabalho entre as prioridades econômicas para os próximos anos em um eventual novo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em entrevista nesta sexta-feira (21), o ministro afirmou que o governo pretende preservar medidas adotadas no atual mandato, mas reconheceu que o custo do crédito e a organização da jornada de trabalho continuam sendo dois pontos que exigem mudanças.
A declaração transforma dois assuntos que até recentemente caminhavam em frentes separadas — política monetária e legislação trabalhista — em componentes de uma mesma agenda econômica. De um lado está a tentativa de reduzir o peso dos juros sobre famílias, empresas e dívida pública; de outro, a proposta de diminuir de 44 para 40 horas a jornada máxima semanal e substituir, para grande parte dos trabalhadores, a escala de seis dias de trabalho por um de descanso pelo regime de cinco dias de trabalho e dois de folga.
“Os juros do cartão de crédito são absurdos, são abusivos, nós temos que lidar com esse tema. Os juros que as pessoas pagam no crediário, muitas vezes para as fintechs, é um juro que tem que ser tratado, e esse deve ser, junto com o fim da escala 6×1, o nosso enfoque para os próximos anos no Brasil”, afirmou Durigan.
A fala ocorre em um momento particularmente relevante para os dois temas. O Banco Central iniciou em 2026 um processo de redução gradual da Selic, enquanto a proposta constitucional que altera a jornada de trabalho conseguiu superar uma das principais barreiras políticas ao ser aprovada pela Câmara dos Deputados. As duas agendas, porém, ainda dependem de fatores que não estão sob controle exclusivo do Palácio do Planalto.
Selic caiu, mas continua em 14% ao ano
O custo do dinheiro permanece elevado apesar do início do ciclo de cortes promovido pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central. Em 5 de agosto, o Copom reduziu a taxa Selic de 14,25% para 14% ao ano, dando continuidade a uma trajetória de flexibilização iniciada depois de a taxa ter permanecido em 15% no começo de 2026.
A sequência ajuda a dimensionar a dificuldade apontada por Durigan. A Selic estava em 15% no fim de janeiro, caiu para 14,75% em março, para 14,50% em abril, para 14,25% em junho e chegou aos atuais 14% em agosto. Mesmo com a redução acumulada, a taxa básica permanece em nível suficientemente alto para encarecer o financiamento das empresas, afetar empréstimos às famílias e elevar o custo de carregamento da dívida pública.
O Banco Central, entretanto, não estabelece a Selic com o objetivo direto de baratear empréstimos. O mandato da autoridade monetária tem como referência o controle da inflação, e a própria decisão de agosto mostrou que o espaço para cortes continuará condicionado ao comportamento dos preços e das expectativas.
Ao anunciar a redução para 14%, o Copom afirmou que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuavam acima da meta, em 5% e 4,2%, respectivamente. O colegiado também mencionou as incertezas provocadas pelos conflitos no Oriente Médio e seus possíveis efeitos sobre commodities e preços internacionais.
Esse contexto torna a promessa de enfrentar os juros uma agenda mais complexa do que uma simples decisão administrativa. Embora o governo possa atuar sobre política fiscal, concorrência bancária, regulação do mercado de crédito e instrumentos específicos de financiamento, a definição da Selic cabe a um Banco Central com autonomia operacional.
Durigan associou parte da pressão inflacionária justamente ao cenário internacional. Segundo ele, decisões de bancos centrais não consideram apenas as contas públicas domésticas, mas também choques externos capazes de pressionar preços e expectativas.
“Quando o Banco Central brasileiro diz que está preocupado com preço e com inflação, não é só com a condição fiscal do país, é com guerra no mundo”, afirmou.
Fim da escala 6×1 já venceu etapa decisiva na Câmara
Na agenda trabalhista, o cenário é diferente. O fim da escala 6×1 deixou de ser apenas uma reivindicação ou uma promessa política e passou a integrar uma proposta de mudança constitucional já aprovada pela Câmara dos Deputados.
Em 27 de maio, os deputados aprovaram em dois turnos a PEC 221/2019. No segundo turno, foram 461 votos favoráveis e 19 contrários, uma margem ampla para uma proposta que altera a Constituição.
O texto aprovado não estabelece uma jornada de 36 horas, como algumas versões anteriores da discussão previam. A redação enviada ao Senado fixa uma jornada máxima de 40 horas semanais, distribuída em cinco dias de trabalho, garantindo dois dias de repouso semanal remunerado e sem redução salarial.
A implementação não seria imediata. A proposta estabelece uma transição para adaptação ao novo regime e prevê tratamento específico para determinadas atividades e situações profissionais. Isso é relevante porque os efeitos econômicos da mudança podem ser diferentes entre indústria, comércio, serviços, saúde, hotelaria, alimentação e outras atividades que dependem de funcionamento contínuo ou durante fins de semana.
Durigan já havia participado diretamente dessa discussão meses antes. Em maio, durante audiência na Câmara, o ministro defendeu que os ganhos de produtividade obtidos ao longo dos últimos anos poderiam ajudar a absorver uma redução da jornada sem diminuição de salários. Também se posicionou contra a criação de uma compensação fiscal generalizada para empresas afetadas pela mudança.
