O Banco Mundial nomeou nesta quarta-feira, 16 de setembro, o economista americano Michael Kremer, vencedor do Prêmio de Economia de 2019, para os cargos de economista-chefe do Grupo Banco Mundial e vice-presidente sênior de Economia do Desenvolvimento. A nomeação passa a valer em 1º de outubro e coloca Kremer no comando da área responsável pela agenda de pesquisa, dados e análise da instituição em um momento em que o banco procura aproximar mais diretamente produção de conhecimento, formulação de políticas e execução de projetos.
Kremer chegará ao posto onze dias antes do início das Reuniões Anuais de 2026 do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, marcadas para 12 a 18 de outubro, em Bangcoc, na Tailândia. A programação concentra parte das discussões justamente em temas que aparecem entre as prioridades do novo economista-chefe, como criação de empregos, mobilização de capital privado, crescimento e uso de inteligência artificial. A sessão plenária está prevista para 16 de outubro, enquanto a reunião do Comitê de Desenvolvimento ocorrerá no dia 15.
A nomeação também representa uma mudança no comando ocupado por Indermit Gill, economista-chefe e vice-presidente sênior de Economia do Desenvolvimento desde 1º de setembro de 2022. Gill ainda aparece em documentos e eventos recentes do Banco Mundial como titular da função. O comunicado divulgado nesta quarta-feira não informou qual será seu próximo cargo.
Kremer assume área que influencia pesquisa, dados e políticas de desenvolvimento
O economista-chefe do Banco Mundial não se limita à produção de projeções macroeconômicas. A posição lidera a estrutura de Economia do Desenvolvimento, responsável por pesquisas, bases de dados, diagnósticos e estudos usados para orientar governos, operações de financiamento e prioridades internas da instituição. Ao anunciar a escolha, o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga, destacou a experiência de Kremer em identificar políticas que produzem resultados e testar sua aplicação em escala.
Esse perfil acompanha a trajetória acadêmica do economista. Kremer dividiu o Prêmio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel de 2019 com Abhijit Banerjee e Esther Duflo. O trio foi reconhecido pelo desenvolvimento de uma abordagem experimental para combater a pobreza global, baseada na divisão de problemas amplos em questões menores e na avaliação de intervenções específicas em áreas como educação e saúde.
A contribuição alterou a forma como parte da economia do desenvolvimento passou a avaliar políticas públicas. Em pesquisas realizadas desde os anos 1990, Kremer e outros pesquisadores testaram intervenções diretamente entre populações afetadas, inclusive no Quênia, permitindo comparar resultados e identificar programas com efeitos mensuráveis. O método se tornou referência para avaliações experimentais e aproximou a pesquisa acadêmica da implementação de políticas.
No Banco Mundial, essa experiência ganha dimensão adicional porque a instituição combina capacidade de pesquisa, financiamento e presença operacional em dezenas de países. Kremer afirmou que pretende trabalhar na criação de empregos em escala, na mobilização de capital privado para o desenvolvimento e na ampliação do acesso a saúde, educação e outros serviços essenciais, além de explorar oportunidades abertas por novas tecnologias.
Déficit potencial de empregos pode chegar a 800 milhões
A ênfase em empregos corresponde a uma das principais preocupações atuais do Banco Mundial. Ajay Banga tem afirmado que aproximadamente 1,2 bilhão de jovens nos países em desenvolvimento chegarão à idade de trabalhar nos próximos dez a quinze anos, enquanto as projeções utilizadas pela instituição indicam geração de cerca de 400 milhões de postos de trabalho no período.
A diferença entre as duas estimativas é de aproximadamente 800 milhões de pessoas. O número dimensiona o problema que estará entre os temas centrais do mandato de Kremer: não basta acelerar o Produto Interno Bruto se investimento, infraestrutura, educação, tecnologia e expansão empresarial não produzirem oportunidades em quantidade suficiente para acompanhar o crescimento da população em idade ativa.
O debate aparecerá já nas Reuniões Anuais de Bangcoc. O programa prevê, em 12 de outubro, uma discussão sobre inteligência artificial e empregos e, em 14 de outubro, um evento dedicado à mobilização de capital privado para geração de postos de trabalho, infraestrutura e crescimento. A proximidade entre a posse e o encontro internacional transforma as reuniões em uma das primeiras grandes agendas institucionais sob o novo comando da área econômica.
O desafio se combina com um ambiente de crescimento moderado. Em janeiro, o Banco Mundial projetou desaceleração das economias em desenvolvimento de 4,2% em 2025 para 4% em 2026, seguida de avanço para 4,1% em 2027. Nos países de baixa renda, a expansão deverá atingir média de 5,6% em 2026 e 2027, desempenho superior ao do conjunto das economias emergentes, mas ainda insuficiente, segundo a instituição, para eliminar a diferença de renda em relação aos países avançados.
Pesquisas do novo economista-chefe chegaram a dezenas de países
A escolha de Kremer reforça a tentativa de transformar pesquisas em programas com aplicação prática. Um dos exemplos apresentados pelo Banco Mundial é o trabalho desenvolvido com Rachel Glennerster sobre os chamados Advance Market Commitments, mecanismo destinado a criar demanda previsível para estimular desenvolvimento e oferta de determinados produtos. O modelo foi aplicado em um compromisso de US$ 1,5 bilhão para uma vacina contra o pneumococo, em parceria com a Gavi e o Banco Mundial.
