Em depoimento prestado antes de ser preso pela Polícia Federal, o ex-presidente da RioPrevidência Deivis Marcon Antunes atribuiu à corretora Planner a intermediação de R$ 510 milhões em aportes do fundo de aposentadoria dos servidores fluminenses no Banco Master. O relato lança luz sobre uma operação que pode ter comprometido bilhões do patrimônio previdenciário do Estado do Rio de Janeiro.
O depoimento que conecta pontos — e cria novos
Há momentos em que um único documento muda a compreensão de um escândalo inteiro. O depoimento de Deivis Marcon Antunes, ex-presidente da RioPrevidência, prestado à Polícia Civil do Rio de Janeiro antes de sua prisão pela Polícia Federal, é exatamente esse tipo de documento.
Nele, Antunes atribui à corretora Planner a responsabilidade pela intermediação de quatro operações financeiras que totalizaram R$ 510 milhões em aportes do fundo de aposentadoria dos servidores estaduais do Rio de Janeiro no Banco Master. O valor é expressivo por si só — mas o que torna o depoimento ainda mais relevante é o mapa de conexões que ele ajuda a desenhar entre a RioPrevidência, a corretora Planner e o banco do polêmico Daniel Vorcaro.
O Estadão teve acesso ao teor do depoimento. Nele, Antunes detalha as quatro operações: uma de R$ 230 milhões, outra de R$ 120 milhões e duas de R$ 80 milhões cada. As aplicações foram feitas em letras financeiras do Banco Master — uma modalidade de investimento classificada pelo mercado como de alto risco, não recomendada para fundos previdenciários cujo objetivo primordial é a preservação do patrimônio dos beneficiários.
“A responsabilidade é da diretoria de investimentos” — e o jogo de culpas começa
A estratégia de defesa de Antunes no depoimento é clara: ele nega ter sido o tomador de decisão nos aportes e aponta para a diretoria de investimentos da RioPrevidência, então ocupada por Eucherrio Lenner, como a instância responsável pelas aplicações. O Estadão não conseguiu contato com Lenner, que também é investigado pela Polícia Federal.
“A autarquia contrata corretoras porque não tem mesa de operações”, explicou Antunes segundo o teor do depoimento, justificando o papel da Planner no processo. Segundo ele, a RioPrevidência escolhe as empresas que oferecem as melhores taxas de rentabilidade — uma afirmação que, se verdadeira, levanta perguntas sérias sobre os critérios de seleção utilizados e sobre quem efetivamente tomava as decisões de alocação do patrimônio previdenciário dos servidores fluminenses.
A dinâmica de responsabilização cruzada — o presidente aponta para a diretoria de investimentos, enquanto o destino do dinheiro levanta suspeitas sobre todos os envolvidos — é um padrão recorrente em investigações de gestão fraudulenta de fundos públicos. O que distingue este caso é a escala dos valores e a natureza do fundo atingido: o patrimônio previdenciário de servidores estaduais, destinado a garantir aposentadorias futuras, não tem a liquidez ou a tolerância ao risco que justificariam aplicações em letras financeiras de um banco sob escrutínio regulatório.
Quem é a Planner — e o elo que conecta a corretora ao Master
A corretora Planner não é investigada formalmente pela Polícia Federal no âmbito da Operação Barco de Papel, que apura suspeitas de gestão fraudulenta, desvio de recursos e corrupção envolvendo o sistema previdenciário fluminense. Mas o depoimento de Antunes a coloca no centro da narrativa — e há uma conexão societária que explica por que o nome da empresa aparece repetidamente quando se fala em RioPrevidência e Banco Master.
Maurício Quadrado foi sócio da Planner até 2020. Após deixar a corretora, ele se associou a Daniel Vorcaro no Banco Master. A sequência temporal — saída da Planner, ingresso no Master — não implica automaticamente qualquer irregularidade, mas cria uma trajetória que os investigadores certamente examinam com atenção em busca de padrões de relacionamento que possam ter facilitado a canalização de recursos previdenciários para o banco.
