Ex-assessora de Flávio Bolsonaro é denunciada por lavagem de dinheiro ligada a filho miliciano; MP-RJ aponta esquema de R$ 8,5 mi
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) ofereceu nesta quinta-feira (19 de março de 2026) denúncia criminal contra Raimunda Veras Magalhães, ex-assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), sob acusação de participar ativamente de um esquema de lavagem de dinheiro cujo principal beneficiário era seu filho, o miliciano Adriano da Nóbrega, morto em fevereiro de 2022 durante operação policial no estado da Bahia. A ex-assessora de Flávio Bolsonaro é suspeita de integrar uma rede estruturada de pessoas e empresas utilizada para receber, movimentar e ocultar valores provenientes do jogo do bicho na cidade do Rio de Janeiro.
A denúncia representa um novo capítulo jurídico e político em torno do nome de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República nas eleições de 2026 e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Embora o senador não seja alvo das acusações, a ligação entre sua ex-funcionária e o miliciano Adriano da Nóbrega reacende um histórico de constrangimentos políticos que remonta ao escândalo da “rachadinha” na Alerj — caso que foi arquivado após a anulação de provas pelos tribunais superiores.
O Esquema: Empresas de Fachada, Jogo do Bicho e R$ 8,5 Milhões
De acordo com a denúncia do MP-RJ, Adriano da Nóbrega controlava pontos de jogo do bicho no bairro de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, em associação direta com o contraventor Bernardo Bello. Para dar aparência de legalidade ao dinheiro oriundo da atividade ilícita, a organização criminosa teria estruturado ao menos quatro empresas de fachada que, juntas, movimentaram cerca de R$ 8,5 milhões.
O MP-RJ detalha a sofisticação do esquema: “Entre os empreendimentos de fachada constam um depósito de bebida, um bar e um restaurante.” A Promotoria destaca ainda um caso particularmente revelador: um quiosque de serviços de sobrancelha instalado em um shopping da zona norte do Rio de Janeiro, cuja conta bancária registrou aproximadamente R$ 2 milhões em créditos em apenas seis meses — valor absolutamente incompatível com o porte e o segmento do negócio.
Esse padrão de movimentação financeira desproporcional ao faturamento esperado de um estabelecimento comercial de pequeno porte é uma das principais evidências que os investigadores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) utilizaram para caracterizar a lavagem de dinheiro. A técnica, conhecida no jargão jurídico como “smurfing” combinada ao uso de empresas fantasmas, é frequentemente empregada por organizações criminosas para diluir e ocultar recursos de origem ilícita ao longo de diversas camadas de transações financeiras.
A participação de Raimunda Veras Magalhães no esquema, conforme a denúncia, consistia justamente em integrar essa rede de cobertura, embora o MP-RJ não tenha especificado o período exato em que ela teria atuado nessa estrutura criminosa. O que se sabe é que Raimunda foi assessora parlamentar de Flávio Bolsonaro na Alerj entre abril de 2016 e novembro de 2018.
O Histórico: Da ‘Rachadinha’ à Nova Denúncia
Raimunda Veras Magalhães não é um nome desconhecido nas investigações que envolvem o entorno de Flávio Bolsonaro. Ela foi uma das denunciadas no escândalo da “rachadinha” atribuído ao senador pelo próprio MP-RJ, esquema no qual servidores comissionados do gabinete seriam obrigados a devolver parte dos seus salários ao então deputado estadual. O caso, contudo, foi arquivado após o Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF) anularem as provas obtidas mediante quebra de sigilo bancário considerada irregular pelos tribunais.
A nova acusação, portanto, não guarda relação jurídica com a investigação anterior, mas adiciona uma nova camada de complexidade à trajetória da ex-assessora de Flávio Bolsonaro e ao histórico das conexões entre o gabinete do senador e figuras do crime organizado fluminense. Adriano da Nóbrega, vale recordar, chegou a ser homenageado pela Alerj com uma medalha durante o mandato de Flávio Bolsonaro como deputado estadual — fato que gerou enorme repercussão política e jurídica à época.
A defesa de Raimunda não havia respondido às tentativas de contato até o fechamento desta reportagem. A representação da ex-assessora em processos anteriores ficou a cargo da advogada Manoela Santos. Flávio Bolsonaro, por sua vez, optou por não comentar o caso, alegando que ainda não havia tomado conhecimento formal da acusação.
Juninho do Pneu e a Viúva do Miliciano: Mais Dois Alvos do MP-RJ
Além da ex-assessora de Flávio Bolsonaro, o MP-RJ apresentou nesta quinta-feira denúncia contra o deputado federal Juninho do Pneu (União Brasil-RJ). A Promotoria afirma que o parlamentar adquiriu bens pertencentes a Adriano da Nóbrega após a morte do miliciano, transação cujo valor foi estimado em R$ 3,5 milhões. A acusação sustenta que Juninho do Pneu e Julia Lotuffo — viúva de Adriano e também denunciada — tinham plena ciência da origem ilícita dos bens e da irregularidade da transação.
