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Empresas ampliam venda de dívidas vencidas enquanto crédito segue caro

Recovery projeta R$ 40 bilhões em cessões em 2026, enquanto número de empresas que venderam carteiras inadimplentes aumentou.

por Bruno Assis
16/09/2026 às 15h32
em Economia
Empresas Ampliam Venda De Dívidas Vencidas Enquanto Crédito Segue Caro-Gazeta Mercantil

Empresas brasileiras estão recorrendo com mais frequência à venda de carteiras de crédito inadimplente para transformar recebíveis de difícil recuperação em liquidez imediata. O mercado movimentou R$ 17 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento da Recovery, e a estimativa da companhia é que o volume anual alcance R$ 40 bilhões, acima dos R$ 34 bilhões registrados em 2025. A expansão ocorre em um ambiente em que o custo do dinheiro permanece elevado e a inadimplência continua pressionando consumidores e empresas.

A mudança mais visível está no número e no perfil dos vendedores. Entre janeiro e junho, 30 empresas cederam carteiras de créditos em atraso, contra 26 no mesmo período de 2025. Entre as fintechs, o número passou de oito para dez cedentes. No varejo, aumentou de quatro para sete. Indústria, agronegócio e mercado imobiliário também começaram a participar desse mercado com maior intensidade.

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A venda de uma carteira permite que a empresa antecipe parte do valor de créditos que dificilmente entraria no caixa no curto prazo. O comprador assume a tarefa de cobrança e paga pelo conjunto dos recebíveis um valor inferior ao montante nominal das dívidas. A diferença entre o preço de aquisição e o valor que posteriormente conseguir recuperar determina, em grande medida, a rentabilidade da operação.

O mecanismo ganha relevância diante do custo de financiamento. A Selic está em 14% ao ano desde agosto e o Comitê de Política Monetária iniciou em 15 de setembro uma nova reunião, cuja decisão está prevista para esta quarta-feira, 16. Até a definição, o custo básico do dinheiro permanece nesse patamar.

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Custo do crédito aumenta a pressão sobre o caixa das empresas

Os dados do Banco Central mostram que o encarecimento do crédito não está restrito à taxa básica. A taxa média das novas operações de crédito para pessoas jurídicas, considerando recursos livres e direcionados, chegou a 20,97% ao ano em julho de 2026. O indicador estava em 19,90% no encerramento de 2025 e em 21,59% em julho daquele ano. A comparação mostra uma redução em relação ao pico de julho de 2025, mas o custo permanece superior ao registrado no fim do ano passado.

Na carteira de pessoas jurídicas, a inadimplência também avançou. A série do Banco Central, que considera operações com pelo menos uma parcela atrasada por mais de 90 dias, passou de 2,70% em dezembro de 2025 para 3,31% em julho de 2026. Em julho do ano anterior, o indicador estava em 2,79%. Em sete meses, portanto, a taxa aumentou 0,61 ponto percentual.

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Esse movimento ajuda a explicar por que a administração de recebíveis problemáticos se tornou uma questão financeira, e não apenas operacional. Manter uma carteira vencida exige estrutura de cobrança, acompanhamento jurídico e provisionamento, enquanto sua venda transforma o ativo de recuperação incerta em caixa, ainda que com desconto.

O próprio Banco Central passou a trabalhar, desde janeiro de 2025, com a implementação das novas regras contábeis baseadas em perdas esperadas para o risco de crédito. A mudança substituiu a antiga lógica de classificação de risco como referência obrigatória por um sistema de estágios para constituição de provisões, tornando mais prospectivo o reconhecimento das perdas.

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A nova metodologia não significa que uma instituição seja obrigada a vender créditos problemáticos, mas altera a forma como o risco de deterioração é refletido em seus balanços. Para empresas financeiras, a decisão entre manter determinada carteira, intensificar a cobrança, renegociar ou ceder o ativo passa a considerar também seus efeitos sobre provisões, capital e resultado.

Mercado precisa quase triplicar o ritmo para atingir R$ 40 bilhões

O mercado de cessão de carteiras movimentou R$ 17 bilhões entre janeiro e junho, valor semelhante ao registrado no primeiro semestre de 2025. A estimativa de R$ 40 bilhões para todo o ano, portanto, depende de uma aceleração significativa no segundo semestre. Para alcançar a projeção, seriam necessários outros R$ 23 bilhões entre julho e dezembro, 35,3% acima do volume realizado nos primeiros seis meses.

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Considerando os R$ 34 bilhões registrados em 2025, a previsão de R$ 40 bilhões representa crescimento nominal de R$ 6 bilhões, ou 17,6%. O resultado também ficaria acima do aumento de 21,4% registrado pelo mercado de 2024 para 2025, segundo os dados apresentados pela Recovery.

A comparação ajuda a dimensionar a diferença entre crescimento do mercado e aceleração no número de participantes. O volume financeiro do primeiro semestre permaneceu praticamente estável, mas a quantidade de cedentes aumentou de 26 para 30. Isso indica uma diversificação da oferta de créditos, mesmo sem expansão proporcional do valor negociado na primeira metade do ano.

O movimento também ocorre em diferentes segmentos. As fintechs passaram a representar uma parcela maior das empresas que utilizam a cessão, enquanto o varejo quase dobrou sua presença no levantamento. A entrada de companhias que anteriormente mantinham a cobrança internamente amplia a oferta disponível para empresas especializadas em aquisição e recuperação de créditos.

