O empresário Erasmo Carlos Battistella, presidente da Be8 e um dos principais nomes da indústria brasileira de biodiesel, entrou simultaneamente no financiamento das campanhas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Os registros da prestação de contas eleitoral mostram duas doações de R$ 500 mil, uma para cada candidatura, realizadas em 4 de setembro. Somadas, as contribuições chegam a R$ 1 milhão e colocam Battistella entre os maiores doadores pessoas fÃsicas das eleições de 2026 até o momento.
O movimento chama atenção não apenas pelo valor, mas pelo equilÃbrio exato entre os dois principais adversários na corrida presidencial. Battistella aparece como o maior doador pessoa fÃsica declarado tanto na campanha de Lula quanto na de Flávio Bolsonaro, segundo os dados disponÃveis no DivulgaCandContas, sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A maior parte dos recursos das duas candidaturas, no entanto, vem dos respectivos partidos, e não de doações individuais.
Em nota, a assessoria do empresário afirmou que as contribuições foram feitas em caráter pessoal e dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral. Não há, nas informações disponÃveis até agora, qualquer elemento que indique irregularidade nos repasses ou que associe as doações a algum tipo de contrapartida. A legislação permite que uma mesma pessoa financie candidatos de partidos diferentes, desde que respeite os limites previstos para doações de pessoas fÃsicas.
O episódio ganha uma dimensão adicional porque Battistella não é um empresário distante das polÃticas públicas federais. Ele integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, órgão de assessoramento da Presidência da República, e ocupa posição relevante na representação do setor de biocombustÃveis, uma atividade diretamente afetada por decisões regulatórias tomadas pelo governo federal.
R$ 500 mil para cada lado no mesmo dia
Os dados eleitorais mostram uma caracterÃstica pouco comum no financiamento da disputa presidencial: Battistella não dividiu os recursos de maneira desigual nem privilegiou financeiramente uma candidatura. Em 4 de setembro, Lula registrou uma doação de R$ 500 mil do empresário. Na mesma data, a campanha de Flávio Bolsonaro também declarou o recebimento de R$ 500 mil.
O resultado é uma distribuição perfeitamente equilibrada entre PT e PL. Levantamento do financiamento eleitoral feito a partir dos dados do TSE coloca Battistella, neste momento da campanha, entre os dez maiores doadores individuais do PaÃs, considerando as contribuições destinadas à s diferentes candidaturas. No caso dele, os R$ 1 milhão estão divididos igualmente entre dois presidenciáveis que representam campos polÃticos opostos.
A legislação brasileira não exige exclusividade polÃtica do doador. Desde que as doações empresariais foram proibidas, o financiamento privado das campanhas ficou concentrado em pessoas fÃsicas, que podem destinar recursos a uma ou mais candidaturas. A regra para 2026 estabelece que cada indivÃduo pode doar até 10% de seus rendimentos brutos obtidos no ano anterior à eleição.
O limite é calculado sobre a renda da pessoa, e não sobre o patrimônio ou o tamanho das empresas das quais ela participa. Eventual extrapolação pode gerar multa e outras consequências eleitorais, mas não há indicação pública, até o momento, de que as contribuições feitas por Battistella tenham ultrapassado o teto permitido.
A Be8 também ressaltou que as operações eleitorais são pessoais, distinguindo os repasses da atividade empresarial. Essa separação é juridicamente importante porque pessoas jurÃdicas não podem financiar diretamente campanhas eleitorais no Brasil.
Quem é Erasmo Battistella
Natural do Rio Grande do Sul, Erasmo Carlos Battistella construiu sua trajetória empresarial principalmente no agronegócio e no setor de energia renovável. É fundador do grupo que deu origem à atual Be8, companhia criada em Passo Fundo em 2005, inicialmente sob o nome BSBios.
A empresa cresceu acompanhando a expansão do programa brasileiro de biodiesel e hoje figura entre as maiores produtoras do combustÃvel no PaÃs. Em 2025, a Be8 ultrapassou R$ 10 bilhões em receita lÃquida, crescimento de 36% sobre o ano anterior, registrou Ebitda de aproximadamente R$ 809 milhões e lucro lÃquido próximo de R$ 488 milhões.
A expansão também ocorreu por aquisições. A companhia incorporou unidades de produção em diferentes Estados e chegou a uma capacidade instalada próxima de 1,7 bilhão de litros por ano. Segundo dados divulgados pela própria empresa, sua participação potencial no mercado brasileiro de biodiesel supera 15%.
Além da produção tradicional, o grupo vem ampliando investimentos em etanol, combustÃveis de baixo carbono e outras tecnologias relacionadas à transição energética. A atuação internacional inclui operações e escritórios fora do Brasil, enquanto o controle dos negócios permanece ligado ao ECB Group, fundado por Battistella.
Essa dimensão empresarial ajuda a explicar a relevância polÃtica e econômica de sua presença no debate sobre energia. Decisões sobre a porcentagem obrigatória de biodiesel misturada ao diesel convencional têm impacto direto sobre a demanda da indústria e, consequentemente, sobre produtores como a Be8.
Empresário integra Conselhão do governo Lula
Battistella também faz parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, recriado pelo governo Lula em 2023. Conhecido como Conselhão, o colegiado reúne empresários, representantes de trabalhadores, acadêmicos, integrantes de movimentos sociais e outros nomes da sociedade civil para discutir propostas e polÃticas públicas.
O órgão funciona como estrutura consultiva da Presidência. Seus integrantes não são funcionários do governo nem ocupam, apenas por participarem do conselho, cargos executivos na administração federal. O objetivo declarado é criar um canal de interlocução entre a Presidência e diferentes setores da sociedade.
