O endividamento das famílias brasileiras caiu pela primeira vez em 2026 e foi acompanhado por uma redução da inadimplência, interrompendo uma sequência de meses em que o orçamento doméstico vinha mostrando sinais de maior pressão. A parcela de famílias com algum compromisso financeiro a vencer passou de 82% em agosto para 81,7% em setembro, enquanto o percentual com contas em atraso caiu de 29,9% para 29,6%, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a Peic, da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. O resultado ainda representa uma melhora moderada, mas ganha relevância por ocorrer justamente entre as famílias de menor renda, que concentram os maiores índices de dificuldade para manter os pagamentos em dia.
Outros indicadores reforçam esse movimento. A proporção de famílias que se consideram muito endividadas recuou de 17,9% para 17,3%, enquanto aumentou o grupo que declarou não possuir dívidas a vencer. Ao mesmo tempo, a inadimplência ficou abaixo dos 30,5% registrados em setembro de 2025, sinalizando uma melhora também na comparação anual. A expectativa da CNC é de que o endividamento termine 2026 próximo de 81,5%, o que indicaria estabilidade nos últimos meses do ano após a alta observada desde dezembro.
A pesquisa, no entanto, também mostra que a recuperação não ocorre da mesma forma para todos os consumidores. Entre aqueles que continuam inadimplentes, o tempo médio das dívidas em atraso aumentou e quase metade das contas vencidas já supera 90 dias. O quadro de setembro é, portanto, de melhora nos indicadores gerais, mas ainda com uma parcela relevante das famílias enfrentando dificuldades prolongadas para reorganizar o orçamento.
Primeira queda do ano interrompe avanço iniciado em dezembro
O endividamento havia encerrado dezembro de 2025 em 80,9% e avançou ao longo dos primeiros meses de 2026, até atingir 82,2% em abril e maio. Depois de permanecer próximo desse patamar durante boa parte do ano, setembro marcou a primeira redução em relação ao mês imediatamente anterior. A queda de 0,3 ponto percentual é pequena em termos absolutos, mas interrompe uma trajetória que vinha sendo acompanhada com atenção por economistas e pelo comércio, já que o nível de dívidas influencia diretamente a capacidade de consumo das famílias.
A própria definição de endividamento ajuda a dimensionar o resultado. A Peic considera como endividada qualquer família que tenha compromissos financeiros a vencer, incluindo cartão de crédito, cheque especial, carnês, empréstimos, crédito consignado e financiamentos. Isso significa que uma família pode estar endividada sem apresentar qualquer dificuldade financeira, desde que continue pagando normalmente suas prestações. A inadimplência, por outro lado, aparece quando essas contas deixam de ser quitadas no prazo.
Por isso, a combinação observada em setembro é mais favorável do que uma simples redução do endividamento. Ao mesmo tempo em que diminuiu a parcela de famílias com dívidas, caiu também o percentual daquelas que estavam efetivamente com pagamentos atrasados. É essa dupla movimentação que torna o resultado mais positivo do que o observado em meses anteriores.
Inadimplência caiu em três das quatro faixas de renda
A melhora das contas atrasadas foi disseminada pela maior parte das faixas de renda analisadas. Entre as famílias que recebem até três salários mínimos, a inadimplência caiu de 38,8% em agosto para 38,5% em setembro. Na faixa entre três e cinco salários mínimos, o percentual passou de 28% para 27,8%, enquanto entre aquelas com renda de cinco a dez salários mínimos houve redução de 20,3% para 20,2%.
A única alta foi registrada entre famílias com renda superior a dez salários mínimos, onde a inadimplência passou de 14,9% para 15%. A variação, de apenas 0,1 ponto percentual, foi pequena e mantém esse grupo com o menor nível de contas em atraso entre as quatro faixas pesquisadas. Ainda assim, o comportamento diferente mostra que o movimento de melhora não foi uniforme.
Entre as famílias de menor renda, a redução ganha importância porque ocorre sobre uma base muito mais elevada de inadimplência. Mesmo depois da queda, 38,5% das famílias que recebem até três salários mínimos continuam com contas vencidas, mais que o dobro dos 15% observados entre aquelas que ganham acima de dez salários. A diferença mostra que a recuperação do crédito doméstico ainda convive com uma desigualdade acentuada na capacidade de pagamento.
Menor renda também puxou redução do endividamento
O movimento positivo aparece também quando se considera o conjunto das dívidas, e não apenas aquelas em atraso. Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o endividamento recuou de 85,1% para 84,6%. Na faixa entre três e cinco salários mínimos, caiu de 83,7% para 83,3%, enquanto entre aquelas com renda superior a dez salários passou de 72,3% para 71,9%.
A exceção ocorreu entre as famílias que recebem de cinco a dez salários mínimos, onde a parcela de endividados subiu de 77,2% para 77,9%. Apesar dessa alta, a melhora registrada nas demais faixas foi suficiente para reduzir o indicador nacional e produzir a primeira queda mensal de 2026.