Segundo a instituição, vacinas adquiridas por meio desse mecanismo chegaram a 60 países em desenvolvimento. Em outra frente, pesquisas sobre desparasitação contribuíram para programas implementados por governos da África e do Sul da Ásia que distribuíram 2 bilhões de tratamentos a crianças desde 2014.
Kremer também passou a atuar na interseção entre tecnologia digital, agricultura e previsão meteorológica. O Banco Mundial afirma que seus estudos envolvendo agricultura digital e previsão do tempo apoiada por inteligência artificial contribuíram para programas governamentais que alcançam mais de 50 milhões de pessoas na África e no Sul da Ásia. Nesse campo, informações mais precisas podem afetar decisões de pequenos produtores sobre plantio, insumos, crédito e comercialização.
Outro componente de sua trajetória é a Development Innovation Ventures, iniciativa ligada à Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, da qual Kremer foi cofundador. Segundo os dados apresentados pelo Banco Mundial, o programa investiu em mais de 300 inovações e alcançou mais de 200 milhões de pessoas. O economista dirige atualmente o Development Innovation Lab da Universidade de Chicago, onde é professor, e anteriormente ocupou uma cátedra em Harvard, instituição na qual concluiu seu doutorado em Economia.
Compromissos do Grupo Banco Mundial cresceram 21,7% em 2025
Kremer também assume em uma instituição que ampliou significativamente seu volume de operações financeiras. No exercício fiscal de 2025, os compromissos do Grupo Banco Mundial somaram US$ 161,9 bilhões, contra US$ 133,1 bilhões em 2024. A diferença de aproximadamente US$ 28,9 bilhões representa crescimento de 21,7% em um ano, cálculo feito a partir dos números divulgados pela própria instituição.
Os desembolsos aumentaram em ritmo menor, de US$ 80,8 bilhões para US$ 86,9 bilhões, avanço de aproximadamente 7,5%. Compromissos e desembolsos medem etapas distintas das operações: financiamentos aprovados podem ser liberados gradualmente durante vários anos, conforme o cronograma e o cumprimento das condições previstas em cada projeto.
Na Associação Internacional de Desenvolvimento, braço do Banco Mundial voltado ao financiamento concessional de países de baixa renda, os compromissos alcançaram US$ 39,9 bilhões no exercício de 2025, distribuídos por 303 operações. Foram US$ 31,1 bilhões em créditos, US$ 8,2 bilhões em doações e US$ 600 milhões em garantias. Os créditos representaram cerca de 78% do total comprometido pela IDA no período.
O aumento da capacidade financeira amplia a importância de determinar quais políticas e projetos podem produzir resultados replicáveis. É nesse ponto que a experiência de Kremer com avaliação empírica se conecta à função. O economista-chefe não decide isoladamente a destinação dos financiamentos, mas lidera uma estrutura que produz evidências e diagnósticos utilizados para orientar políticas, avaliar resultados e melhorar o desenho das intervenções.
Primeira grande agenda internacional ocorrerá duas semanas após a posse
O Banco Mundial tem procurado fortalecer a ligação entre conhecimento produzido internamente e impacto operacional. A nomeação de Kremer segue essa direção: sua carreira reúne pesquisa, testes de intervenções e participação na expansão de programas de saúde, agricultura, educação e inovação para diferentes países.
A abordagem experimental, porém, precisa ser combinada com fatores macroeconômicos e institucionais. Uma política eficaz em determinada região ou população não necessariamente produzirá resultado idêntico quando reproduzida em outro país ou ampliada nacionalmente. A função de economista-chefe exige considerar também condições fiscais, dívida, investimento, comércio, produtividade, mercado de trabalho e capacidade institucional.
A partir de 1º de outubro, Kremer passará a liderar essa agenda em uma instituição que registra mais de US$ 160 bilhões anuais em compromissos e que colocou a geração de empregos entre suas prioridades. Poucos dias depois, ministros da Fazenda, presidentes de bancos centrais, investidores e representantes de organismos multilaterais estarão reunidos em Bangcoc para discutir justamente crescimento, investimento, emprego e novas tecnologias, colocando o novo economista-chefe diante das principais questões de seu mandato logo nas primeiras semanas no cargo.
Fontes:
Grupo Banco Mundial – comunicado de 16 de setembro de 2026 sobre a nomeação de Michael Kremer e informações sobre sua trajetória, pesquisas e início do mandato
Grupo Banco Mundial – programação oficial das Reuniões Anuais de 2026 do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional em Bangcoc
Nobel Prize – documentação oficial do Prêmio de Ciências Econômicas de 2019 concedido a Michael Kremer, Abhijit Banerjee e Esther Duflo
Grupo Banco Mundial – resumo financeiro do exercício fiscal de 2025, com compromissos, desembolsos e operações da Associação Internacional de Desenvolvimento
Grupo Banco Mundial – Perspectivas Econômicas Globais de janeiro de 2026 e dados sobre crescimento das economias em desenvolvimento
Grupo Banco Mundial – informações institucionais sobre Indermit Gill e registros de sua atuação como economista-chefe e vice-presidente sênior de Economia do Desenvolvimento