Procurada, a Planner respondeu com uma nota que rejeita qualquer irregularidade: a empresa afirma operar “dentro das absolutas regras do mercado”, ser regulada e auditada pelo BCB (Banco Central do Brasil), CVM (Comissão de Valores Mobiliários), BSM (Bovespa Supervisão de Mercados) e Anbima, e não ter recebido “qualquer questionamento sobre essas operações pelos referidos entes”. A corretora também afirma que “as operações foram por ela apenas executadas, sendo que a decisão de investir é dos investidores profissionais, que, por sua vez, possuem equipes e estrutura para escolher seus ativos”.
É uma defesa tecnicamente articulada que transfere a responsabilidade decisória de volta para a RioPrevidência — fechando um círculo em que cada parte aponta para outra como responsável pelas escolhas que resultaram em R$ 510 milhões de recursos previdenciários aplicados em um banco que acabaria liquidado.
A cronologia da crise: de setembro de 2025 ao colapso do Master
O depoimento de Antunes revela também detalhes importantes sobre como a RioPrevidência reagiu quando os primeiros sinais de crise no Banco Master vieram a público. Segundo o ex-presidente do fundo, quando surgiram notícias sobre as dificuldades financeiras do banco, em setembro de 2025, a autarquia cobrou do Master a devolução dos valores investidos ou a apresentação de novas garantias.
A resposta do banco, ainda de acordo com o depoimento, foi oferecer precatórios equivalentes a R$ 1,2 bilhão como garantia. O valor superava o montante investido pela RioPrevidência — o que, em tese, poderia ter representado uma solução para proteger o patrimônio do fundo. Mas o Banco Master foi liquidado antes que a operação de oferta de precatórios se concretizasse. O resultado: o fundo previdenciário ficou com um buraco de proporções que as investigações ainda estão tentando dimensionar com precisão.
O desfecho da tentativa de recuperação das garantias — uma promessa de R$ 1,2 bilhão que nunca se materializou porque o banco que fez a promessa já não existia mais — é um resumo cruel das fragilidades do processo decisório que levou a RioPrevidência a expor o patrimônio previdenciário dos servidores fluminenses a um risco que nunca deveria ter sido assumido.
A prisão de Antunes: de Guarulhos a Itatiaia, uma fuga que não chegou ao fim
A cronologia que levou à prisão de Deivis Marcon Antunes tem os elementos de um roteiro de suspense financeiro. O ex-presidente da RioPrevidência havia deixado a direção do fundo em 23 de janeiro de 2026, logo após a deflagração da Operação Barco de Papel pela Polícia Federal. A operação, que apura suspeitas de gestão fraudulenta, desvio de recursos e corrupção no sistema previdenciário dos servidores do Estado do Rio, havia colocado seu nome no centro das investigações.
Em 3 de fevereiro, quando os agentes da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal foram acionados para efetuar a prisão, Antunes estava desembarcando no Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo, de uma viagem aos Estados Unidos. Seu voo previa conexão em Guarulhos com destino ao Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.
O que aconteceu em seguida delineia o perfil de alguém que, percebendo o risco da situação, tentou uma manobra de última hora: Antunes não compareceu ao embarque para o Rio. Em vez disso, alugou um carro e seguiu pela Rodovia Presidente Dutra em direção ao Rio de Janeiro. Acabou preso em Itatiaia, município fluminense a cerca de 200 quilômetros de São Paulo — a menos de um terço do caminho até a segurança relativa que buscava no Estado do Rio.
A tentativa de fuga — se é que pode ser chamada assim, dado o desfecho previsível — acrescentou ao caso um elemento que complica ainda mais a posição de Antunes perante a Justiça. O STJ negou o habeas corpus movido pela sua defesa e manteve a prisão preventiva, em decisão do ministro Carlos Pires Brandão tomada no dia 13 de março.
O rombo que é 500 vezes maior que o prejuízo com o Master
Um dado que coloca em perspectiva a crise da RioPrevidência é a dimensão do problema estrutural que antecede e supera em muito o caso Banco Master: o déficit previdenciário do sistema dos servidores fluminenses ultrapassa R$ 20 bilhões anuais.