Julia Lotuffo é apontada pelo Gaeco/MP-RJ como figura central na continuidade da organização criminosa após a morte de Adriano. Segundo os investigadores, ela atuava como líder do grupo e controlava toda a contabilidade e os ativos da organização, cujos negócios abrangiam agiotagem, contravenção e um amplo mercado imobiliário irregular. A acusação indica que o grupo criminoso não apenas sobreviveu à morte de seu líder histórico, mas “persistiu e sofisticou sua estrutura” nos anos seguintes.
A Folha de S.Paulo informou não ter localizado as defesas de Juninho do Pneu e de Julia Lotuffo até a divulgação das denúncias.
Três Ações Penais, Uma Organização
O MP-RJ dividiu as acusações em três ações penais distintas, cada uma abordando uma faceta diferente da atuação de Adriano da Nóbrega e de seu entorno. A primeira ação penal trata especificamente da participação do miliciano no jogo do bicho e da rede de lavagem de dinheiro associada — contexto no qual a ex-assessora de Flávio Bolsonaro, Raimunda Veras Magalhães, está inserida. A segunda denuncia integrantes de uma rede de matadores de aluguel que operava sob o comando de Adriano. A terceira, e mais ampla, aborda a continuidade da organização criminosa após a morte do miliciano, com foco no papel de Julia Lotuffo e de outros integrantes que assumiram o controle das atividades ilícitas.
Essa divisão reflete a estratégia do Gaeco de desmembrar juridicamente uma organização de alta complexidade, o que facilita a instrução processual e reduz o risco de prescrição em casos de grande extensão temporal e grande número de réus.
Adriano da Nóbrega: Trajetória do Miliciano que Ligava Política e Crime
Adriano da Nóbrega foi um dos milicianos mais investigados do Rio de Janeiro na última década. Ex-integrante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, ele chegou a receber uma homenagem da Alerj durante a gestão de Flávio Bolsonaro como deputado estadual — episódio que se tornaria central nas investigações do MP-RJ sobre as conexões entre o gabinete parlamentar e o crime organizado fluminense.
Adriano fugiu para a Bahia após ser indiciado em investigações sobre a milícia e foi morto em fevereiro de 2022 durante uma operação policial no interior do estado. Com sua morte, a organização criminosa que ele liderava não se dissolveu — ao contrário, reestruturou-se sob nova liderança, conforme apontam as investigações do Gaeco que culminaram nas denúncias desta quinta-feira.
A ligação entre Adriano e o jogo do bicho, documentada na denúncia, amplia o escopo das investigações para além da violência típica das milícias fluminenses. O que o MP-RJ descreve é uma organização criminosa híbrida, capaz de operar simultaneamente no mercado ilegal de apostas, no mercado imobiliário irregular, na agiotagem e nos crimes violentos — com uma estrutura financeira sofisticada o suficiente para movimentar milhões de reais por meio de empresas de fachada sem levantar suspeitas imediatas das autoridades fiscais e bancárias.
Impacto Político: Flávio Bolsonaro na Rota das Eleições 2026
As novas denúncias chegam em um momento politicamente delicado para Flávio Bolsonaro. O senador fluminense vem registrando crescimento em pesquisas de intenção de voto para a corrida presidencial de 2026 e havia anunciado, recentemente, a postergação da divulgação de seu plano de governo — decisão que, segundo interlocutores políticos, estaria ligada justamente ao desempenho positivo nas sondagens eleitorais.
Embora Flávio Bolsonaro não figure como investigado ou réu nas ações penais apresentadas nesta quinta-feira, a reemergência pública de nomes ligados ao seu gabinete na Alerj em processos criminais de alta visibilidade representa um ruído político que seus adversários certamente explorarão ao longo da campanha.
A defesa do senador e sua assessoria optaram pelo silêncio, estratégia comum em casos nos quais o político não é diretamente acusado, mas em que a proximidade com os investigados pode gerar desgaste de imagem. A sociedade e o eleitorado, por sua vez, acompanharão o andamento das ações penais na Justiça estadual fluminense.
MP-RJ Amplia Cerco ao Crime Organizado no Rio
As três denúncias apresentadas nesta quinta-feira pelo Gaeco/MP-RJ representam um avanço significativo no desmantelamento de uma organização criminosa que, segundo os promotores, operou por anos na cidade do Rio de Janeiro com ramificações no mercado imobiliário, nas contravenções e na violência armada. O fato de a estrutura criminal ter sobrevivido — e se sofisticado — após a morte de seu líder histórico em 2022 indica a profundidade do enraizamento dessas organizações no tecido social e econômico fluminense.
Para o MP-RJ, o próximo passo será o recebimento formal das denúncias pelo Poder Judiciário e o início da fase de instrução processual, quando defesas e acusação produzirão provas perante o juiz. O desfecho jurídico dos casos deverá se estender por anos, dada a complexidade das investigações e o número de réus envolvidos.
O que as denúncias deixam claro, porém, é que o Estado brasileiro — ao menos no âmbito do Ministério Público fluminense — não encerrou sua apuração sobre as redes de poder que conectaram, durante anos, o crime organizado e o ambiente político do Rio de Janeiro.