A posição da Fazenda é significativa porque parte da resistência empresarial à redução da jornada está justamente no impacto sobre custos. Empresas intensivas em mão de obra podem precisar reorganizar turnos ou ampliar contratações para manter o mesmo período de funcionamento.
Senado virou principal obstáculo para a mudança
Apesar da aprovação expressiva na Câmara, o fim da escala 6×1 ainda não entrou em vigor. A PEC chegou ao Senado em 28 de maio e precisa ser aprovada também pelos senadores em dois turnos, com o apoio mínimo de três quintos da Casa.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), decidiu que a proposta deve passar pelas comissões antes de chegar ao plenário. Ao justificar a decisão, afirmou que o Senado deveria analisar o conteúdo e não simplesmente confirmar uma matéria que havia passado por meses de discussão na Câmara.
Durante julho, o Senado realizou debates com representantes de trabalhadores, empresas, governos e especialistas. O calendário legislativo de 2026, entretanto, passou a sofrer influência direta do período eleitoral. As Casas programaram períodos de esforço concentrado para agosto e setembro, reduzindo a janela disponível para votações de propostas de grande impacto.
Por isso, ao apresentar o fim da escala 6×1 como prioridade para os próximos anos, Durigan também sinaliza que a pauta trabalhista poderá ultrapassar o calendário do atual mandato caso o Congresso não conclua a análise antes das eleições.
O tema ganhou dimensão eleitoral justamente porque seus efeitos são facilmente perceptíveis para o trabalhador. Diferentemente de discussões sobre resultado primário, dívida pública ou meta de inflação, a quantidade de dias de trabalho por semana afeta diretamente a rotina das famílias.
Fiscal será determinante para qualquer trajetória dos juros
Ao defender juros menores, Durigan também rejeitou a avaliação de que o Brasil estaria diante de uma crise fiscal ou de dívida. Segundo ele, o chamado déficit estrutural vem diminuindo e a situação fiscal precisa ser analisada levando em consideração tanto o esforço de ajuste das contas quanto a preservação das políticas sociais.
A discussão exige uma distinção entre indicadores. Resultado primário convencional, resultado considerado para efeito da meta fiscal e resultado fiscal estrutural são medidas diferentes e não podem ser tratadas como equivalentes.
O próprio Ministério da Fazenda calcula o resultado estrutural retirando fatores temporários, efeitos do ciclo econômico e eventos considerados não recorrentes. A metodologia procura estimar qual seria a situação das contas públicas em condições econômicas mais próximas do potencial do país.
Já o Prisma Fiscal mostra que instituições do mercado continuam projetando déficit primário nominal para o Governo Central em 2026. Na edição de agosto, a mediana das estimativas passou de R$ 58,077 bilhões para R$ 59,145 bilhões negativos.
Isso não invalida automaticamente a avaliação de Durigan sobre melhora estrutural, porque os indicadores medem fenômenos distintos. Mostra, porém, que a situação fiscal continuará sendo uma das variáveis observadas pelo mercado e pelo Banco Central na definição da trajetória futura dos juros.
Esse é justamente o ponto de contato entre as duas partes da agenda apresentada pelo ministro. Para que a redução do custo do crédito seja sustentável, a equipe econômica precisará combinar desaceleração da inflação, melhora das expectativas e percepção de estabilidade das contas públicas.
Crédito pode se tornar uma nova frente econômica
A fala de Durigan também amplia a discussão para além da Selic. Ao mencionar cartão de crédito, crediário e fintechs, o ministro diferencia a taxa básica definida pelo Banco Central dos juros efetivamente cobrados dos consumidores.
Essa diferença é fundamental. Mesmo quando a Selic cai, as taxas aplicadas no crédito ao consumidor podem continuar elevadas por causa do risco de inadimplência, custos administrativos, impostos, margens das instituições financeiras e características específicas de cada modalidade.
Isso significa que uma eventual agenda de redução do custo do dinheiro poderá exigir instrumentos adicionais à queda da Selic. Aumento da concorrência financeira, portabilidade, expansão de garantias, aperfeiçoamento dos cadastros de crédito e mudanças regulatórias são mecanismos capazes de influenciar o chamado spread bancário.
A combinação apresentada por Durigan desenha, portanto, uma agenda econômica com efeito direto sobre a renda disponível das famílias: menos tempo de trabalho sem redução salarial, de um lado, e menor comprometimento da renda com juros, de outro.
Transformar essa formulação em política efetiva, porém, será mais difícil do que apresentá-la como prioridade. O fim da escala 6×1 depende do Senado. A redução sustentável da Selic depende da inflação e das decisões do Banco Central. E a queda dos juros cobrados ao consumidor exige mudanças em um mercado de crédito no qual as taxas finais respondem a variáveis que vão muito além da política monetária.
É nesse conjunto de restrições que as declarações de Durigan ganham importância. Mais do que anunciar medidas imediatas, o ministro começa a delimitar quais problemas econômicos deverão ocupar o centro do debate de um eventual novo mandato de Lula: quanto o brasileiro trabalha e quanto paga para tomar dinheiro emprestado.