Em comparação com esse número, os aproximadamente R$ 1 bilhão que a RioPrevidência investiu em letras financeiras do Banco Master — e que pode não ser recuperado integralmente — representam uma parcela relevante, mas não a fonte principal das dificuldades do fundo. O rombo estrutural é, segundo analistas, cerca de 500 vezes maior que as perdas específicas com o Master.
Isso não diminui a gravidade das suspeitas de gestão fraudulenta que a Operação Barco de Papel investiga. Mas contextualiza o caso dentro de um problema mais amplo e mais antigo: um sistema previdenciário estadual cronicamente deficitário, que há décadas depende de aportes do governo estadual para honrar os pagamentos de aposentadorias e pensões — e que, nesse contexto de fragilidade estrutural, ficou suscetível a decisões de investimento que priorizaram rentabilidade sobre segurança.
O papel do BRB: uma solução para o rombo que ainda não decolou
Em meio ao caos investigativo, surgiu uma proposta de solução para parte do problema. O BRB — Banco de Brasília — estuda a criação de um fundo imobiliário para cobrir o rombo do Banco Master nos fundos previdenciários que aplicaram no banco, incluindo a RioPrevidência.
A proposta ainda enfrenta obstáculos regulatórios e de governança. A estrutura de um fundo imobiliário como mecanismo de compensação por perdas previdenciárias é incomum e levanta questões sobre a adequação do instrumento, a valoração dos ativos que o comporiam e a distribuição dos benefícios entre os diferentes credores afetados.
Mas a simples existência de uma proposta desta natureza indica que o caso RioPrevidência e Banco Master já atingiu uma dimensão em que os mecanismos ordinários de resolução de ativos — como um processo de liquidação bancária convencional — podem ser insuficientes para endereçar a escala do problema.
As conexões que ainda estão sendo desvendadas
O caso da RioPrevidência e Banco Master não é um episódio isolado. Ele se insere em um universo mais amplo de investigações que envolvem o Banco Master, Daniel Vorcaro e as conexões do banco com instituições públicas e privadas de diferentes naturezas.
Enquanto Vorcaro iniciava negociações para uma eventual delação premiada após ser transferido para a Superintendência da Polícia Federal em Brasília, a investigação sobre a RioPrevidência avançava em paralelo no Rio de Janeiro. São duas frentes de uma mesma investigação que podem se alimentar mutuamente — e cujos resultados combinados prometem revelar uma rede de relacionamentos entre o banco, fundos previdenciários e operadores financeiros cuja dimensão ainda está sendo mapeada.
A corretora Planner, que intermediou as operações segundo o depoimento de Antunes, nega irregularidades e aponta para a RioPrevidência como responsável pelas decisões de investimento. A RioPrevidência, por meio do seu ex-presidente preso, aponta para a diretoria de investimentos. A diretoria de investimentos, representada por Eucherrio Lenner, não foi localizada para comentar.
No centro de todas essas responsabilizações cruzadas, há um fato incontroverso: R$ 510 milhões do fundo de aposentadoria dos servidores do Estado do Rio de Janeiro foram aplicados em letras financeiras de um banco que foi liquidado. Quem perdeu, em última instância, foram os servidores públicos fluminenses que dependem desses recursos para garantir seus direitos previdenciários.
O que a Operação Barco de Papel ainda vai revelar — e por que o caso não termina aqui
A Operação Barco de Papel, que levou à prisão de Antunes e de outros investigados, está longe de encerrar suas apurações. A PF continua mapeando o fluxo de recursos, identificando os responsáveis pelas decisões de investimento e buscando evidências de enriquecimento ilícito, corrupção e desvio de verbas públicas.
O nome da operação — “Barco de Papel” — é uma metáfora que os investigadores escolheram com cuidado: descreve um sistema previdenciário que, apesar de aparente solidez na superfície, era construído sobre uma estrutura que não resistiria à primeira tempestade. A tempestade chegou com a liquidação do Banco Master, e o barco — previsível e tragicamente — afundou.
O que ficará nos autos, nas condenações e no debate público é uma pergunta que o caso RioPrevidência e Banco Master coloca com brutalidade sobre a gestão de recursos previdenciários públicos no Brasil: quem protege o dinheiro dos servidores quando os gestores que deveriam protegê-lo fazem escolhas que beneficiam a si próprios?