Para os cedentes, uma carteira vencida pode ter valor contábil elevado e, ao mesmo tempo, gerar pouco caixa no curto prazo. A cessão reduz o valor potencial que seria obtido caso a cobrança fosse integralmente bem-sucedida, mas antecipa recursos e elimina parte dos custos associados à recuperação.

Inadimplência dos consumidores mantém oferta de créditos problemáticos

O mercado corporativo de créditos em atraso também é influenciado pela capacidade de pagamento das famílias. Em agosto, 73,71 milhões de consumidores estavam inadimplentes no Brasil, segundo CNDL e SPC Brasil. O contingente correspondia a 43,9% da população adulta. Em relação a julho, houve redução de 1,89% no número de consumidores negativados, mas a quantidade de dívidas em atraso aumentou 10,28% em 12 meses.

O dado é relevante para o mercado de compra de carteiras porque parte expressiva dos créditos cedidos por instituições financeiras, varejistas e outros segmentos está relacionada a obrigações de consumidores. Quanto maior o tempo de atraso e menor a capacidade de pagamento, maior tende a ser o desconto aplicado sobre o valor de face do crédito.

A concentração das dívidas também pesa na composição desse mercado. Segundo CNDL e SPC Brasil, os bancos respondiam por 65,8% dos débitos registrados em agosto. A informação reforça o papel das instituições financeiras como fornecedores de carteiras, embora o avanço de varejistas e fintechs esteja diversificando a origem dos créditos comercializados.

A Recovery, do grupo Itaú, administra mais de R$ 144 bilhões em créditos inadimplidos e possui uma base superior a 33 milhões de pessoas com dívidas ativas. A empresa atua justamente no estágio em que parte dos credores considera menos eficiente manter internamente a cobrança de determinados créditos.

Cessão transforma inadimplência em mercado especializado

A lógica econômica da operação depende do equilíbrio entre desconto e recuperação. Uma instituição pode ter R$ 100 milhões em créditos vencidos no valor nominal, mas não necessariamente espera receber os R$ 100 milhões. Ao vender essa carteira, aceita um valor menor e transfere ao comprador o risco de recuperar os recebíveis.

Para o comprador, a operação só é atraente quando o preço pago permite cobrir despesas de cobrança, perdas nos créditos que não serão recuperados e demais custos, preservando margem sobre o montante efetivamente recebido.

Isso cria uma diferença importante entre o valor das carteiras e o dinheiro efetivamente desembolsado nas cessões. O volume de R$ 17 bilhões divulgado para o primeiro semestre se refere ao mercado de créditos cedidos e não deve ser interpretado como o valor nominal total das dívidas que estavam originalmente registradas nas carteiras.

O crescimento do mercado também não significa, isoladamente, que todas as empresas estejam enfrentando deterioração financeira na mesma intensidade. A decisão de vender créditos pode estar associada à estratégia de capital, à mudança do modelo de cobrança, à necessidade de liquidez ou à preferência por concentrar recursos em outras atividades.

Para instituições financeiras, a nova estrutura de reconhecimento de perdas reforça a importância de avaliar antecipadamente a deterioração das carteiras. O Banco Central observa que a implementação das regras de perdas esperadas aumenta a necessidade de qualidade na gestão de risco e na estimação das perdas pelas instituições supervisionadas.

O movimento, portanto, combina três fatores diferentes: a necessidade de administrar ativos inadimplentes, o custo ainda elevado do crédito e a existência de investidores e empresas especializados em comprar recebíveis problemáticos.

Segundo semestre será decisivo para o mercado

A projeção de R$ 40 bilhões para 2026 coloca os últimos seis meses do ano como etapa decisiva para o setor. O mercado teria de registrar R$ 23 bilhões em novas cessões no segundo semestre para atingir a estimativa da Recovery, montante significativamente superior aos R$ 17 bilhões registrados entre janeiro e junho.

O desempenho dependerá tanto da disposição dos credores em vender quanto da capacidade dos compradores de absorver novas carteiras. A expansão do número de cedentes indica que a oferta está se diversificando, enquanto o nível de inadimplência e o custo do crédito mantêm um ambiente favorável à busca por alternativas de liquidez.

A evolução da Selic também terá influência sobre esse mercado, embora seus efeitos não sejam imediatos. Uma eventual redução da taxa básica pode diminuir gradualmente o custo de financiamento, mas a transmissão para as taxas cobradas das empresas depende das condições de captação, do risco de crédito, das garantias e da percepção das instituições financeiras.

Enquanto essas condições permanecem restritivas, a venda de créditos vencidos funciona como mais uma ferramenta de gestão de balanço e caixa. O avanço projetado para 2026 mostra que a cessão deixou de ser uma alternativa concentrada em grandes bancos e passou a alcançar um conjunto mais amplo de empresas, transformando dívidas em atraso em uma classe de ativos negociada por um mercado especializado.

Fontes:

Banco Central do Brasil – séries de taxa média de juros das operações de crédito para pessoas jurídicas e inadimplência da carteira de pessoas jurídicas

Banco Central do Brasil – regras e implementação do modelo de provisão para perdas esperadas associadas ao risco de crédito

CNDL e SPC Brasil – Indicador de Inadimplência de agosto de 2026

Recovery, do Grupo Itaú – levantamento do mercado brasileiro de cessão de carteiras inadimplentes no primeiro semestre de 2026

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