A presença de Battistella no colegiado antecede a atual campanha eleitoral e está associada principalmente à sua atuação empresarial e no setor de biocombustÃveis. Integrar o Conselhão, portanto, não constitui por si só demonstração de alinhamento partidário com o PT, assim como a doação a Flávio Bolsonaro não permite concluir que o empresário tenha rompido com o governo.
O próprio padrão das contribuições eleitorais aponta em sentido diferente: ao transferir exatamente o mesmo valor às duas candidaturas, Battistella distribuiu seu apoio financeiro entre os dois polos da disputa presidencial.
B15 aproximou setor de biodiesel do Planalto
Um dos momentos mais visÃveis dessa interlocução ocorreu em junho de 2025, quando o Conselho Nacional de PolÃtica Energética aprovou o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel de 14% para 15%, o chamado B15. A decisão entrou em vigor em 1º de agosto daquele ano.
Battistella participou da cerimônia de anúncio representando o setor e, na condição de integrante do Conselho de Administração da Associação dos Produtores de BiocombustÃveis do Brasil (Aprobio), elogiou a retomada do cronograma de expansão do biodiesel.
A medida interessava diretamente à indústria. Cada ponto percentual adicionado à mistura obrigatória amplia potencialmente o mercado doméstico do biocombustÃvel, embora o volume efetivamente produzido dependa de fatores como consumo de diesel, preços das matérias-primas, importações e capacidade industrial.
O B15 havia sido inicialmente previsto para março de 2025, mas o governo decidiu adiar a elevação em fevereiro daquele ano, mantendo temporariamente a mistura em 14% diante das preocupações com preços de alimentos e matérias-primas. Quatro meses depois, o CNPE aprovou a mudança, que começou a valer em agosto.
A polÃtica foi defendida pela indústria como instrumento de previsibilidade para investimentos e de redução das emissões de gases de efeito estufa. O governo, por sua vez, apresentou a expansão dos biocombustÃveis como parte da estratégia de segurança energética e da Lei do CombustÃvel do Futuro.
A existência dessa relação institucional entre o setor e o governo torna relevante registrar a atuação de Battistella no debate público, mas não permite estabelecer uma ligação entre decisões regulatórias e as doações eleitorais. Nenhuma das fontes consultadas apresenta evidência de que os R$ 500 mil destinados à campanha de Lula tenham relação com decisões tomadas pelo governo sobre biodiesel.
Doação a Flávio mostra estratégia que atravessa campos polÃticos
A contribuição idêntica para Flávio Bolsonaro acrescenta outro elemento ao perfil polÃtico do empresário. O candidato do PL representa o principal campo de oposição a Lula na disputa de 2026, e as duas campanhas vêm travando uma eleição polarizada, com divergências profundas em polÃtica econômica, papel do Estado, meio ambiente e gestão pública.
Ao financiar os dois lados com o mesmo valor, Battistella se diferencia de doadores que concentram recursos em um partido ou grupo polÃtico. No mercado, essa prática pode ser interpretada como uma estratégia de relacionamento institucional diversificado, mas a motivação pessoal da escolha não é informada pelos dados eleitorais.
Doações a adversários polÃticos não são exclusividade desta eleição. Empresários e executivos frequentemente distribuem contribuições entre diferentes candidatos, sobretudo em disputas nacionais e estaduais, sem que isso necessariamente represente concordância integral com as plataformas de todos os beneficiários.
Também é importante separar a doação do empresário das posições da companhia que preside. A legislação eleitoral registra Battistella como pessoa fÃsica e, segundo sua assessoria, foi nessa condição que os dois pagamentos foram efetuados.
Financiamento privado é pequeno diante dos fundos partidários
Apesar do destaque gerado pelos R$ 500 mil, as contribuições individuais representam uma fração relativamente pequena do dinheiro movimentado pelas campanhas presidenciais. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro recebem valores muito superiores de suas estruturas partidárias, financiadas principalmente por recursos públicos destinados às eleições.
No caso de Lula, os registros disponÃveis até esta terça-feira mostram dezenas de milhões de reais transferidos pela direção nacional do PT. Na campanha de Flávio, os repasses da direção nacional do PL também respondem pela esmagadora maioria das receitas declaradas.
Isso ajuda a colocar a doação de Battistella em perspectiva. Para o orçamento total das campanhas, R$ 500 mil não determina a capacidade financeira de nenhum dos candidatos. Entre as contribuições feitas diretamente por pessoas fÃsicas, porém, o valor é elevado e suficiente para colocá-lo na primeira posição entre os doadores individuais declarados de cada um dos dois presidenciáveis.
O dado mais incomum, portanto, não é apenas o tamanho do cheque. É o fato de o mesmo empresário aparecer simultaneamente no topo da lista de doadores privados dos dois principais lados da disputa.
À medida que a campanha avance, essa posição poderá mudar com a entrada de novas contribuições e a atualização das prestações de contas. Por enquanto, os registros do TSE mostram uma fotografia peculiar do financiamento da eleição de 2026: um dos empresários mais importantes da indústria brasileira de biocombustÃveis decidiu colocar R$ 1 milhão na corrida presidencial e dividir a quantia exatamente ao meio entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral; DivulgaCandContas; legislação eleitoral de 2026; Ministério de Minas e Energia; Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e BiocombustÃveis; Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República; Be8; Associação dos Produtores de BiocombustÃveis do Brasil.