O comportamento das famílias de renda mais baixa merece atenção porque esse grupo costuma ser mais sensível às oscilações no preço dos alimentos, transporte, energia e outros gastos essenciais. Quando há melhora simultânea do emprego, da renda ou da capacidade de reorganizar compromissos financeiros, o efeito pode aparecer rapidamente na inadimplência, mesmo que o nível total de endividamento continue alto.
Mais famílias chegam a setembro sem dívidas a vencer
Outro dado favorável da pesquisa foi o crescimento da proporção de famílias que não possuem dívidas a vencer. O percentual passou de 17,4% em agosto para 18,1% em setembro, uma alta de 0,7 ponto percentual em apenas um mês. Esse movimento foi acompanhado pela redução da parcela que se considera muito endividada, de 17,9% para 17,3%.
A combinação dos dois indicadores sugere uma pequena melhora na organização financeira dos consumidores. Cresceu o número de famílias sem compromissos futuros e diminuiu o grupo que considera excessivo o próprio nível de dívidas. O percentual de famílias que declararam não ter condições de pagar as contas atrasadas permaneceu em 12,5%, abaixo dos 13% registrados no mesmo período do ano passado.
Embora não seja possível atribuir essa melhora a um único fator, a manutenção de um mercado de trabalho relativamente forte contribui para dar maior previsibilidade à renda e facilita o planejamento dos pagamentos. Para famílias que já carregam prestações de cartão, financiamentos ou empréstimos, a segurança sobre a entrada de recursos no mês seguinte pode ser tão importante quanto o próprio valor da renda.
Orçamento continua pressionado apesar da melhora
A queda do endividamento não significa que as famílias brasileiras estejam livres da pressão financeira. Em média, 29,6% da renda mensal continua comprometida com o pagamento de dívidas, e para 19,4% das famílias esse percentual supera a metade de todos os rendimentos disponíveis no mês.
O dado mostra que quase uma em cada cinco famílias entra no mês com mais de 50% da renda já destinada a compromissos financeiros. Quanto maior essa parcela, menor é a margem para enfrentar gastos inesperados ou absorver aumentos de despesas essenciais sem recorrer novamente ao crédito.
Também aumentou a participação das dívidas de longo prazo. Em setembro, 33,8% dos compromissos possuíam vencimento superior a um ano. Esse alongamento pode ajudar a reduzir o valor das prestações e aliviar o orçamento mensal, mas mantém parte da renda comprometida durante mais tempo. Em outras palavras, uma família pode ganhar fôlego no curto prazo sem necessariamente reduzir rapidamente o estoque de dívidas.
Contas vencidas estão demorando mais para ser pagas
O principal ponto de atenção da pesquisa aparece entre as famílias que ainda não conseguiram regularizar suas contas. O tempo médio das dívidas em atraso chegou a 65,3 dias em setembro, maior nível desde novembro de 2024, quando havia alcançado 65,5 dias. Foi o segundo mês consecutivo de aumento.
Além disso, 48,9% das dívidas atrasadas já estavam vencidas havia mais de 90 dias. Isso significa que praticamente metade das contas inadimplentes permanece aberta por pelo menos três meses, período suficiente para que juros, multas e novas despesas tornem a regularização mais difícil.
Esse comportamento não contradiz a queda da inadimplência. É possível que algumas famílias tenham conseguido quitar ou renegociar seus débitos e deixado o grupo de inadimplentes, enquanto aquelas que permanecem nessa condição carregam dívidas cada vez mais antigas. O resultado revela uma melhora quantitativa no número de consumidores em atraso, mas um desafio ainda relevante para quem não conseguiu sair dessa situação.
Setembro melhora perspectiva para o fim do ano
A primeira queda do endividamento em 2026 não configura, por si só, uma mudança definitiva de tendência, mas altera o quadro observado até agosto. Pela primeira vez no ano, o país registrou simultaneamente redução do endividamento, queda da inadimplência, diminuição da parcela de famílias muito endividadas e crescimento do grupo que não possui dívidas a vencer.
A melhora entre as faixas de menor renda reforça o resultado, principalmente porque são justamente esses consumidores que enfrentam os maiores níveis de inadimplência e possuem menos espaço no orçamento para absorver imprevistos. Se o movimento continuar nos próximos meses, a projeção da CNC de encerrar o ano com endividamento próximo de 81,5% poderá ser alcançada sem uma nova deterioração das contas domésticas.
O principal desafio continua concentrado nas dívidas antigas. A redução do número de famílias inadimplentes será mais consistente se vier acompanhada, nos próximos levantamentos, de queda no tempo médio de atraso e no percentual de contas vencidas há mais de três meses.
Por enquanto, setembro representa o primeiro sinal mais amplo de alívio em 2026: menos famílias estão endividadas, menos consumidores possuem contas vencidas e cresceu a parcela daqueles que chegaram ao mês sem dívidas a pagar.
Fontes:
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo — Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor de setembro de 2026
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo — série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua









